Capítulo UHL 1157 - Um Péssimo Filho
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Tenham uma boa leitura!]
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Geb atravessou o Reino Divino como se atravessasse um território que lhe pertencia por direito.
O fato de haver paredes mais limpas e uma ordem diferente na circulação de guardas não mudava nada para ele. Era só maquiagem. Só um verniz por cima de um panteão que, na mente dele, tinha envelhecido mal.
Os primeiros deuses que o viram pararam.
Não porque reconheceram, mas porque não entenderam.
O corpo era humano. Isso era um insulto por si só. E ainda assim… havia um peso deslocado naquela forma. Um tipo de presença que fazia as conversas diminuírem de volume sem ninguém combinar.
Olhares se acumularam.
Curiosidade.
Confusão.
E, em alguns, um medo que tentava se esconder atrás do desprezo.
Geb gostou da reação.
Gostou porque o Reino Divino sempre foi feito de olhares. E quando os olhares param, significa que o centro de tudo aquilo mudou.
Ele caminhou no ritmo de quem já se considera dono do caminho.
Os deuses que se aproximavam para ver melhor viam um humano, sim, mas viam também o jeito com que aquele humano ocupava o espaço. Como se o corpo fosse uma roupa mal cortada, e o que estava dentro fosse grande demais para caber.
Hórus seguia ao lado, em silêncio, com a paciência de um caçador que conduz a presa até o lugar certo.
Por todo o caminho, Geb não falou baixo.
Ele não sussurrou planos como alguém cauteloso.
Ele falou como alguém que chegou para reorganizar um mundo que tinha perdido a mão.
"Semideuses patrulhando portões sagrados." Ele disse, olhando de canto para um grupo que fingiu não ter ouvido.
"Selos preguiçosos." A voz dele carregava desdém.
"Deuses frouxos."
Ele girou o rosto na direção de uma arcada e viu mais deuses parados, observando.
"Vocês se acostumaram com a ausência." Ele afirmou, como se fosse uma acusação universal.
Um deus que parecia mais velho que os outros, com olhos afiados, deu um passo à frente, tentando sustentar uma dignidade que não tinha base.
"Quem é você para…"
Ele falou, mas Geb nem olhou direito.
A presença dele empurrou o outro para o lugar sem tocar.
O deus apenas engoliu o resto da frase.
Enquanto isso, Geb continuou andando e falando, como se estivesse enumerando uma lista que já existia havia eras.
"A partir de hoje, os portões serão vigiados por Protetores, não por esses projetos de deuses."
"Os arquivos sagrados serão lacrados de novo."
"Os conselhos vão obedecer a uma hierarquia real, e não a uma dança de interesses."
Ele apontou com o queixo para uma coluna onde símbolos antigos estavam parcialmente apagados.
"E isso vai ser restaurado."
Hórus não respondeu, mas alguns deuses, ouvindo aquilo, começaram a trocar olhares nervosos. Não por medo do conteúdo. Por medo da confiança com que ele dizia aquelas coisas.
Geb sorriu, sem humor, e continuou: "Ainda existe gente que acha que eu voltei para pedir permissão." Ele disse, como se falasse para o corredor inteiro.
"Eu voltei para retomar o que é meu!" Ele afirmou.
A cada metro, os passos dele ecoavam com leveza demais naquele piso perfeito. Um humano não deveria andar assim ali. Um humano deveria parecer pequeno. Deslocado.
Contudo, Geb parecia exatamente o contrário.
E foi aí que o ar começou a mudar...
O que chocou Geb não foram mais guardas. Não foi uma ameaça aparente, mas, sim, um homem parado.
No meio de um fluxo de deuses que fingiam normalidade, uma figura estava encostada a um arco, quase como se fosse parte da arquitetura.
E não era.
Geb reconheceu primeiro pelos olhos.
Pelo tipo de quietude. Pelo peso que não vinha de músculos ou armaduras, mas de algo que o universo não reconhecia do jeito certo.
Salomão.
O nome bateu dentro da cabeça de Geb como um sino antigo.
A postura dele mudou sem que ele percebesse.
A soberba, que até então era natural, teve um soluço.
A expressão de Geb endureceu.
Depois ficou vazia por um instante.
E então ficou cautelosa.
Ele não parou completamente, mas diminuiu o ritmo.
Os olhos dele se fixaram em Salomão como se estivessem vendo um fantasma que não deveria existir.
Geb lembrava.
Geb viveu a época do canibalismo.
Geb se alimentou.
Geb participou do que hoje seria negado com a mesma convicção com que um deus nega um pecado e chama de necessidade. E ver Salomão ali não significava apenas que um Aasimar existia…
Significava que alguém tinha trazido isso de volta. Ou pior… Significava que nunca tinha acabado.
As vozes ao redor pareceram mais distantes. Os deuses observavam Geb, curiosos, porque pela primeira vez ele não parecia um dono de tudo. Ele parecia um homem ouvindo passos atrás de si.
Geb passou por Salomão sem que Salomão se movesse. E, no instante em que os olhares se cruzaram, Geb sentiu uma coisa incômoda.
Não era o medo de um poder. Era o medo de um contexto. Medo de estar entrando numa sala onde as pessoas sabem mais do que deveriam.
Então, ele continuou, mas a lista de decretos que ele soltava perdeu a fluidez.
A soberba dele começou a ranger.
Hórus notou, mas não comentou.
Geb tentou recuperar a compostura e falou mais alto, como se a voz pudesse esmagar o pensamento que crescia dentro dele.
"Vocês ficaram presos em pequenos problemas."
"Eu vou cortar…"
Ele parou de falar, porque, mais adiante, ele viu mais Aasimares.
A ideia atingiu Geb no peito como uma lembrança suja, imediata, visceral.
Ele se aproximou alguns passos, e os olhos dele ficaram mais estreitos. Ele não precisava enxergar detalhes para entender o suficiente.
Aquilo era criação.
Aquilo era cultivo.
Aquilo era preparo.
E, naquele instante, a vantagem psicológica dele se desfez, pois Geb tinha acreditado que, voltando agora, encontraria deuses fracos, ignorantes, sem memória das práticas antigas.
Deuses que ele poderia governar pela simples diferença de eras. Mas alguém ali sabia…
Alguém ali tinha reativado uma lógica de fortalecimento que pertencia ao período mais vergonhoso do panteão.
E isso só podia significar duas coisas: Ou o Reino Divino estava se preparando para uma guerra grande demais; Ou alguém estava recuperando o passado com outra intenção.
Geb parou de andar. Ele virou o rosto para Hórus pela primeira vez com algo que não era desdém, mas, sim, apreensão.
A pergunta saiu, sem polidez, porque ele não tinha paciência para teatros quando a estrutura do mundo que ele esperava encontrar estava sendo mexida: "Como vocês sabem disso?"
Hórus não respondeu.
O silêncio dele não era ignorância. Era recusa.
Geb apertou os dentes diante daquilo.
"Eu fiquei fora por milhões de anos." A voz dele perdeu um pouco do brilho de comando e ganhou uma tensão que ele odiou sentir: "Eu achei que essa informação tinha morrido com a minha geração."
Os olhos dele voltaram, por reflexo, para Salomão.
Ele estava lá. Vivo. Inteiro. E isso significava que alguém, em algum lugar, tinha decidido que o panteão precisava crescer.
Geb tentou manter a postura, mas a garganta dele ficou mais seca.
"Quem…" Ele insistiu.
Então… Ele parou, porque Hórus levantou o braço e apontou para frente.
Os dois estavam em frente a uma grande porta, e Hórus falou, finalmente: "Você vai encontrar todas as respostas lá dentro."
Geb encarou a porta, e, pela primeira vez desde que saiu da prisão, ele sentiu o impulso real de hesitar.
Ele deu um passo a frente.
Depois outro.
Os deuses ao redor abriram espaço, como se aquele momento tivesse sido esperado e ninguém quisesse estar no caminho quando a colisão finalmente acontecesse.
Geb então parou diante da porta.
A mão humana dele tremeu por um instante. E ele odiou isso.
Então ele empurrou, porta cedeu, e o que havia do outro lado não era um trono…
Era o que existia antes do trono. O lugar em que, em outras eras, poucos tinham permissão até para respirar alto.
E ali, fora do salão, onde sempre esteve, velando como uma constante, havia alguém.
Krishna.
Ele não estava sentado como um rei. Não estava erguido como um general.
Estava apenas… presente. Como se a própria realidade tivesse escolhido aquele ponto para se ancorar.
A energia espiritual dele era diferente de tudo que Geb tinha sentido desde que voltou.
Não era só maior. Era de outra camada. Estava em outra escala.
Era como comparar o peso de uma montanha com o peso de um continente.
Geb sentiu o corpo de Vargas reagir instantaneamente.
Os instintos dele perceberam antes da mente.
Enquanto isso, a aura de Krishna não pressionava como uma ameaça explícita.
Ela apenas existia. E, por existir, deixava claro que qualquer gesto de Geb ali seria um gesto feito sob a sombra de alguém que poderia apagá-lo com um gesto.
Calmamente, Krishna virou o rosto.
Só isso.
E, quando os olhos dele encontraram Geb, a expressão de Krishna franziu com o tipo de desaprovação que não precisa de gritos para humilhar.
"Geb." O nome que ele proferiu não foi uma saudação. Foi uma repreensão já pronta.
Então, a voz dele saiu firme, sem esforço, como se o ar se organizasse para carregá-la: "Você tem a audácia de entrar aqui e se proclamar governante?"
"Você tem a audácia de tentar um golpe… enquanto o Pai de Todos dorme sob minha vigília?"
O coração humano de Vargas acelerou.
E Geb sentiu.
Era como um instinto antigo que diz: aqui, você não manda.
A boca de Geb abriu, buscando palavras de autoridade e auto-afirmação, mas a autoridade dele morreu na garganta, porque a diferença de poder entre eles era esmagadora.
Geb era um Grande Deus de uma era brutal, mas Krishna era algo que nem a língua do panteão gostava de classificar.
Abaixo apenas do Pai de Todos.
Uma camada onde a hierarquia deixa de ser política e se torna lei.
Quando Krishna deu um passo… um passo pequeno, o universo ao redor de Geb pareceu ficar menor.
"Você acha que voltou para retomar um trono vazio." Krishna continuou, e o tom dele ficou ainda mais grave, como se estivesse falando com uma criança que entrou numa sala proibida e quebrou um vaso.
"Mas o trono não está vazio." Ele avisou, logo antes de ameaçar: "Apenas o Pai de Todos pode ocupá-lo! E quem for contra isso, merece apenas a morte!"
Geb tentou sustentar o olhar. Tentou manter o que tinha restado do orgulho, mas a face dele já tinha mudado.
A soberba tinha ido embora. O escárnio tinha sumido. O que restou foi um cálculo rápido e um reconhecimento involuntário do risco.
Ele deu um passo para trás sem perceber.
Krishna inclinou a cabeça, e a próxima frase veio: "Quem te disse que você têm o direito de reivindicar algo sob os braços do Pai??"
Geb engoliu seco. E a voz dele, quando saiu, carregava um cuidado enorme.
"Eu…" Ele começou, e a palavra parecia insuficiente diante do que estava ali.
Krishna cortou, sem elevar a voz: "Você não vai governar nada aqu!"
A frase não era apenas uma ameaça.
Era a descrição do mundo.
Geb sentiu o peso de todas as camadas se alinhando contra ele.
Semi-deuses.
Protetores.
Grandes Deuses.
E então… Krishna.
E ele percebeu, de uma vez, que a hierarquia que ele tinha acabado de elogiar como se fosse sua ferramenta era, na verdade, a corrente no pescoço dele.
Calmamente, Krishna olhou para o corpo humano, para a presença por trás de Geb. e a expressão dele ficou ainda mais dura.
"Você voltou usando uma casca mortal."
"E mesmo assim teve a coragem de voltar acreditando que o passado ainda é seu!"
Ele se aproximou mais um pouco, e o tom dele pareceu o de alguém que está corrigindo um erro antes que vire uma tragédia.
"Você não está mais na sua era!"
Geb sentiu a garganta fechar.
A arrogância dele morreu completamente ali. E o silêncio que veio dele evidenciou uma obediência forçada.
Krishna esperou apenas o suficiente para que Geb entendesse que tinha sido colocado no lugar sem luta.
Então falou, com uma calma fria, e ainda mais humilhante pelo controle: "De joelhos."
A ordem que ele deu não era para espetáculo. Era para estabelecer um limite e uma punição.
Geb travou por um instante.
O impulso de resistir ainda existia, como um reflexo. Contudo, o corpo de Vargas, a esfera, os termos, e a presença de Krishna esmagaram qualquer resistência.
Geb desceu, com submissão.
Krishna, por sua vez, olhou para ele de cima por todo o tempo.
E sua fala final veio como um fechamento de mão em torno do pescoço: "Você vai ficar quieto!"
"Você vai aprender o que aconteceu enquanto você apodrecia."
"Você vai cooperar e agradecer por ainda estar respirando."
“E nunca mais abrirá a boca para tentar se comparar com o Pai de Todos!”
“Eu não sou o seu rei… e nem ousaria insultar o Pai de Todos dessa forma… mas eu te coloco de joelhos para que peça perdão, não a mim, mas ele, por ter sido esse péssimo filho!”
Quando Krishna terminou de falar, Geb baixou o olhar, porque, naquele momento, ele entendeu uma verdade simples e brutal: Ele tinha voltado para governar um panteão, mas encontrou um obstáculo grande demais entre a sua vontade e a realidade que existia.
