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Capítulo UHL 1075 - O Demônio da Escuridão

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Tenham uma boa leitura!]


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As primeiras hesitações entre o exército unido não chegaram como gritos, mas como lapsos curtos de silêncio. Olhares que piscavam uma vez a mais do que o normal. Mãos que recuavam o punho sobre a arma sem perceber. Um erro microscópico na cadência do avanço. A fileira seguinte ajustou, e a outra também, e por um momento a marcha pareceu uma criatura imensa que, ao inspirar, esqueceu de soltar o ar.


*Whooooooooooooooooooooom…*


De repente, as estrelas atrás de Daren começaram a sumir.


Não foi uma nuvem. Não foi fumaça. Foi como se alguém tivesse erguido, do nada, um tecido negro absoluto e o estendido sobre o fundo do cosmos, cobrindo cada ponto de luz atrás daquele homem, até que nada restasse além de um vazio mais escuro do que a própria noite.


Primeiro, dois pontos se apagaram.


Depois, uma constelação inteira foi engolida como se fosse tinta despejada em água.


Em seguida, o horizonte apagou, do lado esquerdo ao direito, numa varredura silenciosa que não fazia barulho e, ainda assim, criava a sensação incômoda de que o som do universo tinha sido retirado do ar.


Aquele véu negro expandiu-se em leque, nascendo do corpo de Daren como uma aurora invertida, sem brilho, sem contorno, sem borda. Era uma ausência que não refletia, não refratava, não devolvia nada, apenas tirava. Em poucos instantes, ele estendeu-se por milhões de quilômetros, como uma muralha intangível, até que a estrela que iluminava Decarius, distante e constante, deixou de existir para os olhos do exército.


Tudo atrás de Daren perdeu o brilho.


Tudo.


Até a poeira distante parecia ter sido dissolvida dentro daquele escuro.


E naquele momento, a marcha finalmente parou.


Não por ordem explícita, mas porque o corpo obedece primeiro do que a mente: quando a visão nega o mundo como ele deveria ser, as pernas travam para que a razão tenha tempo de reencontrar o chão. O peso das auras, antes exibidas como troféus, diminuiu um grau. As vozes que se vangloriavam de coragem calaram por um instante. A primeira sensação coletiva foi a de estranhamento puro. A segunda, de incômodo. A terceira, de irritação, porque poucos ali toleravam sentir o que não entendiam.


Daren, por sua vez, não se moveu.


Ele apenas respirou uma vez. O peito dele subiu e desceu sob a abertura no lado esquerdo da armadura, e do vazio que agora devorava o horizonte, nada respondeu além do próprio vazio.


Então, a voz dele ecoou.


“Eu tentei avisar.”


A frase não tinha pressa. Não buscava convencer. Apenas constatava.


“Vocês poderiam ter recuado enquanto ainda podiam voltar atrás em seus erros.”


Enquanto ele falava, sua mão esquerda afrouxou um milímetro no punho da Orgulho dos Condenados, não por cansaço, mas como quem dá espaço a um aparelho antigo para que funcione sem atrito.


“Infelizmente, não quiseram escutar.”


A palavra “infelizmente” não tinha ironia. Carregava lamento, mas não perdão.


Vargan’Zul cerrou a mandíbula. A irritação era um viés afiado em sua voz, um risco de aço a cortar o tecido do ar.


“Um truque de sombras.”


Ele ergueu o queixo, com os olhos fixos no homem contra a muralha de nada.


“Um truque… um blefe… e uma afronta.”


Depois de dizer aquilo, ele virou levemente a cabeça para a esquerda, sem tirar Daren da linha de visão. Um oficial aproximou-se de imediato, batendo o punho contra o peito.


“Traga-me a cabeça dele.” Vargan’Zul ordenou.


“Sim, senhor.” 


O oficial krovackiano convocado por Vargan’Zul não hesitou. Ele deslizou as mãos até as costas, onde duas espadas gêmeas aguardavam em bainhas cruzadas, e sacou-as numa fluidez que denunciava anos de disciplina. As lâminas cantaram um som breve e limpo. Ele inclinou o corpo, carregou o primeiro movimento com ímpeto e partiu.


Não houve grito de guerra.


Não houve promessa.


Houve técnica.


O oficial saltou, com o corpo projetado numa linha reta precisa, com o vento invisível da própria velocidade comprimindo a energia espiritual à volta. Quando a primeira fileira de orcs o viu passar, foi como se um risco de prata tivesse cortado o espaço. Ele atingiu a velocidade que sabia ser suficiente para arrancar qualquer cabeça, humana, orc ou krovackiana, antes mesmo que a vítima entendesse que já estava morta.


Daren, por sua vez, não ergueu a espada.


Não mudou o peso do corpo.


Não levantou sequer o queixo.


Foi a armadura que respondeu por ele.


*Clack.* 


Um segmento de escama, de três centímetros, nada mais, desprendeu-se do ombro esquerdo com um som tão baixo que apenas quem estava a poucos metros poderia jurar tê-lo ouvido. A pequena peça cintilou uma única vez, como um ponto escapando do breu, e então disparou para a frente.


A velocidade não foi grande.


Foi inimaginável.


*Splaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaash…*


A escama cruzou a distância entre Daren e o krovackiano como se o espaço tivesse sido apagado entre os dois pontos. Um estalo curto marcou o contato, e, no mesmo instante, o peito do oficial abriu-se num buraco do tamanho de um punho.


A lâmina direita do krovackiano ainda estava a meio arco quando o corpo falhou. A expressão no rosto dele não foi de dor. Foi de uma surpresa confusa, com a respiração presa na garganta como um nome que nunca chegaria a ser dito. Sangue começou a se projetar para fora em esferas perfeitas, congeladas por um milésimo de segundo antes de se dispersarem.


A escama, entretanto, não parou.


Ela fez uma curva acentuada. Mudou de rumo num ângulo impossível, como se o vácuo fosse um corredor de espelhos invisíveis e ela conhecesse cada parede. A pequena peça de metal cruzou de volta pelo ombro, dividindo o tendão principal com precisão cirúrgica, e tornou a mergulhar pelo flanco, abrindo outra cavidade. Antes que o sistema nervoso do krovackiano pudesse escolher um músculo para reagir, a escama se transformou em uma hélice curta, entrou pela clavícula, saiu pela base da nuca, retornou pelo esterno e, numa última guinada, atravessou a bacia, repartindo a espinha como se fosse tecido.


O corpo desfez-se em seis partes ainda no ar.


Braço, braço, perna, perna, tronco, cabeça… cada segmento tomando uma trajetória própria, como pétalas de uma flor macabra lançada ao vento. As espadas perderam o dono e continuaram por um segundo, girando lentamente até que a ausência de comando lhes devolveu o peso.


A escama então voltou.


Ela fez um arco manso, como quem volta do trabalho sem alarde, e encaixou-se de novo no lugar exato de onde tinha saído, sem deixar rebarbas, sem vincar, sem sequer aquecer a placa à volta. O único sinal de que havia se movido era a mancha minúscula, quase invisível, de sangue que, ao tocar a superfície negra, foi absorvida e desapareceu como se nunca tivesse existido.


Ninguém respirou naquele momento.


A primeira reação foi um silêncio tão profundo que o cérebro de quem assistia recusou-se a aceitá-lo como real. Dois orcs da linha de frente, preparados para caçoar do oficial na volta, ainda mantinham o início de um sorriso no rosto quando o sangue passou por eles em gotículas, e o sorriso murchou, sem graça, sem destino… sem motivos para existir.


Um capitão instintivamente levou a mão ao amuleto de transmissão sonora. Ele não apertou. Não falou. Apenas encostou a palma no metal como se precisasse confirmar que algo ainda obedecia ao toque.


Vargan’Zul, por sua vez, não piscou.


Ele estava acostumado à morte. Comandou batalhas em que mil tombaram antes do horário de um desjejum. Viu criaturas cujo nome as línguas vivas se recusavam a pronunciar cortarem exércitos como trigo. Mas aquilo não foi apenas morte. Foi um recado em forma de gesto mínimo.


A mente do líder fez o que mentes treinadas fazem: procurou o mecanismo.


Projeção? Não havia.


Ilusão? Não correspondia à textura do impacto.


Campo gravitacional? Sustentaria a guinada, mas não tantas em tão pouco tempo.


A conclusão temporária foi a única honesta: ele não sabia. E isso o irritou.


Daren ergueu, por fim, os olhos para o exército. Não havia glória em seu olhar. Não havia caça.


“Quem manda outro?” Ele perguntou.


Foi uma pergunta sincera. Não havia bravata no timbre. Era o mesmo tom que usara quando pediu para que recuassem enquanto havia ar para encher os pulmões.


Ninguém se mexeu no primeiro segundo.


No segundo, alguns olhares buscaram Vargan’Zul.


No terceiro, um grupo de veteranos, daqueles que riem mais alto quando a morte morde o calcanhar, endireitou a postura. O orgulho ferido sempre encontra uma forma de se erguer.


“Ele tem truques.” Alguém disse, e agora o “ele” já não soava como “pessoa”. Soava como “coisa”.


“Truques não seguram um exército.” Outro completou, forçando uma risada curta que morreu sem herdeiros.


O véu atrás de Daren se moveu um centímetro. Não para frente, não para trás. Moveu-se como o peito de quem respira devagar. Ninguém sabia por que notou. Ninguém sabia explicar por que, ao notar, sentiu que seria melhor fingir que não tinha visto.


Vargan’Zul manteve a voz nivelada.


“Mais um.”


O comando foi simples e cortou a hesitação em segmentos gerenciáveis. Um segundo oficial avançou, este com a disciplina de quem já viu armadilhas e sobreviveu a elas. Ele não sacou as armas de imediato. Deslizou pela lateral, sujeito ao estrito círculo de cálculo que aprendemos a traçar diante do desconhecido: nunca ir em linha reta, nunca oferecer um eixo claro, nunca cruzar duas vezes o mesmo ponto se a primeira passagem não foi letal.


Daren inclinou levemente a cabeça. A escama não se moveu.


O oficial testou distância, cortou na diagonal, recuou um palmo, sacou de repente as duas lâminas e riscou o ar num X com variação de altura, mirando a abertura sobre o coração.


O X cortou o nada.


Daren não estava mais ali.


Ele não desapareceu.


Não teletransportou.


Não virou sombra.


Apenas saiu de onde estava e ocupou o espaço ao lado, um passo curto, cru, um deslocamento que qualquer mortal poderia imitar se tivesse o mesmo domínio do próprio corpo e do próprio peso sobre o mundo. A diferença estava na absoluta ausência de desperdício. Não houve oscilação de ombro, não houve ruído de armadura, não houve atraso no retorno do centro de massa. Ele estava ali, depois estava um pouco ao lado, e pronto.


A espada de Daren não subiu.


Foi a mão vazia que se moveu… a direita… num gesto simples, quase delicado, como quem afasta uma cortina para olhar pela janela. O gesto pegou a lâmina mais próxima, desviou-a um dedo e meio para fora da linha, e o segundo golpe perdeu o eixo e passou a quinze centímetros do alvo.


A escama não saiu.


Não precisou.


Daren não atacou o corpo. Atacou o ritmo. Quebrou-o como se quebram dedos com um toque errado. E, quando o segundo oficial perdeu a nota, ele entrou, pelo próprio impulso, dentro da escuridão.


O silêncio se adensou.


“Eu não vim até vocês…” Daren disse, com a voz seca, sem elevar: “Vocês vieram até mim.”


A muralha de sombra respirou de novo, e alguns juraram ter visto algo lá dentro, não formas, não olhos, não criaturas. Apenas a sugestão de que ali havia profundidade. A sugestão de que cair não teria chão. A sugestão de que, se alguém se perdesse dentro daquele buraco negro, não encontraria sequer a própria lembrança para agarrar.


Vargan’Zul crispou os dedos na empunhadura de sua arma. A raiva encontrou um lugar.


“Basta.”


Ele ergueu a mão, e a ordem correu a fileira como fogo em pólvora. Vinte, trinta, cinquenta guerreiros saltaram à frente. Não batedores, não sacrificáveis. Eram ossos da marcha, homens cuja ausência se faria sentir ao fim da tarde.


“Avancem.”


Quando a ordem caiu, o próprio Daren ofereceu o primeiro gesto de cortesia bélica: deslocou a ponta da Orgulho dos Condenados um palmo para a frente, como quem sinaliza onde o inimigo será recebido. O gesto foi tão simples que pareceu insulto.


As vinte primeiras silhuetas chegaram como setas cortando o ar, com linhas paralelas destinadas a fechar-se sobre um ponto único. Os eixos se cruzariam, as rotas iriam se sobrepor, e o homem ao centro teria de escolher um golpe contra muitos. 


Uma escolha impossível. 


Era um desenho de morte que já funcionara incontáveis vezes.


Daren fechou os olhos.


A muralha apagou o pouco que ainda ousava brilhar no horizonte.


No instante seguinte, o espaço entre ele e as vinte silhuetas foi preenchido por um som fino, curto, repetido: 


*Clack. Clack. Clack…*


Não foi metal contra metal.


Não foi lâmina contra osso.


Foi o som de pequenos corpos cortando algo que não se podia ver.


E só então deu para notar: não havia apenas uma escama solta. Havia doze.


Doze segmentos mínimos, quase invisíveis a olho nu até que se moveram, dançando em uma geometria que não obedecia à vontade de quem as esperava. Elas não formavam um círculo. Não desenhavam um padrão reconhecível. Eram como notas tocadas por dedos invisíveis sobre um instrumento que não estava ali.


A primeira silhueta perdeu o joelho.


A segunda, o ar dos pulmões.


A terceira, a orientação, com um golpe que atravessou o ouvido interno e concedeu-lhe um mundo inclinado.


A quarta, o tendão do polegar.


A quinta, teve o esterno aberto em linha, sem sangue por um segundo, até que o corpo lembrasse de sangrar.


A sexta, a base do pescoço.


A sétima, o calcanhar de Aquiles, não por crueldade, mas por didática.


A oitava, o olho direito.


A nona, nada; apenas uma linha de cabelo cortada, e a lição de que viveria para contar o que quase foi.


A décima, a veia femoral.


A décima primeira, a cartilagem que ninguém pensa que dói até ser tocada.


A décima segunda, um mapa de cortes pequenos demais para serem heróicos e profundos demais para serem ignorados.


Quando pararam, ninguém sabia dizer exatamente o que os detivera. Eles sabiam apenas que a aproximação tinha falhado. Alguns caíram. Outros recuaram sem querer recuar. Dois tentaram avançar de novo e falharam por falta de uma perna que ainda acreditavam possuir.


As escamas voltaram para o dono, uma a uma, e se assentaram em silêncio no lugar onde sempre estiveram. A armadura de Daren não tinha buracos novos, não tinha cicatrizes recentes. Continuava sendo um desenho de noite perfeita.


“Eu tentei avisar.” Daren repetiu, sem gosto e sem vitória.


Vargan’Zul inspirou profundamente, enchendo o peito como quem cobra um preço do próprio orgulho, e soltou o ar numa linha reta.


“Matem-no!.”


A palavra correu como uma ordem sagrada. Escudos ergueram-se, lanças se ajustaram, corredores se abriram, e a pressão espiritual voltou a subir. A irritação dera lugar ao zelo. O exército lembrou que era um exército.


Do outro lado, a muralha de sombra respirou de novo. E, dessa vez, respirou mais fundo.


A estrela de Decarius, atrás da cortina, deixou de ser memória. E, por um instante, até a lembrança de que um dia houve luz ali pareceu ter sido retirada do mundo.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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