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Capítulo UHL 1130 - Combustível

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Tenham uma boa leitura!]


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Enquanto um grupo de “crianças impossíveis” tentava respirar no Vale da Esperança, em outro ponto do tempo, muito acima deles, o universo tinha ficado em silêncio por um motivo bem diferente.


Meses antes da execução de Anúbis, no Reino Divino, os deuses se recolhiam.


Não era o recolhimento preguiçoso de eras passadas, quando eles simplesmente se enfiavam em seus próprios domínios para ignorar o resto da criação. Era uma concentração forçada. Convocada.


As regiões que eles governavam estavam vazias.


Templos, arenas, palácios… tudo parecia ter sido esvaziado às pressas, como se alguém tivesse arrancado a elite de um império inteiro de seus palácios e jogado todo mundo dentro de um único bunker.


No coração do Reino Divino, porém, dois lugares nunca tinham mudado.


O Salão do Sono.


E a Árvore Sagrada.


O primeiro era um mausoléu vivo de Odin, o Pai de Todos, onde o corpo dele dormia, imóvel.


O segundo era a raiz de tudo.


Deuses nasciam como frutos daquela árvore, como se o universo reciclasse monstros que ainda eram necessários.


Durante eras, entre esses dois pontos, um único nome fazia a ponte.


Krishna.


Ele era o segundo deus mais poderoso entre todos, abaixo apenas de Odin. Ele carregava um poder e um Dom que ninguém ali ousava testar de frente. E, apesar disso, ele não tinha um reino, um exército próprio, ou um teatro de adoração. O mundo dos deuses era cheio de vaidades, mas Krishna era só uma sombra encostada no trono do Pai de Todos.


Era ele quem velava o sono de Odin.


Dia após dia. Era após era.


Krishna não saía daquela sala.


Não dava ordens.


Não interferia nas intrigas entre os irmãos.


Seu trabalho era um só: garantir que o Pai de Todos continuasse dormindo em segurança… até a hora em que decidisse acordar.


Por isso, quando ele saiu do Salão do Sono, sem Odin, pela primeira vez em toda a história, o Reino Divino inteiro sentiu.


Krishna caminhou pelo Reino Divino como se estivesse apenas indo buscar água. Mas cada passo dele ecoava nos domínios dos outros deuses como um decreto de execução.


Ele atravessou as colunas brancas, passou pelos portões e parou diante da Árvore Sagrada.


Aquele colosso vivo, cujas raízes atravessavam dimensões inteiras, estava carregado.


Frutos brilhavam em alguns galhos. Outros, escurecidos, continham coisas que nenhum mortal teria coragem de nomear.


Krishna fechou os olhos por um instante.


E Sentiu.


Ele sentiu Zeus.


O Dom dos Selos, arrancado do mundo quando o deus caiu em segredo, pulsava de novo, pequeno, comprimido em uma semente que já não cabia mais dentro de si.


Ele não sorriu.


Krishna não era de sorrisos.


Ele só virou o rosto, com a certeza de quem tinha ouvido um relógio interno disparar.


E aí ele deu a primeira ordem que o Reino Divino ouviu dele sem que Odin estivesse acordado:


“Todos os deuses.” A voz dele soou em cada domínio, como se tivesse sido sussurrada perto do ouvido de cada um: “Retornem ao Reino Divino. Agora.”


Não houve explicação.


Não houve reunião prévia para votar.


A ordem veio, e ninguém discutiu.


Mesmo os que odiavam obedecer só obedeceram.


Deuses dos mares, sombras de deuses menores espalhados por mundos distantes, legiões que estavam brincando de guerra em planetas periféricos… todos foram chamados de volta.


Foi por isso que, meses depois, quando a humanidade começou a estranhar a ausência de ataques em massa, ninguém conseguiu entender o motivo.


Os deuses estavam recolhidos… Porque Krishna mandou.


E ele mandou porque sentiu a aproximação de uma coisa que o universo inteiro lembrava: Zeus renascendo da Árvore Sagrada.


Quando o fruto amadureceu, não houve cerimônia pomposa.


Ele apenas caiu.


A casca se quebrou no ar, e um corpo se formou no impacto com o chão de raízes.


Um homem alto, com olhos como o trovão comprimido, cabelos e barba marcados por eras de autoridade, mas um corpo que parecia fresco, reconstruído.


Zeus abriu os olhos como quem acorda de uma soneca, não de uma morte.


Por alguns segundos, a única coisa que existiu foi a sensação dele reconectando o próprio Dom aos trilhos do universo.


Selos.


Leis menores presas, contratos de energia, prisões espalhadas pela criação… tudo aquilo voltou a sentir o peso de uma mesma assinatura.


Ele respirou fundo.


“Quanto tempo?” Zeus perguntou.


Krishna, ao lado, respondeu como se estivesse retomando uma conversa que nunca tinha terminado.


“O suficiente.” Ele disse: “Você caiu, fomos humilhados, alguns morreram, outros fugiram. E agora o quadro está se ajeitando.”


Zeus só assentiu.


Ele não perguntou por Odin.


Não precisava.


Se Krishna estava ali, e não dentro do Salão do Sono, então até o papel dele tinha sido remexido. E isso, por si só, já dizia muito.


“Minha Ânfora.” Zeus falou, sem rodeios: “Quem está com ela?”


O silêncio que veio não foi por falta de resposta.


Foi por vergonha alheia.


Krishna não desviou o olhar.


“Hades.” Ele disse, simples.


Zeus fechou a mão devagar, como se algo faltasse.


Depois da Grande Guerra, quando grande parte dos tesouros divinos foi perdida, espalhada ou roubada, uma nova moda nasceu entre os deuses: esconder o que encontravam uns dos outros.


Não por necessidade, mas por medo.


Ter uma arma que o irmão não tinha era a diferença entre ser obedecido por conveniência… ou engolido na próxima crise.


A Ânfora do Destino era o tesouro de Zeus.


Um artefato moldado por Hefesto, alimentado pelo Dom dos Selos, capaz de engolir tudo que fosse colocado dentro: almas, corpos, conceitos. Uma prisão portátil para coisas que não deveriam estar soltas.


Quando Zeus caiu, a Ânfora se perdeu.


Oficialmente.


Na prática, Hades a encontrou primeiro.


E não devolveu.


Loki, que nunca perdia uma chance de dobrar a verdade, tinha usado isso como parte da mentira que deu início ao desastre recente:


“Os humanos estão com a Ânfora do Destino…”


Hades confirmou.


Porque, no fim, tanto fazia para ele se os deuses acreditavam que os humanos tinham o tesouro… desde que ninguém suspeitasse que ele tinha guardado aquilo nas profundezas do próprio domínio.


Agora, com Zeus em pé de novo e Krishna à frente, essa brincadeira acabou.


“Traga Hades até aqui.” Krishna ordenou.


Não levou muito tempo.


Quando o deus surgiu, cercado por olhares de irmãos que mal disfarçavam o rancor, o clima já estava azedo.


“Achei que você tinha ficado preso em algum buraco com Loki.” Susanoo comentou, ácido.


“Ou que tivesse morrido com ele.” Freya teria dito, se ainda estivesse viva.


Os mortos daquela guerra recente eram fantasmas pendurados entre eles. Fantasmas pelos quais alguém precisava pagar.


Loki era o primeiro nome da lista.


Hades tinha acabado de entrar para o topo também.


Zeus, quando viu seu irmão caminhar até ele, não perdeu tempo.


“Minha Ânfora.” Ele repetiu: “Onde está?”


Hades ainda tentou segurar um pouco da dignidade que lhe restava.


“Eu a protegi.” Ele disse: “Enquanto você esteve morto, eu garanti que ninguém…”


“Você a escondeu.” Krishna corrigiu, com a mesma calma de sempre: “Para ter um trunfo contra seus irmãos. Assim como outros esconderam outros tesouros. Mas isso não interessa mais.”


Ele deu um passo à frente.


“A Ânfora do Destino faz parte do arsenal do Reino Divino.” Krishna declarou: “Não de Hades. Nem de Loki. Nem de qualquer ego ferido aqui. Entregue.”


Hades sustentou o olhar de Krishna por um segundo a mais do que seria saudável.


Depois, cedeu.


Não porque quisesse, mas porque, entre decepcionar Zeus e enfrentar Krishna naquele estado… a escolha era óbvia.


Um portal escuro se abriu ao lado dele, e um recipiente emergiu.


A Ânfora do Destino não tinha muito de ostensiva. Não parecia um artefato feito para segurar bilhões de almas e criaturas que o universo preferia esquecer.


Era “apenas” um vaso alto, com inscrições brilhando de dentro para fora, como se alguém tivesse escrito selos do lado de dentro da matéria.


Zeus estendeu a mão.


Quando ele tocou a Ânfora, uma onda de reconhecimento passou pela superfície.


O artefato sabia quem era o dono.


E o dono lembrava, com cada nervo, tudo que tinha jogado lá dentro.


Bilhões de almas.


Fragmentos de mundos.


Recursos.


Reservas.


Moedas que ele havia guardado para “momentos de necessidade”. Como este.


Krishna observava em silêncio.


“Abre?” Loki teria perguntado, se estivesse ali.


Mas Loki não estava.


O panteão inteiro falava dele no tempo presente, rosnando seu nome como se estivesse na sala… só para poder ser xingado. Mas o deus da trapaça tinha fugido. E, por ironia, o único que o acompanhava de verdade no rancor coletivo era Hades, agora exposto.


“Você mentiu sobre a Ânfora estar com humanos.” Um dos deuses falou, olhando fixo para Hades: “E ainda confirmou a farsa de Loki. Por quê?”


“Porque eu não confiava em nenhum de vocês com isso.” Hades respondeu, sem rodeios: “E porque eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu ia entregar quando fosse necessário.”


“Você ia entregar quando fosse conveniente para você.” Prometheus cuspiu.


Krishna levantou a mão, e a discussão logo morreu na garganta de todos.


“O que importa é que a Ânfora está aqui.” Ele disse: “E que vamos precisar de tudo o que tem dentro.”


Zeus assentiu.


Ele não sentia o peso da própria história como algo vivido. Deuses, quando renasciam da Árvore Sagrada, não carregavam lembranças pessoais da última vida.


Mas o Dom vinha inteiro. E, com ele, a certeza fria de que aquilo na mão dele era parte do arsenal do Reino Divino. A Ânfora do Destino era menos uma memória, mais um fato.


“Então vamos usá-la.” Zeus disse.


Alguns deuses reagiram na hora.


“É isso?” Um deles rosnou: “Caímos, perdemos terreno, metade dos nossos morreu… e a primeira ideia é abrir o lixo que você mesmo trancou?”


“Foi para isso que ele trancou.” Prometheus rebateu, seco: “Para momentos como esse.”


Hades manteve a boca fechada. Cada olhar que encostava nele vinha com a mesma acusação não dita:


Você mentiu.


Você escondeu.


Você deixou Loki brincar com isso.


“Loki disse que os humanos estavam com a Ânfora.” Susanoo cuspiu: “Você confirmou. Por causa dessa gracinha, ficamos no escuro enquanto eles se organizavam.”


“Vocês não ficaram no escuro por minha causa.” Hades retrucou, gelado: “Ficaram porque estavam ocupados demais se achando intocáveis. Loki só acendeu a luz na hora errada.”


Murmúrios.


O nome de Loki passava de boca em boca como uma maldição lenta.


Foi ele quem começou a cadeia de desastres.


Foi por causa das mentiras dele que o panteão inteiro acabou exposto.


Foi ele quem forçou movimentos apressados, batalhas mal calculadas, mortes demais.


Agora ele estava sumido.


Vivo, mas sumido.


E Hades, que tinha acobertado a mentira sobre a Ânfora, estava ali, na frente de todo mundo, com o tesouro de Zeus tirado à força das mãos.


Krishna não entrou na parte emocional.


“Chega.” Ele cortou, com um único olhar: “Loki será tratado quando for encontrado. Hades já entregou o que precisava entregar. O rancor de vocês não muda o quadro.”


Ele voltou os olhos para a Ânfora.


“Temos menos deuses do que antes.” Krishna enumerou, frio: “Hércules está morto. Balder, Athena, Poseidon, Osíris, Kitsune, Freya… caíram. Os humanos mataram muitos Grandes Deuses... E o Pai de Todos continua dormindo.”


A constatação caiu como um inventário de falhas.


“Enquanto isso…” Ele prosseguiu: “O lado de lá não está parado. Eles estão reunindo exércitos, mexendo com leis, esgarçando a estrutura do universo. Nós recuamos, sim. Mas não foi por medo. Foi para reorganizar.”


Os deuses ouviram sem interromper.


Quando Krishna falava daquele jeito, ninguém se colocava na frente.


“Zeus.” Krishna chamou, voltando a focar nele: “Você não lembra desta Ânfora como ‘memória’. Mas o Dom sabe o que há aí dentro. Acesse.”


Zeus fechou os olhos.


A Ânfora do Destino não “falava” com palavras.


Ela respondia a comandos.


Selos internos, camadas sobre camadas de confinamento, se apresentaram para ele como linhas de um relatório infinito: categorias de presos, tipos de almas, vidas catalogadas por risco e utilidade.


“Bilhões de almas.” Zeus murmurou, vendo os números: “Fragmentos de criaturas … Estruturas experimentais. E…”


Ele franziu o cenho.


“E uma linha marcada como prioridade.”


“Qual?” Krishna perguntou.


Zeus abriu os olhos.


“Rei Salomão.” Ele leu: “Primeiro Aasimar. Matriz.”


O salão não tremeu.


Nenhum deus recuou.


Ninguém ali sentia medo ao ouvir aquele nome.


No máximo, um aborrecimento antigo.


“Já tínhamos acabado com ele.” Igris comentou, irritado: “Ou pelo menos era o que achávamos.”


“Você acha muita coisa.” Prometheus disse, sem paciência: “Foi justamente esse ‘achismo’ que fez metade de vocês achar que humanos não matavam deuses.”


Zeus virou ligeiramente o rosto para Prometheus.


“A ficha dele.” Zeus pediu: “Resuma.”


Prometheus cruzou os braços, mas respondeu. Aquela parte era a especialidade dele.


“Salomão é o primeiro Aasimar.” Ele explicou: “O protótipo. Quando eu e o primeiro Heimdall recebemos a ordem de criar um amortecedor para o canibalismo, ele foi o resultado que deu certo demais.”


Ele falou como quem cita trecho de relatório técnico antigo.


“Um ser que o universo não reconhece direito.” Prometheus continuou: “Nascido fora da curva, com poderes fixos, sem escalada. Assim como nós.”


Alguns deuses riram baixo.


“O cozinheiro.” Alguém murmurou.


“Houve uma época em que nossas versões anteriores pararam de devorar uns aos outros para devorar os filhos que ele ajudava a plantar.” Prometheus completou: “Os Aasimares.”


Zeus absorveu aquela informação como se estivesse ouvindo pela primeira vez.


Porque, na prática, estava.


“Depois da Grande Guerra, a maior parte desse rebanho foi usada.” Prometheus concluiu: “Acreditamos que nenhum deles sobrou solto. Salomão incluído. Mas, em algum ponto, você…” Ele assentiu levemente na direção de Zeus: “Ou a versão anterior de você, decidiu que valia a pena guardar o original.”


“A matriz.” Zeus repetiu, olhando de novo para a Ânfora: “Se precisássemos de um rebanho, seria mais eficiente começar de uma matriz.”


Krishna fez um leve aceno de concordância.


“Os Aasimares foram o único experimento que realmente resolveu o problema do canibalismo, ainda que temporariamente.” Krishna avaliou: “Se vamos entrar em uma guerra longa, vocês precisarão de combustível.”


Hades falou pela primeira vez desde que entregara a Ânfora:


“Vocês vão mesmo puxar Salomão de lá?” Ele questionou: “Depois de tudo que fizemos com o povo dele? Acham que ele vai cooperar?”


Zeus deu de ombros, com um desprezo quase preguiçoso.


“Ele não precisa ‘cooperar’.” Zeus respondeu: “Basta obedecer.”


“Ele é só uma matriz.” Outro deus acrescentou: “Uma ferramenta. Ele serve ou é selado de volta em pedaços menores. Não é um irmão. Não é um igual.”


Respeito não era uma moeda que os Aasimares recebiam.


Eles tinham sido plantados como rebanho de luxo.


Salomão só era especial porque organizava o rebanho melhor do que qualquer outro. Porque tinha nascido com o cérebro certo para transformar aquela crueldade em algo… eficiente.


Krishna resumiu o pensamento geral com frieza:


“Ele é um recurso bélico.” Ele disse: “Nada mais.”


Ele então olhou para Zeus.


“Eu assumo as rédeas desta guerra enquanto o Pai de Todos dorme.” Krishna declarou, sem levantar a voz: “Mas o Dom dos Selos é seu. Só você pode abrir a cela dele. Faça isso.”


Zeus não se sentiu honrado.


Sentiu-se útil.


E isso bastava.


Então, ele pousou as duas mãos na Ânfora do Destino.


Selos internos começaram a se mover.


Não eram correntes barulhentas, não eram grades enferrujadas quebrando. Eram comandos sutis, linhas de poder se reorganizando em silêncio, isolando uma célula específica no meio de bilhões de registros.


Do lado de fora, tudo que os outros deuses viam era a luz dentro do vaso ficar mais densa, como se um ponto em particular se inflamasse.


Do lado de dentro, porém, outra história se desenrolava.


Num espaço que não tinha paredes, chão ou céu, uma consciência existia há tempo demais.


Salomão não sentia frio, nem calor, nem fome, nem sede.


Sentia apenas o fluxo constante de selos apertando sua existência em níveis que nenhum humano, deus ou Aasimar comum suportaria.


Ele tinha perdido a conta de quantas vezes o fio da própria mente tinha chegado perto de se romper.


Não rompeu.


Porque era útil.


O universo, se pudesse escolher, talvez o tivesse apagado de vez.


Os deuses, porém, tinham outra opinião: era mais vantajoso guardar e preservar.


Quando a pressão ao redor dele mudou, Salomão percebeu antes mesmo do primeiro selo romper.


Alguém estava mexendo na Ânfora.


De novo.


“Então…” Um pensamento formou, lento, dentro dele: “Não acabou.”


Ele não ouviu vozes.


Mas sentiu assinaturas.


Poder de Selo. Cheiros antigos, conhecidos, misturados a outros que não reconhecia. 


O panteão mudava.


O papel dele… não.


Enquanto isso, do lado de fora, Zeus abriu os olhos.


“Encontrei.” Ele disse.


“Faça.” Prometheus incentivou: “Quanto mais cedo ele sair, mais cedo podemos colocá-lo para trabalhar.”


Na mesma hora, alguns deuses trocaram olhares irritados.


“Vamos mesmo depender de gado para ganhar uma guerra?” Susanoo resmungou.


Hades respondeu: “Se não fossem os Aasimares da última vez, metade dos deuses nem teria participado da Grande Guerra.”


Ninguém retrucou.


Porque era verdade.


O silêncio que se seguiu foi cortado por um estalo.


Não no ar.


Nos selos.


A Ânfora tremeu, leve, como se algo estivesse sendo puxado de dentro para fora contra uma resistência antiga.


Zeus respirou fundo, concentrado.


Krishna apenas observava, calculando caminhos futuros.


Não havia histórias de “Salomão, o terrível”. Não havia lendas sobre o Rei Sábio esmagando panteões. Ele nunca tinha sido uma ameaça direta em batalha. Nem a própria força bruta dele chegava perto da de um Grande Deus fortalecido.


Ele era visto como sempre tinha sido visto:


Uma matriz reprodutora.


Um técnico de campo.


Um cozinheiro de rebanho.


Tudo era igual.


Salomão estava ‘nascendo’, para ser forçado a reacender o plantio para uma guerra contra os humanos.


E na superfície do vaso, a luz se abriu em uma fenda fina.


Do outro lado dessa fenda, no não-espaço da Ânfora, Salomão viu a primeira rachadura de “fora” em muito, muito tempo.


Ele sabia o que significava.


Era o chamado.


Era a convocação.


Era a guerra.


Do lado de fora, enquanto Zeus terminava de afrouxar o selo específico que o prendia, Krishna falou, como se já estivesse conversando com o resultado:


“Que venha o seu rebanho, Rei Sábio.”


Ele não dizia aquilo com respeito ou desrespeito. Dizia com a certeza fria de quem enxergava, em mais um pedaço de vida triturada, apenas combustível e função.


E, sem que ninguém ali fizesse ideia, naquela mesma época, meses depois, um antigo aluno daquele “combustível” chamado Salomão, em um planeta longe dali, começava a se perguntar se o velho mestre que o universo jurava ter devorado não estava, na verdade, sendo colocado de volta ao trabalho.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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