Capítulo UHL 1022 - Os Dentes da Fera
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Antes de tudo começar, muito distante de qualquer rota principal, flutuando no espaço, oculto em meio a um labirinto de rochas densas, com veios minerais raros, um abrigo improvisado se mantinha escondido até mesmo dos mapas internos do Olho. Ele não tinha corredores amplos, nem cúpulas brilhantes, tampouco guardava as armadilhas sofisticadas que muitos supunham que a Trindade usaria para se proteger.
Era apenas concreto armado engolido por minério, reforçado com camadas de ligas resistentes à penetração de ondas espirituais e, acima de tudo, abafado de ruído. Nenhuma comunicação passava sem o consentimento deles, nenhum sensor pulsava sem ser notado.
Ali, no que restava de seguro para Amin, Rachid e Samir, não havia tronos, não havia altares, apenas uma mesa de comunicações, cadeiras comuns, água reciclada em galões, e as próprias paredes, frias e úmidas, vibrando como ossos doentes cada vez que algo fora do abrigo sangrava para dentro de suas mentes.
Era um esconderijo, mas para três homens que sempre foram os caçadores, aquilo parecia, mais do que nunca, uma cela disfarçada de santuário.
E era dentro dessa cela, sem mais planos de fuga fáceis, que a Trindade roía a própria coroa, sozinhos, juntos, e ainda assim, cada vez mais cercados pelo som sufocado de um império desabando.
O chão do abrigo blindado vibrava levemente, mas não por causa de bombas ou batalhas. Era o som dos próprios nervos da Trindade entrando em colapso.
Rachid andava em círculos curtos, rangendo os dentes, com a pele dos pés descalços suja de poeira metálica. Aquele espaço era apertado demais para conter os três juntos, mas nenhum deles ousava sair dali sem os outros. Aquele local foi construído para ser um ponto de transição, não de permanência. Mas era onde estavam, porque, pela primeira vez em anos, estavam encurralados.
“Você me garante que ele não chegou tão fundo…” Samir falava, com a voz abafada pelo esforço de se conter: “Mas eu vi a cara dele. Ele sabe. Ele sabe, Amin.”
Amin estava sentado, com as mãos entrelaçadas no colo e os ombros imóveis como uma âncora. O que o movia por dentro dele, porém, era um mar revolto. Ele encarava a parede metálica à frente com a concentração de quem busca, num traço de ferrugem, uma resposta para o que perdeu.
“Zao Tian não precisou ver tudo.” Ele respondeu, sem alterar o tom: “Ele viu o suficiente para nos fazer duvidar do que mais ele pode ter encontrado.”
Rachid, por sua vez, bufou com um som oco e impaciente, tentando dar um fim a discussão: “Então evacuamos tudo. Todas as bases. Queimamos o que não puder ser movido. Esvaziamos a rede e reiniciamos.” Ele disse, como quem dita uma ordem, mas com olhos que traíam e revelavam dúvida.
Samir se virou, encarando Amin com raiva: “Você tinha uma mente fechada, Amin! Fechada! E agora cada gota de informação que ele puxou virou uma lâmina contra nós. E se ele descobriu os protocolos de evasão? As rotas seguras? As reservas de energia espiritual?!”
Amin piscou devagar, apenas uma vez, antes de responder: “É por isso que estamos apagando tudo. Porque não sabemos o que ele sabe. E o que ele não usou ainda... pode usar depois.”
Os três então se calaram, mas o silêncio que veio a seguir não era paz. Era o som abafado de uma implosão prestes a acontecer.
Rachid quebrou o silêncio, cuspindo palavras como farpas: “Se estamos queimando tudo, então queimamos também quem sobra. Não vamos carregar peso morto. Se restar base ou homem que não obedecer a evacuação, que morra junto com o lixo.”
Samir deu uma risada curta, amarga, sem humor algum enquanto discordava: “Fala isso pra tua consciência quando tiver que refazer a rede do zero. Metade dos que sobraram não valem um punhado de cinzas. São idiotas úteis... mas sem eles, somos três, só três, contra um exército que acordou com sangue nos olhos.”
Rachid virou para ele tão rápido que o ar zuniu entre os dois, e respondeu: “Então você quer o quê? Quer abrir pedir desculpas a Zao Tian? Quer ajoelhar e oferecer nossos corações?!”
Amin se levantou e socou a mesa.
“Basta.” A voz dele ecoou pelas paredes: “Zao Tian não quer corações. Quer nossa cabeça. A de cada um de nós. O resto... são troféus de guerra. Ele vai queimar o Olho, mas nós... nós somos a fogueira que ele quer acender no fim.”
Por um momento, o trio pareceu respirar o mesmo ar de medo. Um medo que nenhum deles diria em voz alta, mas que se agarrava na pele como suor frio.
Amin não falou mais nada. Nem precisava. Porque a resposta a seu comentário chegou como uma lâmina invisível, cortando tudo ao redor.
Primeiro, um estalo nos tímpanos. Depois, o som. O som dos selos rasgando. O eco de vozes distantes... sufocadas... que morriam antes de terminar uma única palavra.
Foi assim que a implosão começou.
Sem nenhum aviso, Rachid cambaleou para o lado, agarrando a cabeça com as duas mãos como se algo tivesse penetrado no seu crânio. Samir tropeçou, batendo no canto da estrutura de ferro, e Amin fechou os olhos com força quando o calor cortante do vínculo os atingiu ao mesmo tempo.
Milhares. Não dezenas, não centenas. Milhares.
Mentes ligadas a eles por selos invisíveis, soldados que haviam jurado fidelidade, guerreiros que carregavam a marca do Olho nos ossos, estavam morrendo. Não desaparecendo. Morrendo. Em gritos de agonia, imagens quebradas, sensações que chegavam como farpas de memória entrando por debaixo das unhas dos três.
Samir inevitavelmente escorregou para o chão. Ele não chorava, não gemia, ele rosnava.
“Eles começaram…” Ele então disse, com a respiração entrecortada, como se tivesse razão o tempo todo: “Eles atacaram antes da evacuação... Antes de qualquer base ser apagada…”
Rachid bateu a testa na quina da mesa, rangendo os dentes com tanta força que um estalo ecoou no abrigo claustrofóbico. A voz dele saiu sufocada, cuspida entre respirações violentas: “Maldito… maldito Zao Tian! Ele está atacando com tudo, filho da puta!”
Ele levantou, cambaleante, esbarrando na parede de concreto grosso, com o suor escorrendo pela nuca. As memórias que atravessavam sua mente vinham em rajadas. Homens engasgando no próprio sangue, comandantes fiéis caindo de joelhos, com olhos arregalados e sentindo medo. Não teve nenhum recado, somente mortes rápidas, impiedosas.
Samir bateu a mão no chão e o estalo ecoou como uma chicotada. A pele dele, úmida de raiva, reluzia sob a fraca luz e amarelada do abrigo. Ele olhou para Amin, com a voz vibrando de ódio puro, e esbravejou: “Eu vou enfiar cada gota de veneno que existe nesse universo dentro dele… Eu juro, Amin! Ele acha que pode nos fazer sangrar? Eu vou fazer cada homem dele engolir areia antes de morrer. Vou arrancar as presas desses cães e fazê-los engolir cada uma delas!”
Amin, por sua vez, respirava pesado, mas sem nenhum tremor visível. Contudo, seus olhos... os olhos dele pareciam poços profundos, refletindo cada morte que atravessava o vínculo ainda aberto. Ele não piscava, deixava cada imagem cravar estacas na sua mente, sem desviar.
“É isso que ele quer.” Amin rosnou, baixo, como se falasse com uma fera dentro dele: “Quer que sintamos. Quer que cada cabeça estourada, cada selo quebrado, pese nos nossos ossos. Quer o gosto do nosso medo… mas ele vai engolir junto nossa fúria.”
Rachid, então, cuspiu no chão, quase rindo, mas era um riso de ódio, sem traço de humor.
“Eles querem queimar nossas fileiras? Então que queimem! Por cada porco nosso que cair, eu arranco cem deles vivos. Não importa onde. Não importa quem. Nem as crianças deles vão dormir em paz depois disso!”
Samir girou o rosto, com o sangue pulsando nas têmporas, os olhos arregalados, e cuspindo cada sílaba como se fosse veneno: “Eles acham que ganham algo libertando essa ralé? Esses escravos vão comer a liberdade na mesma tigela que vão engolir a morte. A partir de hoje, cada lugar que abrir as portas pra Zao Tian, eu enterro debaixo da própria cinza. Eles vão implorar para voltar a ser acorrentados quando eu acabar!”
Amin levantou a mão de novo, cortando o rugido dos irmãos. O silêncio caiu como uma tampa de ferro na sala, abafando a fúria que espumava dentro deles: “Não vamos ruir agora. Ainda respiramos. Enquanto respirarmos, não há vitória completa pra ele.”
Depois de dizer aquilo, ele bateu o punho fechado na mesa de comunicações, e o som ressoou como um estrondo dentro das paredes estreitas: “Por cada pedaço de nós que ele cortar, nós devolveremos mil cortes. Por cada memória de morte que ele nos enfiar na garganta, nós devolvemos mil mortes. E ele vai sentir. Vai sentir!”
Rachid gargalhou, rouco, com a garganta seca e a sanidade tremulando nos olhos, quase partindo. O peito dele arfava, mas o fogo que queimava atrás dos olhos era nítido, Não era medo, não era dor, era a raiva que os mantinha em pé enquanto tudo ao redor se despedaçava.
“Por cada um dos nossos que esse maldito arrastar pro inferno, nós vamos abrir as vísceras dele e plantar mil outros infernos lá dentro. Ele quer sentir? Nós vamos fazê-lo suplicar para nunca ter nascido!” Rachid jurou.
Samir se ergueu, com os joelhos tremendo, mas a postura ereta, como se cada morte fosse um espinho que o obrigava a ficar de pé. Ele passou as costas da mão pela boca, limpando o gosto amargo do ódio acumulado, e cuspiu no chão mais uma vez: “Nós vamos abrir cada cidade que acolher essa corja que ele liberta. Vamos fatiar cada bastardo que ousar pronunciar o nome dele em gratidão. Eles acharam que perder correntes era liberdade? Vão aprender que não existe corrente maior do que nossa fúria!”
Amin, parado, quase imóvel, parecia uma muralha de gelo enquanto completava: “Nós não vamos ruir. Não vamos suplicar. Se ele quer nos sentir sangrar... então ele vai sangrar junto. Nós vamos transformar cada vitória dele em veneno. Cada aliado dele em cadáver. Cada base que tombar será a semente de um massacre mil vezes maior.”
Rachid esticou o braço, trincando os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos, olhou para os irmãos, um a um, como se gravasse o pacto em cada retina, e disse: “Que se lembre, Zao Tian, quando acordar amanhã, que nós seremos o pesadelo que ele não pode matar. Nós somos a agulha cravada no pescoço dele. Ele pode destruir o Olho, mas nunca vai esmagar a Trindade. Nunca.”
O silêncio, dessa vez, não veio como pausa de medo. Foi a pausa de três bestas afiando dentes, respirando juntas, alinhando a dor como combustível.
Sem dizer mais nada, Amin estendeu o braço para o painel de comunicação da mesa. Os dedos dele, manchados de suor e poeira de metal, tocaram um botão de acionamento.
“Hanzo. Escute bem. Chegou a hora de lavar suas dívidas conosco. Não queremos ver desculpas. Não queremos ouvir juras de lealdade. Queremos cabeças. Queremos os amigos de Zao Tian enterrados, um por um. Comece hoje.” A voz dele soou firme, gélida, quando a transmissão abriu uma linha direta que Hanzo jamais ousaria ignorar.
Sem esperar qualquer resposta, Amin cortou o canal.
Rachid, então, se aproximou do painel e acionou outro canal de comunicação.
“Lucke. Sua máscara de fantasma não importa mais. Você tem nossa permissão para sair do anonimato. E escute bem: tem uma puta que respira tranquila demais aí no seu território. Ming Xue. Faça o mundo dela acabar. Agora!” Rachid deu a ordem, e do outro lado, um chiado soou, como se o receptor da mensagem estivesse se movendo muito rápido.
