Capítulo UHL 1172 - Novas Histórias
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Depois da conversa reservada, a volta ao pátio foi uma tentativa de recuperar a normalidade.
As luzes ainda estavam ali. As mesas ainda estavam postas. O vinho ainda brilhava nas taças, mas havia uma coisa que não voltava.
A inocência.
Quando a comitiva atravessou, o pátio inteiro os recebeu com um silêncio que tentou se disfarçar de etiqueta.
Não era hostilidade. Era uma atenção pesada, absoluta, como se cada elfo ali estivesse memorizando o jeito que os humanos respiravam, o jeito que ficavam de pé, o jeito que olhavam de volta.
Zao Tian sentiu isso no primeiro passo, e não precisava olhar para Ming Xue para saber que ela tinha sentido também. A diferença era que ela parecia confortável com a sensação.
Zao Tian, não.
Ele já tinha visto demais para achar que olhares são só olhares.
Aethandor se moveu na frente, assumindo o papel de anfitrião como alguém que se recusa a permitir que um evento morra dentro do próprio corpo.
"Senhoras e senhores." Ele anunciou, e a voz dele encontrou o tom exato entre gentileza e comando: "O incidente foi encerrado."
A palavra incidente foi uma escolha cirúrgica. Um modo de chamar uma fratura planetária de tropeço.
Alguns elfos assentiram, agradecidos pela mentira compartilhada. Outros não reagiram, mas relaxaram o suficiente para lembrar que estavam em uma festa, e não em um tribunal.
"Voltemos ao que realmente importa hoje." Aethandor continuou, e os olhos dele percorreram o pátio até encontrar Elyndariel e Ye Yang: "O casamento."
Elyndariel não sorriu. Ela apenas ergueu o queixo e andou com a tranquilidade de seu semblante.
Quando ela passou, casas importantes se curvaram, algumas com respeito verdadeiro, outras com medo escondido.
Ye Yang caminhou ao lado dela com uma postura firme demais para um noivo, como se ainda estivesse pronto para a próxima ruptura.
Zao Tian percebeu isso, e quase falou. Quase disse para ele relaxar, mas relaxar não era um comando que Ye Yang sabia obedecer.
As conversas voltaram em ondas pequenas, ainda cautelosas, como se ninguém quisesse ser o primeiro a rir alto demais.
Servos reabasteceram taças.
Músicos retomaram o ritmo. E, por algum tempo, a festa fez o que festas fazem quando precisam sobreviver: ela imitou a vida.
Os humanos, no entanto, continuaram sendo o centro gravitacional.
Não importava para onde andassem; a atenção era puxada junto.
Casas menores tentavam se aproximar com desculpas educadas, oferecendo felicitações que pareciam mais entrevistas.
Casas maiores observavam com a calma fria de quem já estava calculando alianças.
E os curandeiros… os curandeiros não conseguiam evitar olhar para Zao Tian, Gins e Ming Xiao com um tipo de inquietação que parecia quase medo.
A imagem da cura tinha grudado nas mentes deles. Como se tivesse sido mais perturbadora do que a luta.
Raya de braços dados com Gu Ren, curtiu bastante o que sobrou da festa.
Ela não precisava dizer nada, pois o jeito que ela encostava a cabeça no ombro dele dizia muito. O jeito que sorria, também.
Gu Ren, como sempre, parecia indiferente ao mundo ao redor, mas a indiferença dele tinha uma textura diferente naquela noite. E, quando alguém olhava demais, Raya fazia questão de apertar o braço dele como se quisesse dizer, em silêncio, que agora aquilo era um fato.
Zao Tian viu, e por um instante a tensão política cedeu espaço para uma lembrança simples: as coisas continuam.
Mesmo depois de um desastre.
Mesmo depois de uma humilhação.
Mesmo depois de um planeta quase rachado.
Elas continuam.
Elyndariel, do outro lado do pátio, sustentou o castelo com a própria presença.
Ela dançou uma vez. Não porque estava feliz, mas porque a festa não podia terminar com a sensação de derrota.
Ela fez questão de circular entre as casas, falar com líderes, receber votos que vinham com dentes escondidos, e devolver cada um com uma educação que era, ao mesmo tempo, elegante e afiada.
Ye Yang esteve ao lado dela o tempo todo, firme, silencioso, como uma sombra bem colocada.
A noite avançou.
Com o tempo, a bebida funcionou em alguns. As risadas voltaram em outros. E o medo virou um assunto que as pessoas empurravam para dentro de si, porque já tinham aprendido que falar dele em voz alta é como chamar uma tempestade.
Quando as horas finalmente se acumularam o suficiente para virar cansaço, a festa começou a dissolver.
Aethandor agradeceu cada casa com o mesmo cuidado com que tinha aberto portais.
Elyndariel recebeu despedidas como alguém que está encerrando um capítulo, não uma noite.
Os humanos se reuniram para partir.
Houve respeito demais nos olhares élficos para ser chamado de cordialidade. E houve distância demais para ser chamado de amizade.
Zao Tian foi o último a atravessar, como sempre.
Ele olhou uma vez para o pátio, para as luzes, para a música que ainda tocava baixo, e pensou, sem dizer em voz alta, que aquela noite tinha sido um recado em todas as direções.
Quando o portal se fechou atrás deles, o castelo pareceu maior.
E mais vazio.
Aos poucos, servos apagaram luzes, músicos se retiraram.
As mesas foram recolhidas. E o som ambiente virou apenas passos, tecidos balançando e o eco das pedras.
Foi só então, quando o último corredor ficou quieto, que Elyndariel e Ye Yang se viram… sozinhos.
Não no sentido literal, porque um castelo nunca está vazio, mas no sentido real: sem público, sem política, sem necessidade de representar.
Eles estavam em um corredor amplo, com janelas altas e um vento suave entrando.
Ye Yang ficou parado por um instante, e, pela primeira vez na noite inteira, ele pareceu sem roteiro.
Elyndariel também.
O casamento tinha acontecido rápido demais, decidido rápido demais, confirmado rápido demais.
Agora, o silêncio tinha tempo para existir.
E tempo, ali, era a coisa mais constrangedora do mundo.
"Então…" Ye Yang começou, e a palavra saiu quase como uma pergunta.
Elyndariel olhou para ele, esperando.
Ela não estava acostumada a esperar por alguém.
"Eu acho que…" Ye Yang tentou de novo, e parou, porque aquilo parecia ridículo.
"Eu acho que nós nunca conversamos de verdade." Ele finalmente falou.
Elyndariel segurou um sorriso curto, não de deboche, mas de reconhecimento.
"Não." Ela respondeu: "Nós não conversamos."
Ye Yang assentiu, e o gesto dele foi honesto. Quase infantil, por baixo da seriedade.
"E agora estamos casados." Ele disse, como se estivesse confirmando um fato científico.
Elyndariel soltou um som baixo, um riso contido, e aquilo, por si só, foi uma surpresa.
"Sim." Ela disse: "Agora estamos."
Então, eles caminharam juntos até um salão menor, mais íntimo, com uma lareira apagada e um sofá antigo que parecia ter ouvido mais segredos do que qualquer pessoa viva.
Elyndariel se sentou primeiro.
Ye Yang demorou meio segundo, e então sentou também, com uma postura que denunciava o hábito de combate.
Ele parecia pronto para levantar a qualquer momento.
Elyndariel observou, sem comentar.
O silêncio voltou. Só que, dessa vez, era um silêncio menos perigoso.
Ye Yang olhou para ela como se finalmente tivesse lembrado de algo simples: ela tem dez mil anos.
Essa ideia, por si só, era absurda. E ele estava ali, sentado, como se isso fosse normal.
"Você…" Ye Yang começou, e dessa vez a curiosidade dele ganhou um pouco de espaço: "Você tem dez mil anos."
Elyndariel assentiu, como se fosse um número qualquer.
"Um pouco mais." Ela disse.
Ye Yang franziu a testa.
"Como é isso?" Ele perguntou: "Viver tanto tempo com… um povo como o seu?"
Elyndariel recostou levemente, e o olhar dela foi para uma das janelas altas, como se a resposta estivesse em algum lugar do lado de fora.
"É como viver dentro de um poema que acha que é uma lei." Ela disse.
Ye Yang não entendeu de imediato, mas não interrompeu.
Elyndariel continuou.
"Elfos gostam de se ver como a medida de tudo." Ela disse: "Não só por orgulho. Por hábito. Nós vivemos muito. Nós vemos gerações inteiras de outras raças nascerem e morrerem. Isso cria um vício: a sensação de que o tempo nos dá razão."
Ye Yang assentiu devagar.
Elyndariel sorriu, com mais elegância.
"Eu já vi casas inteiras se destruírem porque alguém decidiu que recuar era uma vergonha." Ela contou: "E eu já vi casas sobreviverem porque alguém teve coragem de fazer uma coisa que parecia humilhante no momento… e inteligente no século seguinte."
Ye Yang ficou olhando fixamente para ela.
"Você é… desse segundo tipo." Ele disse, mais como constatação do que elogio.
Elyndariel não negou.
"Eu tento ser." Ela respondeu: "Mas isso não me torna popular."
Ye Yang soltou um ar lentamente.
"Eu sei como é." Ele disse, e a frase saiu antes que ele pensasse se fazia sentido.
Elyndariel inclinou a cabeça, interessada.
"Conte." Ela pediu.
Ye Yang demorou um pouco.
Não porque não queria contar, mas porque ele não sabia por onde começar com alguém que não conhecia a palavra de onde ele veio.
"Eu nasci… de um jeito diferente." Ele disse.
Elyndariel não interrompeu.
Ye Yang continuou, e a voz dele foi ficando mais firme à medida que ele aceitava dizer em voz alta.
"Eu nasci na família Shui." Ele explicou.
Elyndariel franziu a testa e disse: "Eu não conheço."
"Você não conheceria." Ye Yang respondeu: "Eles não importam para o seu mundo."
A frase saiu com um tipo de frieza que não era arrogância. Era a frieza de quem fala de uma jaula.
"Eu fui criado como um experimento." Ye Yang disse: "Eu era… Sou… um clone do imperador Yang Hao."
Elyndariel ficou imóvel.
Por um instante, o rosto dela perdeu qualquer traço de formalidade.
"Um clone." Ela repetiu, baixa.
Ye Yang assentiu.
"Eles me mantiveram como propriedade." Ele disse, e o tom dele não dramatizou sua própria história: "Até eu ter dezesseis… dezessete anos, mais ou menos. Foi quando eu conheci Zao Tian."
Elyndariel não perguntou como, pois ela já tinha aprendido que alguns detalhes só existem para ferir.
"E ele te libertou." Ela concluiu.
"Ele me tirou de lá." Ye Yang confirmou: "E, desde então…"
Ye Yang parou, como se lembrasse que, desde então, a vida dele tinha sido uma coisa tão simples quanto cruel.
Treinar.
Treinar para não voltar a ser uma propriedade.
Treinar para não ser fraco.
Treinar para merecer estar ao lado de alguém que não acredita em desculpas.
"Desde então, eu treinei." Ye Yang disse, finalmente.
Elyndariel olhou para ele de um jeito diferente, como se, de repente, o homem sério demais tivesse sido despido por dentro.
"Quantos anos você tem?" Ela perguntou.
Ye Yang hesitou por um instante, por puro hábito de medir o que revela.
Então respondeu: "Pouco mais de mil."
Elyndariel arregalou os olhos na mesma hora.
Não por preconceito, mas por pura matemática.
Mil anos não era pouco, mas ainda era um tempo que não encaixava com o nível de controle e força que ela tinha imaginado que ele carregava por caminhar ao lado de Zao Tian.
"Você tem… pouco mais de mil anos?!" Ela repetiu, como se precisasse ouvir de novo.
Ye Yang assentiu.
Elyndariel respirou, lentamente, como se precisasse de ar para absorver a ideia.
"Eu vi Gu Ren hoje." Ela então disse, sem rodeios: "E eu vi o que ele fez."
Ye Yang não reagiu, pois, depois da luta, a comparação era inevitável.
Elyndariel continuou, e agora a honestidade dela vinha misturada com algo próximo de uma admiração involuntária.
"Eu imaginei que você, para seguir Zao Tian… para estar ao lado dele… teria que ser tão poderoso quanto Gu Ren." Ela disse.
Ye Yang suspirou, e então respondeu: "Eu não sou Gu Ren. Mas confesso que quase todos nós estamos em níveis muito parecidos."
"Eu treino desde que fui libertado." Ele disse: "E eu treinei… quase a minha vida inteira."
Ele olhou para as próprias mãos, como se elas ainda carregassem a memória do que eram antes.
"A maioria das minhas histórias são de treino." Ye Yang confessou: "Se você quiser me conhecer… é bom se preparar para um monte de histórias de treinamentos. Porque é praticamente isso que eu tenho pra oferecer."
Elyndariel ficou olhando para ele em silêncio.
Não era pena. Era um tipo de respeito que não precisava de palavras para ser expressado.
"Isso é… triste." Ela disse, por fim. E a voz dela não julgou: "E também é impressionante."
Ye Yang não respondeu com humildade nem com orgulho. Ele apenas aceitou a frase como quem já ouviu coisas demais para se emocionar com um elogio.
Elyndariel se inclinou um pouco, e, pela primeira vez, a distância entre eles diminuiu sem ser por causa de alguma política.
"Então nós vamos ter que mudar isso." Ela disse.
Ye Yang franziu a testa, confuso.
"Mudar o quê?" Ele perguntou.
Elyndariel estendeu a mão, sem pressa, e tocou a mão dele.
Foi um gesto simples, mas, naquele contexto, parecia mais íntimo do que um beijo.
"Você tem um monte de histórias de treino." Ela disse: "E isso te tornou o que você é."
Ela segurou a mão dele com firmeza, e os olhos dela ficaram mais calmos, mais sentimentais.
"Esse casamento teve vários motivos." Elyndariel continuou: "E eu não vou fingir que não teve."
Ye Yang ficou quieto.
Ela não precisava dizer aquilo, pois ele sabia.
Contudo, Elyndariel completou, e ali veio a primeira escolha que parecia realmente deles, e não do mundo ao redor.
"Por agora, o que importa é nós criarmos novas histórias para você." Ela disse: "Para que você tenha coisas boas pra contar."
Ye Yang ficou olhando para ela como se, pela primeira vez em muito tempo, alguém tivesse oferecido uma coisa que não era uma missão.
Uma vida.
Elyndariel não esperou que ele respondesse. Ela apenas se levantou, ainda segurando a mão dele, e puxou com naturalidade.
Um convite simples.
Sem teatro.
Sem ordem.
"Venha." Ela disse.
Ye Yang se levantou junto, quase sem perceber que tinha obedecido.
Então, de mãos dadas, os dois caminharam pelo corredor principal.
O castelo estava silencioso.
As tochas já estavam baixas.
As sombras eram longas.
E, ainda assim, não havia ameaça naquele silêncio.
Havia só o desconforto doce do começo de uma coisa real.
Quando chegaram à porta do quarto principal, Elyndariel parou por um instante.
Ela olhou para Ye Yang como se, finalmente, estivesse deixando a ficha cair. Então apertou a mão dele uma vez.
E abriu a porta.
De mãos dadas, os dois entraram no quarto, e a porta se fechou atrás deles com a mesma delicadeza com que, naquela noite inteira, o mundo tentou fingir que ainda sabia ser gentil.
