Capítulo UHL 1151 - Choque de Visões
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O murmúrio que começou no coliseu era tão hostil que chegava a ser sufocante. Foi o tipo de som que nasce quando uma palavra antiga atravessa séculos e, de repente, ganha peso na matéria.
"O Arsenal de Gilgamesh."
O nome correu pelos degraus como fogo em capim seco.
Alguns elfos se levantaram num reflexo.
Outros ficaram sentados, mas as mãos apertaram os próprios apoios como se o luxo tivesse virado pedra.
E, entre os humanos no centro do círculo, o choque não foi menor.
Não pelo nome em si, mas pelo fato de ele ter sido dito ali, pela boca certa, com a tranquilidade errada.
Zao Tian sentiu Yan Chihuo ao lado endurecer num nível que nenhum protocolo ensinava.
Não era medo. Era um cálculo que perdeu uma peça.
Porque ninguém, absolutamente ninguém, deveria saber.
Aelthandor não se moveu de imediato.
Ele estava no centro, mas por um instante pareceu ter sido empurrado para a borda da própria audiência.
O silêncio que ele sempre controlou… foi tomado por Elyndariel.
Elyndariel não se apressou em parar ou continuar. Ela apenas olhou para Zao Tian como quem aguarda uma resposta que já tem.
"Você disse que não sabe do que eu estou falando."
Zao Tian sustentou o olhar sem tentar disfarçar a surpresa: "Eu disse."
A voz dela não subiu: "Então eu vou perguntar de novo." Mesmo assim, ela atravessou os degraus: "Vocês têm o Arsenal de Gilgamesh?"
O coliseu prendeu o ar.
A educação não desapareceu, mas começou a tremer.
Aelthandor tentou retomar o fio, com a polidez de quem entende que, se aquilo desandar, o próprio conselho vira uma arena.
"Elyndariel, este assunto…"
Ela ergueu a mão uma única vez.
Não foi um gesto autoritário.
Foi um gesto inevitável.
Aelthandor parou. E todos entenderam, de um jeito muito claro, que aquela pergunta não era uma parte da audiência.
Era a própria audiência.
Os degraus se agitaram.
Uma voz masculina, carregada e sem paciência, atravessou o salão.
"Isso é impossível!"
Outra veio em seguida, mais alta.
"Não existe no universo!"
"Elyndariel, nós procuramos por eras!"
"Reinos caíram tentando rastrear aquilo!"
"Você está dizendo que… que humanos…"
O resto da frase morreu na garganta do elfo, como se ele não conseguisse terminar sem se humilhar.
Saelorian Tyndar se levantou como se fosse arrancado por uma corda.
A raiva dele não era a raiva elegante do ressentimento.
Era a raiva de quem ouviu um sacrilégio.
"Você ousa colocar esse nome e os humanos na mesma frase?"
Ele apontou para Zao Tian, e o gesto parecia um julgamento que vinha antes de qualquer pergunta.
"O Arsenal… nas mãos de humanos?"
Maeryn Val’Thalas também se levantou, mas com outra energia.
Ela não precisava gritar.
Ela precisava envenenar.
"Se isso for mentira, será o último insulto."
Ela olhou para Elyndariel, e depois para Zao Tian.
"Se isso for verdade…" A voz dela ficou doce demais: "Então a chegada tardia de vocês aqui ganha um significado novo."
O Arquivista Letharion não se levantou. Ele apenas falou, e o tom dele parecia uma página virando: "Roubado."
A palavra cortou.
Simples.
Fria.
"Ou tomado." Ele inclinou a cabeça, como se olhasse através de documentos invisíveis: "Ou extraído de um cadáver, como o Olho fazia."
O coliseu vibrou com a menção ao Olho, como se alguém tivesse tocado numa ferida mais recente por cima da ferida mais antiga.
Elyndariel não se mexeu. Ela não se explicou.
Ela apenas insistiu.
"Zao Tian." A voz dela voltou a ser a única coisa estável naquele lugar: "Confirme… ou negue!"
Zao Tian permaneceu sentado.
O corpo dele estava quieto, mas, por dentro, as opções se atropelavam.
Mentir seria fácil.
E inútil.
Ele já tinha entendido o jogo.
Ali, a audiência era um teste de tom, mas também era um teste de consistência.
E a Tecelã das Estrelas tinha pedido uma confirmação na frente de um povo inteiro.
Yan Chihuo virou o rosto, só um pouco, como se quisesse medir o risco de cada palavra antes dela existir.
Zao Tian respirou.
E respondeu: "Sim."
A palavra caiu como uma rocha.
Não pelo volume.
Pela certeza.
O coliseu não explodiu num grito único.
Ele explodiu numa desordem que tentou continuar elegante e falhou.
Vozes se sobrepuseram.
Assentos foram jogados para trás.
Degraus tremeram com os passos.
"Mentira!"
"Ele admitiu!"
"Isso é roubo!"
"Isso é profanação!"
"Como eles chegaram perto disso?"
"Como eles tiveram acesso?"
"Elyndariel, por que você está perguntando como se fosse possível negociar?"
Saelorian deu um passo à frente no próprio degrau, como se a distância física fosse um insulto: "Você veio pedir uma aliança e traz isso escondido?"
Zao Tian não se levantou. Ele respondeu sentado, como se estivesse respondendo uma pergunta sobre logística: "Eu não trouxe nada comigo."
A frase trouxe mais raiva, não menos.
"Então vocês guardaram!"
"Então vocês esconderam!"
Maeryn apertou o sorriso: "E nós deveríamos confiar em vocês?"
Letharion atacou com a frieza de quem coleciona tragédias: "Quantos elfos morreram procurando por isso?"
"Quantas casas gastaram tudo o que tinham?"
"Quantas famílias foram destruídas pela esperança?"
"Vocês sabiam, e ficaram calados?"
Aelthandor tentou retomar o controle, com voz firme, mas sem perder o verniz.
"Silêncio."
Dessa vez, a palavra quase funcionou.
Quase.
Porque a indignação era maior do que o hábito.
E então, como se o coliseu precisasse de um alvo mais fácil, olhos se viraram para Nallrian.
Uma elfa em Decarius.
Uma elfa sentada com humanos.
Uma elfa que tinha confessado, diante deles, que morava longe do próprio povo.
Uma voz gritou da arquibancada, sem se preocupar com polidez.
"Traíra!"
Outra veio, mais agressiva.
"Ela sabia!"
"Ela sabia e nunca devolveu!"
"Ela vive com eles!"
"Ela come do pão deles!"
Nallrian não se levantou, mas a postura dela mudou.
Não para se encolher, mas para suportar.
Era uma acusação emocional.
"Você mora entre eles!"
"Você conhece o que carregam!"
"Você está do lado deles!"
Raya se mexeu na cadeira, e o corpo dela pareceu querer levantar.
Zao Tian, porém, ergueu a mão, sem olhar para ela.
Foi um sinal mínimo, mas Raya parou.
O gesto dele não pedia calma por delicadeza. Pedia por estratégia.
Yan Chihuo então falou, e, quando ele falou, não foi como um rei.
Foi como alguém que ficou responsável por um peso que não pediu.
"Parem."
A palavra dele não veio com um grito.
"A elfa não está mentindo." Ele disse, e todos os olhos do coliseu se viraram para ele.
Maeryn inclinou a cabeça, venenosa.
"E você sabe disso como?"
"Porque eu sei exatamente quem sabia."
Yan Chihuo olhou para Zao Tian por meio segundo, e voltou a encarar os degraus.
Aelthandor, mais contido, perguntou com a mesma educação dura de antes: "Então explique."
"Explique como isso foi parar nas mãos de vocês."
"Explique sem rodeios, Yan Chihuo."
Yan Chihuo assentiu.
Ele não tentou suavizar.
Ele não tentou transformar em lenda. Ele apenas contou como se estivesse prestando um relatório numa mesa onde ninguém era amigo: "Eu e Drake estávamos caçando a Trindade…"
Alguns elfos reagiram ao nome como se reconhecessem um problema que não era deles, mas já tinha tocado o universo.
Enquanto falava, ele olhou para Nallrian por um instante breve, e voltou ao coliseu: "Por vingança."
Aelthandor estreitou o olhar, mas não interrompeu.
Yan Chihuo continuou: "A Trindade matou Enya. Minha amiga e General."
Nallrian não se mexeu, mas o silêncio dela, naquele instante, ficou mais pesado.
Yan Chihuo prosseguiu, e a voz dele não tinha prazer na própria dor: "A Trindade também destruiu vidas o suficiente para eu não precisar justificar mais nada."
"Em uma missão, Amin estava sozinho."
"Era uma missão deles, e ele estava procurando alguma coisa."
Yan Chihuo fez uma pausa curta, como alguém que ainda odeia admitir a própria ignorância.
"Na época… eu nem sabia que essa coisa existia."
O coliseu reagiu com desprezo.
"Claro que não sabia."
"Claro que humanos não sabem o que tocam."
"Claro que tropeçam em um legado alheio e chamam de sorte."
Yan Chihuo não respondeu aos insultos.
Ele apenas continuou: "Drake e eu emboscamos Amin."
"E quase matamos ele."
A sala se mexeu com um tipo de surpresa incômoda.
Não por pena de Amin, mas por reconhecer que a Trindade não era intocável como alguns boatos sugeriam.
"Mas ele fugiu… e a fuga dele nos deixou no local… no lugar onde ele estava procurando." Yan Chihuo olhou para Elyndariel.
"Foi ali que encontramos." Ele explicou.
O coliseu explodiu mais uma vez, agora com uma palavra que voltou várias vezes em diferentes bocas.
"Encontraram!"
"Encontraram como?"
"Vocês abriram selos?"
"Vocês quebraram proteções?"
"Vocês tocaram no que não deviam?"
Letharion abriu a pergunta mais perigosa de todas, sem levantar a voz: "E por que você chama isso de encontrar… e não de roubar?"
Zao Tian respondeu em vez de Yan Chihuo. E respondeu com a mesma sinceridade que vinha usando desde o início: "Porque não havia ninguém ali reivindicando."
A frase quase virou gasolina.
Saelorian cuspiu a raiva: "Este lugar onde você está pisando agora reivindica!"
Ele apontou para os degraus, para as casas, para a raça inteira: "Isso sempre nos pertenceu!"
Zao Tian assentiu: "Eu entendo que vocês sentem isso."
O coliseu reagiu com indignação.
Sentem…
Como se fosse sentimento.
Como se fosse opinião.
Como se não fosse… sagrado para eles.
Elyndariel manteve a postura, mas os olhos dela ficaram mais frios enquanto ela avisava: "Não é sentimento."
"É vínculo."
"É memória."
"É legado."
Aelthandor retomou, mais firme, tentando estruturar aquela loucura de volta em algo que parecesse um conselho.
"Yan Chihuo… o que vocês fizeram depois que encontraram?"
Yan Chihuo respondeu: "Drake ficou com a guarda."
"Não só com a intenção de usar… mas com intenção de impedir que a Trindade pegasse."
Maeryn soltou um riso leve e cruel: "Vocês guardaram para se dizer guardiões?"
Yan Chihuo respondeu, seco: "Vocês podem chamar do que quiserem."
"Naquele dia, aquilo era um alvo."
"E qualquer alvo que a Trindade quer… vira um risco para o universo inteiro."
A menção à Trindade como risco para o universo inteiro trouxe um tipo de desconforto diferente.
Porque, por trás da raiva, existia uma verdade simples.
Eles conheciam os deuses. Conheciam a Trindade. Conheciam o Olho. E sabiam que, quando coisas grandes entram em movimento, ninguém escolhe ficar de fora.
Zao Tian então falou, calmo: "Hoje, quem guarda é Yan Chihuo."
Ele não disse onde.
Não disse como.
Não ofereceu detalhes de segurança.
Mas confirmou o núcleo: "Está em um anel de armazenamento."
O coliseu reagiu como se o simples fato de ele dizer isso fosse uma afronta.
"Um anel."
"Como se fosse uma carga."
"Como se fosse uma mercadoria."
"Como se fosse um armamento."
E aí, finalmente, o coração do conflito tomou forma.
Os elfos não estavam só indignados pela posse.
Eles estavam indignados pela leitura.
Pelo significado.
Pelo jeito como humanos lidavam com coisas tão profundas para eles.
Aelthandor perguntou, e a pergunta dele veio cortante, porque ele já tinha entendido o rumo: "Para vocês… o que isso é?"
Zao Tian respondeu sem hesitar: "Para nós, hoje, é estratégico."
Um coro de repúdio nasceu e morreu em seguida, porque o próprio Aelthandor ergueu a mão novamente, exigindo silêncio. E, dessa vez, o gesto funcionou.
Não por respeito a ele, mas porque todos queriam ouvir a próxima frase do humano para odiá-lo com mais precisão.
Zao Tian continuou, ainda sentado, ainda impecável: "Eu estou entendendo que para vocês é outra coisa."
"Eu não vou fingir que não."
Maeryn perguntou: "E qual é essa outra coisa, humano? Um conto?"
Saelorian respondeu por cima, com raiva: "Não ouse reduzir."
Contudo, foi Elyndariel quem falou, e, quando ela falou, o coliseu ficou quieto de novo: "Não é um arsenal!"
Ela afirmou aquilo.
"Não foi criado para a guerra."
"Não foi criado para a conquista."
Ela olhou para Zao Tian, e o olhar dela parecia dizer: você chama de arsenal porque você não sabe nomear.
"É uma galeria." Ela disse: "É uma coleção de declarações."
Zao Tian franziu o cenho de leve.
Elyndariel continuou, e o tom dela ficou mais denso: "Gilgamesh e Hefesto não fabricavam para matar."
"Cada peça dali era um gesto."
"Um agradecimento."
"Uma tentativa de criar algo perfeito o suficiente para caber em um amor que não tinha medida."
O coliseu respirou junto com ela, como se aquela parte fosse a verdadeira religião.
"Vocês chamam de arsenal porque vocês só sabem olhar para objetos e perguntar como eles podem ferir e ser usados."
A frase atravessou a comitiva como uma lâmina.
Zao Tian não se ofendeu.
Ele apenas respondeu: "Eu não acho que tudo existe para ferir."
Elyndariel ergueu uma sobrancelha.
"Então por que guardam como se fosse uma espada?" Ela questionou.
Zao Tian não desviou: "Porque era isso que a Trindade queria fazer dele."
Outro murmúrio nasceu. E um elfo gritou, irritado: "E vocês acham que impedir a Trindade dá a vocês o direito de fazer isso?"
Zao Tian respondeu com outra pergunta, no mesmo tom: "E vocês acham que a dor do vínculo dá a vocês o direito de ignorar a ameaça?"
O coliseu se levantou em partes, ao mesmo tempo, como uma maré.
"Você está comparando!"
"Você ousa colocar as duas coisas no mesmo plano!"
"Você está usando os deuses e a Trindade como chantagem!"
Aelthandor, pela primeira vez, deixou escapar algo que não era mais só o anfitrião dizendo, mas sim, ele: "Você está nos dizendo que precisamos aceitar sua posse… porque o universo é perigoso!?"
Zao Tian assentiu: "Eu estou dizendo que eu não vou entregar uma coisa que a Trindade está procurando."
A frase trouxe um silêncio estranho.
Não porque eles aceitaram, mas porque era um argumento que obrigava o cérebro a trabalhar, mesmo quando o sangue queria gritar.
Letharion, frio, atacou o ponto mais amargo.
"Vocês afirmam que o Olho está exterminado."
"Vocês afirmam que a Trindade é a ameaça."
"Vocês afirmam que querem aliança."
Ele inclinou a cabeça.
"Então por que o arsenal não está aqui, sob guarda elfa, se os elfos são tão valiosos quanto você diz?"
Zao Tian respondeu: "Porque eu não conhecia vocês."
A sala reagiu como se aquilo fosse um insulto.
E Zao Tian acrescentou, antes que distorcessem o que ele disse: "Eu não conhecia o peso dessa ferida."
"Eu não conhecia o peso desse vínculo."
Ele olhou para Elyndariel: "Eu só estou conhecendo isso agora."
Maeryn sorriu, dura: "Conveniente. Sempre conveniente."
Zao Tian assentiu: "Sim."
"Eu não vou pedir desculpas por descobrir as coisas mais tarde do que vocês acham que eu deveria ter ciência."
Saelorian rosnou: "Você deveria pedir desculpas por existir!"
Aelthandor lançou um olhar para Saelorian, não para repreender a raiva, mas para conter a quebra completa do ambiente.
E então Aelthandor falou: "Vocês querem transformar isso em um argumento bélico."
Yan Chihuo respondeu, antes de Zao Tian: "Não."
Aelthandor ergueu o queixo: "Então por que tratam como um arsenal?"
Yan Chihuo respirou devagar, e respondeu: "Porque nós não sabíamos o que era."
E então, de modo quase cruel, o coliseu ouviu a confissão que queriam ouvir desde o início.
Ignorância.
Humanos não conheciam.
Humanos pegaram sem entender.
Humanos guardaram sem sentir.
Só que, quando o coliseu se preparou para esmagar essa fraqueza, Zao Tian falou: "E, mesmo sem saber, nós não destruímos."
A frase pareceu estranha no ar.
Você não destruiu.
Como se isso fosse um elogio básico.
Mas, ali, era um ponto real.
Zao Tian continuou: "Nós não espalhamos."
"Nós não vendemos."
Ele olhou para Letharion: "Vocês acusaram um roubo."
"Se roubo fosse o objetivo, isso já teria virado arma, moeda e pressão."
Ele olhou para Maeryn: "Não foi isso que aconteceu."
Maeryn respondeu, fria: "Porque vocês são incapazes."
Zao Tian negou com a cabeça: "Porque nós sabíamos que era importante o suficiente para que a Trindade arriscasse a vida por isso."
"E isso foi o suficiente para não permitíssemos que eles tocassem."
O coliseu se agitou de novo. E então atacaram o ponto mais sensível.
"Então vocês guardam algo sagrado como refém!"
Nallrian, até então quieta, falou com firmeza: "Chega!"
O coliseu virou para ela como se tivesse encontrado suporte para o ódio.
A mesma voz que gritou antes voltou.
"Traidora!"
Nallrian tremeu. Ela olhou para Elyndariel… e se calou.
O coliseu queria uma elfa ajoelhando, mas Raya, finalmente, falou.
E quando Raya falou, ninguém esperava civilidade, mas foi isso que saiu, por escolha: "Eu não sou elfa."
"Eu não tenho vínculos com isso."
Ela olhou para os degraus, e a voz dela saiu dura, mas controlada: "Eu só tenho vínculo com a guerra."
"Eu conheço o cheiro da Trindade."
"E sei que, se vocês tomarem isso agora, e a Trindade vier…"
Ela apontou para o chão.
"Esse mundo vai sangrar!"
O coliseu estremeceu.
Porque ninguém gostava que alguém de fora falasse de sangue, mas também porque era verdade demais para ser só uma ofensa.
Elyndariel olhou para Raya como quem avalia uma criatura perigosa e lúcida ao mesmo tempo.
Então voltou para Zao Tian.
"Você confirmou."
"Vocês têm."
O coliseu ficou quieto outra vez.
A pergunta final veio com simplicidade, e foi por isso que doeu.
"Então eu pergunto, de novo… Vocês vão devolver?"
Zao Tian respirou.
A sinuca de bico se fechou ao redor dele.
Se ele dissesse sim, eles entregariam o que a Trindade procurava e uma capacidade bélica imensa para um povo que, naquele momento, ainda via humanos como indignos.
Se ele dissesse não, ele pisaria no coração sentimental de uma raça inteira e confirmaria o pior medo deles: humanos pegam e não devolvem.
Yan Chihuo ficou imóvel, mas o olhar dele dizia a mesma coisa que a postura de Zao Tian dizia.
Eles não tinham vindo para implorar.
Tinham vindo para impedir novas guerras.
Ciente disso, Zao Tian falou, devagar, escolhendo cada palavra como se estivesse caminhando sobre vidro: "Eu não vou chamar isso de meu."
O coliseu prendeu o ar.
"Eu não vou chamar isso de conquista."
"Eu não vou chamar isso de prêmio."
Elyndariel não interrompeu. Ela esperou a resposta que importava.
Zao Tian então concluiu, com a mesma educação impecável que tinha irritado o coliseu desde o início: "Mas eu também não vou devolver."
O silêncio que veio depois não foi de respeito.
Foi de choque.
De traição renovada.
De uma ferida antiga ganhando sangue fresco.
E Zao Tian continuou, antes que transformassem sua negativa em uma sentença simples demais: "Não enquanto eu não tiver garantias de que isso não vai virar a próxima desculpa para uma guerra."
Ele olhou para Elyndariel.
"E não enquanto vocês ainda estiverem tão prontos para me odiar que qualquer decisão minha vira uma prova de culpa."
Aelthandor fechou os olhos por um instante, como quem prova o gosto amargo do inevitável.
Elyndariel permaneceu de pé.
A expressão dela não mudou, mas algo, por baixo da calma, ficou mais duro.
"Então você escolheu." Elas disse.
Zao Tian assentiu: "Eu escolhi."
O coliseu começou a respirar mais rápido de novo.
E, dessa vez, não era o teatro. Era o povo.
E a audiência, que tinha começado como um jogo de máscaras, agora estava com um objeto invisível no centro da arena.
Um legado de amor chamado de arsenal.
Um povo que queria de volta.
E um humano que, mesmo sentado e na casa dos outros, acabou de dizer não para onze mil anos de memórias.
