Capítulo UHL 1160 - Limites
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O mundo dos elfos recebeu a comitiva como se já soubesse que aquele dia precisava ser impecável.
O portal se abriu num vale amplo, cercado por árvores altas demais para parecerem naturais, com folhas em tons vivos que não pediam permissão para existirem daquele jeito. O ar era limpo, frio na medida certa, e carregava um perfume vegetal constante, como se toda a região tivesse sido escolhida para agradar os sentidos e acalmar qualquer impulso de conflito.
Havia guardas esperando.
Não guardas com posturas agressivas, nem aqueles soldados que tentam intimidar por tradição. Eram elfos em formação discreta, armados, impecáveis, com uniformes cerimoniais que ainda assim deixavam claro que não eram decorativos.
Além disso, o que mudava o peso do lugar não era a presença deles.
Era o caminho.
Do ponto em que o portal se fechou, a montanha já se mostrava ao longe, alta demais para ser ignorada, com o topo cortando a camada baixa de nuvens. E, lá em cima, como se a pedra tivesse sido moldada com uma paciência infinita, o castelo de Elyndariel dominava o céu.
Torres imensas, finas e verticais, subindo como lanças claras.
Muralhas bem desenhadas, não para repelir invasões comuns, mas para declarar que ali era um domínio que transcendia o céu.
Janelas altas, vitrais, varandas e arcos que pareciam ter sido pensados por alguém que considera beleza uma forma de autoridade.
E, mesmo de longe, o castelo parecia vivo.
Tudo era limpo, colorido, bem mantido, como se o lugar inteiro respirasse disciplina e orgulho.
Contudo, o primeiro impacto na comitiva humana não veio do castelo.
Veio dos olhares.
Elfos surgiam nos caminhos laterais, em grupos, em pares, em famílias inteiras, todos impecáveis. Vestes longas e bem cortadas, tecidos claros, verdes, azuis profundos, dourados discretos, detalhes em prata e bordados que pareciam mais comuns ali do que qualquer coisa simples.
E, no meio deles, a comitiva humana atravessava como um corpo estranho.
Bonitos demais para parecerem humanos.
Imponentes demais para serem ignorados.
As roupas haviam feito seu trabalho.
Zao Tian caminhava com tranquilidade, sem pressa, com a estrela de quatro pontas no peito como se fosse um selo de casa antiga.
Ming Xue atraía olhares de curiosidade e admiração, e não era só a beleza; era a segurança.
Ming Xiao e Kumiko passavam como realeza, sem precisar anunciar.
Yang Hao, com o manto imperial vermelho, fazia os elfos recalcularem qualquer instinto de superioridade.
Singrid, mesmo com o casaco de pele sobre a armadura, parecia algo que não se encaixava no que eles esperavam de uma “companheira” humana.
Yan Chihuo e Nallrian, lado a lado, arrancavam comentários sussurrados que ninguém tinha coragem de elevar.
Kyon e Gins seguiam com elegância contida.
Joster parecia um enviado de algum reino distante e formal.
Hakim caminhava com a calma de quem já foi rei em meio ao caos e não precisa provar isso.
Jaha tentava não parecer impressionado com o próprio cenário.
E Momoa…
Momoa caminhava como alguém que foi aceito por insistência.
A camisa e a calça simples, mesmo limpas e alinhadas, destoavam do brilho e do corte cerimonial ao redor. Alguns elfos olhavam para ele como se tentassem encontrar uma justificativa. Outros simplesmente desviavam, sem saber se aquilo era provocação, ignorância ou uma regra cultural humana.
Momoa percebeu.
E não se importou.
Ele só encarou de volta um dos olhares mais insistentes e perguntou, sem baixar a voz: "Que foi?"
O elfo desviou na hora, como se tivesse sido pego fazendo algo indevido.
Ming Xue segurou um riso rápido e olhou para Zao Tian.
"Ele não consegue." Ela murmurou.
Zao Tian respondeu sem mover o rosto: "Ele consegue. Ele só não quer."
O caminho até o castelo não foi feito a pé do início ao fim.
Havia carruagens cerimoniais esperando, puxadas por bestas grandes e bem cuidadas, com arreios trabalhados e metal polido e claro. Algumas casas nobres chegavam em grupos, com escoltas, e as carruagens eram mais um símbolo do que uma necessidade.
A comitiva humana não se dividiu.
Zao Tian aceitou a carruagem principal oferecida por formalidade e permitiu que os demais se organizassem como quisessem, sem parecerem deslumbrados e sem parecerem desconfortáveis.
Gu Ren e Raya foram juntos.
Não porque ele escolheu.
Porque ela decidiu, e ele, naquele momento, preferiu não criar um conflito público antes de pisar no castelo.
Mesmo assim, o movimento dos olhos ao redor denunciava uma coisa clara.
Raya estava bonita demais.
E o mundo elfo inteiro percebeu isso como se fosse uma novidade perigosa.
Homens olhavam.
Mulheres olhavam.
Alguns disfarçavam.
Outros nem tentavam.
Gu Ren caminhava ao lado dela com o manto branco e o tigre bordado em ouro chamando atenção com a mesma força.
O resultado daquele casal era um problema social ambulante.
O tipo de coisa que vira assunto sem precisar ser provocada.
A subida pela montanha mostrou o quanto aquele lugar não existia por acaso.
As estradas eram largas, bem talhadas na rocha, com guarda-corpos de pedra clara e pontos de descanso com jardins organizados. Havia fontes pequenas, água limpa correndo, esculturas que não eram exageradas, só bem feitas. Tudo parecia dizer a mesma coisa: quem vive aqui não precisa provar que é civilizado; isso já está nos detalhes.
Quando a carruagem final passou por um arco de entrada na parte alta, a vista abriu de vez.
O castelo não era apenas grande.
Ele dominava o topo como se a montanha tivesse sido escolhida para servir a ele.
As torres subiam alto, e a parte superior parecia realmente tocar o céu por causa da proximidade com as nuvens. Bandeiras e estandartes de casas diferentes estavam dispostos ao longo das muralhas, criando uma mistura de cores e símbolos que denunciava o que Zao Tian já sabia antes de chegar: aquele casamento tinha reunido praticamente todas as grandes casas.
Até as menores. Até as que não estiveram na reunião em que o acordo foi selado.
O pátio principal estava lotado.
A recepção não era um único salão; eram camadas de ambientes abertos e fechados, corredores amplos, varandas, jardins internos e uma área central preparada para receber centenas de convidados sem parecer apertada.
Elfos conversavam em grupos, rindo baixo, sorrindo por conveniência, e observando muito mais do que falavam.
Quando a comitiva humana entrou, os sons diminuíram por instantes.
Não em silêncio absoluto.
Em atenção.
Os primeiros a se aproximarem não foram os mais orgulhosos.
Foram os mais políticos.
Uma elfa de postura refinada, com joias discretas e tecido claro, se adiantou com um sorriso perfeito e uma inclinação de cabeça adequada.
"Casa Silvarën." Ela disse, apresentando-se como Lady Eirandel Silvarën, sem exagero no tom: "Sejam bem-vindos. É uma honra receber aqueles que selaram um acordo tão… inesperado."
Zao Tian respondeu com a mesma medida: "A honra é nossa. A paz é sempre mais difícil do que a guerra."
A frase era simples, mas funcionou.
Eirandel sorriu como se tivesse recebido um presente.
Logo depois, um homem mais velho, de cabelos prateados e olhos calmos, se aproximou com um grupo pequeno atrás.
"Thalorien." Ele disse, e o nome da casa pareceu carregar peso na forma como alguns elfos olharam: "Sou Maelor Thalorien. Zao Tian, Yan Chihuo… Ye Yang." Ele inclinou a cabeça na direção do noivo como se a hierarquia ali fosse clara: "Parabéns. O mundo muda, e quem muda com ele sobrevive."
Ye Yang sustentou o olhar com firmeza, apesar do nervosismo que ainda vibrava por dentro.
"Obrigado." Ele respondeu: "Eu pretendo honrar isso."
Maelor assentiu.
"Visitem nossas terras. Não hoje. Depois. Conheçam nossas escolas, nossos artesãos, nossas bibliotecas. Há muito que pode ser… compartilhado." Ele convidou.
Zao Tian não aceitou nem negou, apenas respondeu: "Quando a poeira baixar, será um prazer considerar."
O elfo sorriu, como se aquela frase fosse exatamente a resposta esperada.
E assim foi, repetidas vezes.
A xasa Myr’Qal enviou um patriarca jovial demais para parecer inocente.
A casa Vaelondir mandou uma embaixadora de olhar duro que elogiou o “controle” humano com a mesma intenção com que faria um corte.
A casa Lothandil apareceu com três irmãos muito bem vestidos, falando como se fossem velhos amigos.
A casa Aerthwyn enviou um casal que fez questão de comentar sobre os presentes, mesmo sem vê-los.
E, no meio disso, casas menores surgiam com entusiasmo, tentando se apresentar antes de serem esquecidas.
"Se algum dia desejarem cruzar nossos bosques…"
"Se aceitarem um banquete em nossa lua cheia…"
"Se quiserem ver nossos jardins suspensos…"
"Se desejarem conhecer nossos mares…"
Convites se acumulavam como sementes jogadas num solo que eles tentavam tornar fértil.
O grupo humano respondia sempre do mesmo jeito: elegância, gratidão, e nenhuma promessa.
Yan Chihuo sorria com educação quando precisava.
Nallrian sustentava o olhar dos mais insistentes como quem lembra que ainda é uma general, mesmo vestida para uma festa.
Ming Xiao mantinha a postura de rei e fazia os elfos que tentavam testá-lo desistirem rápido.
Yang Hao respondia com frases curtas, controladas, e parecia mais perigoso por não se alongar.
Hakim falava pouco, mas quando falava, os elfos ouviam como se fosse um homem que já decidiu coisas grandes demais para ser tratado como convidado comum.
Ming Xue atraía elogios que vinham com segundas intenções, e devolvia sorrisos que fechavam portas sem precisar fechar o tom.
Singrid parecia um problema que ninguém queria encostar.
E Ye Yang recebia atenção constante.
Alguns o bajulavam como se estivessem tentando se aproximar da nova posição dele por antecipação.
Outros o observavam como se estivessem tentando descobrir que tipo de homem aceita casar com Elyndariel sem ser esmagado por ela.
Havia também os olhares descontentes.
Não eram poucos.
Elfos que não sorriam.
Elfos que se mantinham em grupos separados.
Elfos que olhavam para Ye Yang como se ele fosse um insulto pessoal.
Elfos que olhavam para Zao Tian como se estivessem esperando um erro.
Ninguém dizia nada diretamente.
Porque dizer seria iniciar um fogo.
E, naquela noite, ninguém queria ser o primeiro a se queimar publicamente.
No topo de uma escadaria interna que dava acesso ao grande salão, Aethandor estava presente.
Ele não se misturava.
Não ria.
Não parecia beber.
A roupa dele era impecável, escura em tom, refinada, e o rosto carregava a mesma reserva que ele tinha na reunião. O olhar dele não denunciava sua opinião.
Zao Tian percebeu ele quando passou.
Aethandor inclinou a cabeça uma fração.
O gesto foi mínimo, mas, vindo dele, foi suficiente para dizer: eu vi vocês.
E nada mais.
O salão principal estava pronto para receber o fluxo maior antes da cerimônia. Havia música discreta, não para dominar, mas para preencher espaços. Servos passavam com bandejas de bebidas e pequenos pratos delicados. Risos surgiam em pontos específicos, e conversas eram conduzidas como jogos.
A comitiva humana permaneceu junta, sem se isolar demais e sem se espalhar.
Era uma linha tênue.
Se parecessem fechados, virariam alvos.
Se parecessem disponíveis demais, virariam moedas.
Eles caminhavam nessa linha com a mesma disciplina com que marchariam em campo aberto.
Até que um problema decidiu atravessar a noite.
Primeiro, veio um cheiro forte de bebida, depois uma voz alta demais para o ambiente.
Um elfo alto, muito bonito, com roupas caras, joias excessivas e uma postura que tentava ser confiante, se aproximou cambaleando levemente. O rosto dele estava vermelho demais, o sorriso era torto, e os olhos carregavam aquela coragem estúpida que só existe em quem bebeu por tempo demais.
Ele ignorou Zao Tian.
Ignorou Ye Yang.
Ignorou Yan Chihuo.
E foi direto em Raya.
"Ah…" Ele começou, e o tom já era indecoroso: "Então é verdade…"
Raya girou o rosto devagar, e o sorriso dela desapareceu.
Os elfos ao redor perceberam na hora.
Alguns riram por nervosismo.
Outros olharam como se estivessem esperando um escândalo.
O elfo, por sua vez, deu mais um passo, sem perceber o perigo.
"Você é… absurda!" Ele disse, arrastando a palavra como se isso fosse charmoso: "Uma coisa dessas não devia andar solta. Eu não entendo como um mundo de humanos produziu isso."
Raya não respondeu.
Ela só sustentou o olhar dele com um nojo silencioso.
E o elfo insistiu, ignorando completamente o clima.
"Eu pedi a mão de Elyndariel." Ele continuou, e a frase saiu como uma reclamação infantil: "Fui o último. Eu devia ter sido o primeiro. E aí… ela escolhe um… humano."
Ele riu, alto demais.
E então olhou para Raya de novo, como se estivesse decidindo que ela seria o prêmio de consolação.
"Mas talvez eu não saia perdendo." Ele disse, aproximando-se demais. "Talvez eu…"
Foi aí que Gu Ren se moveu.
Não foi um salto, nem um gesto teatral.
Foi um passo natural, instintivo, firme.
Ele se colocou ligeiramente à frente de Raya, com o corpo entre ela e o elfo, e, no mesmo movimento, a empurrou para trás o suficiente para tirá-la do alcance imediato.
Raya abriu a boca para dizer alguma coisa.
Gu Ren não deu espaço.
Ele só olhou para o elfo com um cenho fechado que não de ameaças vazias.
O elfo, bêbado, ainda tentou sorrir.
"Ah." Ele disse: "Então você vai ficar entre nós?!"
Gu Ren não respondeu com elogios nem com raiva.
Ele só sustentou o olhar, firme, e deixou o silêncio fazer o trabalho.
Rapidamente, o ambiente ao redor começou a se mover.
Não pela coragem de enfrentar Gu Ren, mas pela vergonha do espetáculo.
Um grupo de elfos surgiu rapidamente, tentando conter o homem antes que ele se humilhasse mais.
Um deles segurou o braço do bêbado.
Outro colocou a mão no ombro dele.
Um terceiro se adiantou, já falando com urgência e educação.
"Perdão." Ele disse, inclinando a cabeça para a comitiva humana: "Perdão. Ele está fora de si. Está bebendo há dias. Nós… nós o controlamos mal."
O bêbado tentou se soltar.
"Solta!" Ele resmungou. "Eu estou falando com ela!"
O elfo que parecia liderar o grupo apertou o braço dele com firmeza suficiente para doer, e a voz dele ficou mais dura: "Você está se envergonhando."
A palavra atravessou o bêbado como uma lâmina. Ele ainda queria resistir, mas o corpo já não obedecia com a mesma convicção.
Depois de fazê-lo calar a boca, o líder do grupo voltou o olhar para Zao Tian, depois para Ye Yang, e então para Raya e Gu Ren.
"Eu peço desculpas em nome da casa dele." Ele disse, controlado: "Ele… está chateado com o casamento. Foi o último a pedir a mão de Elyndariel e recebeu uma recusa direta. A vergonha virou bebida. Eu sei que isso não justifica, mas, pelo menos, explica."
Zao Tian não se moveu para a frente, não aumentou a pressão.
Ele respondeu com diplomacia, sem suavizar demais: "Entendo. Mas controlem o homem. O castelo não é lugar para isso."
O líder assentiu na hora: "Sim."
Raya respirou fundo, ainda com o olhar duro, mas não explodiu.
Ela sabia onde estava.
Ela sabia o que aquilo significava para Ye Yang.
E ela não daria àquela gente o prazer de usar um surto como argumento.
O líder do grupo então fez algo que pareceu, por um instante, uma tentativa de transformar a situação em um gesto elegante.
Ele se virou para Raya, com um sorriso galanteador ensaiado, e falou com um tom que tentou soar gentil.
"Lady…" Ele começou, e depois optou por não forçar um título que não existia: "Perdoe a ousadia. Mas uma beleza como a sua não é comum no universo. Eu espero que entenda que, homens comuns… falham diante disso."
Ele disse isso olhando para Raya de um jeito que era bonito demais para ser inocente.
E então ele estendeu a mão para a mão esquerda dela, como se fosse tocar para beijar, como se estivesse tentando “consertar” o escândalo com uma cortesia que, na prática, era outra forma de ousadia.
Raya não puxou a mão a tempo.
Não por fraqueza.
Por surpresa.
Ela estava acostumada com homens sendo estúpidos, mas não estava acostumada com homens tentando transformar estupidez em cerimônia.
Foi aí que Gu Ren acabou reagindo.
*Tap.*
Antes que o toque acontecesse, a mão dele fechou no pulso do elfo com firmeza suficiente para parar o movimento no meio, sem violência exagerada, mas com uma clareza absoluta.
O elfo congelou, e o sorriso dele travou.
Gu Ren então falou, sem elevar a voz: "Ela está acompanhada."
O ambiente ao redor ficou ainda mais atento.
Alguns elfos engoliram seco.
Outros arregalaram os olhos, não por medo do conteúdo, mas pelo risco político de uma frase dessas naquele lugar.
O líder tentou manter o sorriso, mas agora o olhar dele tinha um cálculo malicioso.
"Eu só…" Ele começou, tentando se fazer vítima.
Gu Ren não apertou mais. Também não soltou.
Ele continuou, do mesmo jeito, firme, limpo, direto, e disse: "Se alguém deve dizer isso para ela, esse alguém sou eu."
Aquela frase saiu como uma linha sendo traçada no chão.
Raya olhou para Gu Ren de lado.
Por um instante, o rosto dela mudou.
Não virou doçura. Virou satisfação. Como se aquilo tivesse confirmado exatamente o que ela vinha dizendo havia dias, só que agora em público, em território inimigo, diante de casas nobres e regras implícitas.
O líder do grupo engoliu seco, e então fez a coisa certa.
Ele retirou a mão devagar, aceitando o limite sem tentar forçar.
Gu Ren soltou o pulso dele no mesmo instante, como se não quisesse prolongar o contato.
O líder inclinou a cabeça.
"Entendido." Ele disse, e dessa vez a elegância dele parecia real: "Meu nome é Calenor Vaelondir. Capitão de Honra e Herói da Fronteira Leste. Eu deveria ter sido mais cuidadoso. Peço perdão."
Zao Tian observou o nome e o título sem reagir.
Ele sabia reconhecer quando alguém estava tentando se posicionar.
"Perdão aceito." Gu Ren disse.
Calenor assentiu, e então virou o rosto para o bêbado, que ainda estava contido.
"Levem-no." Calenor ordenou.
O bêbado tentou protestar mais uma vez, mas foi arrastado com firmeza para longe, sob olhares que misturavam vergonha e alívio.
Quando o barulho cessou, a música pareceu voltar a existir.
As conversas retomaram com uma velocidade artificial, como se o castelo inteiro estivesse tentando fingir que nada tinha acontecido.
Raya inclinou o rosto levemente para Gu Ren, só o suficiente para ele ouvir.
"Você disse do jeito certo." Ela murmurou.
Gu Ren não olhou para ela de volta de imediato. Ele só respirou fundo, mantendo a postura para não chamar mais atenção.
"E você vai parar de se aproveitar disso?" Ele perguntou, baixo.
Raya sorriu e encostou a cabeça no ombro dele enquanto dizia: "Não."
Gu Ren fechou o maxilar, mas não a impediu, e disse: "Óbvio."
Raya chegou um pouco mais perto, e completou:"Você acabou de me defender na frente de um castelo inteiro."
Gu Ren respondeu, sem perder o controle. "Eu te protegi a minha honra. Não confunda."
Raya sustentou o sorriso como se aquela correção fosse inútil.
"Eu não confundo nada." Ela disse: "Eu só reconheço as coisas como elas são."
Gu Ren desviou o olhar, porque, naquele momento, discutir com Raya seria exatamente o tipo de fagulha que os descontentes estavam esperando para dizer que humanos não sabem se comportar.
E, ainda assim, o fato era simples e irritante para quem tentava evitar uma perseguidora bonita demais.
Ele tinha reagido.
Instintivamente. Do jeito que ele reagiria por qualquer aliado.
E todo mundo tinha visto.
Ye Yang, que observou tudo a poucos passos, respirou devagar e então olhou para Zao Tian.
"Isso…" Ele começou.
Zao Tian respondeu com calma: "Isso foi um lembrete do que existe aqui."
Yan Chihuo completou, sem emoção: "E um lembrete de que a gente não vai abaixar a cabeça."
Nallrian olhou para os lados, analisando os olhares que voltavam a se acumular, agora com mais cuidado.
"Também foi um lembrete de que eles testam limites de formas pequenas." Ela disse.
Ming Xiao assentiu: "E limites pequenos evitam guerras grandes, se forem bem estabelecidos."
Hakim, por sua vez, olhou para Ye Yang e perguntou: "Você está bem?"
Ye Yang suspirou brevemente.
"Estou." Ele respondeu. "Só… mais consciente."
Zao Tian colocou a mão no ombro dele por um instante.
"É por isso que a gente veio junto." Ele disse: "Você não atravessa isso sozinho."
Ye Yang assentiu.
E, enquanto a comitiva humana voltava a avançar pelo castelo, recebendo cumprimentos, convites e olhares de julgamento, a noite se reorganizava ao redor deles.
O casamento ainda não tinha começado, mas o evento já tinha deixado claro que aquele castelo estava lotado de beleza, de orgulho, de ambição e de gente tentando encontrar a menor brecha possível.
E, até ali, nenhuma brecha tinha sido dada.
Nem pela diplomacia de Zao Tian.
Nem pela postura dos líderes.
Nem pela presença do noivo.
Nem pela mulher de vestido vermelho que virou o assunto da noite sem pedir por isso.
Nem pelo homem de manto branco que, pela primeira vez, se viu obrigado a admitir que proteger Raya em público era sua função, porque, ali, eles eram acompanhantes.
