Capítulo UHL 1087 - Os Donos da Dor
[Capítulo semanal!!!
ATENÇÃO: LINK ATUALIZADO. Venham fazer parte da nossa comunidade no Telegram! https://t.me/+tuQ4k5fTfgc1YWY5
ATENÇÃO: OS EXEMPLARES FÍSICOS E DIGITAIS DO PRIMEIRO LIVRO DE O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS NAS MAIORES LIVRARIAS DO BRASIL E DO MUNDO. APOIE O NOSSO TRABALHO E GARANTA JÁ UM EXEMPLAR TOTALMENTE REESCRITO E REVISADO, E COM TRECHOS INÉDITOS.
Quer ver um mangá de O Último Herdeiro Da Luz? Então, a sua ajuda é muito importante para que possamos alcançar novos limites!
Para patrocinar um capítulo, use a chave PIX: 31988962934, ou acesse https://www.ultimoherdeirodaluz.com/patrocinarcap para outros métodos de pagamento, que podem ser parcelados em até 3x sem juros.
Para ver as artes oficiais da novel, que estão sendo postadas diariamente, siga a página do Facebook https://www.facebook.com/Herdeirodaluz
Ou a página do instagram https://www.instagram.com/herdeirodaluz/
Todas as artes e outras novidades serão postadas nas nossas redes sociais, e vêm muitas outras por aí, então siga as nossas páginas e não perca a chance de mostrar à sua mente qual é o rosto do seu personagem favorito!
Ps: Link do Telegram atualizado!
Tenham uma boa leitura!]
-----------------------
O silêncio após a palavra “orcs” não foi comum. Não era o silêncio de corpos em descanso, nem o da fumaça após um colapso. Foi o silêncio do absurdo, do impossível.
Após escutar as últimas palavras de seus soldados, o peito de Vargan’Zul arfava, ainda firme contra Hatori, e a Khazra’kul estava pronta para outro embate. Mas o mundo à sua volta dera um passo atrás. Até o fogo negro pareceu hesitar, como se não soubesse a quem consumir primeiro.
O comandante estava confuso, furioso, e sua voz saiu como ferro arranhando pedra.
“Orcs? Quem… quem diabos são eles?”
O soldado engoliu seco, antes de responder: “São nossos, comandante. São orcs em formação. Eles… eles estão fechando o caminho.”
Hatori, por sua vez, não moveu a lâmina. Seu olhar apenas estreitou. Pela primeira vez, ele percebeu que o inimigo à sua frente não estava só em guerra com ele, mas com o próprio chão que dizia proteger.
“Quantos?” A voz de Vargan’Zul veio pesada, mas direta.
O soldado demorou a responder. Não porque não tivesse visto, mas porque não queria acreditar: “Cerca de cinquenta mil.”
As palavras bateram como martelos no peito do comandante. Cinquenta mil. Não era uma patrulha, não eram desertores, não eram renegados. Era uma força inteira, organizada.
Hatori ergueu uma sobrancelha, com o sangue ainda escorrendo do maxilar enquanto sugeria: “Parece que a ordem que você tanto valoriza decidiu cobrar sua conta.”
Vargan’Zul virou o pescoço só o suficiente para mostrar os dentes e responder: “Cale-se.”
Mas antes que Vargan’Zul pudesse ter o silêncio de volta, outro soldado se adiantou. E a voz dele não tinha o mesmo peso da notícia anterior, tinha um corte diferente. Um corte que feria mais fundo por não vir com gritos, mas com ironia.
“Eles não só estão em formação, comandante.” O homem respirou fundo, quase rindo de nervoso: “Eles têm um líder. E não é qualquer líder.”
Vargan’Zul cerrou o punho, sentindo a Khazra’kul vibrar em resposta, e ordenou: “Diga logo. Quem é o traidor de ambas as raças?”
“É Zargoth.”
Imediatamente após ser pronunciado, aquele nome caiu no campo de batalha como outra lâmina invisível.
Até o espaço pareceu recuar, como se a própria realidade quisesse rir.
Zargoth. O Khan. Comandante dos exércitos de Uhr’Gal. O mesmo planeta que Vargan’Zul usara como bandeira para inflamar a marcha contra a humanidade. O mesmo nome que evocara em discursos sobre traição, perda e vingança. Agora, esse nome surgia como um muro no caminho?!
Hatori, por sua vez, recuou meio passo, mas não pela ameaça, e sim pelo peso do destino se dobrando de forma cruel e quase poética sobre Vargan’Zul. Ele olhou para o comandante com um meio sorriso, que não era de deboche, mas de reconhecimento do momento emblemático que ele vivia: “Parece que até as cicatrizes daqueles que você diz defender e vingar resolveram falar contra você.”
Vargan’Zul não respondeu de imediato. Seu peito subia e descia em ondas fortes, como se quisesse engolir o mundo de uma vez.
Naquele momento, sua mente foi lançada, mesmo que por um instante, a Uhr’Gal: ao sangue derramado, às justificativas dadas, aos juramentos que fizera aos orcs e krovackianos de nunca permitir que aquilo se repetisse em suas terras.
O ódio por Uhr’Gal foi o que uniu aquele exército, foi esse sentimento que permitiu, pelas primeira vez em eras, que krovachianos e orcs se juntassem em uma marcha contra um inimigo em comum.
“Zargoth…” Vargan’Zul, perplexo, murmurou, como se testasse a palavra na boca: “Ele deveria estar reunindo aliados para nos apoiar e vingar aqueles que morreram pelas mãos humanas. Ele deveria estar reconstruindo a sua casa e consolando seu povo, não aqui.”
Um soldado, em resposta, avisou: “Senhor, ele trouxe os seus próprios soldados com ele. Todo Uhr’Gal marcha atrás daquele homem.”
As palavras eram simples, mas carregavam uma ironia que queimava como ácido. Uhr’Gal, o símbolo da guerra, agora erguia-se como barreira contra ela.
Hatori, mesmo sangrando, endireitou a postura. A Sourigawa ainda apontava para o inimigo, mas a luta estava suspensa pela lógica maior do campo.
“Dono da sua casa, não era isso que você dizia?” Quando ele falou, sua voz estava carregada, não de desprezo, mas de clareza: “Pois parece que a casa resolveu mudar a fechadura, porque vocês estavam tentando ditar o que eles deveriam fazer com suas vidas e sentimentos.”
Assim que aquelas palavras caíram, a raiva explodiu dentro de Vargan’Zul. Ele rugiu, e o fogo negro estourou das fendas da Khazra’kul. As colunas ao redor estremeceram, e o espaço rachou como se quisesse gritar junto.
“Eles não podem estar contra mim! Uhr’Gal é a razão desta guerra!” Vargan’Zul gritou, como se amaldiçoasse Zargoth e o planeta inteiro.
“Ou talvez Uhr’Gal seja a razão para ela terminar.” Hatori respondeu, com o tom cortante, mas sem gritar. Era a fala de quem via o paradoxo completo.
O grito de Vargan’Zul ainda ecoava quando as fileiras começaram a estremecer. Orcs do seu próprio exército, aqueles que até instantes atrás estavam prontos para esmagar crânios lado a lado com krovackianos, agora estavam de olhos arregalados, sem saber para onde virar a lâmina.
Uns baixaram as armas. Outros apertaram mais forte o cabo, como se a dureza do gesto fosse suficiente para abafar a dúvida que lhes consumia o peito. Entre eles, corria o mesmo pensamento, ardendo como febre: lutar contra Uhr’Gal… contra um Khan… era isso que haviam jurado?
A confusão se espalhou como fogo em palha seca. Gritos de comando tentavam alinhar formações, mas a hesitação era mais forte. O nome de Zargoth pesava como uma montanha.
Foi então que o som de tambores quebrou a dúvida. Graves, cadenciados, e entre as colunas, a sombra de cinquenta mil orcs avançava.
Não em gritos, não em fúria desordenada. Eles avançavam em silêncio, disciplinados, com cada passo medido, cada fileira milimetricamente reta. Não era uma turba: era um exército que sabia exatamente o que queria.
No centro, como em um destaque inevitável, estava ele. Zargoth.
A armadura em seu corpo carregava o peso de uma nação. Cicatrizes visíveis riscavam não apenas o metal, mas a pele que não se preocupava em escondê-las. Seus olhos, quando erguidos, não ardiam em raiva, mas em convicção. Ele não era um guerreiro procurando glória… era um Khan expressando sua vontade.
Quando finalmente abriu a boca, sua voz soou como se todo o Uhr’Gal falasse com ele, de forma grave e inabalável.
“Vocês se levantaram em nossos nomes. Marcharam sob a bandeira de Uhr’Gal, evocaram nossas mortes e choraram nossas cinzas.”
Aquelas palavras bateram no peito dos soldados que haviam passado por Daren como socos. Eles tremiam, exaustos, quebrados, mas ainda em posição.
“E ainda assim, não são Uhr’Gal.” Zargoth ergueu a mão, apontando para cada fileira, e continuou: “São krovackianos e orcs que se esqueceram da própria casa. Vocês não carregam a dor do meu povo, vocês a usaram. E usaram para quê? Para buscar glória? Para roubar terras? Para se afogar no sangue de outros?”
A primeira reação foi silêncio absoluto. O peso da acusação não permitia gritos de resposta. Muitos sentiram o peito esvaziar. Outros cerraram os dentes, porque sabiam que era verdade.
Zargoth prosseguiu, com o tom duro, como martelo em bigorna:
“A maioria de vocês não marchou por Uhr’Gal. Marchou por si mesmos. Pelas riquezas que o saque traria, pelo prestígio que a vitória daria, pelo sangue que acreditavam poder derramar sem consequência. Vocês se convenceram de que vingavam inocentes. Mas a verdade…”
Ele respirou fundo, e o silêncio se tornou insuportável.
“A verdade é que Uhr’Gal não pediu isso. Nós não pedimos isso.”
Mesmo de muito longe, Vargan’Zul ergueu a voz ainda carregada de fúria e respondeu: “Você ousa dizer isso, Zargoth? Uhr’Gal foi massacrado pelos humanos! Nós marchamos porque eles destruíram a sua casa!”
Zargoth acenou com a cabeça em discordância, silenciando todos, inclusive o rugido do comandante.
“Sim. Os humanos começaram. Mas escutem bem, todos vocês: não serão vocês que terminarão.”
Um murmúrio correu pelas fileiras. Aquela frase parecia um paradoxo.
Zargoth então ergueu o punho, firme, e cada palavra seguinte caiu como uma promessa:
“Ninguém usará o nome e os sentimentos do povo de Uhr’Gal para iniciar uma guerra que não é deles. Ninguém usará nossas cinzas como desculpa para inflar exércitos. Se querem continuar, terão de fazê-lo pelo verdadeiro caminho… terão de terminar o que os humanos começaram!”
Ele então deixou a frase se espalhar, lenta, venenosa… Até dar o golpe final: “Terão de passar por cima de nós. Terão de destruir Uhr’Gal por completo, com suas próprias mãos. Só assim poderão seguir.”
O silêncio parecia uma onda de choque. Orcs no exército de Vargan’Zul arregalaram os olhos, sentindo o dilema rasgar suas entranhas. Seguir o comandante significava erguer a lâmina contra os próprios irmãos. Recuar significava admitir que toda a marcha tinha sido construída sobre um pretexto vazio.
Hatori, observando a cena, apertou a Sourigawa, mas não interveio. Pela primeira vez desde que a batalha começou, ele percebeu que sua lâmina não seria o fio decisivo naquela noite, mas sim a Zargoth.
Vargan’Zul, entretanto, sentia os olhos de todos sobre ele. Sentia a própria garganta queimar, não pela lâmina de Hatori, mas pelo desafio de Zargoth e a falta de um caminho claro a seguir.
O dilema estava completo. A guerra estava diante do seu próprio espelho.
