Capítulo UHL 1182 - Escolha
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Tenham uma boa leitura!]
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A cidade parecia um segredo que tinha sido dobrado com cuidado e escondido num canto do universo onde ninguém deveria olhar.
Mas Zao Tian olhava.
Ele olhava sem existir para eles.
A flecha na mão dele vibrava no mesmo ritmo do ódio, mas não era o ódio que guiava aquilo… Era o Curupira, inteiro, através de um fragmento, usando a própria consciência como ponte.
Zao Tian manteve o corpo imóvel na dobra onde estava escondido, sem atravessar o limite, sem tocar a borda da fenda, sem dar ao inimigo a menor chance de sentir que havia uma respiração extra no lugar.
Ele murmurou um som que era mais pensamento do que voz: "Por que você está fazendo isso?"
A resposta veio como se o espaço fosse uma garganta: "Porque eu devo."
Zao Tian franziu o cenho.
O instinto dele queria uma justificativa que fosse útil, não uma frase que parecia antiga demais para o presente.
"Eu nunca vi você." Ele disse: "Nunca lutei contra você. Nunca te salvei. Nunca fiz nada por você."
A flecha na mão dele tremeu diferente, e a sensação foi de um corpo imenso se movendo do outro lado do universo, como se o Curupira tivesse virado o rosto, lá longe, para olhar para ele de verdade.
"Você não me deve nada." O deus respondeu: "E eu não devo nada a você."
Zao Tian apertou os dentes, incomodado com a forma direta e fria como aquilo soava.
"Então por que me ajudar a enxergar um dos irmãos dentro do Domínio?" Ele perguntou.
A presença do Curupira se adensou na percepção dele, e a resposta veio como uma coisa carregada, como um nome que não precisava ser dito, mas foi dito mesmo assim, porque naquele momento o Curupira não tinha por que esconder.
"Criação..." Ele disse.
A palavra não tinha poesia, tinha acusação e dívida.
"Um dia, a misericórdia foi oferecida a mim." O Curupira continuou: "E eu não retribuí. Eu só consumi. Eu só ocupei. Eu só tomei. Eu deixei a criação sangrar por minha culpa e chamei isso de natureza."
Zao Tian sentiu o corpo ficar mais alerta.
Aquilo era mais do que uma confissão. Era um ajuste de balança.
"E agora eu retribuo." O Curupira disse, e a frase veio como algo inevitável: "Não a você. Não ao seu nome. Eu retribuo ao que existe e ao que me foi negado: a chance de não ser apenas um instrumento da ruína."
Zao Tian estreitou os olhos, e a mão dele se fechou ainda mais na flecha.
"E a quem, então?" Ele perguntou, mais ríspido: "Quem te ofereceu misericórdia?"
O Curupira não respondeu com uma lembrança detalhada.
Ele respondeu apenas com uma direção: "Eu devo ao ser que coabita seu corpo."
Zao Tian sentiu a nuca gelar.
A palavra "coabita" atingiu como uma coisa viva, porque não era uma metáfora.
Precisão. Era como se o Curupira enxergasse Gold não como uma memória, mas como presença real dentro dele.
Zao Tian teve vontade de perguntar como, mas não perguntou.
Porque, por mais estranho que fosse, a resposta era óbvia naquele cenário: o Curupira via entre planos. Via entre dimensões. Via entre as camadas que faziam um ser ser “um”.
E Gold era mais do que um.
"Gold." Zao Tian disse, baixo, como confirmação para si mesmo, e não como pergunta.
"Sim." o Curupira respondeu: "Ele me negou a morte quando eu merecia. E me deu uma misericórdia que eu não entendi na época. Eu entendi tarde. Mas entendi."
Depois de escutar aquilo, Zao TIan olhou para a cidade de novo, e viu Samir caminhando em direção ao núcleo, passando por guardas como se fosse parte daquele lugar.
Zao Tian perguntou: "Você me trouxe até aqui para quê?"
A flecha vibrou e respondeu: "Para escolher."
Zao Tian sentiu o peito apertar: "Escolher o quê?"
O Curupira respondeu como se falasse de coisas simples, mas o peso por trás era esmagador: "Você terá apenas um dos seus desejos hoje, Zao Tian."
O nome dele, na boca do deus, não soou como intimidade. Soou de uma forma estranha.
Zao Tian olhou para Samir.
Depois olhou para os Shui.
E a resposta óbvia tentou se impor no corpo dele como reflexo: matar Samir. Arrancar uma cabeça da serpente.
Contudo, ele mesmo não se permitiu falar isso ainda.
Ele esperou o Curupira completar, porque ele sabia que a parte cruel vinha depois.
"O tumor…" O Curupira disse, e a flecha tremeu com desprezo: "Ou a fonte de uma doença."
Zao Tian sentiu o estômago revirar.
Ele sabia o que era “a fonte” sem precisar que o Curupira apontasse.
A família Shui.
O conhecimento que criava clones. A praga que não precisava vencer uma luta para destruir uma aliança, porque bastava contaminar a confiança.
Zao Tian cerrou os dentes e teimou: "Eu posso pegar os dois."
O Curupira respondeu na mesma hora, sem paciência para uma ilusão de grandeza: "Não pode."
Zao Tian fez menção de avançar um pouco, como se fosse provar no corpo, mas ele mesmo sentiu o limite.
Samir estava num ponto crítico, sim.
Vulnerável, sim.
Mas não parado. Não estúpido. Não sem rotas preparadas.
E os Shui… os Shui eram muitos. E uma cidade inteira, por menor que fosse, podia dispersar no primeiro segundo de alarme.
Enquanto Zao Tian pensava, o Curupira continuou, e cada frase dele parecia empurrar Zao Tian contra a parede de uma realidade desagradável: "Se você atacar o tumor, a fonte da doença foge."
Zao Tian sentiu o impulso de negar, de confiar nas suas habilidades, mas o Curupira não deu espaço: "Você mata Samir, e a cidade se move. Eles desaparecem. Eles têm rotas. Eles têm buracos. Eles têm selos e pontos de fuga. E se um único deles escapar…"
Zao Tian completou sem querer, como se a mente dele já tivesse visto essa história acontecer em outros lugares: "O segredo fica solto no universo de novo."
O Curupira não disse “sim”.
Ele só deixou o silêncio confirmar.
Zao Tian respirou, e o gesto foi violento, porque ele queria arrancar o tempo do lugar e usar cada segundo como uma faca.
"Se eu atacar os Shui?" Ele perguntou, e a voz dele quase doeu de tão seca.
"Então o tumor foge." O Curupira respondeu, simples.
Zao Tian fechou os olhos por um instante, e abriu de novo, encarando Samir no plano real, ainda caminhando para o núcleo com aquela postura de quem acredita que está seguro.
A ideia de deixar Samir vivo parecia uma blasfêmia.
A ideia de permitir que um dos irmãos escapasse de novo parecia permitir que a guerra nunca terminasse.
Entretanto, a outra ideia era pior.
Deixar a clonagem escapar de novo era permitir que a guerra virasse uma doença eterna, se infiltrando em tudo, até que ninguém soubesse mais quem era aliado e quem era uma cópia.
"Eu posso neutralizar Samir e ainda assim destruir os Shui." Zao Tian insistiu, como se repetir pudesse virar verdade.
Ele calculou em instantes.
Uma aceleração.
Um golpe limpo.
Um corte que imobilizasse Samir sem matar.
E depois um disparo carregado, um ataque grande o bastante para apagar a cidade inteira sem deixar um único sobrevivente.
Contudo, a mesma matemática batia na realidade como pedra.
Samir tinha o Domínio da Miragem Eterna. Samir tinha rotas. E, pior, Samir tinha algo mais...
Zao Tian falou isso em voz baixa, como se odiasse admitir: "Ele deve ter Pedras do Regresso."
A flecha tremeu, e o Curupira respondeu: "Tem."
Zao Tian sentiu a mão apertar até doer: "Quantas?"
O Curupira não respondeu com exatidão numérica, mas a frase dele foi suficiente para que o peito de Zao Tian pesasse: "O suficiente para, no mínimo, te roubar duas vitórias."
Zao Tian entendeu na hora.
Mesmo que matasse Samir, ele voltaria.
No mínimo duas vezes.
Duas chances de escapar enquanto Zao Tian lidava com a cidade.
Duas chances de desaparecer de novo no Domínio, e arrastar consigo qualquer informação crítica que o grupo precisasse para entender o que tinha sido feito em Uhr’Gal.
Zao Tian, então, olhou para os Shui de novo.
E o problema deles era o oposto: eles não voltariam se fossem apagados de uma vez.
Se ele fizesse um disparo carregado, um golpe grande, um golpe que não desse margem para fuga… ele podia aniquilar completamente a família. Não deixar um sobrevivente além de Samir, se Samir escapasse.
Zao Tian sentiu o dilema ferver por dentro.
Matar Samir era uma justiça imediata, visceral, e uma parte dele queria isso como quem quer ar. Mas justiça imediata não resolvia o fato de que Amin e Rachid ainda existiam.
Não extirpava a Trindade inteira.
E, pior, sacrificava a chance única de cortar a clonagem pela raiz, num lugar onde todos os responsáveis estavam concentrados e expostos, sem se basear em relatos, invenções ou pistas falsas.
O Curupira falou de novo, e a frase veio como uma lâmina que separa o mundo em duas linhas. Duas escolhas: "Você tem um golpe hoje."
Zao Tian rosnou, e a voz dele saiu quase como um sopro de ameaça: "Eu tenho mais do que um golpe."
"Você tem um golpe antes que o outro desapareça." O Curupira corrigiu: "E você não é rápido o suficiente para impedir as duas fugas. Nem você. Nem quem está no seu corpo."
A raiva de Zao Tian tentou se converter em arrogância, mas não conseguiu.
Porque ele sentiu o limite real. Sentiu o tempo real. Sentiu como, no primeiro segundo de combate, qualquer uma das partes podia virar fumaça e deixar ele com uma vitória vazia e um problema intacto.
Ele pensou no irmão em Uhr’Gal, sob o casulo do Curupira, sem comunicação, sem ar livre, com flechas atravessando a cidade por causa de uma caça que, agora, tinha se deslocado para longe.
Se Zao Tian ficasse ali tempo demais, Uhr’Gal podia pagar o preço de uma indecisão. Mas se ele escolhesse errado agora, o universo pagaria por anos.
Zao Tian se inclinou um pouco para frente, e os olhos dele fixaram Samir com uma sede de vingança sem limites.
"Eu odeio deixar ele viver." Ele disse, e não era frase de efeito. Era uma confissão nua e crua.
O Curupira respondeu, e pela primeira vez a voz dele carregou algo parecido com compreensão, não por empatia humana, mas por saber o que é carregar uma natureza destrutiva: "Eu sei."
Zao Tian sentiu a mão tremer, não de medo, mas de contenção, como se o corpo dele precisasse ser amarrado para não se lançar no instinto mais fácil.
Ele falou de novo, e a pergunta dele não era sobre técnica, era sobre moral, como se ele procurasse uma justificativa para suportar a própria escolha: "Se eu matar Samir, você consegue manter os Shui aqui?"
A flecha vibrou, e o Curupira respondeu com a frieza de um deus que não promete o impossível: "Eu não controlo o ambiente deles. Eu só posso mostrar este caminho. Eu só abro os olhos. Se você atacar Samir, eles sentirão. E desaparecerão."
Zao Tian engoliu seco: "E se eu apagar os Shui?"
"Então o tumor fugirá." O Curupira disse: "Ele é covarde. Ele vive para continuar existindo. Ele não ficará para ver o que está acontecendo. Ele aproveitará a janela e sumirá."
Zao Tian fechou os olhos por uma fração mínima de segundo.
Dentro dele, o nome “Samir” virou um peso vivo, como uma coisa que ele queria esmagar com as mãos, enquanto o azul da cidade era um tipo diferente de peso.
Era um peso que não tinha rosto, mas tinha consequência.
Ele abriu os olhos de novo e olhou para o núcleo, para os selos, para a concentração de gente azul que entrava e saía.
Era um alvo perfeito para um disparo carregado.
Uma única descarga, um único ataque, e aquela cidade viraria nada. E o segredo de clonagem, que estava ali, nas mentes deles, morreria com eles.
Zao Tian sentiu o dilema alcançar o ponto mais alto, onde a escolha não era mais pensamento, era uma faca encostada no próprio peito.
Zao Tian sentiu o peso de um mundo apertar ao redor do pensamento.
Ele falou com a flecha, com o Curupira, com Gold dentro dele, com o próprio ódio.
"Eu não posso errar!"
