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Capítulo UHL 1121 - Bando de Loucos

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Tenham uma boa leitura!]


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Durante alguns dias depois da conversa com Nallrian, a cabeça de Zao Tian virou um mapa de problemas que não tinham forma de inimigo.


Ele sabia como lidar com marchas, deuses, organizações secretas e exércitos inteiros. Mas, agora, a paz começava a ser cobrada em moedas que ele nunca tinha usado: tratados, reféns, alianças… e, pra piorar, casamentos políticos com elfos.


Ele passou esse tempo entre relatórios, ajustes nas defesas do Vale e mensagens trocadas com Uhr’Gal e os krovackianos, enquanto a sugestão de Nallrian batia e voltava na mente como uma gota insistente: “Casamento.”


Quando finalmente aceitou que não ia conseguir carregar aquilo sozinho, pelo menos não sem enlouquecer, ele mandou recado para todos os seus amigos.


Nada de uma grande assembleia solene, nada de trono. Só um chamado simples:


“Juntem-se comigo. Preciso de ideias… ou, pelo menos, de alguém pra rir junto dos meus problemas.”


Foi assim que, em uma sala menor do Vale, com uma mesa comprida, copos espalhados e mapas nas paredes, todo o grupo se reuniu.


A reunião que ele convocou não parecia uma reunião. Parecia mais uma mesa de amigos que tinham esquecido por cinco minutos que podiam explodir planetas.


Zao Tian estava na ponta, apoiado na mesa com as duas mãos, como quem tinha algo importante para dizer… e, ao mesmo tempo, parecia querer sair correndo dali.


À volta dele, havia um caos organizado:


Ming Xiao à esquerda, com a postura de rei até sentado e expressão curiosa, mas calma.


Ming Xue ao lado dele, de braços cruzados, encarando o marido com aquele olhar de “vamos ver que problema você arrumou agora”.


Gu Ren largado na cadeira, com as pernas esticadas e a lança encostada na parede.


Cruz e Shara’Kala lado a lado: ele meio esparramado, ela ereta e tensa, como uma montanha prestes a cair em cima de alguém.


Ye Yang, sentado com uma elegância irritante e mãos unidas sobre a mesa.


Kyon e Ryuuji dividindo um banco. Kyon estava com o sorriso pronto, Ryuuji mexendo na bainha da espada só pra ter o que fazer com as mãos.


Hildeval estava sério, na outra ponta, como se estivesse numa sessão de estratégia.


Singrid, dois lugares depois, de braços cruzados também, mas com os olhos atentos.


Ragnar estava com os pés esticados, ocupando duas cadeiras.


Joster, quase em pé, estava mais falante do que deveria.


Jaha e Gins estavam lado a lado: um pronto pra falar demais, o outro pronto para conter o irmão.


Shara’Kala, além de tudo, ainda ocupava a sala com a presença orc, com músculos, cicatrizes e um olhar pronto para transformar qualquer piada errada em morte.


Era o público perfeito para uma notícia diplomática muito complicada.


Ou não.


Foi nesse momento que Zao Tian limpou a garganta.


“Obrigado por terem vindo.” Ele começou.


Gu Ren comentou: “Você mandou um amuleto dizendo ‘tragam todos, vai ser rápido’. E isso nunca é um bom sinal.”


“Eu vim porque ouvi a palavra ‘rápido’.” Joster comentou: “Achei que era comida.”


“Se você comesse mais.” Singrid murmurou: “Talvez parasse de falar tanto.”


“Ela me ama.” Joster confidenciou a ninguém em particular.


Zao Tian respirou fundo, para começar.


“Eu conversei com Nallrian há alguns dias.” Ele disse, indo direto ao ponto.


A mesa ficou um pouco mais atenta.


“Sobre os elfos?” Ye Yang perguntou.


“Sobre os elfos.” Zao Tian confirmou: “Sobre a possibilidade deles entrarem em algum tipo de acordo de paz que converse com o tratado que estamos tentando puxar com orcs e krovackianos.”


Houve alguns murmúrios. Kyon assobiou baixo.


“Você não sabe descansar mesmo, né?” Ele comentou.


“Não.” Zao Tian respondeu.


“E?” Ming Xiao perguntou: “Qual é a posição deles?”


“A posição élfica padrão.” Zao Tian resumiu: “Desconfiança, lembranças ruins, raiva e um fio de curiosidade. Eles veneram Gold, ainda. Vão ver em mim um presságio e, ao mesmo tempo, vão querer saber por que eu demorei milhões de anos pra bater na porta.”


“É justo.” Gins comentou.


“Mas não é aí que começa a complicar.” Zao Tian continuou: “O problema é que a base do tratado com orcs e krovackianos é a troca de reféns. E pros elfos, isso é praticamente uma ofensa.”


“Como assim?” Ryuuji perguntou.


“Eles já fizeram isso antes.” Zao Tian explicou: “Deram reféns para deuses e impérios. Nunca deu certo. Tudo virou história de terror para crianças. Se eu aparecer pedindo filhos de sangue deles pra viver sob guarda humana, eles vão ouvir ‘escravo de luxo’.”


“Eles não estão errados.” Shara’Kala murmurou, cruzando os braços.


“Então o que eles sugeriram?” Hildeval perguntou, pragmático.


Zao Tian fez uma pausa e olhou pra mesa.


Naquele momento, ele sentiu que aquela era a hora em que a seriedade do universo ia se encontrar com a infantilidade do grupo.


“Casamento.” Ele disse.


Silêncio.


Um segundo.


Dois.


Três.


“Como é?” Gu Ren soltou, primeiro, com um sorriso abrindo.


“Casamento.” Zao Tian repetiu, com a cabeça quase pegando fogo: “Entre raças. Entre linhagens. Entre nomes. Um casamento político entre elfos e humanos para amarrar o acordo.”


A mesa explodiu na hora.


“HA!” Gu Ren deu um tapa na mesa: “Eu sabia que uma hora alguém ia pagar com uma aliança no dedo!”


“Isso não é pagamento, é uma sentença.” Jaha opinou: “Dependendo da pessoa, claro.”


Ming Xue apenas suspirou, mas o canto da boca dela já estava tremendo de riso.


“Calma.” Ye Yang interveio, com um tom ainda sério: “Você está dizendo que, para os elfos, casamento vale mais que reféns!?”


“Para eles, sim.” Zao Tian respondeu: “Casamento é um pacto de raiz. Se um cai, o outro cai junto. Se um é desonrado, o outro é desonrado. Eles levam isso muito mais a sério do que a maior parte dos humanos que eu conheço.”


“É porque nunca viram o Joster tentando flertar.” Singrid resmungou.


“Ei!” Joster protestou: “Eu sou um ótimo…”


Um olhar dela bastou para que ele mudasse a frase.


“Eu sou um ótimo sobrevivente.” Ele corrigiu.


Risos leves correram.


Foi então que Cruz abriu a boca pela primeira vez, com aquela voz que sempre parecia meio distraída, meio em outro plano.


“Só pra entender…” Ele começou, olhando pro nada, como se estivesse falando com o teto: “Esse tal casamento… seria com alguém do Conselho? De uma grande família? Ou seria uma coisa… sei lá… simbólica?”


Shara’Kala virou um pouco a cabeça na direção dele, estreitando os olhos.


ELa não estava gostando muito daquela conversa.


Cruz, na mesma hora, ajeitou o corpo, de forma teatral.


“Não que eu esteja interessado.” Ele acrescentou, rápido: “Eu só quero entender as regras do jogo. Logística. Estratégia. Essas coisas.”


Enquanto Shara’Kala o encarava, ele parecia o retrato da neutralidade, um verdadeiro santo.


Contudo, assim que ela virou os olhos de volta para Zao Tian… Cruz ergueu discretamente as duas mãos e ficou apontando pra si mesmo com os polegares, várias vezes, com uma cara de “eu, eu, eu”.


Kyon teve que segurar a risada.


Zao Tian quase engasgou.


“Eu… ainda não sei detalhes.” Ele respondeu, tentando manter a compostura: “Nallrian falou em alguém de peso, no futuro. Um filho de alguma grande casa. Talvez alguém ligado a uma das linhas principais humanas. Não agora. Eles não vão decidir algo tão grande assim rapidamente.”


“Mas você acha que… fisicamente… as elfas se parecem com ela? Com a Nallrian?” Cruz insistiu, agora com o tom mais “científico” possível: “Digo… porte, rosto… proporções gerais. Só por curiosidade acadêmica.”


Shara’Kala lentamente virou a cabeça de novo pra ele.


Os músculos no pescoço dela pularam, como se ela quisesse arrancar a cabeça dele.


Cruz sentiu, mas manteve o papel.


“Repito.” Ele disse, levantando um dedo: “Eu não tenho interesse pessoal. Estou velho demais pra me meter com diplomacia élfica. Mas vocês jovens aí…” Ele apontou genericamente na direção de Kyon, Ryuuji e Joster: “Podem estar interessados. Eu só quero ajudar a mapear o terreno.”


Enquanto falava, com Shara’Kala ainda encarando, ele gesticulava de forma ampla, como se o assunto não tivesse nada a ver com ele.


No exato segundo em que algum barulho desviou minimamente a atenção de Shara’Kala para outro lado…


Os indicadores dele voltaram a se apontar freneticamente para oo próprio peito.


“Eu, caralho. Eu.”


Ming Xue teve que desviar o olhar pra não rir na cara dele.


Zao Tian levou a mão à testa.


“Cruz…” Shara’Kala chamou, com a voz calma demais.


Ele travou.


“Sim, amor?” Ele respondeu, com a expressão mais pura do universo.


“Você está muito preocupado com ‘proporções’.” Ela observou: “Quer que eu desenhe um elfo na sua cara com o meu machado pra ver se você entende melhor?”


“Eu estou preocupado com você, meu amor.” Ele retrucou, sem piscar: “Imagina se esse tal casamento precisar de alguém que consiga entender outra cultura e, por acidente, escolhem você, Shara’Kala… Eu morreria de ciúmes. Então é melhor eu estar informado para impedir isso.”


Por um segundo, até Shara’Kala ficou sem reação.


Gu Ren bateu na mesa, gargalhando.


“Esse homem é um suicida.” Ragnar comentou, balançando a cabeça.


Shara’Kala, no entanto, respirou fundo, lentamente, depois se recostou na cadeira.


“Os elfos são magros demais.” Ela resmungou: “Parece que vão quebrar se baterem num escudo.”


“Ah, sim, claro.” Cruz concordou na hora, colocando a mão no peito, teatralmente concordando e até sentido nojo: “Horrível. Certamente eu teria nojo de uma raça inteira esguia, com curvas elegantes, cabelos loiros e de rostos harmoniosos. Seria um tormento.”


Shara’Kala apenas estreitou os olhos.


E ele sentiu.


Na mesma hora, Cruz virou a cara pro lado, exagerando no teatro:


“Só de imaginar.” Cruz prosseguiu: “Já me dá vontade de vomitar.”


Ele fez até uma menção de segurar a boca, totalmente dramática.


Kyon afundou o rosto nas mãos.


Ryuuji estava quase caindo do banco.


Zao Tian começou a rir.


Não foi um sorriso contido, nem um riso curto.


Ele riu mesmo.


Uma risada forte, limpa, que tirou por alguns segundos todos os pesos que estavam acumulados nas costas.


A sala inteira acabou rindo junto, não só da cena, mas do alívio de ver aquele homem, que vinha carregando números de mortos e tratados na cabeça, rir como alguém normal.


“Eu não sei se você merece viver.” Shara’Kala resmungou, mas o canto da boca dela também estava traindo o humor.


“Ele merece.” Ming Xue comentou, divertida: “Pelo menos até a parte do casamento élfico ser resolvida. Depois conversamos.”


Joster, então, levantou a mão.


“Eu tenho uma solução.” Ele anunciou.


Singrid, ao lado, já suspirou fundo.


“Lá vem.” Ela murmurou.


“Se o problema é encontrar alguém que carregue peso e seja uma ponte entre raças…” Joster começou, estufando o peito: “Eu proponho o Gu Ren.”


“Eu?” Gu Ren apontou pra si mesmo, genuinamente surpreso. “Por quê eu?”


“Porque você é irritantemente perfeito, porra.” Joster respondeu, na maior naturalidade: “Bonito, confiável, sereno, sabe ouvir, não some bêbado no meio de um cerco… qualquer mulher, humana, orc, elfa, ou de gás… ia ser feliz com você.”


Alguns assentiram sem nem pensar.


Ryuuji: “É verdade.”


Singrid: “Eu casava fácil.”


Joster: “Você cala a boca.”


Ming Xue só escondeu um sorriso com a mão.


Cruz, por sua vez, arregalou os olhos na hora.


“Calma aí.” Ele cortou, erguendo a mão como se estivesse no meio de uma aula: “Desde quando isso é mérito?”


“Como assim, Cruz?” Zao Tian perguntou, já rindo.


“Olha para ele!” Cruz apontou para Gu Ren, indignado: “Bonito, educado, não bebe até cair, não faz merda em público, não tem vozes na cabeça, não tem crises psicóticas, não tenta comer a irmã do inimigo no meio da batalha… isso é o quê? Isso é o tipo de homem chato que dá certo em casamento!”


Gu Ren piscou, confuso.


“Obrigado…?” Ele disse, sem saber se era elogio ou ofensa.


“Não agradece.” Cruz retrucou, dramático: “Você tá estragando o mercado pra gente, seu maldito. Aí vem os elfos e começam: ‘oh, queremos alguém equilibrado, maduro, com senso de responsabilidade’... Isso não existe!”


“Mas aí… pronto. Você aparece e o resto de nós vira o quê? Enfeite de mesa!”


Gu Ren só conseguiu coçar a nuca, constrangido.


“Eu nem disse que queria.” Ele defendeu-se: “Só estava sentado aqui.”


“Esse é o problema!” Cruz apontou de novo: “Você existe!”


Ragnar gargalhou.


“Ele tem um ponto.” Ragnar comentou: “Se a diplomacia élfica vê o Gu Ren e vê a gente… a escolha é meio óbvia.”


“Além disso…” Jaha entrou na conversa, com aquele ar de quem ia jogar lenha na fogueira: “Tem um pequeno detalhe, né?”


A mesa inteira já sabia qual era o “pequeno detalhe”.


“Raya.” Singrid murmurou, com um sorriso maldoso.


Gu Ren fechou os olhos.


“Não comecem.” Ele pediu, já prevendo.


“A Leoa.” Kyon cantou, quase musical.


“A Megera de Fogo.” Ryuuji completou.


Shara’Kala soltou um rosnado divertido.


“Essa eu respeito.” Ela comentou.


Cruz, na mesma hora, se animou.


“Ah, é mesmo.” Ele falou, batendo palma de leve: “O nosso Gu Ren já tá prometido, né?”


“Eu não estou prometido a ninguém.” Gu Ren rebateu, rápido demais.


“Não adianta você dizer isso.” Joster interrompeu, muito sério: “Ela já decidiu por você, há anos.”


Ming Xiao, que tinha ficado relativamente quieto até então, não resistiu.


“Eu ainda lembro da história.” Ele comentou, com a calma de quem fala de um relatório: “Gu Ren tinha o quê? Quinze? Dezesseis?”


“Dezessete.” Gu Ren corrigiu, enfiando a cara nas mãos.


“Isso.” Ming Xiao continuou: “Dezessete anos, todo magro, sem confiança, fazendo missões simples. Raya passou, olhou pra ele, ouviu alguma frase que ela entendeu do jeito errado…”


“Não foi bem assim.” Gu Ren tentou defender.


“Ela diz até hoje.” Singrid o imitava: “‘Um dia, quando eu for forte o bastante, vou te conquistar, Leoa.’”


A mesa inteira repetiu, em coro, com vozes dramáticas:


“‘Vou te conquistar, Leoa’.”


Gu Ren afundou ainda mais.


“Eu nunca falei isso desse jeito.” Ele argumentou, desesperado: “Eu só disse que um dia queria ser forte o suficiente para lutar ao lado dela. Foi isso! A cabeça dela transformou o resto.”


“Detalhes.” Cruz dispensou com a mão: “O fato é: desde esse dia, a Megera de Fogo decidiu que você é o ‘tigrinho’ dela.”


Foi a vez de Zao Tian quase cuspir de rir.


“Tigrinho.” Ele repetiu, saboreando a palavra.


Ming Xue teve que se virar pro lado pra não rir na frente de Gu Ren. Gins, com aquele jeito quieto, só abaixou a cabeça… mas os ombros tremiam.


“Ela fala isso na frente dos outros generais.” Jaha contou, se divertindo com a memória: “Lembra, Ming Xiao? ‘Onde está o meu tigrinho branco?’ no meio do salão de reuniões.”


Ming Xiao confirmou com um aceno.


“E você ficando vermelho até a ponta da orelha.” Singrid completou.


Naquele momento, Gu Ren já tava quase implorando pro universo abrir um buraco no chão.


“Então, por favor.” Cruz levantou a voz, de novo: “Por respeito à integridade física, mental e moral de todos nós… NÃO ofereçam Gu Ren pras elfas.”


Zao Tian ergueu uma sobrancelha.


“Você tá preocupado com ele?” Ele perguntou.


“Eu tô preocupado comigo.” Cruz explicou: “Imagina a cena: o Conselho Élfico decide aceitar o acordo e olha pros humanos. Dão de cara com quem? Com o Gu Ren. Elas gostam e mandam recado: ‘queremos esse aí’. Aí a Raya fica sabendo que o tigrinho dela tá na lista de casamento diplomático…”


Ele fez um gesto com a mão, simulando uma explosão.


“BOOM. A gente ganha outra guerra cósmica em cima da hora. Elfos de um lado, a Leoa de outro, todos brigando pelo mesmo gato.”


Kyon quase caiu da cadeira.


“Pelo amor…” Gu Ren resmungou: “Eu tô só tentando existir em paz.”


“Não vai conseguir.” Ryuuji comentou, sério: “Seu destino é ser perseguido.”


“Realmente… ele é o único cara que eu conheço que pode causar um conflito inter-racial só ficando parado.” Ragnar acrescentou.


Shara’Kala grunhiu, divertida.


“Então está decidido.” Ela disse: “Gu Ren está proibido de ser oferecido a elfos. Por questões de segurança intergaláctica.”


“Concordo.” Cruz levantou a mão: “Por questões de Estado.”


“Você só concorda porque quer sobrar pra você.” Ming Xue apontou, agora sem esconder o sorriso.


“Que absurdo.” Cruz respondeu, indignado: “Eu? Me sacrificar num casamento diplomático com uma elfa de beleza absurda, delicadeza milenar e longa expectativa de vida, só pela paz do universo? Eu jamais…”


Shara’Kala virou o rosto lentamente.


Cruz trocou o tom no mesmo segundo.


“Jamais deixaria isso recair sobre mim.” Ele emendou: “Seria horrível. Trágico. Um castigo.”


Kyon engasgou de rir.


Ye Yang, que estava calado só observando, resolveu provocar também.


“Vamos organizar isso direito.” Ele sugeriu, com falsa seriedade: “Cruz pode ser enviado como emissário temporário para abrir caminho. Gu Ren fica escondido em alguma fortaleza, pra não virar disputa élfica. E Joster…”


“Eu não!” Joster disparou: “Eu já tenho um relacionamento pessoal me ameaçando todos os dias.”


Singrid estreitou os olhos.


“Ameaçando?.” Ela repetiu, entediada: “Você que tropeçou, caiu em cima da minha espada e quase se furou sozinho.”


“Ela é modesta.” Joster explicou pros outros, de forma irônica.


A mesa explodiu de novo.


Àquela altura, Zao Tian já tinha desistido de tentar manter aquilo sério. Ele ria junto, com a mão na barriga, sentindo o corpo finalmente soltar algumas tensões.


“Vocês não prestam.” Ele comentou, limpando um canto do olho.


“É pra isso que você nos mantém por perto.” Gu Ren retrucou, ainda se recompondo.


“Voltando.” Hildeval tentou trazer um pouco de ordem: “‘Casamento’ é uma carta para o futuro. Não pro agora. A questão imediata é: você não precisa decidir quem, hoje. Precisa saber se vale a pena abrir essa porta com os elfos.”


“Concordo.” Jaha acrescentou, finalmente falando: “Se você for com ‘quem’, em vez de ‘por quê’, eles vão te destruir no argumento.”


“Então, por enquanto…” Ming Xiao resumiu: “O que você tem é: tratado com orcs e krovackianos em construção, Zao Rei indo como garantia, uma possibilidade de aliança com elfos por casamento no futuro, e zero candidatos definidos. Certo?”


“Certo.” Zao Tian respondeu, exausto e rindo ao mesmo tempo: “E vocês não ajudaram em nada.”


“Discordo.” Cruz levantou o dedo de novo: “Nós ajudamos a eliminar um nome. Gu Ren está fora da lista. Já é um progresso.”


“Tá bom, é justo.” Zao Tian admitiu.


“A gente também te lembrou de uma coisa importante.” Kyon acrescentou.


“O quê?” Zao Tian perguntou.


“Que, independente da grandeza do problema…” Kyon apontou pro grupo à volta: “Você tá cercado de gente idiota o suficiente pra rir disso com você.”


Zao Tian abriu um sorriso mais sincero.


“Isso eu não esqueço.” Ele disse, profundamente agradecido.


Por alguns segundos, o clima ficou quase… leve. Só amigos, piadas, provocações. Quase dava pra fingir que eles não estavam falando de amarrar raças inteiras com casamentos e reféns.


Quase.


“Tá.” Zao Tian respirou fundo, batendo palmas uma vez, como quem precisava encerrar aquilo antes que virasse caos total: “Sem decisões hoje. Quando eu for falar com o Conselho Élfico, vou com o que Nallrian me deu: verdade, histórico, e a possibilidade de casamento lá na frente. Quem vai ser o sacrificado… a gente decide depois.”


“Eu ainda acho que devia ser…” Cruz começou, levantando-se para gesticular melhor, pronto para soltar mais uma insanidade.


Contudo, não deu tempo.


A mão de Shara’Kala desceu por baixo da mesa, num movimento rápido e muito preciso.


Ela apertou.


Forte.


Muito forte.


Cruz congelou no lugar.


Os olhos dele saltaram enquanto duas bolinhas pareciam ovos prestes a serem quebrados.


A alma dele praticamente saiu pela boca e tentou voltar.


A voz, quando veio, era um fiapo fino, agudo, que não combinava em nada com o corpo.


“Eu… e… e… nin… ning… ninguém…” Ele chiou.


Houve um silêncio por meio segundo.


E então…


A mesa inteira desabou.


Gu Ren se dobrou de rir, quase caindo da cadeira.


Ragnar bateu o pé no chão, gargalhando.


Joster já tinha se jogado para trás, segurando a barriga.


Kyon chorava de rir.


Ryuuji tentava respirar.


Hildeval, que raramente ria, estava com um canto da boca levantado e o ombro tremendo.


Ming Xiao só massageava a testa, entre divertido e resignado.


Ming Xue encostou a cabeça na mesa, rindo sem som.


Shara’Kala manteve a expressão neutra por uns três segundos… depois, também deixou escapar um sorriso de canto.


“Aprenda.” Ela murmurou, largando Cruz, que se curvou apoiado na mesa, respirando como se tivesse corrido dez campos de batalha: “Tem coisas que você não precisa insistir tanto.”


Cruz ainda falava fino quando conseguiu abrir a boca de novo:


“Eu… eu acho… que… que não sirvo pra diplomacia élfica, mesmo.” Ele disse, com a dignidade em ruínas.


“Serve, sim.” Zao Tian respondeu, limpando as lágrimas de riso: “No mínimo, como exemplo do que não fazer.”


A gargalhada final varreu a sala.


Por alguns minutos, nenhum deus, tratado, refém, clã ou casamento existiu. Só um bando de loucos que tinham sobrevivido ao fim do mundo… e estavam tentando descobrir como viver depois dele.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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