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Capítulo UHL 1095 - Irregular

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Tenham uma boa leitura!]


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O silêncio que veio depois do “Vim impedir” não foi de respeito, foi de cálculo. As bocas dos semideuses travaram num mesmo ponto, como se mastigassem uma palavra grande demais, e os dois Protetores da frente, o do elmo escarlate e o do elmo negro, recuperaram o ar por via de um hábito antigo: endireitar a coluna, alinhar o queixo, fingir que nada dentro deles tinha vacilado.


“Ele fala como se tivesse aprendido tarde demais a ser alguém…” Murmurou o de elmo negro, baixo, só para o irmão ao lado.


“Ou cedo demais para ter esquecido o Tártaro…” Devolveu o de elmo escarlate, sem tirar os olhos da figura à frente.


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Do outro lado do planeta, em Kaos, uma voz atravessou os ouvidos de quem não costumava pedir licença para nada.


“Senhor…”


Anúbis caminhava numa rua que antes fora um mercado. A areia fina levantada do chão grudava nos tornozelos dos mortos; o chacal caminhava com a cabeça baixa, não em submissão, mas em atenção ao que seus sentidos colhiam. O peso do julgamento já havia caído sobre aquele lugar; as almas que podiam ser pesadas estavam presas em suas geometrias de gelo; o resto era silêncio e corpos que não tinham importância para a contabilidade do deus.


A voz insistiu, a alguns passos atrás, abafada pela reverência e pelo medo:


“Senhor, há algo… no continente de Hill.”


Anúbis não parou de andar. O chacal também não. O que o fez suspender o passo foi somente a próxima palavra, dita como quem diz o nome de um morto que se recusa a permanecer morto.


“É… Íxion.”


O ar, por um instante, ficou mais espesso. O deus virou o rosto apenas o suficiente para que seu perfil recebesse o brilho do sol.


“Não.” A negativa saiu de forma imediata: “Não usem máscaras para cobrir fracassos. Íxion está no Tártaro.”


“Senhor, não é máscara.” Outra voz, humilde e aflita, somou-se à primeira: “Nós ouvimos. Ele saiu de um domo de diamante, em Hill, e está bloqueando o caminho dos nossos irmãos que estão lá.”


“Ele falou… que está do lado deles.”


O chacal ergueu o focinho e, por um segundo raro, expirou rapidamente. Anúbis calou o animal com o olhar, se virou totalmente e perguntou em tom de ameaça: Vocês têm certeza de que sabem o que dizem?”


“Ele foi chamado pelo nome, senhor, e se apresentou.” Disse o primeiro, com cautela: “O cheiro do Tártaro ainda está nele. E o cheiro não se confunde.”


“Ele não deveria respirar…” Anúbis murmurou, mais para si que para os outros: “E, se respira, não deveria ficar de pé. Se fica de pé, não deveria ousar falar.”


“Ele falou, senhor…” Insistiu um terceiro, com todo respeito: “E está falando como se estivesse em casa.”


As mãos de Anúbis não se fecharam em punhos, permaneceram do jeito que estavam. O gesto seria humano demais, mortais demais para alguém do seu nível. Ele respirou uma vez, duas. O ar entrou limpo e saiu sem vento. A incredulidade durou o que um grão de areia leva para escorregar entre dois dedos.


“Vocês se confundiram…” Ele tentou, ainda em teste. Depois, ao ver que aqueles deuses tinham olhares de certeza, ele não tentou mais: “Não. Vocês não se confundiram.”


Nesse momento, o Grande Deus voltou o olhar para a direção do mar, onde Kaos dividia a fronteira com Hil. Havia um cálculo claro nos olhos dele… um número que não dependia de fé, só de função.


“Ele é apenas um Protetor…” Anúbis concluiu, com a frieza de quem redefine e minimiza o problema: “Um só. Ele não é um milagre, é um desvio.”


“Senhor…” Um dos deuses tentou dizer algo, mas foi prontamente interrompido, afinal, a grande autoridade entre eles ainda não tinha terminado de falar.


“Ouçam.” A palavra veio com a autoridade da lâmina que não precisa ser mostrada e corta simplesmente por existir: “Eliminem o traidor. Sem cerimônias. Sem superstições. Vocês não precisam de mim para isso.”


Ninguém ousou dizer que precisavam dele. Ninguém ousou lembrar que, diante de Íxion, algo estava diferente. Obedecer era menos custoso que argumentar.


Anúbis então voltou a caminhar. E o chacal acompanhou, silencioso como sempre.


“E vocês… digam aos seus irmão em Hill que…” De repente, Anúbis acrescentou, sem tornar a virar o rosto: “Que parem de procurar significado onde há somente trabalho. Um nome antigo é só isso… um nome. Façam o que tem de ser feito.”


“Sim, senhor.” Os deuses concordaram sem questionar.


Quando aqueles deuses saíram, o mercado devolveu ao Grande Deus o som do seu próprio caminhar. O chacal cheirou uma última vez os cristais onde as almas estavam presas, e os dois seguiram em frente, como se nada tivesse acontecido, porque, para Anúbis, de fato nada aconteceu. Um traidor se ergueu… e iria cair. O roteiro que ele tinha escrito não precisava de ajustes.


No Vale da Esperança, porém, esse roteiro não obedecia as vontades de seu ‘redator’.


“Eliminem-no!” Assim que uma resposta dos seus irmãos em Kaos chegou, o deu Protetor de elmo negro falou, autorizando a morte de Íxion..


Íxion não precisava ouvir nenhuma voz para compreender que uma decisão do outro lado do mundo havia terminado de cair sobre aquelas cabeças. E em resposta, energia à sua volta, a dele, emparelhou com esse fato sem mudar um músculo. 


A estranheza, que até há pouco parecia invasiva, tinha virado posse. E a posse, naquele instante, se expressou num gesto mínimo… uma mão semi aberta e dedos que não tremiam. Mesmo diante de dois deuses Protetores e vários semi deuses.


“Vocês já têm a bênção do seu dono…” Íxion disse, sem ironia.


“Temos nossa própria ordem.” Um dos Protetores corrigiu: “E você tem a sua própria sentença.”


Logo em seguida, o outro Protetor falou, dando um passo à frente. “Não lutamos por raiva. Fazemos o que precisa ser feito pela ordem natural e pelo nosso dever como guias de toda a vida existente no universo.”


“É o que dissemos a nós mesmos nas últimas eras…” Íxion respondeu em pesar, antes de acusar: “E foi assim que me deixaram no Tártaro por um crime que não cometi.”


“Você foi acusado, julgado e condenado!” O Protetor de elmo negro cortou sua fala, antes de defender os deuses que condenaram Íxion: “O Tártaro é apenas para os que merecem.”


“Não… ele é um espelho para os que julgam.” Íxion retrucou, calmo e certeiro.


Logo em resposta, o de elmo escarlate inspirou, longo, como quem puxa um sopro de disciplina do fundo dos anos. Então resolveu ofender de outro modo: “Está vendo isso atrás de você, condenado? Um vale cercado por um cristal caro e resistente. Mas você saiu de dentro dele para morrer do lado de fora. Sabe o nome disso?”


“Escolha.” Íxion respondeu, antes de completar: “E dever para com os que me ofereceram alguma dignidade quando aqueles que deveriam interceder por mim me abandonaram.”


“Isso é vaidade!” O deus de elmo escarlate corrigiu: “Deles, e sua.”


“Não confunda vergonha com vaidade…” Disse Íxion, e pela primeira vez o tom de sua voz mudou para algo mais raivoso: “Vocês nunca escolheram nada além de obedecer.”


Naquele momento, houve um leve aceno de cabeça entre os dois Protetores, aquele ajuste de entendimento que só existe entre criaturas que compartilham os mesmos ideais.


O aceno entre os dois Protetores foi o ponto de partida.


O de elmo negro foi o primeiro a se mover. Nenhum som antecedeu o avanço e o frio simplesmente apareceu. A umidade do ar se transformou em cristais e o chão se cobriu de uma película branca que se espalhou como um tapete. Ele ergueu uma mão, e uma lança de gelo cresceu até o chão, firme e pontiaguda.


O de elmo escarlate veio logo depois, num movimento de ataque. A lança dele cortou o ar, e o som do metal ragsgando o ar ecoou no vale.


Íxion manteve o corpo imóvel por um instante. As chamas começaram a subir lentamente de seus pés, formando um círculo irregular ao redor. Nenhuma postura de combate foi tomada, nenhuma guarda foi levantada, apenas uma presença que parecia aquecer o espaço.


Quando o primeiro golpe veio, ele se moveu.


O de elmo negro arremessou a lança de gelo, e o de elmo escarlate a seguiu com um ataque lateral, rápido e preciso. Íxion girou o corpo, o fogo subiu pelo seu braço, e o gelo evaporou antes de tocá-lo. O golpe da lança elétrica passou rente à pele dele, arrancando faíscas do calor.


Íxion respondeu com um movimento simples. Um soco curto, sem esforço aparente, que fez o ar se dobrar ao redor do punho. O impacto não atingiu diretamente o inimigo, foi a pressão, o deslocamento do fogo, que o jogou de volta. 


*Boooooooooooooooom…*


O de elmo escarlate voou por alguns metros e caiu de joelhos, com a armadura fumegando.


O de elmo negro não esperou. O chão sob Íxion se rompeu e colunas de gelo surgiram tentando prendê-lo. 


*Tsssssssssssssssssssssssssss…* Craaaaaaaaaaaaaaaaaaaash…*


Ele saltou para o lado, e quando pousou, a planta do pé incendiou a terra, que estourou em rachaduras incandescentes.


Íxion estendeu o braço, e o fogo seguiu a direção do olhar, numa linha densa, estreita, cortando o espaço até o inimigo. 


O Protetor desviou por pouco, mas o calor o alcançou, derretendo parte da armadura no ombro.


No mesmo instante, o de elmo escarlate se levantou e gritou: “Ele não é mais o mesmo. Isso não é poder de um Protetor.”


O outro Protetor o ignorou e tentou congelar o ar, mas o gelo se transformou em vapor antes de se formar.


Íxion então avançou, e a distância entre eles desapareceu em um instante. A palma da mão dele atingiu o peito do Protetor e explodiu empurrando-o violentamente para trás. Nenhum golpe extravagante, apenas força direta.


O escarlate reagiu com a lança em arco. Íxion bloqueou com o antebraço, mas a descarga elétrica atravessou o corpo dele. As faíscas dançaram sob sua pele, o músculo endureceu. Ele sentiu o peso da descarga e recuou meio passo, exalando fumaça pelas narinas.


Por um breve momento, ambos os lados ficaram imóveis. O ar era quente demais, mas o gelo ainda existia. O fogo e o frio se anulavam parcialmente no espaço entre eles.


Íxion respirou fundo. O calor diminuiu um pouco, e o corpo dele voltou a se mover com firmeza.


O de elmo negro aproveitou a brecha e avançou com o braço coberto por gelo, tentando cravar uma lâmina curta no flanco de Íxion.


*Craaaaaaaaaaaaaaaash…*


Íxion segurou o punho do adversário com a mão nua, e o gelo explodiu em fragmentos.


“Vocês ainda acreditam que o meu poder é o mesmo depois do Tártaro?” Ele disse, baixo, sem raiva.


*Baraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaum…*


O de elmo escarlate rugiu, irritado com o tom calmo de Íxion, e cravou a lança no chão. A eletricidade percorreu a terra e subiu em colunas, buscando o corpo de Íxion. As chamas, porém, responderam por reflexo, formando um escudo circular. 


*Craaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaash…*


Os relâmpagos bateram e se espalharam, riscando o ar como teias.


O som foi brutal, mas Íxion não se moveu.


Quando as faíscas cessaram, ele avançou. No ar, a mão esquerda dele se acendeu em vermelho vivo e, com um golpe curto, atingiu o rosto do Protetor escarlate. 


*Booooooooooooooooooooooooooooooooom…*


A armadura rachou com o impacto, o elmo partiu ao meio, e ele recuou cambaleante.


O de elmo negro reagiu por instinto. Um espinho de gelo saiu do chão, mas Íxion o quebrou com o joelho e continuou. 


O fogo de Íxion crescia a cada passo, e a luz dele refletia nas placas derretidas dos inimigos.


“Vocês não entendem…” Íxion murmurou, mais para si do que para eles, vendo que a surpresa com aquele poder que corria em suas veias era compartilhada por todos, mas muito mais perturbadora para os deuses diante dele: “Nem tudo o que muda precisa de explicação. Eu não preciso de um motivo para entender o que está acontecendo comigo… eu apenas aceito.”


Assim que Íxion terminou de falar com aquele ar que não era arrogante, mas demonstrava superioridade, o Protetor de elmo escarlate atacou de novo, movido por um desespero incomum. 


Cada investida dele era mais agressiva que a anterior, mas menos precisa. 


Íxion, por sua vez, desviava com pequenos movimentos, queimando o ar em volta do corpo e revidando com golpes pesados.


Contudo, um dos golpes passou rente ao rosto de Íxion e abriu um corte fino na têmpora dele. A dor veio rapidamente, lembrando-o de que o seu corpo ainda era falho e os milênios no Tártaro tinham tirado dele, também, uma boa parcela dos seus instintos e habilidades de luta.


Íxion estava ‘enferrujado’. Aquele poder incomum que preenchia seu corpo lhe dava alguma vantagem e uma percepção muito maior da luta, mas seu corpo e mente ainda estavam limitados, e, às vezes, ele não conseguia acompanhar o que sua percepção aconselhava a ser feito. 


Naquele instante, o sangue escorreu pelo rosto de Íxion e se misturou à chama, mas ele não recuou, afinal, ele estava acostumado com a dor e com a sensação de ter seu sangue escorrendo pela pele.


Enquanto isso, o de elmo negro se ergueu, usando o próprio gelo para criar uma muralha à frente dos dois. Ele quis ganhar tempo, mas Íxion ergueu ambas as mãos. O fogo tomou forma de uma esfera grande, pulsante, e quando ele a lançou, a muralha virou vapor num clarão abrasador.


*Boooooooooooooooooooooooooooooooooooooom…* 


O impacto jogou ambos os Protetores para trás e estremeceu a terra a milhares de quilômetros dali.


A poeira cobriu o horizonte por segundos. E quando parte dele assentou, Íxion permanecia de pé. 


A respiração dele era pesada, mas o olhar estava firme como nunca.


Os dois deuses Protetores ainda estavam vivos. O de elmo negro tinha o braço direito destruído; o escarlate, metade da armadura em chamas. 


“Vocês acham que estou tentando provar algo?” Em vez de atacá-los naquele momento de vantagem, Íxion perguntou, olhando para os dois: “Eu só quero que parem, voltem para casa e deixem esse povo em paz.”


Ninguém respondeu.


O de elmo escarlate tentou erguer a lança mais uma vez, mas a arma se desfez em faíscas. O de elmo negro recuou, com as pernas falhando.


Enquanto olhavam para o fogo de Íxion, o medo que eles começaram a sentir não era do fogo em si, era do que ele representava. Aquilo não parecia um poder roubado, nem bênção. Era como se a estrutura de Íxion tivesse sido refeita de um modo que eles não compreendiam. 


Aquilo não era natural. Não podia ser natural.


“Isso é errado…” O de elmo negro murmurou, com a voz rouca: “O poder divino não muda assim.”


Íxion olhou para ele com calma e respondeu: “Talvez isso não seja mais divino… talvez… eu não seja mais um deus…”




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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