Capítulo UHL 1133 - Agora é com Você
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Tenham uma boa leitura!]
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O silêncio não cedeu. Só mudou de lugar, como água pesada dentro do peito.
Zao Tian ia dizer algo, mas Daren falou antes, sem alterar o tom.
“Vocês querem saber que cara tem o inverno…?”
Ninguém respondeu com palavras. Bastou a atenção.
“Eu já o vi.” Ele não pediu licença para mexer na memória. Simplesmente abriu, e veio.
“Quando fechei o Reino da Escuridão, não foi por orgulho. Foi por cálculo. Eu pedi que me deixassem matar um homem enquanto isso ainda era possível. E disseram não.” Ele não citou nomes, porque não precisava.
“Depois disso, eu fechei as portas e assumi o custo. Esperei… e a guerra veio, como sempre vem quando se escolhe ‘depois’ para um problema que só tem ‘agora’.”
A sala pareceu encolher ao redor da voz dele.
“Quando a guerra veio, eu confesso que não lutei pelo mundo. Lutei pelos meus. Eu, e milhões que não voltaram.”
Daren pousou os dedos no tampo, como se ancorasse as frases para que não saíssem voando.
“Repelimos os ataques deles até que a repetição nos enterrasse. Não houve glória. Houve custo. Alguns Grandes Deuses caíram. Muitos de nós também.”
Yan Chihuo cerrou os dentes, mas ficou calado. Hakim apertou a borda da mesa com a mão aberta. Ming Xiao não piscou.
“Foi uma defesa bem-sucedida.” Daren disse: “No fim, o Reino da Escuridão ficou de pé. Não inteiro, não ileso, mas de pé.”
Ele respirou uma vez.
“E, ainda assim, naquele tempo, havia três humanos acima de mim. Em ordem decrescente: Gold, Zaki e Amara.”
Aqueles nomes chegaram como pedras sendo colocadas devagar, uma de cada vez.
Yang Hao, que sentiu na pele o poder de Zaki, ficou ainda mais atento.
“Hoje, eu carrego o título de Demônio da Escuridão, mas ele é emprestado.” Ele falou sem se afetar: “O verdadeiro dono foi ela, quando me venceu. Amara era minha sobrinha. Eu e Gold a treinamos até o ponto em que ela passou por mim como água que encontra um leito mais baixo. Depois desse dia, honrar o título significou reconhecê-la.”
Ninguém interrompeu.
“Amara partiu com Gold quando Zaki quebrou o que não podia ser quebrado.” Daren não detalhou: “Eu fiquei. Fechei as portas. Defendi o que dava para defender.”
Yan Chihuo inclinou um pouco a cabeça.
“E como ela morreu?” A pergunta veio de forma inevitável, afinal, como alguém ainda mais poderoso que Daren poderia cair?
Daren encarou o vazio por trás de todos por alguns segundos, antes de responder: “Krishna.”
A palavra veio como um soco.
“Foi por ela que Gold entrou na guerra de verdade. Até então, ele tinha se afastado de tudo. Quando Amara caiu, ele deixou de se segurar. E acabou com tudo.”
Ming Xiao inspirou pela metade.
“E Zaki…?” Ele perguntou.
“Zaki morreu pelas mãos de Gold.” Daren respondeu: “Quando ele caiu, já devia estar ombro a ombro com Amara. Se Gold não tivesse entrado, duvido que tivesse sido vencido.”
Quando Daren assumiu aquilo, a sala ficou ainda menor.
“Eu não conheci Odin.” Daren continuou: “Mas todos ouviram Gold falar dele como alguém que ficava perto demais do que não tem medida. Se Krishna, que matou Amara, já era o que era… imaginem o outro.”
Ninguém se apressou para imaginar. Na verdade, não dava nem para visualizar a provável escala de poder que Daren estava falando.
“Eu não me vejo alcançando Odin.” Ele disse, sem vergonha, assumindo sua ‘fraqueza’: “Talvez nem Krishna. E não digo isso por covardia. Digo porque, desde que encostei na beira do meu rio, o horizonte não cedeu. Estou estagnado há mais tempo do que vidas cabem em dizer. E, ainda assim, vivo para a travessia.”
A honestidade de Daren não era convite à desistência. Era um chão, daqueles que doem os calcanhares.
Zao Tian olhou para Daren sem desviar.
“Então sobra para nós.” Ele comentou.
Não foi uma acusação. Foi pura aritmética.
“Sobra.” Daren confirmou, olhando no fundo dos olhos de Zao Tian: “Para você, para os seus, para os que ainda têm fome. Eu posso segurar portas, posso quebrar colunas, posso cobrar pedágios que os deuses não gostam de pagar. Mas atravessar a parede… isso agora está nas mãos da sua geração.”
Hakim não mexeu o rosto, mas a pergunta veio: “E a Grande Guerra, do seu lado de dentro… como foi quando eles forçaram tudo?”
Daren fechou os olhos por um segundo, não para fugir, mas para acertar o foco.
“Foi barulhenta, depois silêncio, depois barulho de novo.” Ele disse: “Eles vieram fortalecidos, mais do que gostaríamos. Eu acertei um Grande Deus, caí, levantei, acertei outro, caí, levantei. Milhões fizeram o mesmo, até não conseguirem mais. Os que sobraram continuaram repetindo isso, como se o ato fosse a única linguagem que ainda restava.”
Ele encolheu levemente os dedos sobre a mesa.
“Havia momentos em que a escuridão do Reino parecia uma ponte. Nós passávamos por cima dela para fazer o que precisávamos fazer e voltávamos com menos passos do que levamos. Às vezes, eu lutava tanto tempo que o corpo perdia a noção do tempo. Às vezes, lutava tão pouco que parecia uma provocação do destino. E tudo isso não importava, porque o ataque deles não parava.”
Hakim manteve o olhar atento, e Daren seguiu: “Eu lembro de lutar sobre os corpos de homens e mulheres que eu vi nascer e crescer.”
“Aquilo foi um banho de sangue, que nós vencemos, mas que podia ter ruído se o inimigo certo tivesse vindo até nós.”
Enquanto ele falava, Yan Chihuo apoiou a nuca na cadeira e encarou o teto, como se tentasse ouvir um som que não vinha. Daren então voltou um passo no tempo.
“Antes da guerra, no dia em que Amara me venceu, ela não sorriu.” Ele disse: “Ela sabia o que significava. Eu também.”
“Quando ela partiu… naquele dia eu entendi que meu título era só um lugar guardado. E guardei. Mas quando ela morreu, a palavra ‘título’ não coube em lugar nenhum.”
Ming Xiao baixou os olhos para as próprias mãos.
“Ela lutou com aquilo que só alguns têm.” Daren completou: “Quando o golpe dela não bastou, ela insistiu do mesmo jeito. Não por teimosia. Por dever. Isso tem um gosto que nunca mais sai da boca.”
A sala ficou fria por dentro. Daren inclinou a cabeça um milímetro na direção de Zao Tian: “Quando Gold falou de Odin, ninguém discutiu. Ele descreveu um abismo como quem aponta o mar. Sem adjetivos pejorativos, sem metáforas. Só a medida certa e real. Se Krishna já era o que era… eu posso afirmar que a conta não fecha a nosso favor sem um milagre.”
Zao Tian, alvo daquelas palavras, segurou os próprios pensamentos como quem segura um animal inquieto para que não derrube nada por perto. Gold era humano. Esse detalhe, sempre que reaparecia, deslocava placas de entendimento. Se um humano havia tocado o último rio, não era mentira dizer que outro poderia. Mas também não era uma verdade fácil. Amara tocara alto o bastante para superar Daren e, ainda assim, Krishna a derrubou.
“Nós não temos tempo.” Hakim disse, finalmente, como quem assina uma sentença já escrita.
“Nós não temos reservas.” completou Yan Chihuo.
“Nós não temos uma segunda chamada.” Disse Ming Xiao.
“Temos isso aqui.” Disse Yang Hao, apontando com os olhos para a mesa e para o mundo, ao mesmo tempo.
Daren trouxe o fio da memória só mais um tanto, e aquilo já era mais peso do que qualquer estratégia suportaria.
“Lá atrás, quando o Reino ficou de pé, eu pensei que o preço pago nos compraria uma geração inteira de respiro. E comprou, mas não para sempre.” Ele olhou para Zao Tian, com pena: “Vocês nasceram no intervalo errado. Não há tempo de semeadura para vocês. É colheita e semeadura ao mesmo tempo. Às vezes, sem semente nenhuma. Apenas terra.”
A imagem não confortou. E não era para confortar.
“Quando fechei as portas, escolhi perder o mundo para salvar um pedaço.” Daren disse: “Hoje, vocês não têm o luxo dessa escolha. O pedaço de vocês é o que resta do mundo.”
“Eu sempre digo o que posso fazer.” Daren completou, ainda mais direto: “Eu posso atrasar. Posso moer. Posso esvaziar as mãos de quem vier na primeira leva. Posso segurar uma muralha sozinho por meses. Posso forçá-los a sangrar...”
Ele respirou profundamente após dizer aquilo, e então continuou: “Mas eu não posso matar Krishna. Eu não posso matar Odin. Talvez eu não possa nem enxergá-los como eles merecem ser enxergados. Eu já tentei, por eras, achar o outro lado do meu rio, mas eu não consegui.”
A honestidade de Daren não ofendeu ninguém. Ela apenas desenhou a borda onde todos teriam que pisar.
“E Gold?” Mesmo com todos os problemas, a curiosidade ainda existia, e escutar uma história daquelas com certeza atiça isso, então Yan Chihuo perguntou: “Quando ele entrou… como foi?”
“Foi o fim da conversa.” Daren respondeu: “Quando Gold decide, a realidade muda de lugar para que a decisão caiba. Não houve grandes espetáculos. Houve execução. Zaki caiu. As frentes dos deuses se desfizeram como tecido molhado que rasga com o próprio peso. E a guerra terminou não porque estávamos prontos, mas porque alguém capaz de terminar levantou a mão.”
Hakim esfregou o canto do olho, cansado de pensar por dias a fio.
“Isso não volta a acontecer.” Ele disse, sem drama, aceitando a realidade: “Quem pode terminar o que estamos vivendo, agora, tem um rosto que conhecemos.”
Zao Tian, sendo o alvo da fala de Hakim, não desviou o olhar.
“Eu entendo.” Ele comentou. Contudo, o peso que estava sendo jogado nas costas dele era colossal.
“Não quero que a palavra ‘impossível’ vire uma oração ou uma sentaça.” Daren acrescentou: “Mas também não vou falsificar um alívio. Se um de vocês romper, não vai ser porque o universo quis. Vai ser porque a necessidade atravessou a vontade, e a vontade atravessou o corpo, mas vai ser dentro da guerra.”
Ming Xiao ergueu o olhar, sério.
“Se eu quebrar o próximo rio no meio do combate, não será milagre.” Ele disse: “Será um acidente provocado.”
Aquela conversa não procurava plano, procurava posições internas. Responsáveis por dar o próximo passo. O passo que nem o mais poderoso e antigo de todos ali conseguiu.
O eco da frase de Ming Xiao ainda estava no ar quando Daren virou o rosto para Zao Tian. Não havia solenidade nem teatro, só uma constatação nua: “Então é com você.”
A sala não se moveu, mas alguma coisa, por dentro, mudou de lugar. Era como se a mesa, que até ali servira para somar perdas e custos, tivesse sido puxada um palmo para frente para virar um degrau.
“Eu seguro a entrada.” Daren disse: “Quando a porta abrir, você entra!”
Zao Tian não respondeu de imediato. A respiração dele veio medida, sem tentar parecer firme. Ele não estava procurando coragem, estava procurando aderência.
“Sim!” Ele concordou.
Hakim assentiu em apoio.
“Você é quem tem a fome certa.” Ele afirmou: “E não está sozinho!”
Yan Chihuo cruzou os braços em admiração e respeito, antes de dizer: “Eu estarei com você no que for preciso! Seja lá o que precisar para avançar… mesmo que eu precise dar a vida por isso… você terá!”
Yang Hao inclinou a cabeça, como se pensasse igual a Yan Chihuo, e falou, também: “Eu alinharei tudo o que puder ser alinhado para que você não perca tempo com o que não importa!”
“Quando pedir silêncio, terá o seu silêncio. Quando precisar fazer barulho, conseguirá o que precisa!”
Ming Xiao, por sua vez, manteve os olhos em Zao Tian.
“Eu fico ao seu lado.” Ele disse: “Se você for atravessar dentro da guerra, nós seremos o apoio um do outro.”
Zao Tian ouviu, recebeu e guardou. A mente dele não procurou metáforas para responder. Procurou se agarrar naquele apoio e na fé que aqueles grandes homens tinham nele.
“Eu compreendo o tamanho da responsabilidade que estão confiando em mim….” Ele disse, sem levantar a voz: “Não posso prometer a vitória… mas prometo que não vou recuar e nem desistir enquanto ainda existir um sopro de vida em meu corpo.”
Ninguém tentou melhorar aquela frase, por ela já tinha o peso certo.
“É isso que eu precisava ouvir.” Daren respondeu: “O resto é trabalho.”
O “trabalho” a que ele se referiu não era uma lista. Era a forma como cada um respiraria a partir dali. E o salão inteiro parecia escutar esse novo ritmo, essa cadência que não oferecia consolo, só direção.
“Você defende nomes e rostos, não poder, como os deuses.” Hakim acrescentou: “Lembre disso quando faltar ar.”
“E quando sobrar ar…” Completou Yan Chihuo. “Quando tudo parecer fácil por um minuto, lembre-se que é mentira. Você está sempre lutando contra o tempo. Não dá para ficar acomodado.”
Yang Hao voltou a falar, com olhos fixos em Zao Tian.
“Eu vi Zaki.” Ele disse, só para colocar um pouco de objetivo na mesa mais uma vez: “Aquilo foi um monstro, mas você… que luta pelo certo e tem a mesma base, pode superá-lo!”
Ming Xiao baixou um pouco o queixo, num gesto curto de concordância total.
“Se você vier a sentir o rio….” Ele disse: “Agarre-o como quem agarra um inimigo.”
“E se não sentir.” Daren acrescentou: “Continue batendo até que o corpo quebre para frente, não para trás.”
Depois de escutar tudo aquilo, Zao Tian passou a mão no cabelo, mas não havia nervosismo no gesto. Era como se ele estivesse arrumando o que estava fora do lugar.
“Eu não sou Gold.” Ele reconheceu: “E isso não é desculpa. É a verdade. Mas eu vou com tudo que tenho.”
Naquela conversa, ninguém tentou vestir nele o peso de outro. Não era preciso. O peso já estava ali, e era mais do que o suficiente.
“Eu não vou chamar isso de ‘bênção’.” Hakim disse, sem ironia: “Mas é a coisa certa acontecendo na hora certa. Você foi feito para não virar o rosto quando os problemas aparecem.”
Yan Chihuo soltou o ar pelo nariz, curto, como quem aprova porque reconhece.
“E você tem gente que não se quebra no primeiro tranco.” Ele disse: “Isso conta demais.”
Yang Hao ergueu a mão, só o bastante para que o gesto fosse visto.
“Eu digo, diante de vocês, o que eu já disse diante de outros momentos piores: eu obedeço quando reconheço quem deve decidir.” Ele afirmou: “Aqui e agora, eu te reconheço, Zao Tian!”
“Eu vou cortar o que te distrai.” Ming Xiao disse: “E segurar o que te derruba.”
Daren, então, recolheu as mãos, como se não precisasse mais mantê-las estendidas e ao redor de todos, antes de dizer: “Então está entregue.”
“O futuro de toda a raça humana pertence a você agora!”
Aquilo foi uma entrega simbólica de uma responsabilidade gigantesca. Daren e os outros líderes, naquele momento, estavam entregando a Zao Tian as chaves dos reinos e o futuro de toda a raça humana.
O silêncio que veio depois não era o mesmo de antes. O primeiro silêncio tinha cheiro de inventário, de falta, de contas. Este último tinha o cheiro de um recibo.
Alguém assinou. Não com tinta. Com confiança.
“Krishna.” Hakim disse, só o nome, como quem escreve o título de um livro que ainda não existe.
“Odin.” completou Yang Hao.
“Eu não vou correr atrás de fantasmas.” Zao Tian respondeu: “Vou atrás deles. Vou alcançá-los!”
Apesar de forte, aquela frase não inflamou ninguém. Não era para inflamar. Era para afirmar. E afirmou.
“Eu aceito.” Ele disse. “A partir de agora, se me virem calado, é porque estou ouvindo. Se me virem falando, é porque não dá mais para ouvir.”
Ninguém pediu que ele repetisse, porque tinha ficado claro.
“Então vamos ao trabalho!” Foi só depois de alguns segundos de contemplação que Daren bateu na mesa e chamou todos ali para a guerra.
