Capítulo UHL 1131 - O Sofrimento do Sábio
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O primeiro selo cedeu, depois o segundo, e então a pressão mudou de textura, como se o universo, ao redor de Salomão, trocasse de pele.
Ele “acordou”.
Não havia chão, não havia teto. Havia apenas um colar de leis fechando-se em anéis invisíveis, e, para além deles, o reflexo frio de muitos olhos. Quando a fenda virou uma porta, ele não foi recebido com palavras. Foi medido.
“É ele.” A voz de Zeus atravessou os selos como um carimbo.
Krishna não disse nada. Não precisava. Ele estava de pé, dois passos atrás, como um axioma: presente e inevitável.
Prometheus se adiantou um pouco, como um médico que encontra um paciente que ele mesmo projetou.
“Primeiro Aasimar.” Ele catalogou: “Sistema cognitivo intacto. Resistência a compressão de selo… previsível. Função reprodutiva, preservada.”
Salomão ouviu tudo, como sempre. A sabedoria nele não era uma biblioteca. Era uma forma de olhar. Um plano de fundo constante que costurava relações, pesava consequências, testava trilhas. A cada frase dita, ele via o desdobramento possível, o custo oculto, o preço inevitável.
O cálculo, porém, batia sempre no mesmo obstáculo:
Ele não era páreo.
Nem para Krishna, nem para Zeus, nem para a metade daqueles que estavam na sala. Sua morte não quebraria as correntes, nem frearia a máquina. Sua morte, como já acontecera tantas vezes com outros, só anteciparia a fila dos que viriam depois.
“Levante.” Krishna disse.
Salomão apenas obedeceu.
Não pela ordem apenas, mas pela lógica. O instinto que o aproximava dos deuses, essa obediência quase estrutural ao chamado de quem estava acima, apertou sua coluna e moveu seus pés. Não havia glória em se erguer. Havia apenas… função. Obrigação.
“Ele não precisa de explicações.” Zeus falou, prático: “Prometheus, estabeleça o processo. Vamos acelerar.”
Zeus fez um leve gesto e o ar ao redor mudou de densidade. Círculos de selos, elegantes, precisos, se abriram como janelas para outros compartimentos. Atrás de cada janela, uma figura: mulheres Aasimares, despertas no mesmo instante, com olhos confusos, corpos intactos e destinos já escritos.
“Eles foram selados juntos.” Zeus informou: “Matrizes auxiliares. Diversidade inicial suficiente para um primeiro ciclo de plantio.”
Uma das mulheres, ao ver Salomão, deu meio passo à frente antes que um selo de chão a contivesse. Não havia grito, não havia histeria. Havia um reconhecimento antigo e triste. Era como se toda a linha de dor que ela carregava tivesse encontrado, ali, a própria continuidade.
“Começaremos agora.” Krishna determinou: “A rotina contínua. Sem intervalos dramáticos.”
Prometheus assentiu e, sem se dirigir a Salomão diretamente, explicou como quem apresentava um fluxograma:
“Primeiro, cruzamentos em séries. O objetivo não é prazer, nem vínculo. É a taxa de ciclos sucessivos, com diferenciação de parâmetros genéticos rígidos. Como antes, mas sem a indulgência de tempo que tínhamos na última era.”
Depois de dizer aquilo, ele tocou uma malha de símbolos e os corredores se alinharam.
“Depois, incubação selada.” Ele prosseguiu: “Nunca mais deixaremos a gestação ao acaso. O útero faz o que lhe é próprio, mas toda energia adicional será fornecida por matrizes de sustentação. O tempo cronológico, aqui, é um luxo. Reduziremos a gestação efetiva com compressão do relógio biológico… o embrião nascerá completo em poucos meses.”
Alguns deuses olharam como se observassem uma forja.
“Na sequência…” Prometheus não parou: “Sinais fixos, poderes pré-definidos, como sempre. Eles nascem, são marcados, avaliados e selados. Os de consumo imediato vão para armazéns de contingência. Os raros permanecem em cativeiro sob vigilância, para reprodução futura. Sem margem para erro. Sem margem para fuga.”
“Quantos por mês?” Zeus perguntou, de forma impessoal.
“Com os parâmetros antigos, dezenas.” Prometheus respondeu: “Com os ajustes que programei… centenas. Milhares, quando escalarmos para outros núcleos. O gargalo nunca mais será a biologia, mas a logística.”
“Ótimo.” Krishna disse.
Então, após ser tratado como um gado, a primeira porta se abriu, e Salomão caminhou.
Nenhuma mão empurrou seu ombro, nenhum insulto veio como escolta. Não era necessário. Ele conhecia o caminho como se tivesse nascido nele. E, de certo modo, tinha.
Do outro lado, uma mulher esperava. Ela segurava os braços como quem protege o próprio tórax de uma lâmina. Quando o viu, um sopro sem som tremeu-lhe a boca.
Salomão parou a dois passos e fechou os olhos por um instante.
A sabedoria nele mapeou os pontos de quebra. Não apenas dela, mas do sistema. Ele viu, em linhas frias, os lugares onde o processo dependia de seres com vida e emoções. Onde, um atraso mínimo, um olhar que consola, uma palavra dita no tempo exato, não fariam diferença alguma no resultado… mas toda diferença no sofrimento.
Ele abriu os olhos com calma e amor.
“Eu sei.” Ele disse, baixo.
Ela assentiu, e lágrimas caíram sem alarde. Não havia soluço. Havia aceitação e carne. Havia a certeza de que dali sairia uma vida com destino de alimento.
De ambas as partes, não houve carícia. Houve respeito.
E o processo começou.
Foi assim no primeiro dia.
E no segundo.
E no terceiro.
Meses antes da execução de Anúbis, enquanto humanos reforçavam matrizes em um vale, Salomão era arrastado por uma rotina que triturava qualquer noção de dignidade em processos eficientes.
Entre um acasalamento e outro, havia leitura.
Não para ele.
Para os deuses.
Prometheus entregava relatórios contínuos, ajustando parâmetros, afinando o algoritmo do azar deliberado que produzia filhos com poderes aleatórios e úteis.
“Os traços ligados a sistemas de percepção foram sub-representados neste lote.” Ele observava friamente: “Ajustei a matriz para ampliar a incidência dos mais poderosos. Os tidos como raros serão criados a uma taxa vinte por cento maior agora.”
“E os outros?” Zeus perguntava.
Prometheus abriu outra janela.
Ali, incubadoras seladas vibravam com um ritmo estranhos. Vidas estavam sendo formadas em menos luas do que uma estação curta. Crianças que vinham ao mundo sem choro alto, como se o selo abafasse até a primeira afirmação de suas existências.
“Gestação natural até o ponto mínimo viável; Extração prematura; Incubação acelerada; Avaliação; E consumo.”
Ele não disse “devorar”.
Disse “consumir”.
“Estamos fazendo isso para ganhar tempo.” Prometheus continuou: “O limite não é a biologia da mãe, é o calendário da guerra. Quando a criança entra na incubadora, liberamos a barriga para o próximo ciclo. É simples. Do outro lado, mantemos o desenvolvimento com energia controlada. Sem vínculo. Sem pausas.”
Zeus assentiu, como quem valida um método de produção.
Krishna não opinou.
Os corredores, então, se abriram para a ala de extração. Não era um hospital. Era uma linha de produção. As mulheres Aasimares eram deitadas, estabilizadas pelos selos, e o som que mais se ouvia não era de respirações aceleradas.
Naquela mesma ala, Salomão entrou em silêncio.
Ele andou entre leitos sem tocar ninguém, mas cada passo que dava era um pedido de desculpas que ele não tinha direito de pronunciar. A Sabedoria nele rastreou, de novo, as “dobradiças” do processo: o minuto em que uma mão poderia ficar mais tempo sobre outra; a pausa de um fôlego que tirava um fio de pânico do ar; a palavra curta que não mentia, só amparava. Nada quebrava a máquina. Quase nada mudava o destino. Mas aquilo, em migalhas, impedia que o desespero virasse loucura.
Enquanto abria uma barriga, para extrair uma criança que iria para uma das incubadoras.
A criança saiu tão leve que parecia não pesar. Outro deus marcou-a com um selo na base do pescoço e a colocou, ainda úmida, dentro de um cilindro que já pulsava calor artificial. O cilindro fechou, e números acenderam: idade interna, estabilidade, traços detectados.
“Incubadora 14. Estável.” O deus disse, sem olhar para a mãe.
A mãe virou o rosto em busca de um ponto fixo. E encontrou Salomão.
“Vai… viver?” Ela perguntou, baixo.
Ele não mentiu.
“Por um tempo.” Ele respondeu.
Ela assentiu uma vez, como quem carimba uma sentença que já sabia.
Prometheus, por sua vez, passou colhendo dados, e falou:
“Este lote está melhor. Menos risco.”
Zeus perguntou:
“Quantos?”
“Centenas, hoje.” Prometheus disse: “Milhares, em semanas.”
Krishna, finalmente, deu instruções:
“Quando o sinal de maturação aparecer, avisem. O panteão fará a distribuição.”
“Distribuição de quê?” Uma das mulheres ousou questionar.
Ninguém respondeu.
Salomão respondeu, por dentro, onde ninguém ouvia: “De vocês.”
Depois, ele continuou andando.
Em uma câmara lateral, virada para uma muralha translúcida, as incubadoras se alinhavam em andaimes de ouro. Havia crianças com olhos entreabertos, outras em um tipo de sono estranho, outras chutando no vazio com reflexos. As etiquetas eram mínimos brilhos nos tornozelos, e todas elas, sem exceção, compartilhavam o mesmo fim.
Prometheus notou o olhar de Salomão preso nas etiquetas e explicou, sem rodeios:
“Nada volta para armazenamento. Nenhum estoque de longo prazo. O consumo é total. A guerra exige.”
“E o cultivo?” Zeus perguntou.
“Faremos com fêmeas específicas.” Prometheus respondeu: “Rotas fechadas. Sem socialização. Tudo dentro do ciclo e do cronograma. Sem romance.”
Salomão parou diante de um cilindro onde uma criança recém-colocada abriu os olhos.
Pequenos, atentos, sem chorar.
Ele encostou a palma do lado de fora.
“Desculpa.” Ele disse, quase inaudível.
Do outro lado, minúsculos dedos tocaram o vidro numa coincidência cruel. O sensor marcou a reação como “reflexo normal”. Ninguém mais viu gesto nenhum ali.
Dias adiante, a sequência tinha virado calendário e, enfim, veio o primeiro “chamado”.
Um mensageiro Krishna convocou os deuses: “Salas de banquete. Agora.”
Não havia música, nem celebração naquele processo. Só uma porta pesada abrindo-se para um salão branco demais, limpo demais, com mesas longas e nichos ordenados em fileiras. Acima de cada nicho, estavam as informações do “prato”: idade, traços fixos, rendimento estimado.
Os deuses entraram em grupos, com suas fomes disfarçadas de necessidade
Ninguém sentou. Eles escolhiam em pé.
“Percepção afinada.” Disse um.
“Capacidade adaptativa.” Disse outro.
“Condutividade.” Um terceiro examinou.
Os deuses percorriam a sala como quem escolhe ferramentas.
Salomão, enquanto isso, ficou no corredor cego, entre a parede e a própria respiração, sentindo o ar mudar de peso cada vez que a porta abria e fechava. A cada passo dos deuses, uma ausência nascia. A cada ausência, uma conta antiga fazia-se de novo, como uma oração sem religião.
A cada, o mesmo terror se repetia.
Não havia como impedir. A Sabedoria de Salomão rodou todos os cenários, de novo, e de novo, como um moinho que não cansa: quebrar selos, gritar, arrancar crianças do vidro quente, tentar esconder vinte, dez, uma que fosse. Em cada trilha, a mesma sentença caía como pedra: Krishna. E atrás de Krishna, alguns dos irmãos dele. O fim vinha rápido. E, com ele, mais pressa para o turno seguinte.
Salomão constantemente visitava as salas de reprodução, e dentro delas, as crianças boiavam, mexendo as pernas que não tinham aprendido a chutar, abrindo e fechando as mãos como quem procura uma âncora.
Uma Aasimar, recém-exaurida, passou na maca ao lado dele, pálida e seca, com o ventre costurado por selos que sumiam sem cicatriz. Duas mãos divinas a empurravam de volta para a fila dos vivos úteis.
Salomão parou a maca com um toque leve no metal. As mãos divinas não se irritaram. Nem ligaram. Ele não era uma ameaça.
Salomão levou dois segundos só para baixar o lençol até o ombro dela e cobrir a clavícula exposta.
“Obrigada.” Ela disse.
“Eu sei.” Ele respondeu.
A cada quinze passos, Salomão parava diante de um vidro. Em alguns, as crianças dormiam. Em outros, olhavam. Ele encostava a palma, uma vez, e seguia. Não fazia promessas. Não mentia. Apenas oferecia uma presença que o sistema não tinha programado, um fio de calor que não alterava destino algum, mas segurava um pouco a queda dentro do peito.
Em um determinado dia, a porta branca tornou a abrir. Os passos divinos percorreram o mosaico de etiquetas
Entre os barulhos, havia um som que ninguém parecia ouvir. O som que o corpo faz quando aprende, pela primeira vez, o que é deixar de existir.
Ele então virou-se e caminhou para a ala de extração.
Na sala ao lado, as mulheres Aasimares entravam, deitavam, respiravam, e uma mão divina dizia “agora” sem levantar a voz. A lâmina passava, a criança saía, o vidro a recebia. Trinta segundos depois, a barriga estava livre de novo. E a fila andava.
Durante o processo, uma das mulheres prendeu o olhar em Salomão quando sentiu a pele abrir.
“Vai… doer muito?” Ela perguntou.
“Vai.” Ele disse, honesto. “Mas eu estou aqui.”
Ela fechou os olhos, e lágrimas correram sem barulho.
O “estou aqui” não era salvação. Era presença. Era tudo o que ele podia dar sem irritar a mecânica maior, sem empurrar alguém para uma punição rápida e inútil.
A criança saiu pequena, quente. O deus marcou a base do pescoço e levou. A mãe ficou olhando para a volta do lençol, tentando achar um vestígio qualquer. Mas não havia. Os selos apagavam as cicatrizes como um ladrão cuidadoso apaga suas pegadas.
As semanas seguintes e as memórias de dor se empilharam.
Salomão aprendeu o mapa do sofrimento pelo cheiro. Ele sabia quando uma porta tinha acabado de fechar, quando um vidro havia sido esvaziado, quando uma barriga deixava de ser uma casa. Ele andava pelo entremeio da “fábrica” como um fantasma vivo, dado a pequenos gestos clandestinos: ajeitar um cobertor em ombros trêmulos, segurar uma mão por mais um fôlego, encostar a testa no vidro por um segundo a mais do que o permitido pelas boas práticas de produção.
Às vezes, uma criança acordava enquanto ele estava ali.
Ela não chorava.
Abrir os olhos era o máximo que elas conseguiam fazer.
Ele dizia sempre a mesma frase…
“Desculpa.”
No segundo mês, vieram as filas longas diante das salas brancas.
Os deuses chegavam em blocos, rápidos. Alguns trocavam duas palavras, outros nem isso. A fúria que tinham pela humanidade escoava ali, de forma disciplinada. Comer era uma ordem. E a vingança vinha logo depois.
Quando a última fila se dissolveu e as portas voltaram a ficar lisas, Salomão permaneceu de pé no corredor, escutando o eco que não existia. Havia um resto de calor no metal, um rastro de respiração na vidraça, e isso bastou para dizer-lhe tudo o que precisava saber sobre o dia.
Ele caminhou devagar até a ala das incubadoras e parou diante de um cilindro apagado. Encostou a mão onde, horas antes, dedos minúsculos haviam tateado o vidro. Não havia marca, não havia memória ali, a não ser a que ele carregava por teimosia. Ele ficou um tempo sem pensar em nada útil, como quem descansa a coluna contra uma árvore que não dá sombra.
Depois, Salomão percorreu os leitos das fêmeas adormecidas, uma a uma, ajustando lençóis, levantando travesseiros, alinhando o que o movimento apressado tinha deixado torto. Eram gestos pequenos, quase invisíveis no inventário do mundo, mas que adiavam um pouquinho o retorno de cada uma ao turno seguinte. O suficiente para um suspiro a mais. O suficiente para que a dor voltasse como dor, e não como pânico.
No refeitório vazio, as mesas limpas não contavam histórias. Sob aquela claridade, Salomão sentou sozinho e deixou que o corpo pesasse. Não era cansaço muscular, era o peso de fazer parte de algo que jamais escolheria. Ele sabia que o universo costuma premiar os obedientes com sobrevivência, e que a sobrevivência, às vezes, é a pior das recompensas.
De volta ao corredor alto, ele começou a nomear em silêncio os que ninguém nomearia. Não eram nomes que ficariam gravados em pedra, eram nomes que só existiam enquanto sua memória respirasse: uma sequência humilde, um fio de contas frouxas que ele passava entre os dedos da mente para não esquecer que cada etiqueta apagara um alguém.
Essa era a mentira diária: no intervalo entre um chamado e outro, tudo parecia inofensivo. Salomão cruzava esse intervalo com a dignidade que era possível, preservando um ritual simples, como tocar três vezes o batente de cada porta antes de seguir adiante, como se pedisse licença a um vazio que nunca respondia.
No dormitório estreito que lhe haviam reservado, não havia travas por dentro nem janelas por onde olhar. Ele se deitou sem fechar os olhos e contou o dia ao contrário, recordando cada rosto que não chorou, cada mão que ele segurou, cada “obrigada” que atravessou sua pele como uma cicatriz invisível. Ele não procurou uma saída milagrosa. A Sabedoria lhe negava esse consolo. Procurou, em vez disso, uma maneira de permanecer sendo “gente” dentro da engrenagem.
Antes de dormir, se aquilo podia ser chamado de sono, ele decidiu que continuaria repetindo o mesmo ato inútil todas as manhãs: acordar e ensinar o corpo a não odiar o próprio instinto de obedecer. Porque, se quebrasse de vez, alguém mais bruto ocuparia seu lugar, e as dobras mínimas do sofrimento seriam retas outra vez.
E no escuro sem janelas, a consciência de Salomão ficou sozinha com um juramento pobre e gigantesco: enquanto respirasse, haveria uma mão sobre o ombro certo, um lençol puxado até a clavícula certa, uma palma contra o vidro certo. Nada disso mudava o destino, mas mudava a travessia. E, naquela noite, isso foi tudo o que restou para ele chamar de vitória.
