Capítulo UHL 1136 - Exemplo de ser Humano
[Capítulo patrocinado por Rafael Henrique Pereira. Muito obrigado pela contribuição!!!
ATENÇÃO: LINK ATUALIZADO. Venham fazer parte da nossa comunidade no Telegram! https://t.me/+tuQ4k5fTfgc1YWY5
ATENÇÃO: OS EXEMPLARES FÍSICOS E DIGITAIS DO PRIMEIRO LIVRO DE O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS NAS MAIORES LIVRARIAS DO BRASIL E DO MUNDO. APOIE O NOSSO TRABALHO E GARANTA JÁ UM EXEMPLAR TOTALMENTE REESCRITO E REVISADO, E COM TRECHOS INÉDITOS.
Quer ver um mangá de O Último Herdeiro Da Luz? Então, a sua ajuda é muito importante para que possamos alcançar novos limites!
Para patrocinar um capítulo, use a chave PIX: 31988962934, ou acesse https://www.ultimoherdeirodaluz.com/patrocinarcap para outros métodos de pagamento, que podem ser parcelados em até 3x sem juros.
Para ver as artes oficiais da novel, que estão sendo postadas diariamente, siga a página do Facebook https://www.facebook.com/Herdeirodaluz
Ou a página do instagram https://www.instagram.com/herdeirodaluz/
Todas as artes e outras novidades serão postadas nas nossas redes sociais, e vêm muitas outras por aí, então siga as nossas páginas e não perca a chance de mostrar à sua mente qual é o rosto do seu personagem favorito!
Ps: Link do Telegram atualizado!
Tenham uma boa leitura!]
-----------------------
O silêncio que veio depois da afirmação de Momoa foi estranho.
O nome de Zaki, colocado naquele lugar, não encaixava fácil em cabeça nenhuma.
Daren foi o primeiro a expor o que qualquer um com memória suficiente pensaria.
“Eu acho que entendo um pouco do que está se referindo, mas você tem certeza do que está dizendo?” Ele perguntou, sem rodeios: “Você sabe tão bem quanto eu que Zaki foi praticamente o gatilho da Grande Guerra. Foi o homem que quebrou o que não podia ser quebrado e abriu caminho para o resto do desastre.”
A voz de Daren não tinha acusação cega. Tinha histórico. Tinha sangue.
Zao Tian não acrescentou nada de imediato, mas não ficou calado por respeito apenas. Ele também precisava testar aquela frase.
“Quando eu ouvi falar de Zaki pela primeira vez…” Ele disse, olhando para Momoa: “Foi como o nome que vinha junto com a palavra ‘traidor’. O homem que se colocou ao lado dos deuses quando o mundo precisava de alguém contra eles. Você está me dizendo que é nesse homem que eu devo me espelhar?”
Momoa ouviu os dois sem desviar o rosto.
“Eu estou dizendo que o Zaki que vocês conhecem é o fim de uma das linhas.” Ele respondeu: “Ele realmente foi catalisador de uma guerra que já estava pronta para explodir desde muito antes, mas eu estou falando de outra coisa.”
Daren estreitou o cenho.
“Outra coisa como?” Ele insistiu.
“Como o homem que eu vi crescer antes disso.” Momoa disse: “Que eu vi se quebrar e se reconstruir mil vezes antes de qualquer deus colocar a mão nele. Eu não estou pedindo que vocês esqueçam o que veio depois. Só estou dizendo que vocês nunca viram o antes.”
Zao Tian manteve o olhar preso no dele.
“Então comece pelo começo.” Ele falou: “Porque, do jeito que está, parece que você está pedindo que eu mire em uma estátua rachada.”
Momoa assentiu uma única vez. Ele não era o tipo de homem que se ofendia por ser questionado pelo óbvio. Se estivesse no lugar deles, faria a mesma pergunta.
“Tá certo.” Ele concordou: “Vamos voltar.”
Ele então respirou devagar, puxando a memória pela raiz certa.
“Eu cheguei na Singularidade do pior jeito possível.” Ele começou: “Cai direto no passado do Reino Esmeralda, num dia em que o meu pai ainda transformava o mundo em sucata com as próprias mãos.”
Daren confirmou em silêncio. Ele conhecia Halfkor por mais do que boatos.
“Vi Amara jovem, cheia de arrogância, achando que podia atravessar o meu pai na base da confiança.” Momoa continuou: “Vi Halfkor esmagar a arrogância dela como quem pisa em um inseto teimoso. Tentei intervir, fui tratado como nada pelos dois. Meu pai me bateu como se eu fosse um brinquedo. E, naquela cena, a Singularidade me lembrou que, ali dentro, eu podia morrer para sempre.”
Ele passou a mão pelo próprio peito, como se ainda sentisse um rastro daquela primeira experiência.
“O veneno que ele me colocou… não era coisa para treino.” Ele disse: “Foi uma dose pensada para matar de vez. Minha regeneração quase não deu conta. E foi nesse estado, meio morto… que Gold apareceu.”
“Ele não chegou como um salvador manso.” Momoa continuou: “Chegou irritado. Cortou o cenário como quem arranca um pano sujo da frente dos olhos. Pôs meu pai no lugar, pôs Amara no lugar, e me jogou no chão certo: o de quem precisava ouvir antes de achar que tinha algo a dizer.”
Daren lembrava da forma como Gold entrava nas conversas. Não era alguém que aceitasse meias medidas.
“Ele entendeu rápido o que a Singularidade tinha virado.” Momoa explicou: “Um campo de teste que saiu do controle. Gente entrando sem saber o preço. Loops repetindo as mesmas tragédias. E, principalmente, uma exceção no meio disso tudo: eu.”
Zao Tian franziu levemente a testa.
“Exceção...” Ele repetiu.
“Você sabe da regra.” Momoa disse: “Trinta e sete dias. Quem morre dentro volta com o relógio zerado, mas eu não voltava. Eu morria de verdade. O meu tempo corria sozinho.”
Ele inclinou um pouco a cabeça.
“Gold aproveitou isso.” Ele continuou: “Ele pegou a estrutura do loop e fez algo que ninguém mais conseguiria fazer. Puxou uma região inteira do espaço, acelerou até a velocidade da luz e amarrou na lógica da Singularidade. Do lado de fora, os ciclos continuavam. Do lado de dentro, ele… esticou o tempo.”
Daren respirou mais curto, acompanhando a construção.
“Isso não é metáfora?” Ele perguntou.
“Não.” Momoa respondeu: “Eu não sei descrever com os termos bonitos que você usaria, Daren, mas eu vi. Ele pegou um intervalo útil em que nada do lado de dentro mudava, nenhum ciclo se repetia… milênios aconteciam normalmente, sem loops.”
Zao Tian sentiu aquela frase bater de um jeito estranho.
“Milênios.” Ele ecoou.
“Milênios.” Momoa confirmou: “Ele pegou a Singularidade, que já era um campo de distorção temporal, e dobrou mais uma vez. Empurrou uma região inteira para um canto em que só existia treino, desgaste e construção. Para o resto do universo, era só mais um único ciclo. Para nós… foi uma vida.”
“‘Nós’ quem?” Daren perguntou.
Foi aí que Momoa começou a puxar o fio que interessava.
“Eu, Amara… e ele.” Momoa respondeu: “Zaki.”
Só o modo como ele soltou o nome já era diferente de tudo o que Zao Tian tinha ouvido até então.
“Quando eu vi aquele garoto pela primeira vez…” Momoa prosseguiu: “Ele não tinha nada que chamasse atenção pelos motivos certos. Parecia frágil demais para aquele tipo de lugar. Corpo pequeno, ossos que chiavam. O tipo de gente que, no meu mundo de antes, morreria na primeira guerra e viraria estatística.”
Ele deixou um canto de ironia passar.
“E, ainda assim, ele estava ali.” Momoa disse: “Chegando atrasado, séculos atrás de mim e de Amara. Eu já tinha mais de três mil anos de guerra nas costas. Ela já tinha passado por provas demais para qualquer cultivadora da idade dela. E o garoto… parecia alguém que tinha roubado a passagem de entrada.”
Zao Tian estreitou um pouco os olhos.
“Você já conhecia o nome.” Ele observou: “Já tinha vivido a Grande Guerra. Já sabia em quem aquele garoto ia se transformar.”
“Sabia.” Momoa confirmou: “E foi por isso que eu odiei ver aquele rosto. Na primeira vez em que ouvi alguém chamá-lo de Zaki, eu quis atravessá-lo na hora. Para mim, ele era o símbolo do que tinha dado errado. O homem que tinha ficado ao lado dos deuses quando o mundo precisava de outro tipo de coluna.”
Ele inclinou o queixo para baixo, lembrando.
“Mas Gold não deixou.” Ele acrescentou: “Ele me segurou como se eu fosse um animal, me jogou de volta no lugar e mandou eu calar a boca. Disse que aquele Zaki não tinha nada a ver com o que eu achava que sabia.”
Daren respirou fundo. Ele via Gold fazer isso com facilidade. Rasgar linhas que todo mundo considerava óbvias.
“E o garoto?” Zao Tian perguntou: “Como reagiu?”
“Como alguém que já tinha apanhado tanto da vida que a opinião dos outros era só barulho de fundo.” Momoa respondeu: “Ele me olhou como quem olha uma parede e voltou a treinar. Era irritante. E não se justificou, não pediu nada. Só continuou.”
Ele deixou um leve sorriso reaparecer no rosto.
“No começo, a relação era simples.” Momoa explicou: “Eu desconfiava, Amara desprezava, e Gold… jogava trabalho na cara de todos nós. Ele montou treinos que nos obrigavam a dividir o mesmo espaço, a mesma dor, a mesma escassez. Ninguém ali podia fazer o próprio caminho separado sem bater de frente com um dos outros dois.”
Zao Tian ficou em silêncio, visualizando.
“Foi aí que eu vi quem Zaki era de verdade.” Momoa disse, com a voz ficando um pouco mais grave: “Ele nunca foi o mais forte da sala. Nunca foi o mais talentoso. Nunca foi o mais protegido. Mas era sempre o primeiro a se jogar.”
Daren inclinou levemente a cabeça, pedindo exemplos sem precisar de palavras.
“Vou te dar alguns.” Momoa disse.
Ele organizou a memória com cuidado, sem entrar em minúcia inútil, mas sem lixar o peso das cenas.
“Teve um dia em que Gold nos colocou em uma formação de energia que cortava qualquer coisa que se mexesse rápido demais.” Ele contou: “Era um campo de lâminas invisíveis. A cada passo em falso, o corpo perdia um pedaço. Eu conseguia atravessar na força bruta, regenerando o que perdia. Amara, na habilidade, desviando até onde dava. Zaki… não tinha nenhuma das duas vantagens.”
Um eco de desconforto passou pelo olhar de Zao Tian.
“O que ele fez foi o que ninguém faria.” Momoa prosseguiu: “Se colocou à frente. Tomou os cortes primeiro, mediu o ritmo com o próprio corpo, e gritou o tempo das lâminas para que nós dois conseguíssemos passar com menos dano. Ele saiu do outro lado parecendo um animal que tinha passado por dentro de um moedor. E Gold nem parabenizou. Só mandou repetir.”
Daren apertou a mandíbula.
“E aquele maluco repetiu.” Momoa completou: “Ele se ferrou tanto, até que o corpo aprendeu. Aquilo tudo não era suicídio. Era teimosia e determinação. Ele decidiu que a carne dele era menos importante do que o caminho que estava abrindo.”
Ele olhou diretamente para Zao Tian.
“Esse era o padrão.” Ele disse: “Sempre que tinha algo feio pela frente, Zaki se colocava na frente. Não por heroísmo barato. Mas porque ele sentia que, se ele recuasse, ninguém ia querer ser o primeiro. Então ele ia.”
Zao Tian ouviu e não respondeu. Ele estava ajustando aquela imagem com a versão de Zaki que ele conhecia dos relatos da guerra.
“Em outra situação, Gold montou um cenário em que a Singularidade imitava um colapso dimensional.” Momoa continuou: “Um buraco de energia que puxava tudo para o centro. A saída era uma faixa fina de estabilidade. Alguém precisava ficar na borda, segurando a estrutura, para que os outros dois atravessassem. Quem ficasse… não tinha garantia de sair.”
Daren já podia adivinhar o resto.
“Zaki foi quem ficou.” Momoa disse: “Ele se plantou na borda, ancorou a própria energia ali e segurou tudo enquanto eu arrastava Amara para a faixa estável. Não houve hesitação. Nem reclamação. Quando Gold perguntou por que ele tinha ficado, ele só disse que fazia sentido: eu era o mais resistente fisicamente e tinha uma missão no meu tempo; Amara, a que carregaria o título do Demônio da Escuridão; então sobrou para ele segurar a corda.”
Ele respirou.
“Essas coisas não aconteceram uma única vez.” Momoa afirmou: “Aconteceram durante milênios comprimidos. Ele sempre era o que se colocava na posição mais ingrata, mais desconfortável, mais arriscada, se isso significasse empurrar os outros dois mais um passo para frente.”
Zao Tian apertou os dedos, sem perceber, como se estivesse segurando algo para não deixar cair.
“Amara via isso.” Momoa acrescentou: “No começo, ela tratava como mera obrigação dele. Com o tempo, o respeito apareceu. Ela também era quebrada por dentro por Gold. O talento que ela tinha de sobra foi desmontado camada por camada até sobrar alguém que sabia o peso de cada escolha. Zaki esteve lá em todas essas quebras.”
Daren, que conhecera Amara naquela idade, absorvia aquilo como alguém que reencontra uma peça do passado por outro ângulo.
“Você não perguntou como ele alcançou alguém como eu.” Momoa disse, voltando para Zao Tian: “Mas eu vou dizer e a resposta é simples e, ao mesmo tempo, impossível para quase todo mundo… foi porque ele não parou.”
Ele ergueu a mão, como se pesasse algo no ar.
“Eu cheguei na Singularidade com mais de três mil anos.” Ele explicou: “Já tinha visto continentes ruírem, já tinha segurado guerras inteiras nas costas, já tinha feito opções que ninguém deveria ter que fazer. Zaki chegou milênios atrás disso em idade, poder e experiência. Se fosse um universo normal, ele nunca encostaria em mim.”
Os olhos de Momoa estreitaram, mas não de irritação. De foco.
“Só que não era um universo normal.” Ele continuou: “Era uma Singularidade guiada por Gold. Era um lugar em que o tempo trabalhava para quem sabia usá-lo. E Zaki sabia aproveitar cada segundo. Enquanto eu treinava, ele treinava mais. Enquanto eu descansava, ele voltava para o campo. Enquanto eu me dava o luxo de pensar que já tinha entendido alguma coisa, ele estava testando outra forma de entender.”
Daren não contestou, pois ele já tinha visto esse tipo de diferença de mentalidade em outros lugares, mas raramente com essa escala.
“Teve um momento…” Momoa disse, com a voz um pouco mais baixa: “Em que eu percebi que, em áreas específicas, ele já estava na minha frente. Não em força bruta. Eu ainda era o brucutu da sala. Mas em leitura de cenário, em antecipação, em capacidade de se colocar exatamente onde ninguém mais gostaria de estar… ele estava um passo adiante.”
Zao Tian deixou aquilo assentar.
“E o vínculo entre vocês?” Ele perguntou: “Como saiu da desconfiança para o respeito?”
Momoa demorou meio segundo a mais para responder, como se escolhesse uma cena entre muitas.
“Quando você divide milênios com alguém, mesmo que comprimidos em um intervalo que o resto do universo não percebe…” Ele começou: “Não tem como ficar só na desconfiança. Ou vocês se matam, ou viram alguma coisa que o resto do mundo não tem nome para descrever.”
Ele inclinou o rosto, lembrando.
“No começo, eu esperava que ele tropeçasse e revelasse o mal dentro dele.” Momoa admitiu: “Que mostrasse o defeito escondido, a malícia, a vontade de usar os outros como degrau. Contudo, com o tempo, eu comecei a esperar outra coisa… que ele simplesmente descansasse. Porque ele simplesmente não parava. E isso me deixava preocupado.”
Daren soltou o ar devagar pelo nariz, entendendo bem esse tipo de gente que só sabe viver em função de um objetivo.
“A admiração veio quando eu percebi que ele não fazia aquilo por obsessão cega pela própria força.” Momoa disse: “Fazia porque queria ser útil. Para o mundo, para Gold, para Amara, para qualquer um que estivesse ao alcance dele. Ele não queria ser o topo. Queria ser o apoio perfeito. O sucessor perfeito.”
Zao Tian sentiu aquela frase bater em um lugar incômodo, afinal, a comparação entre ele e Zaki, ambos discípulos do mesmo mestre, era inevitável aonde quer quer ele fosse.
“Então, quando eu falo para você se espelhar nele…” Momoa concluiu: “Não é no Zaki que o mundo viu em chamas. É no Zaki que eu vi antes. No homem que atravessava qualquer coisa para que os outros seguissem inteiros. No humano que mostrou, dentro da Singularidade, o que significa usar cada milímetro do próprio potencial e corpo em função de algo maior do que o próprio nome.”
Ele então recostou um pouco o peso nas pernas, sem tirar os olhos de Zao Tian.
“Você foi colocado na posição que está agora.” Ele disse: “Vai ter que decidir, mais cedo ou mais tarde, onde gasta cada passo que der. Vai ter que escolher se usa o que tem para erguer o próprio pedestal ou para segurar o teto do mundo enquanto ele treme.”
O salão parecia menor à medida que ele falava.
“Zaki, lá dentro, escolheu a segunda opção toda vez.” Momoa completou: “É isso que eu estou mandando você mirar. Não o símbolo que o universo carrega como traidor. Mas o homem que, antes de tudo isso, mostrou do que um humano é capaz quando decide que a própria vida é uma ferramenta, não um troféu.”
Daren não respondeu de imediato. Ele sentia o choque entre as duas imagens de Zaki, como duas placas tentando ocupar o mesmo lugar em sua mente.
Zao Tian também não falou.
As palavras ficaram ali, suspensas, como se tivessem que encontrar sozinhas o lugar certo dentro de cada um.
A figura de Zaki, até então conhecida só como o gatilho de uma guerra antiga, começava, pela primeira vez, a ganhar contornos diferentes na mente de Zao Tian. E isso, por si só, já era uma mudança grande demais para caber em um único instante.
