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Capítulo UHL 1120 - Mais Um Problema

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Tenham uma boa leitura!]


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O dia da conversa com Zao Rei terminou sem uma data exata.


Zao Tian não deu um “amanhã” nem um “daqui a um mês”. Disse apenas o que era verdade: que precisava alinhar respostas com Uhr’Gal, ouvir os clãs krovackianos, ver quais tribos aceitariam sentar à mesa. A partida de Zao Rei não seria um segredo, mas também não ia ser uma corrida.


Ainda assim, naquela casa, todo mundo sabia: a contagem tinha começado.


Nos dias seguintes, o Vale da Esperança passou a respirar em ritmos diferentes.


Para alguns, era o descanso depois da guerra.


Para Zao Tian… não.


Ele só trocou de tipo de cansaço.


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Poucos dias depois, a primeira coisa que ele resolveu foi uma dívida antiga.


Tyrone.


O corpo do homem que segurou o Vale no primeiro ataque do Olho nunca voltou pra casa. Ele havia caído em outro mundo, numa emboscada suja de Yang Yin e Yang Fen, longe demais.


Mas um homem como Tyrone não era enterrado só com corpo.


Então, Zao Tian organizou um funeral que não precisava de caixão.


Na praça principal do Vale, eles ergueram uma estrutura simples: um pedestal de pedra, uma bandeira do Vale, um manto rasgado que ele havia usado na época da primeira invasão… e, no centro, a espada que fora dele, trazida de volta por mãos diferentes.


Não houve discursos longos.


Ming Xiao falou pouco, lembrando que, se o Vale existia até ali, era porque um homem decidiu que ia ficar em pé quando mais ninguém podia.


Ye Zuo contou, do seu jeito, como foi ver Tyrone segurar uma frente sozinho, rindo com sangue na boca e xingando o inimigo como se fosse um vizinho inconveniente.


Alguns soldados que lutaram na primeira batalha, que tinham visto ele chegar ao Vale como estrangeiro e virar uma parede, deixaram flores, armas quebradas, pedaços de armadura daquele dia.


Houve choro. Houve riso lembrando besteiras que ele dizia. Houve silêncio pesado quando alguém lembrou que, no fim, ele morreu não defendendo fortaleza nem reino… mas um nome que ele respeitava.


Zao Tian não falou muito.


Só ficou ao lado do pedestal, em silêncio, até o fim.


Quando o povo começou a se dispersar, ele se aproximou do manto e pousou a mão no tecido.


“Tyrone.” Ele disse, baixo, mais para si do que para qualquer ouvido: “O Olho caiu. Você não viu, mas foi por sua causa também.”


Era o suficiente.


Um herói que começou a defesa do Vale… tinha, enfim, um lugar fixo na memória dele.


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Depois disso, não houve folga.


O Vale da Esperança virou uma construção em obra permanente.


Zao Tian revisou cada camada de defesa.


Ele reforçou as barreiras em volta da fortaleza de diamante; pediu a Ming Xiao que reorganizasse as companhias de prontidão, não como se a guerra ainda estivesse viva… mas como se o universo tivesse ganho um novo jeito de ficar perigoso.


Alguns portais foram fixados. Outros foram escondidos.


Ele conversou com Hildeval sobre forjas que precisariam ser realocadas, agora que o Olho não era mais o comprador oculto de parte das armas do universo.


Falou com Gard, através de Hakim, para montar uma rede de alerta entre os mundos que participaram da guerra.


Cruz, Shara’Kala, Jaha e Gins foram acionados mais de uma vez para traçar, em mapas, os pontos onde a Trindade poderia reaparecer. A família Shui virou palavra proibida em conversas abertas, e só era dita em salas fechadas, com amuletos desligados e olhos muito atentos.


Ao mesmo tempo, em paralelo a tudo isso, Zao Tian mandava mensagens.


Uma para Zargoth, acertando princípios básicos do que seria o encontro sobre o tratado.


Outra para Hatori e Daren, alinhando linguagem e postura, porque ninguém queria transformar uma reunião em ultimato.


Outra para Vargan’Zul, que chegou rosnando, aceitando discutir o acordo “pelo bem dos seus, e de mais ninguém”.


E, entre um plano e outro, entre uma defesa do Vale e outra… a imagem de Zao Rei voltava.


Sentado em Uhr’Gal, cercado por orcs que o examinariam como se ele fosse um pedaço do futuro.


A cada vez que essa imagem voltava, Zao Tian trabalhava mais um pouco.


Porque, se o irmão estava sendo usado como âncora, ele ia fazer o possível para que a corda não arrebentasse do lado errado.


Mas, em algum momento, uma preocupação que não tinha surgido no dia da marcha começou a crescer na cabeça dele:


Os elfos.


Eles não estavam na coalizão.


Não tinham marchado contra Decarius.


Não tinham entrado no acordo, nem como inimigo, nem como aliado formal.


Dos poucos elfos que Zao Tian viu na vida, a única que ele tinha alguma proximidade era Nallrian.


Zao Tian sabia que, se queria de fato construir uma paz que não fosse só um intervalo entre duas catástrofes, tinha que pensar neles também.


Então, em uma tarde em que o céu do Vale estava mais cinza do que azul, ele mandou chamar a elfa.


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A sala que ele escolheu não era uma sala de guerra, nem o salão do trono de Ming Xiao.


Era uma sacada alta, aberta, com vista para as montanhas e para o vale interno, onde se viam crianças treinando os primeiros passos de cultivo e idosos sentados ao sol.


O vento ali era frio, mas limpo.


Quando Nallrian entrou, o som das botas dela no chão de pedra soou firme e leve ao mesmo tempo.


Ela parou a alguns passos de distância e fez uma reverência curta com a cabeça.


“Zao Tian.” Ela saudou: “Você pediu minha presença.”


“Pedi.” Ele confirmou, sem rodeios: “Obrigado por vir.”


Nallrian inclinou um pouco o queixo, avaliando a expressão dele.


“Não parece ser assunto de ‘como vai o dia’.” Ela comentou.


“Não é.” Ele respondeu.


Ela se aproximou da borda da sacada e olhou para baixo, para o Vale.


“É um bom lugar.” Ela comentou: “Pelo menos, para um mundo que decidiu brincar com divindades.”


“É.” Zao Tian concordou: “E eu quero que ele continue de pé por bastante tempo.”


“Esse ‘tempo’ que você imagina…” Ela perguntou, quase curiosa: “É humano, elfo ou divino?”


“Qualquer um que não termine amanhã.” Ele devolveu.


Ela deixou um sorriso quase imperceptível escapar.


“Então fale.” Nallrian disse: “O que você quer de mim?”


Zao Tian dobrou os braços e encostou as costas na parede de pedra, como quem pede licença para falar de coisa séria sem parecer um rei.


“Os orcs e os krovackianos.” Ele começou: “Estão numa trilha de paz que talvez funcione. Nós demos a nossa palavra. Eles estão pensando. Há um caminho, mesmo que cheio de pedras.”


Nallrian assentiu.


“Eu ouvi os relatos.” Ela disse: “Hatori me contou o essencial. Seu irmão, o tratado, os reféns.”


Zao Tian passou a mão no rosto, como se desse um empurrão no cansaço.


“Vocês…” Ele disse: “Não estavam lá. Não como povo. E eu sei que vocês não são um povo que gosta de ficar de fora de decisões grandes como essa.”


“Depende da decisão.” Ela retrucou: “Quando o assunto é ‘como vocês vão matar uns aos outros’, gostamos, sim, de ficar de fora.”


Ele não discordou.


“Eu não quero que vocês sejam arrastados.” Ele esclareceu: “Quero saber se há alguma chance de vocês entrarem de cabeça erguida nesse tratado.”


Nallrian então virou o rosto, agora interessada de verdade.


“Entrar aonde, exatamente?” Ela perguntou: “Nesse seu “acordo de paz” entre humanos, orcs e krovackianos?”


“Sim.” Ele respondeu: “Ou em algo que converse com ele. Um círculo maior. Uma rede em que, quando algo grande aparecer de novo, a gente não precise perder metade do universo pra depois perguntar se vale a pena lutar junto.”


Ela fez silêncio por alguns segundos.


Os olhos se estreitaram levemente, não em desconfiança de Zao Tian, mas em cálculo de possibilidades.


“Você quer saber se os elfos aceitariam um acordo com vocês.” Ela traduziu, direta: “Se nossos bosques se ligariam aos seus vales com mais do que portas de emergência.”


“Isso.” Ele confirmou: “E quero saber sem ilusão. Por isso eu chamei você, não um diplomata cuidadoso. Yan Chihuo diz que você fala como pensa.”


“O mestre Chihuo está ficando velho.” Ela comentou, brincando: “Mas, pelo menos nisso, ainda enxerga bem.”


Depois, ela respirou fundo e virou-se de frente pra ele, apoiando as mãos no parapeito.


“Vou te dar a resposta curta primeiro.” Nallrian começou: “Sim. Há alguma chance.”


Zao Tian ergueu levemente as sobrancelhas.


“É mais do que eu esperava.” Ele admitiu.


“Não se anime.” Ela logo cortou: “Eu disse ‘chance’. Não disse ‘facilidade’.”


Ele fez um gesto para que ela continuasse.


“Os elfos…” Nallrian começou, escolhendo as palavras com cuidado: “São desconfiados. Mais do que vocês. Mais do que os orcs. Porque vivemos tempo demais acumulando muitas histórias de gente vindo com promessas bonitas na boca e facas nas costas.”


Ela olhou de relance para as montanhas do Vale.


“Mas…” Ela continuou: “Não somos tão hostis quanto os krovackianos e certas tribos orcs. Nós evitamos mais do que atacamos. Paramos guerras antes de elas chegarem às nossas casas. Quando temos que lutar, lutamos pra afastar, não pra conquistar.”


Zao Tian assentiu. Aquilo batia com as poucas histórias que conhecia.


“Vocês nos veem como…?” Ele perguntou, deixando a pergunta em aberto.


“Como crianças com facas de duas pontas.” Nallrian respondeu, sem espinha de fora: “Capazes de milagres, mas também de desastres que nem entendem direito. Vocês constroem coisas que não sabem manter, atacam inimigos que não entendem e morrem rápido demais para aprender com as próprias burrices.”


Ele não se ofendeu. Era quase justo.


“Mas tem uma coisa a seu favor.” Ela completou.


Zao Tian esperou.


“Gold.” Nallrian disse.


O nome Grande Arcanjo ainda fazia o ar mudar ao ser pronunciado por ela. Não como antes, com medo ou adoração cega, mas com uma reverência antiga, sedimentada pela memória de gerações.


“Os elfos ainda veneram Gold.” Ela explicou: “Como o primeiro que nos mostrou que o mundo podia ser mais do que fugir dos nossos opressores, ele transformou todo o futuro e a cultura élfica. Ver um cultivador da luz, depois de milhões de anos sem que nenhum nascesse em lugar algum… acenderá algo muito profundo neles. Algo que vocês humanos nem sempre entendem, porque esquecem as coisas rápido demais.”


Ela o mediu de cima a baixo, não com cobiça, mas com uma avaliação fria.


“Você é isso.” Nallrian disse: “Quer goste ou não, você carrega a marca de Gold nos ossos. Quando for falar com o Conselho do meu povo, você já entra com metade da sala dividida entre fé antiga e raiva por ter sido deixada tanto tempo de fora e sem notícias.”


“Raiva?” Ele repetiu.


“Sim.” Ela confirmou: “Porque os elfos não perdoam fácil. Eles vão querer saber por que demorou tanto para o único cultivador da luz que existe hoje tentar algum contato com eles. E vão se sentir ofendidos por isso. Mas isso é assunto pra outro dia.”


Ela afastou o assunto com um gesto leve da mão.


“Então, sim.” Nallrian retomou o fio: “Se você se apresentar diante do Conselho dos Bosques, com honestidade, com seu histórico contra o Olho, com os relatos de que você não quebrou Uhr’Gal quando teve chance e está tentando resolver a guerra entre Krovackianos e orcs, que também nos envolve,… você já terá alguns pontos de vantagem. Mais do que qualquer humano teria em muito tempo.”


“Mas…” Zao Tian insistiu: “Isso não garante nada.”


“Óbvio que não.” Ela retrucou: “E tem um ponto importante que é o pilar do acordo que você está fazendo com os outros, mas não funcionará com o meu povo….”


“Os reféns.” Ele adiantou.


Nallrian assentiu, uma única vez.


“A ideia de trocar reféns...” Ela disse: “Simplesmente não vai funcionar com meu povo.”


“Por quê?” Ele perguntou, sincero: “Sei que soa estranho vindo de mim, depois do que fiz com meu irmão, mas a lógica é parecida. Sangue pendurado na palavra.”


“Justamente por já termos tentado fazer algo tipo no passado, algumas vezes, eu digo que não será tão simples.” Ela respondeu: “Nós já demos reféns no passado. Para deuses, para impérios, para coisas que diziam que iam “manter a paz em troca de um pouco do nosso sangue”. Nunca terminou bem. As poucas histórias que restaram disso são contadas como advertência para crianças.”


Ela o encarou com firmeza.


“Se você aparecer propondo que elfos mandem filhos de sangue para viver sob guarda humana…” Nallrian explicou: “Eles vão ouvir outra coisa. Vão ouvir “escravo de luxo”. Vão ouvir “coleira nova com nome bonito”. Vão recusar na hora. Alguns vão considerar um insulto. Outros, uma ameaça.”


Zao Tian coçou a testa, irritado com a própria previsibilidade.


“Eu imaginei que não seria fácil, mas não pensei que fosse algo tão profundo para vocês.” Ele murmurou.


“Com vocês nunca é.” Ela respondeu, sem maldade.


“Então o que funcionaria?” Zao Tian perguntou, direto: “Você conhece seu povo melhor do que eu. O que prende elfos numa promessa que não seja papel, nem refém, nem medo?”


Nallrian ficou calada por alguns instantes.


Então, ela soltou um suspiro leve, como quem sabia que a resposta ia complicar a vida de alguém.


“Casamento.” Ela disse.


Zao Tian piscou.


“Como é?” Ele reagiu.


“Casamento.” Nallrian repetiu, sem desviar: “Entre raças. Entre linhagens. Entre nomes.”


Na mesma hora, Zao Tian começou a passar mão no cabelo, até bagunçar um pouco.


“Você está sugerindo que eu case um humano com um elfo só pra segurar um tratado?” Ele perguntou, meio incrédulo, meio cansado.


“Não “um humano qualquer”.” Ela corrigiu: “Alguém que carregue peso entre vocês.”


Ela se apoiou melhor no parapeito.


“Pra nós, elfos, casamento não é só ‘gostar’.” Nallrian explicou: “É um pacto. É uma raiz que se entrelaça. Quando um clã se une a outro por casamento, ele está dizendo para o mundo: “se eles caírem, caímos junto; se forem desonrados, somos desonrados também”. Vocês fazem isso às vezes, mas usam de maneira mais… descartável.”


“Obrigado pela delicadeza.” Ele comentou, irônico.


“Estou sendo delicada.” Ela rebateu: “Acredite.”


Zao Tian olhou para o horizonte por um segundo, tentando imaginar a conversa:


“Então, além de mandar meu irmão como refém, eu também terei que negociar um casamento político com um povo que me acha uma criança com uma faca.”


“E quem…” Ele perguntou, com cuidado: “Você imagina nesse casamento?”


Nallrian deu uma risada curta.


“Você achou que eu estava sugerindo você?” Ela devolveu, erguendo uma sobrancelha.


Ele abriu a boca, fechou, e coçou a nuca.


“Pensei nessa possibilidade.” Ele admitiu: “Por um segundo.”


“Os elfos são desconfiados, não burros.” Ela comentou: “Você já é casado com Ming Xue, que, por sinal, é alguém em quem eu confio mais do que em metade de um conselho élfico. Se você aparecesse oferecendo a si mesmo como marido de alguma princesa dos bosques, o Conselho inteiro ia rir da sua cara, e eu junto.”


Na mesma hora, ele soltou o ar num meio suspiro e meio riso.


“Isso é… reconfortante, de certa forma.” Zao Tian disse.


“Para você, mas a ideia de casamento continua.” Nallrian insistiu: “Pode ser um dos filhos de algum clã importante humano, no futuro. Pode ser alguém da linha de algum general que eles respeitem. Pode ser, um dia, alguém da sua própria casa, se assim for decidido. Mas não agora. Os bosques não tomam decisões tão grandes assim em cima de crianças pequenas.”


Ele sentiu um incômodo específico atravessar o peito quando ela falou em “alguém da sua casa”. A imagem de Moira, de Zao Rei, de qualquer possível criança futura, tudo misturado, passou rápido demais.


“Então, pra resumir.” Zao Tian disse: “Reféns não. Casamento, talvez. Conselho dividido entre fé antiga em Gold e raiva. Povo desconfiado, mas não inimigo. E eu no meio, com uma oferta que ainda nem sei como montar.”


“Você está resumindo bem.” Nallrian avaliou, e brincou logo em seguida: “Você até que não um completo idiota.”


“Isso é elogio ou diagnóstico intermediário?” Ele perguntou.


“Elogio.” Ela respondeu, agora séria: “Eu apenas estou te preparando para a forma como eles vão te tratar.”


O silêncio caiu por alguns segundos.


O vento bateu, levantando um pouco do cabelo dela e do manto dele; lá embaixo, o treino das crianças continuava, alguns gritos de esforço, risadas breves, como se o mundo estivesse tentando lembrar que ainda sabia ser normal em algumas partes.


“Você acha que vale a pena tentar?” Zao Tian perguntou, por fim.


Nallrian não respondeu de imediato.


Ela olhou para o horizonte, como se enxergasse, por trás das montanhas, os bosques de suas terras, os troncos retorcidos, as cidades que somente os elfos conheciam direito.


“Meu povo…” Ela disse, devagar: “Vive há muito tempo fingindo que o resto do universo é só um barulho do lado de fora. Mas agora, o som de vocês começou a atravessar as paredes. O Olho mexeu com as estruturas. Os deuses mexeram com os telhados. Se continuarmos fingindo que tudo é só vento, um dia vamos acordar com a casa em chamas.”


Ela então virou-se para ele, agora com um brilho de decisão no olhar.


“Vale a pena tentar.” Nallrian respondeu: “Porque, se der certo, pela primeira vez em muito tempo, teremos algo que não é só um “tratado entre raças”, mas uma rede de mundos que sabem pra onde apontar a lâmina quando a próxima coisa grande aparecer.”


“E se der errado?” Ele perguntou.


“Se der errado…” Ela devolveu: “É só mais uma coisa pra colocar na longa lista de decisões idiotas que o universo já tomou. Mas, pelo menos, essa seria uma decisão idiota feita por gente querendo paz, não por seres querendo jogar.”


Zao Tian coçou a cabeça, de novo.


“Casamento.” Ele repetiu, como se o peso da palavra fosse diferente de “refém”, mas não menos complicado: “Reféns. Tratados. Reuniões. Conselhos. Eu comecei a guerra achando que ia matar inimigos até tudo se resolver. Acabou que o pior vem depois.”


“Bem-vindo à parte adulta da história.” Nallrian comentou: “Onde não dá pra resolver tudo no soco.”


Ele deu um meio sorriso cansado.


“Eu ainda prefiro o soco.” Ele confessou.


“Eu também.” Ela concordou, rindo: “Mas o soco não impediu o Olho de nascer. Talvez agora a gente tente algo diferente.”


Zao Tian ficou quieto, olhando o Vale mais uma vez lá embaixo.


Reforços nas muralhas.


Crianças treinando.


Velhos descansando.


No alto, tratados sendo pensados, reféns sendo preparados, casamentos sendo sugeridos.


A paz, ele percebeu, custava tanto quanto a guerra.


Só que, em vez de cobrar sangue na hora, ela cobrava família, tempo, confiança, noites sem dormir, decisões que nunca pareciam “justas” para todo mundo.


“Obrigado, Nallrian.” Ele disse, por fim: “Você me deu mais trabalho do que eu tinha ontem.”


“É pra isso que servem os generais.” Ela respondeu, inclinando levemente a cabeça: “Nós tiramos a ilusão dos líderes.”


Ele riu, baixo, pela primeira vez em horas.


“Quando chegar a hora…” Zao Tian acrescentou: “Você vai comigo?”


“Se o mestre Chihuo permitir…” Ela respondeu: “Eu vou.”


Eles trocaram um último olhar de compreensão silenciosa. Depois, Nallrian se afastou da sacada, deixando-o sozinho com o vento e com os próximos passos.


Lá embaixo, o Vale da Esperança seguia vivo.


Lá em cima, Zao Tian começava a entender que a parte mais difícil de ter vencido a guerra… era não deixar que o mundo estourasse nas costuras enquanto tentava aprender a ter paz.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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