Capítulo UHL 1089 - Juiz, Juri e Carrasco
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Houve um instante, longo como a lâmina de um século, em que tudo permaneceu suspenso. A pergunta de Hatori ainda cortava o ar diante de Vargan’Zul; o muro de Zargoth mantinha-se erguido como uma rocha viva; Daren era a pausa que precede o fim; e, ao redor, a marcha inteira tremia sem cair. Não havia resposta fácil, porque não havia pergunta simples. E talvez fosse esse o contorno exato das coisas: ninguém ali estava onde queria, todos estavam onde podiam e onde foram conduzidos a estar.
A conversa entre os dois, Hatori de espada baixa e espírito alto, Vargan’Zul de espada alta e espírito dividido, não era um duelo de ideias, era um inventário. O que disseram, o que deixaram de dizer, as pequenas inflexões na voz, as brechas nos olhos… tudo pesava com o mesmo valor que metal e fogo. A batalha não tinha parado, mesmo sem armas colidindo, porque ela nunca para. Ela apenas se tornou menos audível, como a chuva que fica fina, mas continua caindo do outro lado da parede.
Enquanto isso, muito além do alcance de qualquer grito daquela guerra, o ataque ao Olho persistia como uma febre incessante. Era uma vibração que atravessava matéria e energia. Em mundos distantes, o céu perdia a forma; em outros, o chão ficava fino como gelo de lago no fim do inverno. Forças que nenhuma cidade sabia nomear disputavam um ponto de vista que não aceitava mediadores. O Olho era a essência do mal. Tocá-lo é sempre escolher dar lugar a tudo o que existe de pior dentro de si. E Zao Tian e as forças humanas estavam empenhados a erradicar esse mal de uma vez por todas.
Enquanto isso, no mesmo minuto, por toda parte, punhos orcs fechavam-se em torno de lanças; krovackianos afinavam a postura em ângulos de poder. Ninguém o fazia por blefe. Cada gesto tinha endereço: mãe, filho, povo, casa, memória, dívida, orgulho, medo. Tantos nomes diferentes para a mesma força que empurra um corpo para frente quando esse mesmo corpo já queria parar.
Não é que alguém estivesse certo. Não é que alguém estivesse errado. É que a marcha dos vivos continua andando com ou sem absolvição, e o mundo, o destino, não precisa concordar para continuar sendo quem ele é.
Em cada corredor fatiado por engano; em cada cúpula que não resistiu mais um segundo; no corredor de cristal onde quatro companhias viraram ar quente; no sulco limpo que a lâmina de Hatori deixou como cicatriz de horizonte… em tudo isso, o universo apenas fez o que sempre faz… devolveu de maneira exata o que recebeu, na medida possível, sem tecer comentários.
A ideia de culpa é uma ferramenta. A de destino, outra. Ali, nenhuma das duas tinha a delicadeza necessária para abarcar o que acontecia. O que havia eram escolhas: umas limpas, outras sujas; umas inevitáveis, outras preguiçosas; umas corajosas, outras herdadas.
Os humanos… dispersos, desconfiados, eficientes quando encostados no limite; os orcs… orgulhosos de suas linhas, adoradores da palavra “casa”, rápidos em transformar promessa em oponente; os krovackianos… arquitetos do ímpeto, mestres da ganância, seres que acreditam que sustentar é o mesmo que justificar.
Cada povo seguia o mapa que tinha, e cada mapa se achava completo enquanto não cruzava o mapa do outro.
Hatori sabia, dentro do peito, que ninguém muda o mapa do outro no meio do campo de batalha. No máximo, aponta uma montanha que o outro desenhou onde há um lago. Vargan’Zul sabia, por ossos, que um exército só sustenta a marcha se o motivo for maior do que a fome e mais afiado do que a dúvida. Zargoth sabia, por nomes, que o único muro que perdura é o que os de dentro aceitam segurar com as costas. E Daren sabia, por método, lógica e vivência que as contas não se emocionam… Elas são o que devem ser.
O Olho, que nada “sabe”, apenas impõe, continuava a ser medido por critérios que não existiam no vocabulário da maioria. O universo, por mais que alguém tente fazer isso, não se deixa centralizar: mesmo quando um ponto concentra o ruído, as margens seguem produzindo cenas com a mesma violência que as praças centrais.
Foi por isso que, aos poucos, o eixo dos eventos se deslocou. Ou melhor… se espalhou.
Decarius, o planeta humano, parecia menor naquela noite. Não porque tivesse perdido muralhas, mas porque lhe faltavam colunas vivas, pilares que sustentavam suas estruturas. Seus maiores guerreiros estavam espalhados como sementes lançadas antes da chuva: Aqueles que ficaram estavam tensos, com retaguardas improvisadas e promessas de retorno que ninguém sabia se poderia cumprir. O que restou eram comandantes jovens, velhos que já tinham entregue as melhores articulações e aprendizes que ainda confundiam mapa com território. A disciplina permanecia, sim, mas a disciplina sem seus homens de peso se parece com uma ponte sem arco… só aguenta até a primeira correnteza.
A distração que os trouxe até ali não nascera como distração; era uma intenção robusta, calculada, com agendas e mapas. Só que o destino raramente respeita o nome que damos às coisas. E naquele dia, quem realmente planejou ferir a superfície de Decarius ganhou mais do que espaço: ganhou silêncio, sombras por onde andar de forma oculta. E no silêncio, certas entidades pisam sem serem pesadas.
Havia rumores nos bairros inferiores de uma cidade de Hill… sentinelas juraram que o vento mudou de direção; cães deitaram o focinho no chão e choraram; três relógios de água marcaram ao mesmo tempo minutos diferentes. Em outra esquina, o sino de uma torre tocou sem que nenhuma mão encostasse nele, três vezes apenas.
Decarius tem hábitos, e esses hábitos perceberam primeiro. Portas que costumam bater por causa do vento ficaram quietas. Tecelões erraram o último ponto do dia e sentiram vergonha sem motivo. Os guardas que sabem a hora de tossir para fingir que estão atentos decidiram prender a respiração. Na cidadela, a sala onde os mapas da cidade são feitos continuava acesa, mas os mapas tremiam debaixo da mão dos cartógrafos como pele de cavalo antes da tempestade.
Aparentemente, faltavam guerreiros. Na prática, faltava o que os guerreiros carregam: uma espécie de música que explica o mundo para os outros. Sem essa melodia, toda Decarius ouvia sons que não conhecia. E o ouvido daquela cidade, seus túneis, suas canaletas, seus relógios, seus quintais, seus altares… começou a se preparar para escutar uma voz que não entra pela janela.
Há muitos nomes para a função que atravessa culturas com a mesma figura: o que pesa, o que mede, o que escreve; o que não negocia, o que não tem lado, o que não perdoa nem condena porque já encontrou o valor. Em muitos lugares, essa figura é metáfora. Em alguns, presença. Em pouquíssimos, um ser.
Naquela noite, Decarius recebeu o ser.
Não houve trombeta. Não houve clarão. O primeiro sinal foi uma sombra direita demais. A segunda pista foi o som: não era metal, não era couro, não era areia.
Os guardas do Portão Leste, dois rapazes e um pai cuja família o esperava em casa, viram primeiro, sem entender. Um contorno avançava na direção deles, não era alto, não era baixo, era equilibrado em altura. A cabeça parecia coroada, mas não por glória, e sim, por causa da sua função. Onde os olhos deviam brilhar, não havia brilho; havia medida. Ao lado dele, como se a noite tivesse decidido assistir, um animal, cão-lobo, chacal… palavras que não faziam justiça ao que ele era, caminhava sem tocar o chão.
A figura principal era ninguém mais, ninguém menos do que Anúbis. E ele entrou na cidade sem falar. Ele sequer ergueu as mãos. Anúbis não mostrou armas, e, ainda assim, cada lâmina nas muralhas baixou, como se perdesse parte da razão de existir. Os poucos cidadãos que ainda estavam nas ruas, mercadores fechando tendas, crianças chamadas às pressas para dentro de casa, pararam. Não porque quisessem, mas porque seus corpos obedeceram a um peso que não vinha das suas mentes.
Não havia fé entre os humanos. Não havia sequer a memória de fé. Os deuses eram e sempre foram inimigos, invasores, carrascos antigos. O instinto de cair de joelhos não existia em Decarius. O que havia era o instinto de sobreviver. Mas com ou sem fé, o poder deles era inegável… e suas capacidade, seus dons… eram inimagináveis…
“Chegou a hora do julgamento.”
A voz de Anúbis não ecoou além das muralhas, mas encheu cada beco, cada casa daquela cidade. Aquilo não foi um grito, foi uma sentença. E as pedras do calçamento tremeram em resposta.
“Meçam seus pecados.”
Quando ele falou de novo, os guardas do Portão Leste sentiram primeiro. Aquilo não era uma dor física, era o corpo cedendo sob um peso invisível, como se a própria consciência tivesse virado chumbo. O mais velho imediatamente caiu de joelhos, com a lança escorregando da mão. Em sua mente, seus pecados vieram em fila: moedas roubadas dos suprimentos, a esposa traída, os olhares desviados quando devia ter protegido alguém, os abusos de poder que cometeu, mesmo que pequenos aos olhos dele. Cada lembrança se empilhava como rocha sobre rocha e fazia seu peito afundar. O estalo de sua espinha soou mais alto do que qualquer grito.
Ele sucumbiu em segundos, mas não morreu apenas. Sua alma foi arrancada do corpo. Um sopro gelado saiu de sua boca, azul e denso, e Anúbis fechou a mão.
*Craaaaaaaack…*
O vapor se cristalizou em um fragmento de gelo azul, brilhante, que caiu no chão e não derreteu.
“Sem absolvição.”
Atrás dele, com menos pecados para espiar, um dos rapazes tentou correr. Contudo, ele não chegou a dar três passos.
*Craaaaaaaaaash…*
O chão se dobrou debaixo dele, como se o peso dos pecados o esmagasse no lugar. Ele era jovem, mas as mentiras ao pai, o desejo de ver o irmão morrer na guerra para herdar a casa, o prazer em ferir os fracos… tudo o esmagou contra as pedras. O sangue saiu pela boca, mas a alma não subiu. Assim como o homem mais velho, sua alma foi puxada, travada, congelada, até virar um cristal que que parecia estar gritando por dentro.
Então, as ruas começaram a encher de vozes. Mulheres arrastavam os filhos para dentro de casa, mas o peso as fazia cair no limiar da porta. Crianças gritavam sem entender, e mesmo elas não escapavam: pecados pequenos… inveja, crueldade infantil, egoísmo… viravam correntes mais do que suficientes para quebrar seus ossos frágeis. Um menino foi erguido no ar, com as pernas chacoalhando, até que o peito explodiu em gelo, e sua alma ficou suspensa, presa em cristal, chorando em silêncio.
Naquele dia, a praça inteira virou um tribunal. Cada morador era puxado para dentro de si mesmo, forçado a encarar as falhas que tentava enterrar, os pecados que ninguém além deles mesmos sabia que foram cometidos. Uns gritavam negando, outros pediam perdão, mas nada mudava o resultado. Um após outro, corpos tombavam como bonecos sem peso, e as almas surgiam em blocos gelados que se empilhavam pelo chão como se a cidade estivesse sendo pavimentada de novo, não com pedras, mas com culpas eternas.
Calmamente, como o juiz da última instância do universo, Anúbis caminhava entre eles. O chacal ao seu lado cheirava o ar, como se farejasse quem seria o próximo. Onde passava, as lamparinas se apagavam. Onde olhava, as colunas de gelo aumentavam.
E então ele disse aos mortos e aos cristais que prendiam suas almas ao plano material e não deixavam que elas fizessem a passagem: “Até que eu permita, vocês não entrarão no rio.”
Aquelas palavras foram sua última sentença às almas daqueles pobres humanos que foram impedidos de seguir para o rio da almas e ter a oportunidade de uma nova encarnação.
