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Capítulo UHL 1140 - Maluco

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Tenham uma boa leitura!]


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O céu do Vale da Esperança sempre pareceu mais baixo do que o resto do mundo.


Para a maioria das pessoas, aquilo era só uma sensação boa, um conforto difícil de explicar. Para Zao Tian, era um problema técnico esperando para ser resolvido.


Ele estava parado sobre uma elevação de rocha, num dos pontos mais sob o domo. Dali, ele podia ver boa parte do Vale: casas, pátios, campos de cultivo, campos de treino e, por cima de tudo, a cúpula translúcida que Gaspar havia erguido com tempo e muito gasto de energia.


Ele observava a curvatura da barreira como quem estudava uma ferida e uma solução ao mesmo tempo.


“Pequeno demais.” Ele pensou: “E, ainda assim, imenso para quase todo mundo.”


Enquanto Zao Tian pensava, o vento encostava no rosto, carregando odores familiares: terra, fumaça de cozinha, resíduos de energia espiritual das formações, o cheiro distante de metal e poeira vindo dos campos de treino. Tudo aquilo só existia daquele jeito porque muita gente tinha derramado mais do que suor ali.


Ele lembrou das crianças naquele mesmo campo, mais cedo. Lembrou dos adolescentes sentados no chão, ouvindo uma verdade que ele não costumava falar em voz alta. Lembrou da pergunta simples: “É tão bom assim ser quem o senhor é?”


E lembrou da sensação estranha que veio junto com o “obrigado” no final.


“Um Vale inteiro debaixo de uma cúpula…” Ele pensou, olhando para cima: “E ainda é pouco.”


Ele estava exatamente nessa linha de raciocínio quando percebeu uma aproximação.


Gaspar não era mais pesado do que antes, em termos de corpo. Mas o jeito como a presença dele empurrava o ar tinha mudado. A energia não vazava para todos os lados, como alguém tentando se segurar. Agora, ela parecia contida, comprimida, pronta para explodir tanto para defesa quanto para ataque.


“General.” Zao Tian disse, sem virar de imediato.


“Líder.” Gaspar respondeu, chegando ao lado dele.


Durante um instante, nenhum dos dois falou mais nada.


Eles ficaram ali, ombro a ombro, olhando o mesmo céu.


“Faz tempo.” Zao Tian quebrou o silêncio, por fim: “Desde que você voltou da Singularidade, só nos cruzamos em reuniões e relatórios. Faltou muita conversa.”


“Faltou.” Gaspar concordou: “Você some no meio de deuses, orcs, krovackianos, Trindade, Olho… e eu fico com dó de disputar agenda.”


Zao Tian deixou escapar um sorriso curto.


“Meus dias foram bem cheios.” Ele admitiu: “Enquanto você estava preso no tempo, eu estava tentando impedir que tudo desmontasse de vez. O Olho, os deuses, as ramificações novas, os exércitos insurgentes, os planetas que não sabem se atacam ou se escondem-se… Foi uma grande festa.”


“Uma festa para a qual eu faltei.” Gaspar disse: “De propósito, aparentemente.”


Havia humor na voz dele, mas também um fio de culpa assumida.


“E você?” Zao Tian perguntou, virando o rosto: “Como foram os seus dias… ou séculos, ou milênios, sei lá qual unidade serve melhor lá dentro?”


Gaspar respirou fundo, como quem procura um começo razoável para algo que não cabia numa frase.


“Mais simples do que os seus.” Ele respondeu: “Mas não menos dolorosos.”


Ele deixou o olhar escorregar pelo domo, quase como se enxergasse outro céu por cima daquele.


“Na minha cabeça, eu ia entrar na Singularidade, procurar por Gold, pedir orientação, talvez um puxão de orelha, talvez um tapa na nuca, e sair de lá mais preparado para segurar o mundo com você.” Gaspar continuou: “Na prática… Foi outra coisa que me achou.”


Zao Tian olhou de lado, curioso.


“Monky.” Gaspar comentou, com o meio sorriso de quem ainda não decidiu se xinga ou agradece: “O Macaco Rei dos Ventos Azuis. Mestre da sua esposa. A pior e melhor coisa que podia ter me acontecido lá dentro.”


Ele se recostou levemente na rocha atrás de si, acomodando melhor o peso.


“Eu estava rastreando qualquer sinal do Gold.” Gaspar explicou: “Seguindo vestígios de energia, resíduos de técnicas, fofocas. Em certo ponto, achei que tinha encontrado algo. Uma distorção, um cheiro de poder que parecia com o dele, porque era grande demais… e, tecnicamente, eu não estava tão errado assim.”


Zao Tian ergueu a sobrancelha.


“Tecnicamente?” Ele repetiu.


“Era uma marca dele, mas não a presença.” Gaspar disse: “O que eu achei foi um quintal que ele deixou para alguém guardar. E esse alguém resolveu me lembrar do meu lugar.”


A lembrança passou pelo olhar dele com um traço quase físico de dor.


“Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, o céu virou um borrão azul.” Gaspar continuou: “O chão sumiu. E, quando eu percebi, um monstro estava atravessando cada defesa que eu conhecia, com a delicadeza de um raio caindo em cima de uma barraca.”


“Monky não é fã de visitas.” Zao Tian comentou.


“Ele é fã de testes.” Gaspar corrigiu: “Ou de crueldade pedagógica. Ainda não decidi. A primeira coisa que ele fez foi arrancar a minha ilusão de que eu era difícil de derrubar. Ele me quebrou de todos os jeitos possíveis, físicos e espirituais, antes de perguntar o que eu estava fazendo ali.”


“E o que você respondeu?” Zao Tian perguntou.


“A verdade.” Gaspar respondeu, sem heroísmo: “Que eu estava procurando Gold. Que eu precisava ficar mais forte. Que tinha prendido um deus antigo e quase destruído a própria alma no processo. E que não queria que isso se repetisse, caso algo pior aparecesse.”


“E ele acreditou?” Zao Tian quis saber.


“Ele acreditou.” Gaspar disse: “Mas riu na minha cara do mesmo jeito. Disse que, se eu precisava procurar o Gold para virar muro de verdade, então eu ainda não tinha entendido nada sobre o que significava ser uma muralha no mundo dele.”


Zao Tian imaginou o macaco de pelos azuis, rindo, com aquela cara irritante de quem sempre sabe de algo a mais.


“Depois da risada, veio a sentença.” Gaspar prosseguiu: “Ele me levantou pelo pescoço, literalmente, e disse que eu estava procurando no lugar errado. Que os primeiros discípulos de Gold, os que realmente carregavam a marca do treinamento dele antes dos humanos, não eram gente. Eram bestas.”


Zao Tian assentiu, devagar.


“Eu já ouvi essa história.” Ele comentou: “Gold sempre preferiu bestas demoníacas no começo. Ele não suportava humanos naquele estágio da vida.”


“Monky deixou isso bem claro.” Gaspar disse: “Ele explicou, com a sutileza de um soco, que as bestas que Gold escolheu eram selvagens, mas carregavam algo que os humanos quase nunca mantêm: pureza de essência. Não tentavam mentir, não tentavam se vender. Eram o que eram. Cruéis, vorazes, e inocentes às suas próprias maneiras.”


“Foi por isso que ele me treinou...” Zao Tian murmurou, mais para si mesmo.


Gaspar concordou.


“E foi por isso que ele treinou eles primeiro.” Ele corrigiu: “Eu não cheguei nem perto de ser um discípulo direto de Gold. Eu fui arremessado, por Monky, para o lugar onde esses discípulos viviam.”


Ele respirou de novo, dessa vez mais longo.


“Um mundo inteiro.” Gaspar relatou: “Pelo menos era o que parecia. O céu cheio de fendas, o solo quebrado por crateras que nunca cicatrizavam, oceanos que mudavam de direção de acordo com o humor das feras que viviam neles. As piores e mais fortes bestas demoníacas que você pode imaginar… e mais algumas que nem Gold teria o costume de descrever para não assustar principiantes.”


Zao Tian não interrompeu.


“Aquelas bestas um dia foram selvagens, sim.” Gaspar continuou: “Mas Gold passou milênios com elas. Lapidou cada uma. Elas ganharam consciência, fala, disciplina de luta e uma capacidade de raciocínio que não perde em nada para qualquer gênio humano. Em alguns aspectos… elas são piores, porque pensam como nós e ainda mantêm instintos que nenhum humano normal teria coragem de abraçar.”


Ele soltou um riso sem humor.


“Quando me jogaram no meio daquele ninho, eu tive certeza de uma coisa.” Gaspar disse: “Eu não era a muralha de nada. Eu era só mais um tijolo rachado.”


“Monky te apresentou?” Zao Tian perguntou.


“Do jeito dele.” Gaspar respondeu: “Ele gritou para o deserto que tinha trazido um humano convencido, que achava que podia segurar um mundo nas costas, e que agora eles tinham um saco de pancadas novo para aquecimento.”


Zao Tian imaginou a cena e, apesar da dureza, sentiu um traço de alívio. Gold, Monky, aquele mundo… ainda estavam funcionando como linhas de treinamento para o futuro.


“Eles não tiveram dó.” Gaspar disse: “Nem deveriam. As primeiras interações foram simples: eu erguia todas as camadas da minha defesa, toda a ‘muralha suprema’ que eu construí ao longo da vida… e eles atravessavam como se fosse uma cortina.”


O olhar dele ficou distante, preso em golpes que só ele via.


“A minha defesa funcionou contra gente.” Gaspar explicou: “Contra deuses enfraquecidos, contra ataques diversos e contra energia espiritual concentrada. Mas, para aquelas coisas… eu era só um alvo interessante. Quanto mais eu sustentava, mais elas testavam. Em certo ponto, eu descobri quantas vezes uma alma pode ser despedaçada e remontada antes de esquecer o próprio nome.”


Zao Tian sentiu uma pontada na própria memória, lembrando de cada treinamento que teve sob a tutela sádica de Gold.


“Você evoluiu.” Ele afirmou, sem perguntar.


“Eu não tinha outra opção.” Gaspar respondeu: “No começo, eu me orgulhava de aguentar. De levantar de novo, mesmo depois de ser triturado. Eu me agarrava à ideia de que era isso que você precisava: uma muralha que nunca cai.”


Ele fechou a mão, devagar.


“Foi uma besta que me perguntou pela primeira vez: ‘Por que você não morde de volta?’” Gaspar contou: “Na cabeça dela, era absurdo alguém só se defender. Ela dizia que pedra parada só serve para ser escalada. Muro que não reage, mais cedo ou mais tarde, vira ruína ou degrau.”


Zao Tian deixou que a frase assentasse.


“Eu comecei a entender.” Gaspar prosseguiu: “Aquelas criaturas tinham sido treinadas pelo Gold para serem a linha de frente. Elas sabiam defender, claro. Mas a defesa delas sempre vinham grudadas em um contra-ataque que fazia o agressor pensar duas vezes antes de repetir. A minha muralha, para elas, era algo incompleto. Uma fortaleza sem armas.”


Ele sorriu, pequeno.


“Depois de ser despedaçado por vezes demais, eu cansei de só levantar.” Gaspar disse: “Comecei a aprender a atacar. Aprendi a atacar como quem usa a própria defesa como arma. Cada impacto que antes eu só absorvia… eu passei a devolver.”


“Então você ainda é a muralha que eu preciso?” Zao Tian perguntou, finalmente, quebrando a linha do relato: “Ou eu perdi a minha parede para ganhar outro lunático ofensivo?”


Gaspar riu, dessa vez com um pouco mais de vida.


“Eu ainda sou o muro que você precisa.” Ele respondeu, olhando direto para ele: “Só que agora… sou um muro que bate tão bem quanto defende. Quem vier contra mim, vai descobrir que a parede também sabe bater de volta.”


A frase tinha uma mistura de humor e verdade que deixava claro: ele não tinha abandonado a função. Tinha ampliado.


Zao Tian assentiu, satisfeito.


“Isso é bom.” Ele comentou: “Porque eu estava justamente tendo uma ideia. E, se você voltou assim… eu acho que você e Joster vão ter muito trabalho.”


Gaspar franziu levemente o cenho.


“Joster?” Ele repetiu: “Se você precisa de nós dois, não deve ser uma coisa pequena.”


Zao Tian não respondeu de imediato.


Ele apenas voltou o olhar para o céu, do mesmo jeito que estava quando Gaspar chegou, mas agora havia algo mais definido por trás dos seus olhos. Como se as linhas invisíveis que ele via ali em cima estivessem ganhando forma.


Gaspar tentou seguir a direção do olhar dele, entretanto, não viu nada além do domo, nuvens dispersas, a curva suave da barreira e, além dela, o céu normal.


“Você está vendo o quê, exatamente?” Ele perguntou: “Eu não enxergo nada…”


“É porque ainda não está lá.” Zao Tian respondeu: “Por isso você não vê.”


“Isso não ajuda.” Gaspar resmungou: “No que você está pensando?”


Zao Tian não respondeu com palavras de imediato.


Ele levantou a mão e apontou, primeiro, para o domo que cercava o Vale da Esperança.


A estrutura cintilava de leve. Não era um brilho chamativo. Era uma densidade no ar, uma resistência quase palpável, fruto do trabalho exaustivo de Gaspar.


“Esse domo…” Zao Tian disse: “Foi você que fez.”


Gaspar assentiu, sem o orgulho inflado que qualquer outro homem teria.


“Eu fiz.” Ele confirmou.


Zao Tian sustentou o olhar por um instante, como quem mede não o feito, mas o custo invisível por trás dele.


A maioria das pessoas via o domo como um escudo bonito. Um conforto transparente. Uma assinatura do nome de Gaspar.


Só quem entendia um mínimo de física do mundo, e um mínimo do corpo de Gaspar, sabia a verdade.


O diamante não era “erguido”. O diamante era criado.


E criar uma massa daquele tamanho, daquela densidade, daquela pureza, não era um feito simples.


Era uma sentença de exaustão.


“Eu nunca precisei de alicerces.” Gaspar disse, como se adivinhasse o rumo do pensamento de Zao Tian. “Nunca precisei de construção civil, de base, de plataformas, de nada. Eu não monto. Eu materializo.”


Ele deu uma risada curta, amarga.


“Isso faz as pessoas acharem que é mais fácil.” Ele completou: “Mas não é.”


Zao Tian olhou para a curva do domo outra vez.


“Eu sei.” Ele disse.


Gaspar ergueu a mão e fez um gesto pequeno no ar, como se desenhasse uma linha invisível.


“Eu começo pelas bordas.” Ele explicou. “Sempre. Porque eu preciso de continuidade. Eu preciso que a massa se apoie nela mesma enquanto cresce. Se eu tentar criar uma placa no ar…”


“Ela cai.” Zao Tian concluiu, antes que ele terminasse.


“Ela cai.” Gaspar confirmou. “Eu posso segurar suspensa, posso manipular, posso forçar, posso brigar com a gravidade. Mas no instante em que eu parar… a gravidade faz o que sempre faz. E uma placa de diamante do tamanho errado não cai como uma folha.”


Ele mirou o Vale lá embaixo.


“Ela cai como uma arma de execução.”


Zao Tian não respondeu.


Gaspar continuou.


“Esse domo… eu não ‘levantei’. Eu construí na marra, criando a estrutura como uma casca que se fecha sozinha. Eu fui subindo em anéis. Camada por camada. Ajustando o peso, a curvatura, a espessura, para que cada parte sustentasse a próxima.”


Ele fechou o punho.


“A energia que eu gastei nisso não foi ‘alta’.” Gaspar disse, com a frieza de alguém que não romantiza sacrifício: “Foi absurda. Eu tive dias em que eu terminei um trecho e a minha visão escureceu. Tive que ficar parado, respirando, como se fosse um iniciante tentando fazer o primeiro ciclo de energia espiritual sem cuspir sangue.”


Ele olhou para Zao Tian, sério.


“E isso foi um vale.”


Zao Tian deixou o silêncio durar só o suficiente para não parecer descaso.


“Eu sei.” Ele disse de novo, mais baixo.


Gaspar franziu o cenho.


“Então por que você está me olhando desse jeito?” Ele perguntou: “Com essa cara de quem concluiu algo e decidiu que vai me arrastar junto.”


Zao Tian apontou de novo, primeiro para o domo.


Depois apontou para o céu além dele.


Um gesto simples, mas que tinha a brutalidade de um golpe.


Gaspar seguiu a direção. E, de novo, não viu nada.


Só a ideia.


Só o que aquilo implicava.


“Você quer…” Ele começou, e parou no meio da frase como se o próprio corpo estivesse tentando rejeitar a possibilidade.


Zao Tian esperou.


Gaspar então engoliu seco, pela primeira vez desde que chegou ali.


“Você quer que eu faça isso… em escala planetária!?” Ele concluiu, e a palavra “planetária” pareceu pesada demais para sair limpa.


“Eu quero.” Zao Tian respondeu.


Gaspar soltou uma risada curta, incrédula, e passou a mão pelo rosto, como se tentasse acordar.


“Você está falando sério.” Ele disse, mas não era pergunta. Era uma constatação assustadora.


Zao Tian não desviou: “Eu estou.”


O vento passou de novo, e por um instante o domo cintilou com uma mudança sutil, como se o ambiente reagisse ao tema.


Gaspar olhou para baixo, para o Vale seguro, e depois para cima, para o céu sem dono.


“Você tem noção do que está pedindo?” Ele perguntou, e dessa vez a voz dele não carregava irritação. Carregava uma série de cálculos… problemas… ima lista inteira de impossibilidades se desenhando atrás da íris.


“Um domo desses aqui já foi difícil.” Gaspar continuou: “Não. Difícil não é a palavra. Foi um suicídio parcelado. Agora você quer uma casca cobrindo Decarius inteiro.”


Ele apontou para o domo, mas agora o dedo dele tremia de leve, não de medo… de percepção.


“Não existe base.” Gaspar disse: “Aqui, eu comecei pelo chão do Vale. Eu tenho bordas, eu tenho referência. Eu tenho um ‘onde’. Eu fecho a cúpula e ela se sustenta porque está apoiada, porque existe um perímetro fixo.”


Ele ergueu o dedo para o céu, além da curva.


“Em escala planetária, não tem isso.” Ele falou. “Você não tem borda para começar. O planeta não te dá uma borda. Você teria que criar a primeira faixa no ar, contornando o globo, e essa faixa…”


“Vai querer cair.” Zao Tian completou, sem interromper a ideia, só costurando.


“Vai querer cair.” Gaspar repetiu, mais duro:. “Ela vai querer esmagar tudo que existe embaixo. Uma casca de diamante não é uma nuvem, Zao Tian. É massa. É densidade. É peso.”


Ele respirou, tentando não se perder na própria avalanche.


“E não é só isso.” Gaspar prosseguiu, agora rápido, porque a mente dele já estava fazendo o trabalho de antecipar falhas.


“Você não pode construir dentro da atmosfera.” Ele disse: “Ou o planeta paga o preço. Você muda a circulação de ar, pressão, você altera marés de energia espiritual. Você vai transformar o céu em um teto. E você vai sufocar o mundo.”


Zao Tian assentiu devagar, como se já tivesse aceitado aquela regra antes mesmo de verbalizar a ideia.


“Então tem que ser por fora.” Zao Tian disse.


Gaspar arregalou os olhos um pouco mais.


“Por fora.” Ele repetiu, como se provasse o gosto do absurdo: “Uma casca externa, além dos limites da atmosfera. Longe o suficiente para não mexer em vida, clima, fluxo… mas próxima o suficiente para funcionar como barreira.”


Ele soltou o ar pelo nariz.


“Você sabe o que isso significa?”


Zao Tian continuou calado.


Gaspar respondeu por ele mesmo.


“Significa construir sem apoio e sem referência. No vazio. Com gravidade puxando cada pedaço para baixo o tempo todo. Significa que eu vou ter que criar e manter trechos imensos suspensos enquanto fecho o círculo, porque até fechar… não existe estrutura auto-sustentada.”


Ele bateu de leve com os dedos na própria têmpora.


“Eu consigo segurar as placas no ar enquanto eu quiser.” Gaspar disse: “Mas você está falando de dias sustentando aquilo. Sem parar. Ou semanas. Ou meses. Você quer uma casca que envolve um planeta. O planeta não espera. A gravidade não espera. E eu não sou infinito.”


Zao Tian finalmente falou, sem suavizar: “Eu sei que não é infinito.”


Gaspar mirou o rosto dele, buscando ali algum sinal de que aquilo era só uma provocação.


Contudo, ele não encontrou.


Encontrou só teimosia. A mesma teimosia que fez o Vale existir.


E isso, por algum motivo, deixou Gaspar ainda mais alarmado.


“E tem outra coisa.” Gaspar continuou, tentando agarrar o último argumento que pudesse fazer Zao Tian hesitar: “Eu não sou o único problema. O diamante… eu posso criar. Eu posso moldar. Mas uma estrutura desse tamanho, mesmo se eu conseguir fechar… vai precisar de ajuste fino. Vai precisar de controle de tensão, de uniformidade, de pontos de reforço. Vai precisar de alguém que entenda diamante não como massa, mas como linguagem.”


Ele fez uma pausa curta.


“E só existe outra pessoa além de mim que fala essa língua.”


“Joster.” Zao Tian disse.


Gaspar assentiu.


“Joster e eu.” Ele confirmou. “O resto pode admirar, pode tocar, pode sentir. Mas manipular de verdade… só nós dois.”


Ele soltou um riso baixo.


“E é engraçado.” Gaspar disse: “Porque antes do Joster se juntar a vocês… ele era meu discípulo. Eu ensinei o básico. Eu ensinei o respeito pelo material. Eu ensinei que diamante não perdoa pressa.”


Zao Tian observou o domo como se estivesse ouvindo não só as palavras, mas a história por trás delas.


“Então você entende o tamanho do absurdo.” Gaspar concluiu. “Você entende e, mesmo assim, está me oferecendo isso como um ‘trabalho’.”


Zao Tian virou o rosto para ele.


“Eu não estou oferecendo um trabalho.” Ele respondeu. “Eu estou oferecendo uma solução.”


Gaspar apertou a mandíbula.


O pensamento de cercar um planeta inteiro com a mesma muralha que ele mal tinha conseguido erguer num vale… era grande demais para caber na moldura normal do mundo.


E, ainda assim, nele havia uma lógica cruel.


Se a ameaça tinha escalado do mundo para o universo…


A defesa, também, tinha que parar de ser local.


Então Gaspar olhou de novo para o domo.


Aquela cúpula, que para todos era o auge de uma fortificação… Virou, na mente dele, um ensaio.


Um teste.


Um rascunho bonito.


“Você está falando de transformar Decarius em um núcleo blindado.” Gaspar murmurou: “Uma fortaleza planetária. Um mundo que não pode ser tocado sem quebrar os dentes no diamante.”


Zao Tian assentiu: “É exatamente isso.”


Gaspar respirou fundo, e por um instante o rosto dele não foi de general, nem de uma muralha, nem de um homem treinado pela dor.


Foi de alguém que acabou de ouvir o universo pedir algo impossível.


“Você…” Ele começou, e a voz falhou no meio, não por fraqueza, mas por excesso de coisas atravessando.


Ele tentou de novo.


“Você realmente está falando sério.” Gaspar disse, agora com os olhos fixos, duros: “Você quer que eu cerque o planeta inteiro com uma muralha de diamante.”


Zao Tian apontou mais uma vez: domo.


Céu.


“Sim.” Ele disse.


Gaspar ficou imóvel por um segundo que parecia grande demais.


Então os olhos dele se arregalaram de verdade, como se aquele segundo finalmente tivesse encaixado todas as peças.


“Zao Tian…” Ele falou devagar, como se estivesse pisando em vidro: “Você está me dizendo… para construir uma casca do lado de fora de Decarius.”


Ele moveu a mão, desenhando a esfera inteira no ar outra vez, mas agora mais amplo, como se estivesse abraçando o planeta.


“E manter isso suspenso até fechar. Lá em cima. Onde não existe chão.”


A incredulidade dele era tão grande que soava quase como raiva.


“Você tem noção do que acontece se eu falhar no meio?” Gaspar perguntou, e os olhos dele voltaram para Zao Tian, fixos: “Você tem noção do que acontece se uma placa dessa despenca?”


Zao Tian não desviou da responsabilidade.


“Eu tenho.” Ele respondeu, firme.


E isso foi o que fez Gaspar arregalar ainda mais os olhos. Porque Zao Tian não estava vendendo um sonho.


Ele estava propondo um risco real, com custos reais, porque o que vinha pela frente era pior.


Gaspar engoliu seco.


E, pela primeira vez desde que virou General, ele pareceu voltar a ser só um homem diante de uma ordem grande demais.


“Você…” Ele começou, e a palavra não saiu.


Ele soltou o ar, e então perguntou, quase num sussurro que carregava espanto e respeito ao mesmo tempo: “Para quando você precisa disso?”


Aquela pergunta foi feita como um suspiro, mas foi a forma que Gaspar encontrou de encerrar uma discussão que não iria vencer e aceitar uma missão que era totalmente insana.


O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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