Capítulo UHL 1129 - Crianças
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Após as informações que foram reveladas acidentalmente por Anúbis, os dias seguintes, no Vale da Esperança, não foram normais.
Zao Tian não explodiu, não gritou, não quebrou nada.
Ele só… nunca desligava.
Zao Tian descansava pouco. E quando tentava parar, ele logo saía do quarto, parava no centro do Vale e ficava olhando pro céu como se estivesse esperando alguma coisa romper o tecido da realidade a qualquer segundo.
Todos os dias, ele trabalhava.
Reforçava matrizes, corrigia defesas, checava rotas de evacuação que ninguém nunca tinha cogitado precisar. Passava horas parado num ponto só, com a mente espalhada pelo planeta, sentindo fluxos de energia espiritual como quem procura uma rachadura no casco de um navio afundando.
Por fora, ele parecia apenas focado.
Por dentro, era outro assunto.
Na cabeça de Zao Tian, o cálculo não parava: se o Sábio fosse mesmo quem Hakim temia, se o “rebanho” ainda existisse, se os deuses estivessem enchendo o tanque… então o tempo que eles achavam ter era uma piada. A linha entre “ainda dá pra lutar” e “já acabou e ninguém avisou” parecia se mexer toda vez que ele respirava.
Essa tensão começou em Zao Tian… mas não ficou nele.
Os cultivadores perceberam primeiro. Era fácil notar que, em qualquer reunião, metade da atenção de Zao Tian estava presente… e a outra metade estava atravessada no horizonte, farejando problemas que ninguém mais sentia.
Depois, os sem cultivo começaram a perceber também.
As crianças do Vale da Esperança, que antes apontavam quando ele passava e cochichavam como se ele fosse uma lenda viva, agora cochichavam de outro jeito:
“Ele tá… com medo?”
“Se ele tá assim, o que sobra pra gente?”
Até o cidadão mais comum, que não fazia ideia do que era um Aasimar, um Sábio ou um panteão em pânico, entendia pelo instinto. Porque, quando o pilar treme, ninguém dorme tranquilo.
Aquele clima começou a azedar o humor da população.
As piadas ficaram mais raras. Os treinos, mais silenciosos. Até os que tinham uma fé cega no absurdo ficavam olhando para os próprios punhos e pensando se aquilo era mesmo suficiente contra deuses.
Quando isso começou a pesar no Vale inteiro, o grupo de Zao Tian decidiu que já bastava.
Era necessário fazer algum tipo de intervenção.
Não seria uma intervenção formal... mas também não seria um encontro casual.
Numa noite em que o céu estava limpo demais para o gosto de qualquer um ali, Cruz, Ming Xue, Ming Xiao, Joster, Kyon, Gins, Jaha, Ryuuji, Hildeval, Ragnar, Singrid, Ye Yang, Gu Ren e Shara’Kala se reuniram num dos salões que servia de sala de estratégia, sala de reunião e, quando necessário, sala de desabafo.
Zao Tian já estava lá, com mapas e projeções espalhadas sobre a mesa, revisando pela milésima vez coisas que ele mesmo tinha desenhado.
“Se a barreira externa falhar aqui…” Ele começou, falando sozinho.
“Ela não vai falhar.” Cruz cortou, sentando sem ser convidado: “Porque você já reforçou essa porcaria três vezes.”
Zao Tian ergueu os olhos.
“Redundância não é problema.” Ele rebateu: “O problema é pensar que…”
“Que vai tudo explodir amanhã.” Ming Xue completou, sentando do outro lado: “É o que você está achando, não é?!”
Ele não respondeu.
Ryuuji encostou na parede, com os braços cruzados.
“Você anda olhando para o céu como se esperasse que ele fosse cair a qualquer momento.” Ryuuji comentou: “Isso está deixando até os sem cultivo inquietos. E não é nada bom.”
Jaha confirmou com um aceno.
“Alguns soldados perguntaram se já deviam dizer adeus pros filhos.” Jaha contou, com sinceridade: “Só porque viram você dando voltas de madrugada.”
Zao Tian apertou os lábios, querendo se justificar.
“Talvez seja melhor que se preparem para o pior.” Ele respondeu: “Se o Sábio for quem Hakim pensa…”
“Mesmo que seja, não vai ser o fim do mundo hoje à noite.” Gins falou, largando o corpo numa cadeira: “Se fosse, você já teria sentido.”
Gu Ren, mais calado, completou: “E, se você quebrar agora, a linha da frente quebra junto. É simples. Você pode não querer, mas o moral da população está ligado ao seu humor.”
Hildeval olhava para Zao Tian com a mesma expressão que tinha usado quando o viu pela primeira vez: analisando fissuras.
“Você está em estado de hiper alerta.” Hildeval disse: “Nenhum sistema aguenta isso por muito tempo. Nem corpo, nem mente, nem exército. Essa é uma resposta de curto prazo para ameaças imediatas. Não para uma guerra longa.”
Zao Tian respirou fundo.
“Vocês não entenderam o que Hakim disse.” Ele começou: “Se o Sábio ainda está vivo, se os Aasimares ainda estão sendo gerados, os deuses podem estar crescendo numa curva que…”
“Curva você acerta com tempo.” Kyon interrompeu, com um meio sorriso que não escondia o foco nos olhos: “O que a gente não acerta é um comandante que decidiu que já perdeu antes da luta começar.”
O silêncio que veio depois não foi hostil.
Foi um “falou e disse” coletivo.
Zao Tian fechou os punhos por um instante, depois relaxou.
“Eu não estou dizendo que já perdemos.” Ele corrigiu, baixo: “Só estou tentando calcular quantas margens de erro ainda temos. E, quanto mais eu penso, menos encontro.”
Ragnar, que vinha ouvindo em silêncio, soltou um sopro curto.
“Você é engraçado.” Ele murmurou: “Quando tem pouca força, se joga em cima do inimigo rindo. Quando começa a ter força de verdade, para e começa a perguntar se merece.”
Singrid, ao lado dele, assentiu.
“Não foi isso que deixou você famoso.” Singrid falou para Zao Tian: “Não foi esse tipo de cautela que tirou você do chão e colocou você discutindo como matar deuses.”
Antes que a conversa começasse a girar no mesmo lugar, Shara’Kala decidiu que já tinha ouvido drama suficiente.
A orc estava de pé e observava todos com aquele olhar entre o curioso e o entediado.
“Vocês reclamam como crianças.” Shara’Kala soltou, finalmente.
Cruz virou o rosto na hora.
“Crianças?” Cruz repetiu, indignado: “Eu tenho quase mil anos! Criança é você!”
O salão inteiro parou por um segundo.
Ming Xue levou a mão à testa instintivamente.
“Cruz, você acabou de chamar uma orc milenar de criança.” Ela constatou, quase rindo.
Shara’Kala arregalou levemente os olhos… e depois começou a rir. Não foi uma risadinha contida. Foi uma gargalhada aberta, alta, que ecoou nas paredes de pedra.
“Mil anos…” Ela repetiu, divertida: “Você tem mil anos e fala como se isso fosse muito...”
Cruz cruzou os braços, ainda irritado.
“É uma vida inteira.” Ele rebateu: “Quanto você acha que é, afinal? Um estagiário?”
Shara’Kala enxugava lágrimas de riso.
“Me digam uma coisa.” Ela falou, de repente séria e curiosa ao mesmo tempo: “Todos vocês aqui… têm mais ou menos essa idade?”
Ming Xiao respondeu primeiro.
“Sim.” Ele disse: “Ninguém aqui é mais de três anos mais velho ou mais novo do que o outro.”
Shara’Kala ficou um segundo só olhando para eles, como se estivesse conferindo se aquilo era alguma piada elaborada.
Depois, começou a rir de novo. E muito.
“Eu realmente achei que vocês fossem mais novos do que eu…” Ela confessou: “Mas nunca imaginei que fosse tanto.”
Agora foi a vez do grupo estranhar.
Ryuuji franziu o cenho.
“Quanto tanto?” Ele perguntou: “Você tem quantos anos você tem, afinal?”
Shara’Kala girou levemente o pescoço, como se estivesse aliviando um peso de séculos.
“Sete mil.” Ela respondeu, de forma muito simples.
O silêncio que se seguiu não teve nada a ver com medo.
Foi de puro espanto.
“Sete… mil?” Cruz repetiu, engasgando: “Você está brincando!?”
“Por que eu brincaria com isso?” Shara’Kala perguntou, sincera: “Eu precisei de cada um desses anos para chegar onde estou. Cada batalha, cada humilhação, cada derrota. Nada foi rápido. Nada foi ‘natural’.”
Depois ela apoiou as mãos sobre a mesa.
“E eu sou considerada forte.” Shara’Kala acrescentou: “Não a mais forte da minha raça, mas entre os nomes que não se apagam fácil.”
Ming Xue inclinou a cabeça.
“E os outros grandes cultivadores que você conheceu?” Ela quis saber: “Os realmente monstruosos entre os orcs, elfos, krovackianos…”
Shara’Kala pensou por um instante.
“Vargan’Zul.” Ela citou o primeiro: “Tem nove mil anos e sempre foi tratado como um prodígio absurdo. Quando ele chegou na força que vocês têm hoje… já tinha vivido pelo menos quatro vezes a idade de vocês.”
E ela continuou:
“Entre os elfos, Elyndariel, a Tecelã de Estrelas, tem onze mil anos. Levou quase oito mil para chegar onde está, e ainda hoje reclama que chegou tarde demais.”
Enquanto todos observavam atentos, Shara’Kala fez uma pausa, e agora, na sua cabeça, parecia que ela estava contando histórias para um grupo de crianças..
“Zargoth.” Shara’Kala lembrou: “Oito mil anos. Subiu degrau por degrau, derrubando adversários, até ser reconhecido. Nenhum deles fez o que vocês fizeram em pouco mais de mil.”
Depois de citar aqueles nomes ela olhou de novo para o grupo, agora com uma mistura estranha de riso e incredulidade.
“Vocês têm noção do que isso significa?” Shara’Kala perguntou.
Cruz abriu a boca.
“Significa que a gente é bom pra…”
“Silêncio, criança.” Shara’Kala cortou, ainda rindo: “Você é justamente o pior pra responder isso.”
Joster coçou a nuca.
“Honestamente?” Joster confessou: “A gente não pensa muito nisso. Tudo foi só… acontecendo.”
“É.” Kyon concordou: “Um dia eu estava fugindo de uma coisa, no outro estava lutando com ela, depois, com outra coisa maior, e depois já estava metido em guerras contra deuses. Não deu tempo de fazer aniversário direito.”
Shara’Kala respirou fundo.
“Eu passei sete mil anos olhando para gerações inteiras falhando em chegar onde vocês estão.” Ela disse: “Em muitos planetas diferentes. Vi raças inteiras orgulhosas produzirem um ou dois monstros a cada cinco mil anos. E, mesmo assim, nenhum deles estava tão novo quanto vocês quando alcançaram esse nível.”
Ela então deu um sorriso largo e orgulhoso ao mesmo tempo, mas dela, e, sim, de Cruz e seus amigos, que agora eram o seu grupo, também.
“Vocês são crianças.” Ela repetiu: “Mas crianças impossíveis. Vocês são estatísticas quebradas. Vocês não seguem a curva normal de ninguém.”
“Vocês têm alguma noção disso?”
Quando terminou, o tom dela não tinha deboche.
Era genuíno.
Ye Yang, que geralmente falava pouco, comentou: “Quando você coloca desse jeito… parece que a gente tem chance.”
Shara’Kala apontou para ele.
“Não é que parece.” Ela corrigiu: “É que vocês têm. Vocês podem sim ser capazes de vencer essa guerra contra os deuses. Porque, por mais que eu os ache barulhentos, essa geração de humanos que eu estou conhecendo é a mais talentosa entre todas as gerações, de todos os planetas, que eu já vi.”
Ela por fim olhou para Zao Tian.
“E você.” Shara’Kala declarou: “Você pegou lixo, trauma, ódio e recursos limitados… e amarrou tudo numa coisa que até os deuses estão levando a sério.”
Zao Tian ficou em silêncio.
Aquele tipo de elogio não grudava fácil nele. Ainda mais numa noite em que a cabeça estava cheia de Sábio, Aasimares e curvas de poder que pareciam desproporcionais demais.
Mas ele não conseguiu ignorar uma imagem simples que se formou na mente: Vargan’Zul, nove mil anos. Elyndariel, onze mil. Zargoth, oito mil.
E o grupo dele, ali, com mil e poucos, já no mesmo nível de conversa. Até além.
“Vocês estão com medo porque acham que o inimigo está anos-luz na frente.” Shara’Kala prosseguiu: “Mas vocês são a geração que mais correu até hoje. Se alguém pode encurtar essa distância, são vocês. Crianças ou não.”
Quando Shara’Kala terminou, o salão ficou mais leve, de repente.
Não porque o perigo tivesse diminuído. Mas porque, pela primeira vez desde que Anúbis falou a palavra “Sábio”, alguém tinha colocado na mesa outro dado: eles não eram apenas um rebanho marcado para morrer. Eram aberrações estatísticas num universo inteiro acostumado com o progresso lento.
Cruz, claro, foi o primeiro a quebrar o clima com a sutileza de sempre:
“Então, resumindo…” Ele disse: “Somos crianças geniais. Eu gosto disso.”
Ming Xue riu.
“Você é só uma criança.” Ela provocou: “O ‘genial’ eu ainda estou avaliando.”
Todos riram.
Até Zao Tian.
Foi um riso curto, meio cansado, mas foi a primeira fissura naquela armadura de paranoia que ele vinha vestindo há dias.
Depois, em silêncio, ele olhou em volta e apenas observou: Cruz discutindo com Shara’Kala sobre o que era “velho”, Ming Xiao e Gins calculando em voz baixa há quantos anos, exatamente, cada um estava vivo, Ryuuji e Jaha apostando quem chegaria primeiro no próximo limiar de poder, Hildeval e Ye Yang trocando comentários sobre o tempo que passaram na Singularidade.
Por um momento, Zao Tian não viu um grupo desesperado tentando segurar o fim do mundo.
Viu a geração mais absurda que ele já tinha conhecido, reunida num buraco de pedra, sendo chamada de “crianças” por alguém de sete mil anos, e, ainda assim, fazendo essa mesma veterana acreditar que dava pra ganhar.
Dentro da mente dele, até Gold ficou quieto por um instante.
Não era concordância.
Era cálculo.
“Se essas crianças tiverem tempo…” A voz pensou, mais do que disse.
Zao Tian fechou os olhos por um segundo, soltou o ar devagar e, pela primeira vez em dias, a sensação de que o universo ia desabar naquele exato minuto recuou um passo.
O Sábio ainda estava lá, em algum lugar, fosse quem fosse.
Os deuses ainda estavam crescendo, talvez muito mais rápido do que deveriam.
Mas, naquela noite, no Vale da Esperança, Zao Tian aceitou uma coisa simples…
Ele não estava apostando só em si mesmo.
Ele estava apostando em Cruz, em Ming Xue, em Ming Xiao, em Joster, em Kyon, em Gins, em Jaha, em Ryuuji, em Hildeval, em Ragnar, em Singrid, em Ye Yang, em Gu Ren.
E em uma orc de sete mil anos que, por algum motivo, olhava para eles e via a melhor chance que o universo já teve de enfiar um soco na cara de um deus.
Quando a reunião finalmente terminou e todos foram saindo aos poucos, Zao Tian ficou sozinho no salão por um instante.
O medo não tinha sumido, mas, ao lado dele, pela primeira vez, caminhava outra coisa…
A sensação incômoda, e perigosamente forte de que, talvez, só talvez, aquela geração de crianças impossíveis tivesse mesmo como mudar o fim da história.
