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Capítulo UHL 1134 - Enventos Simultâneos


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Tenham uma boa leitura!]


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O silêncio que veio depois da fala de Daren não era vazio.


Era um tipo novo de peso. Todo mundo ali sabia exatamente o que tinha sido colocado sobre a mesa e quem tinha recolhido.


Zao Tian respirou uma vez, como se testasse o encaixe da decisão no próprio peito. Daren não voltou a falar. Hakim, Yan Chihuo, Ming Xiao e Yang Hao também não. Não havia mais nada a acrescentar. A partir dali, qualquer palavra viraria enfeite, e ninguém ali tinha paciência para enfeites.


Foi quando o mundo mudou de tom.


Não foi um som. Foi um puxão, um peso súbito no nível do ar. Os sentidos de todos na sala reagiram ao mesmo tempo, como se alguém tivesse batido com a palma no tecido do universo e a vibração tivesse passado direto por Decarius.


Hakim ergueu o rosto antes de qualquer outro.


“Sentiram…?”


Yan Chihuo já estava meio de pé, com o tronco inclinado para frente e os olhos fixos em um ponto que não estava em lugar nenhum da sala.


“Hill.” Ele disse.


Ming Xiao não precisou fechar os olhos para localizar. A presença era familiar demais para ser confundida. Era um peso brutal de vida e força, empurrando o mundo de baixo para cima.


“Momoa.” Ele falou, certeiro.


Aquele nome, dito ali, deslocou o eixo de todo o salão. Não foi surpresa no sentido normal, porque líderes daquele nível não se surpreendiam facilmente. Foi um ajuste brusco de expectativa. Nas contas de todos, Momoa ainda deveria estar mergulhado na Singularidade, a uma distância impronunciável do resto.


“É cedo demais.” Yang Hao comentou, como quem revisa um cálculo: “Na melhor das hipóteses… não deu tempo nem de vinte anos lá dentro.”


Daren se manteve quieto por um instante, apenas sentindo. A presença subia de Hill como um pilar que atravessava o planeta, mas não carregava o menor traço de desconfiança ou instabilidade. Era Momoa, inteiro, chamando a atenção do mundo simplesmente por existir de novo fora da Singularidade.


“Ele não voltaria porque alguém mandou.” Daren avaliou em voz baixa: “Nem porque se assustou. Momoa não é desse tipo. Se voltou, é porque decidiu que estava pronto para voltar.”


Hakim franziu levemente o cenho.


“E decidiu rápido.” Ele acrescentou: “Rápido demais para o que a Singularidade pode entregar sem cobrança.”


Zao Tian escutava, sentindo a mesma presença, mas de outro jeito. Para ele, Momoa não era só uma coluna de energia. Era o homem que segurava Hill há milênios, que fizera escolhas parecidas com as de Daren, mas de outro ângulo. Saber que ele estava de volta era como ganhar uma peça de muralha que todo mundo já tinha marcado como indisponível.


“Seja qual for o motivo, ele não chegou em silêncio.” Yang Hao afirmou: “Hill já está em pé. Eles também devem ter sentido.”


“Ele merece ser recebido por todos.” Hakim completou: “Não por mensageiros, não por recados. Ele é o senhor de Hill.”


Daren assentiu, sem hesitar.


“A reunião termina aqui.” Ele decidiu: “O que precisava ser dito foi dito. O resto agora é trabalho… e parte desse trabalho é estar na frente de Momoa.”


Yan Chihuo soltou o ar devagar.


“Ele passou a vida inteira segurando o próprio mundo.” Ele disse: “Se voltou, mesmo com a conta de tempo errada… é uma esperança que a gente não pode desperdiçar.”


Zao Tian se levantou junto com os outros. A decisão de Daren não precisava de votação.


“Vamos.” Ele falou.


Daren então fez o que fazia com naturalidade. Não precisou de círculos desenhados nem de discursos. O espaço atrás dele apenas afundou como se alguém tivesse retirado um bloco invisível da parede do universo. A escuridão respondeu, abrindo um caminho direto para o céu de Hill.


Depois de Daren, Hakim foi o primeiro a atravessar. Yan Chihuo veio logo atrás. Ming Xiao e Yang Hao entraram em seguida. Zao Tian foi o último a cruzar o limiar, levando consigo o compromisso recém-assumido e a consciência de que, agora, qualquer reforço verdadeiro valia ouro.


Do outro lado, Hill já estava acordado.


As cidades, as montanhas e as planícies daquele continente não eram silenciosas por natureza, mas havia um tipo especial de agitação que só aparecia quando forças muito grandes se moviam. Moradores comuns não sabiam nomear o sentimento, mas o ar parecia mais denso, como se fosse preciso empurrá-lo com o peito para respirar.


No alto, acima da capital e dos domínios que respondiam diretamente a Momoa, o céu tinha uma cicatriz aberta. Ali era o ponto de acesso da Singularidade, o lugar onde o tecido do mundo tinha sido costurado e recosturado inúmeras vezes, para permitir que guerreiros entrassem e saíssem daquele loop temporal.


A cicatriz, que costumava ser um brilho discreto, agora era uma fenda clara, pulsando.


Quando Daren e os outros surgiram, foram recebidos por um coro silencioso de presenças. Guardas de Hill, anciões, cultivadores de todas as linhagens que ainda estavam no planeta já tinham se elevado aos céus, mantendo uma distância respeitosa do ponto principal.


Todos eles sentiam.


A luz da cicatriz se expandiu uma última vez, e então contraiu num só movimento, como um pulmão que expele o ar e nunca mais puxa de volta. Do centro, um corpo avançou, pisando no vazio com a naturalidade de quem sempre tratou o céu como chão.


Momoa.


A chegada dele não teve efeitos espetaculares além dos necessários. A energia de vida que o cercava achatou o ambiente por um instante, fazendo as plantas embaixo oscilarem como se um vento sem direção tivesse passado por elas. O peso da força física que emanava dele era tão familiar quanto insuportável para quem não estava acostumado.


Ele parou ainda acima dos domínios de Hill, olhando em volta com calma. Não parecia apressado, nem perdido. Só presente.


Daren avançou um pouco, o suficiente para que a distância entre eles fosse de igual para igual.


“Momoa.” Ele chamou, sem formalidades inúteis.


O líder de Hill virou o rosto na direção de Daren, depois varreu o resto do grupo com o olhar. Reconheceu cada um. Reconheceu, inclusive, a pequena mudança na postura de Zao Tian, que não estava ali apenas como o garoto problemático de antigamente, mas como alguém que tinha acabado de aceitar uma chave pesada demais.


“Demônio.” Momoa respondeu, com a simplicidade de sempre.


A voz dele não trazia sombra de desconfiança. Era o tom de quem volta para casa e encontra a mesma coluna de sempre segurando o teto.


Yang Hao inclinou a cabeça, em sinal claro de respeito.


“Você voltou mais rápido do que qualquer um de nós previu.” Ele disse: “Nas nossas contas, ainda não dava tempo nem para vinte anos de Singularidade.”


Momoa deixou a respiração sair pelo nariz, lenta. Quando falou, não houve uma explicação completa, mas houve verdade.


“Nas suas contas.” Ele corrigiu: “Para mim… foi o suficiente!”


Hakim deu meio passo à frente, olhando-o de frente.


“Você acha que encontrou o que foi buscar?” Ele perguntou, sem acusação, apenas curiosidade: “Ou alguma coisa te tirou de lá?”


Momoa sustentou o olhar de Hakim por um instante. Em qualquer outro homem, aquilo seria desconfortável. Nele, era apenas um exame médico, como se estivesse avaliando se o paciente na frente tinha entendido a própria doença.


“A Singularidade me deu o que tinha para dar.” Ele respondeu: “Eu fui até onde dava para ir sem jogar fora o que me ancora.”


Zao Tian na mesma hora pensou na doença dos mil anos, naquele limite que ninguém, nem o Reino da Escuridão, tinha conseguido curar. Momoa não mencionou o nome, mas todos ali entenderam.


“Deu tempo disso acontecer?” Daren perguntou, afinal, as contas não batiam.


“Sim.” Momoa respondeu, direto: “Eu saí quando o que eu ganhava começou a empatar com o que eu perdia.”


Ming Xiao fechou um pouco os olhos, como se ponderasse as palavras.


“Então você voltou sabendo que não ia ter respiro.” Ele concluiu: “Sem intervalo.”


“Eu nunca contei com intervalos.” Momoa disse: “Só com trabalho.”


Não havia bravata naquela frase. Era um diagnóstico claro e verdadeiro sobre a própria vida.


Os cultivadores de Hill, mais abaixo, mantinham a distância, mas a postura deles dizia o que precisava ser dito. Ali embaixo não havia pânico nem confusão. Havia alívio. O peso que voltava a ocupar o próprio lugar.


Yang Hao respirou fundo e decidiu explicar algumas coisas sobre o panorama atual para Momoa.


“Você chegou em boa hora.” Ele afirmou: “Nós acabamos de assumir que ninguém mais vai entrar na Singularidade por nós.”


Momoa olhou para Zao Tian de cima a baixo, sem pressa. Ele não parecia surpreso ao vê-lo ali, mas notava, de forma clara, o quanto o rapaz tinha mudado desde a última vez em que se cruzaram.


“Ele?” Momoa perguntou, sem rodeios, indicando Zao Tian com um leve movimento de queixo.


“Ele.” Daren confirmou.


Momoa não se apressou em aprovar ou desaprovar. Ele nunca foi homem de discutir a realidade com preferências pessoais.


“Então o mundo finalmente escolheu um nome em voz alta.” Ele comentou, sem julgar: “Já era hora.”


Zao Tian sustentou o olhar. Não precisava repetir tudo o que havia dito na reunião. Ele só precisava não recuar.


“Eu vou até onde der.” Ele disse: “E mais um passo, se for preciso.”


Momoa assentiu, como quem marca um acordo silencioso entre dois trabalhadores que sabem quanto pesa uma ferramenta.


“Vamos descer.” Ele sugeriu: “Hill não é lugar para conversa de pé nas nuvens. Os meus precisam me ver, e vocês precisam ser vistos com a minha casa de pé.”


Daren concordou sem discussão. Eles não eram convidados ali. Eram pares que reconheciam território um do outro.


Enquanto o grupo começava a perder altitude, o mundo continuava a ajustar o próprio eixo ao retorno de Momoa. Não era só Hill que sentia. Nas margens de Kaos, nos pontos mais remotos do mundo humano, os cultivadores mais sensíveis percebiam, ainda que de forma distante, que uma peça chave tinha voltado ao tabuleiro.


Uma esperança, mesmo que ainda sem forma, se somava à responsabilidade recém-entregue a Zao Tian.


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Enquanto isso, muito longe dali, em um ponto onde nem Momoa, nem Daren, nem Zao Tian poderiam chegar sem preparação específica, outra coisa se mexia.


Nos confins do espaço, além do alcance das rotas habituais, a Trindade flutuava diante de uma estrutura que não parecia obedecer nenhuma geometria conhecida. Não era um planeta, não era um asteroide, não era um domo simples como o que guardava o Vale da Esperança. Era uma prisão moldada para deuses, forjada com camadas de diamante, sangue e alma.


Lá dentro, dois nomes que já tinham sido sinônimo de inevitabilidade aguardavam. Um, cego por obrigação. Outro, enterrado vivo na própria arrogância.


Rachid, Samir e Amin, que estudaram os registros de Murdoc por alguns dias, não precisaram encostar na superfície da prisão para abrir o canal de comunicação. Eles já tinham estudado aquele lugar por tempo suficiente para saber onde bater. E quando o fizeram, foi só uma fenda que se abriu entre a consciência deles e o que estava lá dentro.


Daquela fenda, a voz que veio primeiro não foi a que eles queriam ouvir.


“Vocês voltaram.” Heimdall falou, sem qualquer cortesia: “Mortais que brincam de enxergar além do que lhes foi dado. O que querem desta vez? Um epitáfio?”


A presença dele, mesmo encarcerada, era como uma lâmina fria pousada sobre a nuca do universo. Ele não precisava de olhos para medir o tamanho das coisas. O fato de estar preso não diminuía o alcance da percepção, só limitava o braço.


Rachid ignorou o tom.


“Não viemos falar de você.” Ele respondeu, com a calma que vinha da convicção: “Viemos falar com o seu vizinho de cela.”


Do outro lado, algo pesado se remexeu. Geb não se apressou em responder. E o silêncio dele era de puro desprezo.


Quando a voz veio, ela já não carregava nenhum traço de humanidade, apesar do corpo. O Coronel Vargas, cujo corpo fora tomado por Geb há anos, tinha sido reduzido a alimento há muito tempo. O timbre da voz agora era profundo, impregnado de ódio e rancor.


“Eu consigo sentir o cheiro de vocês.” Geb disse: “O mesmo fedor de Loki e dos truques que ele deixou espalhados. Humanos que se acham engenheiros do destino. Por que eu ouviria vermes que ajudaram a me enfiar aqui?”


Samir sorriu, sozinho com o próprio sarcasmo.


“Porque ninguém mais veio.” Ele respondeu: “Nem seus irmãos, nem seus senhores, nem seus pares. Você está preso há tempo demais para continuar fingindo que tem opções.”


Amin, por sua vez, cruzou os braços, deixando que os outros dois conduzissem a conversa. Não porque fosse menos inteligente, mas porque sabia o momento exato de usar o próprio peso.


Heimdall cortou a conversa antes que Geb pudesse responder.


“Não escute.” Ele ordenou, com a palavra soando mais como um aviso do que como conselho: “Eles estão cavando a própria cova e tentando usar você como pá. Isso aqui não é uma barganha. É uma armadilha para a criação inteira.”


A palavra “criação” pesou mais do que qualquer insulto. Heimdall não falava de deuses apenas. Falava de tudo o que respirava no universo.


Diante das fala do deus, Rachid virou a atenção para ele por um instante.


“Você já cavou todas as covas que precisava quando aceitou ser o olho de quem comia os seus como se fossem gado.” Ele retrucou, sem elevar a voz: “Se alguém aqui abriu mão de escolher um lado, foi você. Nós só estamos assumindo o que vocês mesmos começaram.”


Heimdall não respondeu de imediato. Havia uma diferença entre culpa e responsabilidade que ele conhecia melhor do que qualquer um, mas ele sabia que não adiantava debater moral com três mortais que já tinham escolhido trair a própria espécie.


Geb, logo ao lado, riu. Foi um som curto, seco, como pedras batendo.


“Traidores.” Ele repetiu, mas não no mesmo sentido de Heimdall. Era um rótulo que ele gostava de ver em humanos: “Vocês são honestos no nojo que sentem de vocês mesmos. Isso é quase admirável. Mas ainda não responde por que eu deveria perder tempo ouvindo vocês.”


Samir interveio, com a precisão de quem já tinha preparado aquele discurso há muito tempo.


“Porque nós somos os únicos que colocaram as mãos na porta dessa prisão. Só nós sabemos que ela existe e onde está.” Ele disse: “E porque viemos te oferecer justamente o que você não conseguiu sozinho: Uma saída.” 


A palavra “saída” ecoou na cela de Geb de um jeito diferente. Ele não mexeu o corpo, mas a consciência se inclinou na direção do canal.


“Vocês não têm poder para isso.” Ele contestou, mas a frase já não vinha com o mesmo nível de desdém de antes: “Se tivessem, a prisão já estaria em pedaços e vocês estariam mortos por excesso de confiança.”


“Você subestima o valor da paciência e da inteligência.” Rachid respondeu: “E nós não viemos abrir tudo. Viemos abrir o suficiente. As grades completas exigem uma cobrança que não vamos pagar. Mas podemos prometer que temos o necessário para que você saia… e ele fique.”


Heimdall percebeu a intenção antes de Geb.


“Vocês querem me manter aqui.” Ele concluiu: “Soltar a fera e manter o olho preso. Estão tentando começar uma guerra.”


“Não estamos tentando.” Samir corrigiu, quase didático: “Estamos começando. E enquanto você estiver aqui, nós vamos existir fora do seu campo. Você vai ver o estrago, Heimdall. Só não vai poder impedir.”


Geb ficou em silêncio outra vez. O raciocínio dos irmãos era simples demais para não ser compreendido. Se os três haviam chegado ali, era porque tinham, de fato, encontrado uma forma de tocar a estrutura da prisão. Se podiam tocá-la, podiam, em teoria, mexer.


“E o preço?” Geb perguntou. “Nada de graça vem da mão de humanos que falam assim.”


Amin finalmente falou, com a voz grave, cortando qualquer possibilidade de mal-entendido.


“O preço é o esquecimento.” Ele disse: “Nós abrimos o suficiente para você sair e ele continuar preso. Em troca, você finge que nós nunca existimos. Não procura, não tenta vigiar, não tenta medir, não cita os nossos nomes para deus nenhum. Nós queremos estar completamente fora dos registros, principalmente da guerra que virá quando você sair.”


Ao escutar aquilo, Heimdall quase cuspiu a resposta.


“Vocês não entendem o que estão propondo, moleques!.” Ele afirmou: “Soltar Geb neste estado é jogar um planeta inteiro dentro da garganta de um animal que já aprendeu a engolir mundos. Vocês são crianças brincando com sarcófagos. Vocês vão morrer junto com os outros.”


Rachid não se abalou. Ele apenas sorriu com frieza.


“Nós entendemos melhor do que você pensa.” Ele rebateu: “É justamente por saber o que ele é que preferimos que você fique preso. Você é o olho. É o registro. É a memória. Enquanto estiver trancado, ninguém poderá dizer com certeza quem moveu a primeira peça. Se Geb sair por nossas mãos, mas você não, o universo vai culpar os de sempre. Deuses. Humanos. Velhos inimigos. Nós só queremos ficar atrás da cortina.”


Geb ouviu tudo em silêncio. O ódio que ele sentia por Heimdall não era menor do que o que sentia pelos mortais que o tinham aprisionado no passado. Mas ali havia uma diferença de qualidade. Heimdall era um carcereiro, mesmo estando preso. Os trigêmeos, porém, eram ferramentas que ele podia descartar depois.


“E se eu aceitar…” Ele testou, devagar: “Vocês acham mesmo que podem me impedir de encontrar vocês depois?”


Samir respondeu antes que Amin pudesse escolher um argumento mais duro.


“Você pode tentar.” Ele disse, sem ironia: “Mas, enquanto tentar, vai estar gastando tempo que poderia usar para destruir quem realmente te colocou aqui. E, também, não faríamos isso sem algumas garantias, digamos…”


Geb sempre se achara acima de qualquer cálculo, mas o tempo de prisão tinha forçado a mente dele a medir coisas que antes desprezava. As eras passadas ali tinham sido longas o bastante para devorar os últimos traços do orgulho que o impedia de sequer conversar com um mortal..


Heimdall, contudo, insistiu, uma última vez. Apelando para algo que ele sabia que não adiantaria, mas precisava tentar.


“Eles estão arrastando toda a criação com eles.” Ele advertiu, com a voz cortando o espaço como uma lâmina: “Você não é exceção, Geb. Quando esse tipo de gente mexe com o equilíbrio, não sobra pedra sobre pedra. Nem mesmo para deuses. Vocês vão começar algo que nem o Pai de Todos conseguirá segurar.”


“Você fala como se não estivesse preso também.” Rachid respondeu, seco: “Se o que você viu é tão grande quanto diz, ele não vai ser evitado mantendo você aqui com ele. Essa prisão é só um intervalo, não é um freio.”


Geb respirou, se é que aquilo podia ser chamado de respiração. Era mais um deslocamento de energia densa dentro da cela.


“Vocês querem que o mundo entre em colapso sem que o nome de vocês apareça.” Ele resumiu


“Queremos espaço.” Amin corrigiu: “E poder observar. Só isso. O resto já está em curso com ou sem a nossa ajuda. Você é só o acelerador.”


O silêncio que veio depois daquela frase foi diferente dos anteriores. Não era desdém, nem indignação. Era cálculo.


Geb pesou as opções, uma por uma. Ficar ali significava continuar sendo um troféu esquecido no fundo de um cofre que ninguém abria. Sair significava voltar a ser um fator de mudança, ainda que por caminhos tortos.


“Eu não prometo não tentar matar vocês se os encontrar.” Ele avisou: “Mas prometo que não vou procurar. Se conseguirem me tirar daqui mantendo ele preso, eu usarei o primeiro sopro de liberdade para acertar contas com quem realmente importa.”


“É o bastante, para mim.” Rachid disse, antes de fazer uma cara feia e prosseguir: “Mas sua palavra não será o suficiente para o meus irmãos… Então teremos que usar alguns meios para garantir isso…”


Antes que Geb respondesse, Heimdall chamou-os de novo.


“Traidores.” Ele repetiu: “Traidores dos seus, traidores da última chance que sua espécie tinha de não ser esmagada junto com o resto. Vocês estão se oferecendo como ponte para o inimigo atravessar.”


Amin respondeu por último, sem raiva.


“A ponte já existia.” Ele falou: “Nós só estamos escolhendo o lado em que vamos ficar quando ela cair.”


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Dois eventos de extrema importância aconteceram juntos naquele dia.


A esperança recém-ganha com o retorno de Momoa e a ameaça renascida com o quase-acordo de Geb caminharam em paralelo, sem se enxergarem.


Um lado não via o que o outro preparava.


Em Hill, o mundo se reorganizava ao redor de um velho pilar que voltava a ocupar o lugar de sempre.


Nos confins do espaço, três irmãos que tinham decidido ser mais do que qualquer outra coisa abriam, com cuidado cirúrgico, as primeiras frestas de uma prisão feita para não ceder.


Nada tinha desabado ainda. Nenhuma explosão rasgou o céu. Mas as linhas de força do universo tinham acabado de ganhar novos vetores.





O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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