Capítulo UHL 1119 - Eu sou Um Zao
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A casa dos Zao, no alto do Vale, parecia menor naquele dia.
Não porque tivesse encolhido. Pelo contrário: desde que deixaram de ser uma família de escravos para se tornarem uma família que dava ordens a reis, o lugar tinha crescido. Ganharam mais cômodos, mais janelas, mais espaço pra respirar. Mas, naquele momento, tudo ali parecia ocupado por uma coisa só: espera.
Zao Rei estava sentado no chão, encostado na parede, com as pernas cruzadas. Tinha trinta e poucos anos no rosto, alguns fios de cabelo branco insistindo na têmpora, mãos calejadas de trabalho comum. Não havia um único traço de cultivo passando pelo corpo. Ele era, no meio de um Vale de monstros, simplesmente… humano.
No colo dele, Moira dormia.
A pequena ressonância da antiga Santa da Água agora encaixada num corpo de bebê respirava devagar, com o punho fechado numa das roupas dele. De vez em quando, enquanto sonhava, um único fio de água se torcia em volta dos dedos dela e se desfazia, como se o mundo se lembrasse de quem ela tinha sido… e desistisse, por enquanto.
Zao Xia, a esposa de Zao Rei, arrumava pela quarta vez o pano que cobria o peito da criança, mesmo sem necessidade. O cabelo, preso num rabo de cavalo simples, denunciava que ela também tinha acabado de chegar de alguma frente. As roupas ainda guardavam marcas de batalha e cortes recentes. Diferente do marido, a presença espiritual dela era nítida: uma cultivadora feita e preparada, que escolheu lutar.
Zao Xin, encostado na mesa, observava. O pai dos dois herdeiros de sua casa carregava no rosto o tipo de ruga que não vem da idade, vem do trabalho escravo, de humilhação, de noites mal dormidas. As mãos dele, que um dia seguraram correntes, agora seguravam uma caneca de chá que já tinha esfriado.
“Ela gosta de você.” Zao Xia comentou, olhando para o irmão do ‘dono’ do Vale e, ao mesmo tempo, para o homem que ainda parecia não acreditar que segurava uma criança tão linda no colo.
“Ela gosta de todo mundo que não erra o jeito de segurar.” Zao Rei devolveu, com um meio sorriso: “Eu tenho prática. Treinei com o Tian quando ele era pequeno.”
“Ele não era bem assim.” Zao Xia brincou, sorrindo.
Zao Xin suspirou, olhando a cena.
“Vocês dois falam como se eu não tivesse estado lá.” Ele murmurou: “Eu era o travesseiro das madrugadas de choro dos dois.”
“Pai, o senhor era o cobertor inteiro.” Zao Rei corrigiu: “E o colchão. E o teto que pingava.”
Eles riram. E, por um momento, o mundo lá fora não existiu. Não tinha Olho, não tinha Trindade, não tinha deuses congelados no quintal dos outros.
Só uma família que, por algum milagre, ainda estava no mesmo cômodo.
Zao Xia ergueu o rosto, olhando pela janela aberta.
“Eles estão demorando.” Ela comentou, numa mistura de ansiedade e reclamação carinhosa: “O ataque já terminou. Os amuletos já anunciaram. O Vale inteiro já viu eles pousando. E nada do Tian aparecer.”
“Ele deve estar resolvendo coisas de gente grande.” Zao Rei falou, fazendo uma careta: “Algum desses troços aí.”
“Ele ainda é seu irmão mais novo.” Zao Xin lembrou, com um certo orgulho: “Primeiro a nascer, último a aprender a ficar de pé… e agora olha pra isso.”
Zao Rei olhou pra própria mão, e depois pra Moira.
“É…” Ele murmurou: “Agora olha pra isso.”
Antes que qualquer um respondesse, uma presença mudou o ar.
Zao Xia virou o rosto primeiro.
Na porta, tinham três figuras.
Zao Tian entrou primeiro.
Ainda com o mesmo corpo que não obedecia mais aos números do tempo, com os olhos queimando num tom que não tinha nada a ver com cultivo. Era o tipo de olhar que vinha de gente que viu coisa demais. O manto estava rasgado em dois pontos discretos, a pele sem sangue aparente, mas com uma fadiga que nem todos percebiam… a não ser quem o conhecia desde menino.
Ao lado dele, Ming Xue, com o rosto sereno e cansado, e Shara’Kala, ex-Khan de Uhr’Gal, olhando tudo com uma atenção silenciosa, como se medir ambiente fosse hábito e defesa ao mesmo tempo.
“Eles chegaram.” Zao Xia sussurrou, num alívio que atravessou o peito.
Zao Xin endireitou o corpo, deixando a caneca de lado. Não tinha mais nada que o pai pudesse fazer naquele momento, mas ele fez assim mesmo: ajeitou a postura, como se fosse receber gente importante numa casa que um dia foi barraco de escravos.
Zao Rei levantou devagar, tomando cuidado pra não acordar Moira, e virou de frente pra porta.
Por um segundo, todos esqueceram de falar.
Zao Tian viu a cena inteira num golpe só: o pai, de pé; o irmão, com a criança no colo; a cunhada, com o rosto cansado; o laço da família prendendo quatro pessoas num ponto que, para ele, era o verdadeiro centro do universo.
O olhar dele amoleceu.
“Chegamos.” Ele disse, enfim.
“Vocês demoraram.” Zao Rei respondeu, abrindo um sorriso largo demais para caber naquela cara.
Zao Tian retribuiu o sorriso, mas ele morreu rápido.
Ming Xue, ao lado, percebeu a transição. Zao Xin também. Zao Xia demorou mais um segundo, o suficiente para o coração dela perceber antes da mente que alguma coisa estava errada.
Shara’Kala ficou em silêncio. Ela não conhecia aquela casa como os outros, mas reconhecia aquele clima. Era o clima de quando alguma coisa muito grande ia ser dita.
“Pai.” Zao Tian saudou, dando um passo pra frente.
“Tian.” Zao Xin respondeu, simplesmente.
Eles não se abraçaram com exagero. O velho pôs a mão no ombro do filho mais novo, apertou uma vez, e aquilo bastou. Havia um milhão de coisas encaixadas naquele toque: orgulho, medo, alívio, raiva do universo e gratidão por ele ainda estar de pé.
Ming Xue se aproximou de Zao Rei, com um sorriso que já vinha com um pedido escondido.
“Me empresta.” Ela pediu, estendendo os braços para Moira.
A bebê, mesmo dormindo, pareceu reconhecer o cheiro. Os dedos afrouxaram do tecido de Zao Rei e se fecharam, ainda sonolentos, na roupa de Ming Xue quando ela a pegou.
Zao Rei entregou sem discutir, mas o olhar acompanhou, num misto de carinho e… de algo que ele ainda não sabia nomear.
“Moira sentiu sua falta.” Zao Xia comentou, olhando para o casal.
“E nós sentimos a dela.” Ming Xue respondeu, com sinceridade.
Por um instante, a cena poderia ter sido normal. Um filho retornando da guerra, a família reunida, a criança sendo disputada nos braços.
Mas o peso na postura de Zao Tian não combinava com “normal”.
“Eu preciso conversar com vocês.” Ele disse, por fim, deixando a voz descer um tom: “Principalmente com você, irmão.”
O sorriso no rosto de Zao Rei não sumiu inteiro, mas rachou.
“Isso não soa como ‘vamos comemorar’.” Ele comentou, tentando manter o humor.
“Não é.” Zao Tian respondeu: “Mas é importante.”
Ming Xue entendeu na hora o que precisava fazer.
“Eu vou levar Moira pra dar uma volta.” Ela disse, sem que ninguém precisasse pedir.
“Eu vou com você.” Zao Xia levantou de impulso, na mesma hora.
Zao Tian então olhou para ela. Havia carinho, respeito, mas também uma firmeza que pedia ‘agora, não’.
“Xia…” Ele começou.
“Deixa.” Zao Rei cortou, gentilmente: “Vai com a Xue. Mostra pra Moira que o Vale ainda tá inteiro. Eu já te conto o que for.”
Zao Xia arregalou um pouco os olhos.
“Rei, eu…”
“Confia.” Ele pediu, e aquele “confia” tinha anos de vida compartilhada dentro.
Depois de um segundo de hesitação, ela assentiu.
“Se você me esconder alguma coisa, eu arranco de você depois.” Ela alertou, tentando fazer graça, mas a voz já estava mais fina.
“Você sempre arranca.” Zao Rei devolveu, sorrindo.
Ming Xue, com Moira no colo e Zao Xia ao lado, saiu em direção ao corredor. Antes de cruzar a porta, ela olhou por cima do ombro para Zao Tian. Ele encontrou o olhar dela por um segundo, e um “vai” silencioso passou entre eles… e então a casa ficou menor.
Só Zao Tian, Zao Rei, Zao Xin… e Shara’Kala.
“Ela fica.” Zao Tian avisou, antes que alguém perguntasse: “Isso diz respeito a Uhr’Gal, também. Ela é ex-Khan. Tem coisas que só ela pode garantir.”
Zao Xin fez um leve aceno de cabeça para Shara’Kala.
Shara’Kala inclinou o queixo, devolvendo o respeito.
Zao Tian respirou o mais fundo que podia.
“O ataque ao Olho acabou.” Ele começou, seco: “Os entrepostos caíram. A rede de escravos foi quebrada. Os principais nomes morreram ou fugiram sem estrutura.”
Zao Xin fechou os olhos por um segundo, absorvendo aquilo. De repente, não havia mais o monstro pegando os cantos do mapa… parecia mentira.
“Você fez o que disse que ia fazer.” Ele murmurou: “Cortou a cabeça do dono da coleira.”
“Não sozinho.” Zao Tian respondeu.
“Mas foi você quem puxou a corrente.” O pai corrigiu.
Zao Rei ficou parado, ouvindo. Havia orgulho nos olhos, claro, mas também uma pergunta muda: ‘e agora?’.
Zao Tian não deixou essa pergunta suspensa por muito tempo.
“Quando o Olho caiu, uma outra coisa quase começou.” Ele continuou: “Uma marcha de orcs e krovackianos contra Decarius. Um ataque que usou o rancor deles como pavio… mas que foi aceso por Anúbis.”
O nome do deus fez o ar ficar mais denso.
“Anúbis foi derrotado.” Zao Tian prosseguiu: “Mas o estrago que ele fez, não. Eu vou resumir: um exército inteiro, milhões, estava vindo contra o nosso mundo. Uhr’Gal entrou no meio. Daren e Hatori seguraram.”
“Eu cheguei no meio de tudo isso… e, pra evitar que outra guerra começasse na mesma semana em que essa terminou… eu propus um tratado.”
Zao Xin franziu o cenho, preocupado.
“Tratado?” Ele repetiu.
“Uma paz amarrada em reféns.” Zao Tian explicou: “Humanos, orcs e krovackianos mandando sangue importante uns pros outros. Eles viverão sob guarda do outro lado. Se alguém quebrar a paz… mata aqueles que ama.”
Zao Rei não piscou. Só apertou um pouco a mão em torno do próprio punho.
“E aí?” Ele perguntou, embora já soubesse que a resposta não seria genérica.
Zao Tian encarou o irmão por alguns segundos.
“Pra esse tratado começar…” Ele disse, sem rodeios: “Eu ofereci você.”
O silêncio que se seguiu não foi dramático. Foi… seco.
Zao Rei não falou.
Zao Xin também não.
Só o som distante de Moira rindo em outro cômodo, sem ter ideia do que o universo estava decidindo ali, atravessou a parede.
Os olhos de Zao Xin tremeram, e a caneca que ele ainda segurava fez um som leve ao bater na mesa.
“Você…” Ele começou, com a voz falhando um pouco: “Ofereceu o seu irmão como garantia de paz?”
“Sim.” Zao Tian confirmou: “Zao Rei vai viver em Uhr’Gal. Sob a guarda de Zargoth e dos clãs que aceitarem o tratado. Ele será o sinal de que nós não pretendemos dominar ninguém. Se eu quebrar minha palavra, se a humanidade atacar sem motivo… ele é o primeiro a pagar.”
Zao Xin respirou fundo. O peito dele subiu e desceu duas vezes, como se o corpo estivesse tentando decidir entre gritar e se calar.
No fim, foi uma mistura disso tudo que saiu:
“Meus filhos…” Ele murmurou, com a voz rouca: “Um destruiu o Olho. O outro vai segurar um tratado entre mundos com o próprio pescoço. De escravos… a isso.”
Havia lágrimas nos olhos dele, mas nenhum traço de vergonha.
Era tristeza e orgulho no mesmo gole.
Shara’Kala, até então em silêncio, deu um passo à frente.
“Zao Xin.” Ela disse, com o tom respeitoso de quem fala com alguém que já sofreu demais: “Em Uhr’Gal, refém não é corrente. Ele não vai ser torturado. Não vai ser usado como brinquedo. Ele será tratado como um convidado vigiado. Vai comer, vai andar, vai ver o céu de lá. Vai ter um teto. Vai ter respeito.”
Zao Xin virou os olhos para ela, avaliando.
“Você pode garantir isso?” Ele perguntou.
“Eu garanto o que posso.” Shara’Kala respondeu: “Como ex-Khan, eu sei como Zargoth pensa. Ele colocou o próprio povo na frente de uma marcha inteira pra parar uma guerra idiota. Ele não vai manchar Uhr’Gal machucando alguém que foi entregue em honra. E tem mais.”
Ela olhou para Zao Rei, direto:
“Se tocar em você de forma desonrada, ele estará dizendo pro universo inteiro que Uhr’Gal não presta.” Ela continuou: “E isso… nem ele, nem eu, vamos permitir.”
Zao Rei, o centro da discussão, ainda não falava.
Os olhos dele, no entanto, tinham mil coisas passando ao mesmo tempo.
Zao Xin, após escutar Shara’Kala, enxugou uma lágrima teimosa com o dorso da mão, recobrando a postura.
“Não é uma conversa, né?” Ele constatou, olhando para o filho mais novo: “Você não veio pedir. Veio avisar.”
Zao Tian não tentou amenizar.
“Não há tratado sem um refém que pese.” Ele disse: “E não há refém mais inofensivo, aos olhos deles, do que um humano sem cultivo que carrega meu sobrenome. Eu não posso me oferecer. Se eu sair do tabuleiro, tudo que a gente construiu desanda. Eu não vou mandar a Xue, nem o Xiao, nem o Cruz, nem qualquer um que tenha poder para virar o jogo. Precisa ser alguém que mostre que eu não estou levando vantagem.”
Ele respirou fundo.
“Eu sei que é injusto.” Ele admitiu: “Eu sei que parece que estou usando você. E, em certa medida… estou. Não vou mentir.”
Zao Tian estava sofrendo enquanto dizia aquilo, e foi neste momento que Zao Rei finalmente se mexeu.
Ele virou a cabeça devagar, primeiro para o pai, depois para Zao Tian, depois para Shara’Kala. O rosto dele ainda estava neutro demais. Era o tipo de neutralidade que vem quando o corpo entende antes da mente que aquilo é real.
“Eu vou ser honesto.” Zao Rei começou: “Eu não sei o que eu deveria sentir agora.”
Zao Tian abriu a boca, pronto pra dizer qualquer coisa… desculpa, explicação, defesa… mas Zao Rei levantou a mão, pedindo um segundo.
“Antes de qualquer coisa…” Ele continuou: “Eu quero saber uma coisa.”
“Pergunta.” Zao Tian respondeu.
Zao Rei respirou fundo.
“Eu posso levar a Xia?” Ele perguntou.
A pergunta cortou o ar em diagonal.
Zao Xin arregalou os olhos.
Shara’Kala inclinou a cabeça, sem surpresa, pois ela já tinha imaginado algo assim.
Zao Tian fechou os olhos por um instante, como se tivesse levado o golpe que sabia que ia vir.
“Não.” Ele respondeu.
Aquela única palavra caiu como uma pedra.
“Por quê?” Zao Rei insistiu, com a voz ainda calma demais: “Se o problema é refém, dois reféns valem mais do que um. Ela sabe se virar. Ela é cultivadora. Se alguma coisa der errado, ao menos ela pode correr. Eu não corro de ninguém.”
“Justamente por isso.” Zao Tian rebateu: “Porque ela é cultivadora. Porque sabe se virar. Porque tem poder. A presença dela transformaria o que estou propondo em outra coisa. Na cabeça deles, ela seria metade refém, metade espiã. Metade garantia, metade ameaça.”
Ele apertou a mão, com os dedos estalando.
“Esse primeiro passo precisa ser… limpo.” Ele explicou: “Eles precisam olhar pra você e ver um humano inofensivo, sem veias espirituais, sem técnicas escondidas. Ver alguém que só está lá porque confia na palavra do irmão e na honra dos orcs. Qualquer coisa além disso… e o tratado nasce rachado.”
Shara’Kala assentiu.
“Ele tem razão.” Ela reforçou: “Se uma cultivadora entrar como parte do pacote, as tribos menores vão questionar. Vão dizer que vocês estão plantando uma arma dentro de Uhr’Gal. Alguns vão usar isso como desculpa pra rasgar o acordo antes mesmo de começar.”
Zao Rei desviou o olhar, em direção ao corredor por onde Zao Xia tinha saído. Dava pra imaginar, sem ver, ela segurando Moira, sem ideia de que a decisão da vida dela estava sendo traçada ali.
“Então eu tenho que ir sozinho.” Ele concluiu.
“Tem.” Zao Tian confirmou: “Pelo menos… nesse começo. No futuro, se o tratado firmar, se os anos passarem sem que um lado ataque o outro, se Uhr’Gal e as tribos aceitarem abrir brechas, talvez visitas sejam possíveis. Talvez até mudanças definitivas. Mas agora…” Ele balançou a cabeça: “Agora não podemos errar.”
Zao Rei ficou quieto. E aquele silêncio doeu mais do que qualquer grito de protesto.
Zao Xin se aproximou do filho mais velho e colocou a mão no ombro dele. Era um gesto de consolo e de despedida ao mesmo tempo.
“Você sempre quis ver o universo, Rei.” Ele murmurou, tentando puxar um fio de humor: “Só não achei que seria assim.”
Zao Rei baixou a cabeça por um segundo, e algo mexeu dentro dele.
Quando levantou de novo, não tinha mais a mesma expressão.
Tinha um sorriso. Um sorriso grande demais, fora de lugar, mas… verdadeiro.
“Quando eu vou?” Ele perguntou.
Zao Tian, que já estava com o corpo preparado para absorver qualquer coisa, raiva, choro, acusações ou silêncio, piscou.
“Como é?” Ele reagiu, sem esconder a surpresa.
“Eu perguntei.” Zao Rei repetiu: “Quando eu vou.” Depois, ele deu de ombros: “Ou vocês vieram só pra me deixar pensando nisso por semanas?”
Zao Tian o encarou, tentando ler se aquilo era bravata, defesa, fuga.
Não era.
O irmão mais velho respirou fundo e, então, falou o que carregava preso há anos:
“Tian.” Ele começou, usando o nome, não o título: “Você passou um milênio na Singularidade. Voltou. Cresceu. Virou isso aí que você é hoje, que eu nem sei mais que nome dar. Para todo o universo, você é um monstro. Pra mim… você ainda é o pirralho que eu não consegui proteger quando precisou.”
A voz dele não tremeu. Os olhos, um pouco.
“Eu te vi sair de casa pra resolver merdas que ninguém devia carregar.” Ele continuou: “Te vi voltar quebrado, e sair de novo, e voltar de novo, sempre com mais peso nas costas. Eu fiquei aqui. Cuidando do pai, ajudando o Vale, segurando o que dava… mas sempre com a sensação de que era você quem tava pagando a conta por todos nós.”
Ele deu um meio sorriso torto, agora com um pouco de ironia.
“Você acha que eu fico feliz em ser o ‘irmão inofensivo’, o que não tem cultivo, o que não corta deuses no meio?” Ele perguntou: “Eu nunca quis ser isso. Eu queria, desde o começo, poder fazer alguma coisa que realmente tirasse algum peso de você. E nunca deu. Porque eu não tenho o que você tem.”
Zao Tian abriu a boca para protestar qualquer coisa… que ele tinha, sim, que ser inofensivo era bom, e etc… mas Shara’Kala e Zao Xin o fitaram de na hora, ao mesmo tempo, como se dissessem: ‘não tira isso dele’.
Zao Rei, por sua vez, não esperou resposta.
“Agora, pela primeira vez…” Ele disse: “Tem alguma coisa que só eu posso fazer. Você não pode ir. A Xue não pode ir. O Xiao não pode ir… ninguém desses monstros que você chama de amigo pode ir sem transformar isso numa ameaça. Eu posso. Justamente porque eu sou o mais… inútil em termos de luta.”
Ele deu uma risada curta, sem rancor.
“Você tem ideia de como é bom, pra mim, poder olhar na cara do universo e dizer: ‘dessa vez, quem vai segurar alguma coisa sou eu’?” Ele perguntou.
Zao Tian ficou sem palavras por um instante.
Zao Xin sorriu, com lágrimas acumulando de novo.
“A família Zao…” Ele murmurou: “Está fazendo diferença, de novo.”
“É isso.” Zao Rei assentiu: “A gente já foi símbolo de correntes. Agora vamos ser símbolos de acordos. Primeiro você, quebrando o Olho. Agora eu, sendo amarrado no pescoço de três povos. Não é o futuro que eu imaginava… mas é um grande futuro.”
Depois de dizer aquilo, ele respirou fundo, deixou o sorriso ficar um pouco mais suave.
“Eu não estou dizendo que não tenho medo.” Ele confessou: “Tenho. Muito. Não é fácil pensar em ficar longe da Xia, do pai, da Moira… de você. Não é fácil saber que, se alguma merda der errado, eu sou o primeiro a cair.”
Os dedos dele tremeram um pouco ao dizer aquilo. Mas a voz não.
“Só que, pela primeira vez…” Ele completou: “Isso tudo acontece por escolha minha, também. Eu escolho ir. Eu escolho segurar esse tratado. Eu escolho fazer alguma coisa grande, assim como meu irmãozinho fez.”
Ele então virou o rosto na direção do corredor e levantou a voz.
“Xia!” Ele chamou.
Ela apareceu na porta quase na mesma hora, com o rosto molhado, Moira ainda no colo, e Ming Xue ao lado com os olhos brilhosos.
“Você ouviu tudo, né?” Zao Rei perguntou.
“Ouvi.” Ela respondeu, tentando segurar a voz firme, mas não conseguiu completamente.
Ele abriu os braços, e ela veio até ele, tentando ajeitar Moira no meio dos dois.
“Eu…” Ela começou, mas a frase morreu virando soluço.
Zao Rei encostou a testa na dela, com cuidado para não apertar a bebê.
“Eu vou voltar.” Ele disse: “Você sabe que eu não sou bom em muita coisa, mas eu sou teimoso. Uhr’Gal não vai ser capaz de se livrar de mim tão fácil.”
Ela riu, no meio do choro.
“Se você demorar.” Ela avisou: “Eu te busco.”
“Eu sei.” Ele respondeu, com orgulho e medo misturados: “E é por isso que eu vou ter que voltar rápido, pra você não quebrar o tratado no meio.”
Zao Xin então aproximou-se, colocando uma mão na cabeça do filho e outra na de Zao Xia.
Ming Xue ficou em silêncio, segurando Moira enquanto eles se abraçavam.
Shara’Kala observava a cena com um respeito que não se ensinava em nenhuma guerra.
Zao Rei então se soltou um pouco, e virou de novo para Zao Tian…
“Então…” Ele disse, enxugando as lágrimas com o dorso da mão, mas mantendo o sorriso: “Me diz...”
“Quando é o dia da partida?” Ele finalizou, abrindo os braços, convidando seu ‘irmãozinho’ para ele.
