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Capítulo UHL 1123 - O Dono do Cão

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Tenham uma boa leitura!]


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Por alguns segundos depois da frase de Gold, ninguém ali sabia que algo tinha mudado.


Só viam Zao Tian deitado, respirando pesado, com os olhos arregalados pro céu de Kaos.


Por dentro, porém, Gold estava andando em círculos.


Figurativamente.


“Você olhou pro abismo… e o abismo olhou de volta.” Ele repetiu, ainda rosnando: “Parabéns, moleque. Se tivesse um campeonato de idiotice cósmica, você ganhava.”


Zao Tian tentou responder, mas a língua dele parecia pregada.


Lá fora, Hakim já estava ficando impaciente.


“Ele vai ficar assim muito tempo?” Ele perguntou, olhando para os lados, como se alguém ali tivesse um manual de instrução.


“Ele está voltando.” Daren disse, sem tirar os olhos de Zao Tian. Contudo, ao mesmo tempo, ele avisou: “Preparem-se para o que virá…”


O que ninguém além de Daren esperava veio em seguida.


O ar em volta do corpo de Zao Tian tremeu.


Não como uma energia espiritual comum… aquilo era diferente. Era como se a luz do próprio mundo tivesse sido puxada pra dentro dele, e depois cuspida de volta em um tom dourado tão intenso que até o céu pareceu recuar.


Relâmpagos dourados cintilaram sob a pele de Zao Tian por um instante… e depois saíram.


Literalmente.


A luz escorreu dele, se ergueu, e tomou forma.


Em segundos, uma figura se materializou ao lado do corpo.


O corpo era feito daquilo que só podia ser chamado de “luz condensada”, e, mesmo assim, dava a sensação de peso.


Gold.


Em pessoa, ou no que restava de uma.


O silêncio que caiu ali foi diferente de tudo.


Yan Chihuo, que segurava a borda do bloco de gelo, ergueu as sobrancelhas.


“Bom…” Ele comentou, baixo: “Isso é novo.”


Hakim ficou com a boca meio aberta por um segundo, antes de cerrá-la de novo.


Yang Hao, que já tinha visto aquela presença uma vez, ainda assim não conseguiu evitar a rigidez instantânea dos músculos. Os olhos que nunca tremiam… tremeram.


Ming Xiao sentiu o corpo arrepiar instintivamente.


Daren, por sua vez, soltou o ar pelo nariz.


“Demorou...” Ele disse.


Gold, por sua vez, nem olhou para ele.


Primeiro, Gold virou-se, encarando o semicírculo de “líderes” com um desgosto tão puro que parecia pessoal.


“Vocês.” Ele começou, com a voz espalhando-se pelo ar como algo físico: “São um bando de doentes e imbecis!”


Ninguém respondeu.


Ele, então, apontou com o queixo para o bloco de gelo.


“Eu fiquei alguns milhões de anos olhando deuses torturando gente, vendo raças sendo apagadas, aguentando esse circo de imortalidade… e aí vocês resolvem…” Ele virou-se pro chão, onde Zao Tian ainda respirava: “Meter a cara do moleque dentro da cabeça do cachorro, como se fosse uma gaveta qualquer.”


Yan Chihuo abriu a boca.


“Só pra constar…” Ele disse: “A ideia de ‘dar uma espiada’ foi dele.”


“Não me interessa, floco de neve.” Gold retrucou, sem nem virar a cabeça.


Hakim, por sua vez, pigarreou.


“Você… é Gold.” Ele começou, mas o Arcanjo cortou na hora.


“Eu sei quem eu sou, areia de gato.” Ele disse: “Não precisa anunciar.”


Depois daquele xingamento, ele então se abaixou levemente, olhando Zao Tian jogado no chão.


“Levanta, moleque.” Gold ordenou: “Ainda não é hoje que você morre de burrice.”


Zao Tian, por respeito e por reflexo, obedeceu.


Os cotovelos tremeram, mas ele conseguiu se sentar, puxando o ar como se estivesse saindo debaixo d’água. As mãos ainda estavam trêmulas.


“Você viu.” Gold disse, sem rodeios, olhando direto nos olhos dele.


Zao Tian engoliu seco.


“Vi.” Ele respondeu.


“Então repete pra esses cinco desgraçados o que você viu.” Gold mandou: “Para eu ter certeza de que você não resolveu romantizar o trauma.”


Zao Tian respirou fundo, tentando se firmar.


“Eu encostei na mente de Anúbis.” Ele começou, com a voz mais rouca: “Não havia memórias, não havia nada. Só um vazio. E, no meio dele… um olho. Azul. Gigante. Ele… reagiu. Me viu. E me olhou de volta.”


Ele passou a mão pelo rosto, como se quisesse apagar a sensação.


“Não era Anúbis.” Zao Tian concluiu: “Era outra… coisa.”


Gold assentiu, devagar.


“Agora eu falo.” Ele disse.


O ar pareceu ficar um pouco mais pesado, como se o mundo inteiro prestasse atenção.


“O que ele viu.” Gold continuou: “Foi Odin.”


O nome caiu como uma pedra.


Hakim ficou imóvel.


Yan Chihuo parou de brincar com a pedra que girava entre os dedos.


Yang Hao apertou os punhos, discretamente.


Ming Xiao sentiu um arrepio subir pelas costas.


Daren apenas fechou brevemente os olhos, como quem reencontra uma velha sombra.


“Odin.” Gold repetiu: “O maldito de caolho. O que se acha ‘pai’ disso tudo. O único, entre aquele bando de ególatra, que eu chamo pelo nome. Porque o resto… é figurante.”


Hakim, que não costumava ficar sem palavras, demorou alguns segundos para encontrar alguma.


“Você está dizendo…” Ele falou, devagar: “Que o que está ligado à mente de Anúbis… é Odin?”


“Estou dizendo...” Gold respondeu, com impaciência: “Que quando esse cachorro de chacal foi brincar de justiça sozinho, ele já tinha um do chefe enfiado na alma. Uma âncora. Um gancho. Chame como quiser. E o moleque aqui...” Ele apontou o polegar para Zao Tian: “Decidiu cutucar o defunto.”


Yan Chihuo sorriu, sem humor.


“Então, quando ele ‘bateu na porta’…” Ele disse: “Na verdade, estava batendo na janela do quarto de Odin.”


“Não.” Gold corrigiu: “Ele estava batendo na pupila.”


Yang Hao respirou fundo, devagar.


“E o estado dele?” Ele perguntou: “Odin… está acordado? Dormindo? Ou num meio termo?”


Gold o encarou como se a pergunta fosse de uma criança.


“Até ontem.” Gold respondeu: “O maldito estava em um sono “útil”. Não um cochilo. Um sono pesado, daqueles que, por algum motivo, ele tem. Metade da consciência dele estava no fundo do abismo, e a metade… parece que continuava vigiando o tabuleiro por reflexo.”


“E agora?” Ming Xiao perguntou.


Gold passou a mão pelos próprios cabelos, irritado.


“Agora ele virou na cama.” Ele rosnou: “Não acordou. Mas sentiu um cutucão. Viu um brilho diferente no meio da sujeira. Ele viu o moleque.” Depois de dizer aquilo, ele apontou para si mesmo e continuou: “E viu… mais alguém ligado ao moleque.”


Hakim fechou os olhos por um instante.


“Isso é… ruim.” Ele constatou.


“Isso é uma merda completa.” Gold corrigiu: “Porque, até hoje de manhã, eu ainda trabalhava com a ideia de que vocês tinham tempo.”


Ele começou a andar, impaciente, com a luz chacoalhando com cada passo.


“Quando essa guerra começou na cabeça de vocês…” Ele foi dizendo: “Antes do daqueles três birutas e de quando os deuses desceram até Decarius… eu calculei. Eles iam apanhar, perder alguns nomes, se recolher pro Reino Divino, mijar em círculo, brigar entre si, e só depois de décadas, talvez séculos, o maldito ia levantar pra ver pessoalmente o que sobrou.”


Ele então parou, virando-se para o grupo com uma raiva que não dava e ele nem queria esconder.


“Vocês…” Ele apontou: “Em frações de segundos, jogaram esse relógio pela janela.”


Daren, conhecendo Gold, cruzou os braços.


“O que mudamos, exatamente?” Ele perguntou, sem se ofender: “Além de deixar o velho saber que algo aqui embaixo não é totalmente dele?”


Gold bufou.


“Você é o único pedaço de merda aqui que eu tolero, então presta atenção.” Ele disse, encarando Daren: “O plano, até ontem, era deixar os deuses sangrarem pelas próprias brigas, fazer vocês crescerem na sombra, treinarem gerações, erguerem defesas, arrumarem meia dúzia de monstros novos pra bancar a linha de frente… E, só depois, quando Odin finalmente tirasse o cu do trono, vocês estariam… não prontos, mas menos patéticos.”


Ele ergueu a mão, mostrando dois dedos.


“Agora, com o moleque enfiando a cara na mente do cachorro…” Ele continuou: “Vocês economizaram para Odin uns bons anos de curiosidade. Ele deve estar tentando acordar agora mesmo, porque ele já sentiu, direto, que tem coisa diferente aqui. Que as crias dele estão merda. E que, pior ainda… eu não estou morto.”


Ming Xiao apertou os lábios, absorvendo.


“Você acha mesmo que ele vai acordar agora?” O rei perguntou: “Ou…?”


“Ele não vai pular da cama amanhã.” Gold respondeu: “Mas esqueçam as décadas. Esqueçam o ‘temos tempo’. Agora é uma questão de quanto tempo ele levará para abrir os olhos e intervir, pessoalmente. E, quando isso acontecer… nenhum de vocês vai segurar.”


Yang Hao estreitou os olhos.


“Nem você?” Ele perguntou.


Gold deu uma risada seca e estressada.


“Eu?” Ele disse: “Quando eu tinha corpo, garoto, eu poderia fazer alguma coisa a respeito. Acordando ou não, a coisa ía estar feia para o lado dele. Mas hoje…” O olhar dele ficou mais duro: “Hoje eu estou enfiado dentro do corpo molenga desse moleque, sem nove décimos do que eu era. Se Odin levantar inteiro, em pleno, e decidir olhar pra cá com as duas mãos livres… todos vocês morrem. O moleque, o reizinho bombado, o areia de gato, o palito de fósforo, o floco de neve, o cara pálida….”


Enquanto Gold apontava para cada um e dava seus apelido ‘carinhosos’, Hakim levantou uma sobrancelha.


“Areia de gato?” Ele repetiu.


“Você tem cara de areia mijada.” Gold disse: “Vai ser assim até morrer.”


Yan Chihuo riu pelo nariz.


“Floco de neve?” Ele perguntou.


“Você é basicamente uma brisa gelada.” Gold retrucou: “Não vou gastar criatividade com você.”


Yang Hao continuou como se não tivesse sido chamado de palito de fósforo.


“Então estamos…” Ele procurou a palavra: “Adiantados demais.”


“Vocês pularam de fase.” Gold resumiu: “Entraram no chefe final sem pegar todos os itens. Ainda falta gente. Falta preparo. Faltam mundos. Falta vocês entenderem que essa guerra vai ser travada no mapa inteiro, não só em Decarius.”


Daren o encarou com calma.


“E, ainda assim, estamos aqui.” Ele disse: “Vivos. Com Anúbis preso. Com o Olho caído. Com a Trindade mancando. Não é nada?”


Gold suspirou, olhando para ele de um jeito que, em qualquer outro, seria respeito aberto.


“É muita coisa.” Ele admitiu: “Para um bando de macacos que vivem menos que um bocejo meu, vocês fizeram algum estrago.”


Então, a voz dele voltou a ser dura:


“Mas é pouca coisa pro tamanho do problema que vocês cutucaram. Entenda: vocês conseguiram o direito de jogar a próxima partida. Mas quem escolhe as peças do outro lado… acordou.”


Hakim coçou o nariz, pensativo.


“Você disse que ele ‘não acordou totalmente’.” Ele pontuou: “Temos alguma ideia de quanto tempo esse olho demora pra levantar o resto?”


Gold fez uma cara de nojo.


“Você quer que eu te dê uma data?” Ele ironizou: “‘Odin acordará em doze anos, três meses e sete dias, por favor preparem o cafezinho’?”


“Ninguém pediu precisão.” Ming Xiao rebateu, com calma: “Mas se vamos jogar fora a ideia de “décadas”, precisamos de alguma noção.”


Gold olhou pro horizonte morto de Kaos, como se ouvisse outra coisa.


“Se nada mais cutucar ele…” O Arcanjo acabou dizendo: “Talvez ainda tenhamos alguns anos. Cinco. Dez, dependendo de quando ele foi dormir. Mas se vocês fizerem mais merdas, se algum deus desesperado tentar outra gracinha, se alguém resolver acender um clarão idiota no Reino Divino… isso cai.”


“E quando cair…” Zao Tian murmurou, finalmente achando a própria voz: “Quando Odin decidir levantar… o que acontece?”


Gold virou o rosto de volta pra ele.


“Quando Odin levantar de verdade.” Ele respondeu, simples: “Tudo muda. Não vai ser mais ‘ataque a Decarius’, ‘ataque a Gard’, ‘ataque a um mundo específico’. Vai ser ‘vamos ver quantos desses brinquedos mortais quebram se eu bater a mão na mesa’. E, nesse dia, vocês vão descobrir o que é ver um deus fazendo o próprio trabalho sem intermediário.”


O silêncio que veio depois não tinha vento, nem gelo, nem nada.


Só o peso de uma ideia.


Yan Chihuo foi o primeiro a respirar fundo de novo.


“Então, basicamente.” Ele resumiu: “Ainda não estamos prontos… e, ao mesmo tempo, não temos mais tempo pra ficar prontos.”


“Exatamente, floco de neve.” Gold confirmou: “Vocês estão naquela linha bonita entre ‘é cedo demais’ e ‘é tarde demais’. Parabéns.”


Hakim cruzou os braços.


“Você veio aqui só pra xingar e dizer que vamos morrer mais cedo?” Ele perguntou: “Ou tem algo útil para acrescentar?”


Gold o encarou com tédio.


“Primeiro, xingar vocês é a coisa mais útil que vocês merecem que seja feito.” Ele disse: “Segundo, eu vim porque, se eu não puxo o moleque de volta, ele tinha se perdido naquela porra de olho. Terceiro…”


Ele inspirou o ar seco de Kaos, como se precisasse disso.


“Terceiro: agora que vocês aceleraram o relógio, vamos ter que acelerar tudo junto.” Ele declarou: “Tratado com orcs? Não é mais uma ‘ideia bonita’, é obrigatório. Krovackianos? Mesma coisa. Elfos? Vão ter que enfiar esse papo de casamento na garganta de alguém mais cedo. Cada mundo que vocês não trouxerem pro lado de vocês agora… vai ser um mundo que Odin vai usar de degrau depois.”


Ming Xiao assentiu, devagar.


“Você fala como se fosse lutar com a gente.” Ele observou.


Gold deu de ombros.


“Eu tô preso no moleque.” Ele respondeu: “Se ele morrer, eu fico com ele. Não tenho muito pra onde ir. Então, sim, filhote de macaco anabolizado, eu tô no barco de vocês. Que merda, né?”


Quando escutou aquilo, os cantos da boca de Hakim puxaram pra cima, apesar de tudo.


“Pelo menos é um barco divertido.” Ele comentou.


“Vai ser divertido até o primeiro mundo evaporar.” Gold retrucou: “Aí eu quero ver quem vai rir.”


Daren respirou fundo, pesado.


“Você sempre falou como se Odin fosse uma força que nem eu consigo medir.” Ele disse: “É isso mesmo?”


Gold não hesitou.


“É.” Ele respondeu: “Você é forte o suficiente pra bater de frente com qualquer um desses deuses que vocês viram. Alguns você derruba. Outros você empurra. Com um certo alguém, você resiste. Com Odin… você serve de aquecimento.”


Daren foi bastante diminuído naquela explicação, mas conhecendo a sinceridade de Gold, ele não se ofendeu.


“Mas você conseguiu.” Daren apontou: “Você já lutou contra ele. E… venceu.”


Os outros ficaram quietos.


Era a pergunta que estava pairando desde que o nome “Odin” tinha caído ali.


Gold virou o rosto devagar, encarando Daren.


“Venci?” Ele repetiu, com um meio sorriso sem humor: “Isso é uma palavra forte demais pra você usar de forma tão leve.”


Daren, por sua vez, sustentou o olhar.


“Você está vivo.” Ele argumentou: “Ele não está aqui. Alguém apanhou mais.”


Gold riu. Foi um som estranho, irritado e, ainda assim, orgulhoso.


“Eu sou eu.” Ele respondeu, como se aquilo fosse explicação o suficiente: “E isso sempre foi o problema.”


Hakim ergueu um canto da boca.


“Você fala como se não fosse um de nós.” Ele comentou.


Gold virou a cabeça na direção dele.


“Eu sou humano, areia de gato.” Ele disse: “Sempre fui. Do começo ao fim. Só que eu fui a versão que subiu tudo que dava pra subir. E depois mais um pouco. Aqueles lixos brilhantes lá em cima já nasceram melhor do que você, e com menos regras e mais ego.”


Enquanto falava, Gold estalou os dedos, irritado.


“Eu cheguei num nível que ninguém devia ter chegado.” Gold continuou: “Nem deus, nem mortal. Entende isso? Eu não me comparei a eles. Eles é que passaram eras tentando se comparar a mim.”


Yan Chihuo, ao escutar algo assim sair da boca de uma pessoa, assobiou baixo.


“Modesto.” Ele murmurou.


“Realista.” Gold retrucou: “Se algum dia um de vocês chegar onde eu cheguei, eu venho aqui, dou parabéns, chamo de senhor e vou embora. Mas isso não vai acontecer!”


Ming Xiao, já conhecendo aquela personalidade, manteve a postura, mas a curiosidade bateu.


“Então, naquela época…” Ele começou: “Quando você e Odin lutaram… como você conseguiu derrubá-lo?”


Os olhos negros de Gold gelaram.


Por alguns instantes, ele ficou em silêncio.


A luz em volta dele diminuiu um tom; não de fraqueza, mas de concentração.


“Essa história.” Ele disse, por fim: “Ficou no passado.”


Yang Hao apertou um pouco os dedos.


“Você não confia em nós?” Ele perguntou.


Gold soltou uma risada curta.


“Eu não devo satisfação para nenhum de vocês.” Ele respondeu, sem misericórdia: “Não devo relatório, não devo cronologia, não devo nada. Eu fiz o que tinha que fazer quando ninguém mais podia sequer respirar perto daquela luta. Ponto.”


Zao Tian, ainda sentado, tentou insistir.


“Se soubéssemos como você fez…” Ele começou: “Talvez pudéssemos…”


“Não.” Gold cortou, irritado: “Vocês não poderiam.”


Ele encarou Zao Tian com a dureza típica de seus treinamentos e correções, mas sem ódio.


“Mesmo que eu contasse.” Gold explicou: “Mesmo que eu desenhasse cada movimento, cada truque, cada erro, cada acerto… o que é que vocês iam fazer com isso? Nada. Vocês não têm o corpo que eu tinha. Não têm a base que eu construí. Não têm o tempo que eu gastei. Não têm nem o ódio que eu tinha!”


Depois de dizer aquilo, ele esfregou o maxilar, irritado.


“A luta com Odin foi entre ele e eu.” Gold continuou: “Naquele tempo. Naquele cenário. Com poderes, leis e consequências que vocês não têm como reproduzir. Vocês querem um manual. Mas isso ele não existe!.”


Daren respirou fundo, sem insistir.


“Então só nos resta…” Ele disse, devagar: “Correr atrás.”


“Agora você finalmente falou algo que presta.” Gold respondeu: “É isso. Correr. Treinar. Juntar gente. Prender menos a cabeça no que eu fiz e mais no que vocês podem fazer.”


Hakim suspirou, passando a mão pelo cabelo.


“Então, pra resumir.” Ele disse: “Você é um humano que passou do limite de tudo, bateu num deus que a gente não consegue nem imaginar, perdeu o corpo não sabemos como, está preso dentro do cabeça de um moleque… e, mesmo assim, acha que não é suficiente contra o mesmo deus, se ele acordar.”


Gold concordou, sem drama.


“É.” Ele respondeu: “Essa é a parte divertida.”


“Divertida como?” Yan Chihuo perguntou.


“Divertida pra ele.” Gold explicou, apontando pro céu: “Não para vocês.”


“O que você está nos dizendo…” Ming Xiao organizou: “É que saber como você venceu Odin… não nos ajuda a vencer Odin. Pelo menos, não agora.”


“Finalmente, usando o cérebro.” Gold disse: “Se vocês sobreviverem o suficiente, se juntarem mundos, se criarem monstros novos, se esse moleque aqui não morrer antes de aprender metade do que eu tenho enterrado nele… talvez eu conte. Aí, talvez, uma fagulha de alguma coisa sirva.”


Depois de dizer aquilo, ele prontamente levantou a mão, interrompendo qualquer reação.


“Mas por enquanto…” Gold concluiu: “Essa história fica onde está. No passado. Eu não vou abrir essa ferida para um bando de gente que ainda nem sabe garantir o próprio futuro.”


Silêncio.


O vento de Kaos voltou a soprar, como se lembrasse que o mundo ainda existia.


Zao Tian, com a respiração enfim mais estável, assentiu devagar.


“Entendi.” Ele disse.


Gold o encarou.


“Entendeu nada, moleque.” Ele corrigiu: “Você só aceitou, que é diferente. Mas já é um começo.”


“Então gravem isso na cabeça.” Gold falou, olhando um por um: “O que eu fiz com Odin não é uma receita. É um passado e um aviso. Ele existe. Ele levanta. Ele destrói. Eu derrubei ele uma vez porque eu era eu, no meu auge!” 


“A não ser que um de vocês chegue lá… vão ter que achar outro jeito de vencer...”


Hakim, dessa vez, assentiu, sério, sem ironia.


“Outro jeito.” Ele repetiu.


“É.” Gold confirmou.


Depois, ele lançou um último olhar ao bloco de gelo de Anúbis.


“O cachorro aí ainda é um problema.” Ele disse: “Mas perto do que vem depois, ele é só um estagiário que errou a mão.”


Gold se virou para Zao Tian.


“Resumindo, para vocês não dizerem que eu não ajudei.” Ele falou, enquanto se desfazia: “Odin existe. Odin sentiu vocês. Odin vai acordar mais cedo por causa da burrice de hoje. Vocês não têm como ganhar dele agora. Mas têm como não perder tudo de uma vez. Então corram.”


Os olhos dele apagaram aos poucos, mas a voz ainda veio, ecoando na mente de Zao Tian, no último instante, antes de sumir de vista:


“E, pelo amor de tudo que eu odeio…” Gold rosnou: “Para de cutucar a porra do abismo.”


A luz então se contraiu num único ponto e voltou a entrar em Zao Tian como um sopro ao contrário.


O silêncio caiu de novo.


Yan Chihuo foi o primeiro a soltar um assobio baixo.


“Bom.” Ele comentou: “Eu ia sugerir que a gente descansasse um pouco… mas, depois dessa, acho que vou ali treinar até cair.”


Hakim riu sem humor.


“É.” Ele concordou: “Bem-vindos à parte em que nem os monstros da nossa história chegam no chefe final.”


Ming Xiao olhou para o gelo, depois para os outros.


“Então.” Ele disse: “Matamos o cachorro. E, enquanto isso, nos preparamos para o dono.”


Ninguém discordou.


Zao Tian, por sua vez, ainda sentia a alma tremendo. Contudo, por cima do medo, havia outra coisa…


Urgência. E um fio de teimosia que nem Gold e nem olho azul algum conseguiam apagar.





O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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