Capítulo UHL 1175 - Silêncio
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Tenham uma boa leitura!]
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A linha defensiva de Uhr'Gal se manteve inteira, mesmo quando o instinto começou a gritar para todos que aquilo era inútil.
Não havia fuga.
Não havia plano B.
Havia só a obrigação orc de ficar de pé, mesmo quando o céu inteiro parecia grande demais.
A coisa se aproximou até que os olhos finalmente puderam aceitar o que antes era apenas uma presença.
Não foi uma “chegada” dramática. Foi uma aproximação que, aos poucos, roubou o horizonte.
Lentamente, o espaço acima de Uhr'Gal ganhou um segundo corpo celeste, verde, vasto, tão grande que o cérebro precisou de tentativas para encaixar.
Os orcs mais jovens tiveram a mesma reação.
Primeiro, incredulidade. Depois, raiva. E por fim… um silêncio involuntário, como se o corpo reconhecesse algo que a mente ainda não podia admitir.
Zargoth manteve a ordem repetida em todos os postos: "Ninguém ataca."
A frase passou de amuleto em amuleto como um juramento amargo.
"Ninguém provoca."
"Ninguém faz nenhuma estupidez."
Ele repetiu as ordens de maneiras diferentes, porque, naquele ponto, o orgulho não era uma virtude.
Era suicídio.
Quando chegou a uma certa distância, a coisa desacelerou, e o fato de ela desacelerar não trouxe alívio. Trouxe a sensação de que algo capaz de fazer aquilo tinha controle demais para ser considerado “apenas uma ameaça”.
E então… Ela parou.
A alguns milhares de quilômetros.
Perto demais para ser ignorada.
Distante demais para ser tocada por qualquer impulso burro.
Uma segunda lua.
Só que a lua não era isso.
Era um mundo suspenso, estacionado, silencioso, como se o céu tivesse aceitado carregar um peso novo sem reclamar.
O silêncio que se espalhou por Uhr'Gal não foi o silêncio de alívio. Foi um silêncio que deixou os pensamentos barulhentos, porque o pior tipo de ameaça não é a que ruge…
É a que olha e não diz nada.
No alto da linha, um guerreiro orc engoliu seco e falou no amuleto, com a voz quase quebrando: "Ele… parou."
A resposta veio da base, seca: "Confirme a distância."
"Alguns milhares de quilômetros."O guerreiro respondeu: "Ele está… parado."
O amuleto chiou, e, por um momento, ninguém falou mais nada.
Zargoth encarou o céu como se estivesse encarando uma sentença.
Os generais ao redor dele não se mexeram. Eles não sabiam qual gesto era aceitável diante de algo daquele tamanho.
Um deles, mais antigo, sussurrou baixo, como se tivesse medo que a própria palavra chamasse atenção: "Isso não faz sentido."
Outro respondeu com a mandíbula travada: "Faz sentido demais."
Porque, naquele instante, uma certa ideia começou a se formar na mente coletiva.
Histórias antigas. Cantos de guerra que viravam lendas quando um velho começava a beber. Relatos de um deus que não precisava de templos, porque o próprio corpo era maior do que qualquer planeta que os orcs já tinham pisado.
Os orcs sempre foram um povo que respeita a força, mas há um tipo de força que não inspira respeito.
Inspira cuidado.
Um sentinela mais jovem falou no amuleto, ainda tentando negar: "Isso é… isso é um planeta."
A resposta veio de outro posto, amarga: "Não."
O jovem engoliu seco e perguntou: "Então o que é?"
Houve um silêncio curto.
E então, alguém disse o nome que ninguém queria ser o primeiro a dizer: "É o Curupira."
O nome atravessou Uhr'Gal como uma lâmina invisível, porque, quando um nome se encaixa no lugar onde deve, ele encaixa tudo junto.
A forma; O tamanho; A presença; E, principalmente, o medo de estar diante de algo que não pertence ao mesmo tipo de escala que você.
Zargoth não reagiu com pânico. Ele reagiu com o que um Khan aprende a fazer quando um inimigo tenta esmagar sua tribo.
Ele respirou fundo… E fez a única coisa que podia fazer para impedir que Uhr'Gal virasse um funeral coletivo.
Ele falou primeiro.
"Aqui é Zargoth, Khan de Uhr'Gal." A frase foi transmitida para o céu, mas, naquele segundo, pareceu pequena demais.
Zargoth continuou: "Curupira…"
Ele pronunciou o nome com respeito, e isso, para um orc, era quase uma concessão histórica: "Se você veio em paz, diga."
Nenhuma resposta veio.
Nada.
Nem uma vibração.
Nem uma voz.
Nem um sinal.
A coisa apenas ficou lá.
Parada.
Silenciosa.
E o fato de ela permanecer silenciosa começou a gerar um desconforto diferente, pois a mente sempre tenta preencher o vazio. E, quando ela não consegue, ela entra em paranoia.
Um general ao lado de Zargoth sussurrou, e o som saiu como uma irritação nervosa: "Ele tá brincando com a gente?"
Zargoth não tirou os olhos do céu.
"Não." Ele respondeu: "Eu acho que ele não é do tipo que brinca."
Os guerreiros na linha superior mantinham as armas erguidas, mas o gesto era mais instinto do que uma ameaça.
Era um jeito de lembrar o próprio corpo de que ele ainda tinha uma função.
O Curupira, por sua vez, não avançava.
Não recuava.
Não fazia nada.
Lá embaixo, o planeta orc inteiro começou a respirar mais devagar, como se até o ar tivesse medo de fazer barulho.
Zargoth tentou de novo: "A presença de um deus sobre Uhr'Gal é um acontecimento grave." Ele disse, antes de explicar: "Eu não sei se isso é um aviso, um ataque ou uma visita."
Ele então fez uma pausa curta, escolhendo o tom, antes de pedir: "Se você veio cobrar algo, eu preciso ouvir."
Nada veio de volta.
Um silêncio inteiro.
O tipo de silêncio que vira um estrondo dentro do crânio.
Um guerreiro mais jovem, em um posto distante, sussurrou para alguém ao lado, mas o amuleto pegou: "Isso é bom ou ruim?"
A resposta veio de alguém mais velho, com uma risada seca que não tinha humor: "Se fosse bom, ele falava."
Zargoth ouviu isso, e sentiu uma irritação curta, não pelo conteúdo, mas pelo risco.
Ele apertou o amuleto e rosnou: "Silêncio nos canais."
Os postos calaram.
O Khan não podia deixar aquela coisa virar discussão.
Discussão vira descontrole; Descontrole vira ataque; E um ataque contra o Curupira… seria menos um ato de guerra e mais um ato de autoextinção.
A sombra no céu era tão grande que começou a mudar a forma como Uhr'Gal se sentia.
Não era uma mudança de clima. Era uma mudança psicológica. Como se o planeta inteiro tivesse recebido a certeza de que estava sendo observado.
Alguns orcs, principalmente os que tinham afinidade espiritual mais sensível, começaram a sentir a própria aura se retrair sozinha, como se o corpo entendesse que crescer demais naquele momento seria chamar atenção. E chamar atenção de um deus daquele porte era uma ideia que fazia o instinto doer.
Um dos generais, inquieto, aproximou-se um pouco de Zargoth: "Khan…"
Zargoth não olhou para ele: "Fale."
"O que os antigos diziam?" O general perguntou, e a pergunta foi quase infantil, porque ninguém ali tinha um manual para aquela situação.
Zargoth demorou um tempo para responder.
"A maior parte do que os antigos diziam era exagero." Ele respondeu.
O general engoliu, e perguntou, buscando uma orientação ou uma esperança: "E agora?"
Zargoth apertou a mandíbula: "E agora parece que era pouco."
Os olhos do general se apertaram, e ele reconheceu: "Ele pode nos esmagar sem esforço."
Zargoth respondeu sem emoção: "Pode."
O general tentou achar o fio do pragmatismo e perguntou: "Então por que ele parou?"
Zargoth não respondeu de imediato, porque essa era a pergunta que Uhr'Gal inteiro estava fazendo.
Por que parar… e ficar?
Por que vir até ali… e não dizer nada?
Zargoth ergueu a voz de novo, e chamou: "Curupira… Se você precisa de algo de Uhr'Gal, eu estou ouvindo."
Nada.
O general ao lado dele sussurrou, como se a paciência fosse a única arma restante e o óbvio precisasse ser dito: "Ele não responde."
Zargoth respondeu com um som baixo, irritado: "Eu percebi."
E então, o Khan tentou outra abordagem.
Ele não podia ameaçar.
Ele não podia implorar.
Ele precisava se colocar como Khan sem parecer que estava exigindo.
"Eu não vou ordenar ataque." Zargoth disse ao céu, e parte dele odiou precisar dizer aquilo: "Uhr'Gal vai permanecer em posição defensiva. Mas eu preciso entender sua intenção."
Nada.
O silêncio do Curupira não era agressivo.
Era… absoluto.
E essa absolutidade começou a enlouquecer os orcs mais jovens, porque o orc, por natureza, responde a estímulos.
Se alguém te encara, você encara de volta; Se alguém te desafia, você responde; Se alguém te ataca, você revida.
Contudo, como você responde a um vazio que não te dá nada?
Um guerreiro na linha superior apertou os dedos na lança com tanta força que o metal gemeu.
Ele sussurrou para si mesmo: "Diga alguma coisa."
No mesmo instante, ele sentiu vergonha. Porque era ridículo pedir uma resposta a algo que parecia maior do que o próprio céu.
Anciões começaram a se reunir nos pontos mais altos das fortalezas, mesmo sem serem chamados.
A presença deles era alento, e o fato de eles surgirem assim deixava claro que Uhr'Gal estava deixando a situação escapar do campo militar.
Era uma questão de sobrevivência, mas também era uma questão de mito. E mitos, para um povo, tem poderes o suficiente para destruir qualquer disciplina.
Zargoth percebeu e rosnou no amuleto para as patrulhas internas.
"Contenham as aglomerações." Ele ordenou: "Eu não quero nenhum tipo de pânico religioso. Eu não quero ver nenhum orc se ajoelhando."
Uma voz respondeu, hesitante: "É difícil conter, Khan… eles acham que…"
Zargoth cortou, duro: "Eles podem achar o que quiserem, mas eu mando em Uhr’Gal, e eles vão fazer o que eu ordeno!"
A resposta veio rápida: "Sim, Khan."
Zargoth respirou. Ele sabia que, por baixo do comando, havia uma verdade amarga…
A tribo precisava de alguém que parecesse ter controle da situação, mesmo que não tivesse.
Ele tentou se comunicar uma terceira vez, mais formal.
"Curupira…" Ele falou, e o nome pareceu pesar na língua: "Uhr'Gal reconhece a sua existência. Uhr'Gal reconhece a sua força."
Ele fez uma pausa curta, ante de concluir: "Se a sua vinda é um julgamento, eu preciso ouvir o veredito."
Nada.
O Curupira continuou pairando como um mundo quieto.
Um general, agora mais nervoso, falou baixo: "Isso está muito errado."
Zargoth respondeu sem desviar os olhos: "Eu sei."
O general insistiu: "Um deus… não aparece assim. Não sem um motivo."
Zargoth apertou o amuleto, mas não falou nele. Ele respondeu apenas para o general: "Então o motivo não deve ser para nós."
O general travou e questionou: "Como assim?"
"Talvez ele esteja aqui por causa de outra coisa." Zargoth respondeu: "E nós somos só… o chão embaixo do passo."
O general engoliu seco, porque a ideia de ser “o chão do passo” de um deus daquele tamanho era humilhação demais para a mente de um orc.
Enquanto isso, no céu, a presença permanecia igual. E a ausência de qualquer ação se transformou em uma tortura.
Uma tortura limpa; Sem sangue; Sem grito.
Só uma dolorosa espera.
Alguns guerreiros começaram a suar mesmo no frio da camada alta. Outros sentiram o estômago embrulhar. E alguns, os mais orgulhosos, começaram a sentir raiva por não terem um alvo para descarregar a raiva.
Zargoth repetiu a ordem de novo, ainda mais firme: "Ninguém ataca."
No fundo, ele sabia que essa frase era a única coisa separando Uhr'Gal de um desastre irreversível.
Ele tentou uma última vez, porque a liderança também é insistir quando não existe retorno.
"Curupira." Zargoth disse: "Eu não sei se você lembra do que os antigos foram… mas Uhr'Gal não é inimiga de ninguém por vontade."
Ele engoliu seco, antes de continuar: "Se você veio por causa de guerra, eu te digo: nós não estamos marchando para lugar nenhum. Nós não estamos invadindo. Nós só estamos existindo."
De novo, nenhuma resposta.
O silêncio continuou tão denso que parecia empurrar o planeta para baixo. E, aos poucos, a constatação ficou completa na mente de todos.
Era ele. O deus do tamanho de um planeta. O nome que atravessou eras como um exagero.
Curupira.
E, ainda assim, não havia como saber se isso era bom ou ruim. Porque, com alguns deuses, a ausência de ataque não significa exatamente paz. Significa apenas que você ainda não entendeu o que está acontecendo.
Zargoth olhou para os generais ao redor, e viu o mesmo nos rostos de todos.
A disciplina estava de pé, mas o espírito estava tremendo. E então, com a calma dura de quem precisava manter Uhr'Gal unido, ele falou.
"Continuem em formação." Ele ordenou: "Revezem as linhas. Ninguém cai de cansaço. Ninguém perde a cabeça."
Um general assentiu: "E se ele ficar aqui por dias?"
Zargoth não piscou ao responder: "Então a gente fica dias vigiando."
"E se ele ficar meses?" O General perguntou.
Zargoth respondeu do mesmo jeito: "Então isso se tornará a nossa nova rotina."
O general engoliu o que ia dizer, mas tentou mesmo assim: "E se ele…"
Zargoth cortou na hora, porque não dava para listar todas as desgraças possíveis: "Chega."
Depois, ele ergueu a voz de novo, como se o gesto fosse um voto de que o Khan não seria esmagado pelo silêncio.
"Curupira." Ele disse, uma última vez, com respeito e firmeza: "Eu continuo esperando."
E a resposta… continuou sendo nenhuma.
Só a sombra.
Só o mundo suspenso.
Só uma segunda lua impossível pairando a alguns milhares de quilômetros, calada, imóvel, esmagando Uhr'Gal com a pior forma de pressão que existe…
A pressão de não saber o que estava acontecendo.
