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Capítulo UHL 1185 - Humano

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Tenham uma boa leitura!]


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As últimas palavras de Zao Tian ainda estavam pairando na mente de todos quando o espaço ao redor de Uhr’Gal mudou de novo.


Não foi um som.


Não foi uma luz.


Foi movimento.


Um movimento tão grande que, por um instante, pareceu impossível de ser real, como se o universo inteiro tivesse decidido ajustar uma peça que estava fora do lugar.


O Curupira começou a recuar.


A estrutura orgânica que envolvia Uhr’Gal, aquela massa viva que tinha transformado um planeta inteiro em uma prisão, tremeu de dentro para fora, como se algo estivesse sendo desfeito na raiz.


Ming Xue foi a primeira a perceber que aquilo não era uma resposta agressiva…


Era uma retirada.


Ela ficou imóvel, mas os olhos dela acompanharam a mudança como quem observa o mar baixando antes de entender se aquilo significava uma salvação ou uma nova tragédia.


"Ele está saindo." Ela murmurou, sem ter certeza suficiente para chamar aquilo de alívio.


Ragnar apertou os dedos no cabo da lança.


O instinto dele queria preparar o corpo para um impacto, porque tudo que se movia naquela escala costumava ser desastroso.


Contudo, não houve explosão.


Não havia pressão sendo empurrada para fora.


O que havia era uma decisão se desfazendo. E com isso, o bloqueio ao redor de Uhr’Gal perdeu a rigidez.


Primeiro, a densidade ao redor do planeta pareceu afrouxar, como se a própria prisão tivesse ficado menos apertada, como se o peso invisível sobre o mundo tivesse sido retirado um pouco.


Depois, vieram as linhas.


As fibras que antes pareciam veios comprimidos começaram a se reorganizar em direções novas, puxando-se para longe, como raízes se soltando de uma terra que não querem mais ocupar.


Hildeval franziu o cenho.


"Ele está recolhendo o próprio corpo." Ele disse.


Gu Ren deu um passo lento para a frente, sem tirar os olhos daquele movimento.


O jeito como o Curupira recuava não era como uma barreira quebrando.


Era como uma criatura enorme desistindo de manter o aperto.


Cruz encarou Zao Tian, tentando confirmar no rosto dele se aquilo era esperado.


Zao Tian, por sua vez, não desviou o olhar de Uhr’Gal.


O braço direito ainda estava colado ao corpo, mas o resto dele estava firme, atento, como se, mesmo ferido, ele fosse obrigado a continuar sendo o primeiro a reagir.


"Ele veio em paz." Zao Tian repetiu, e a frase agora parecia menos uma aposta e mais uma leitura do que estava acontecendo.


Shara’Kala ficou encarando como se o mundo dela estivesse sendo devolvido centímetro por centímetro.


Ela não comemorou.


Ela não agradeceu.


Ela apenas prendeu a respiração, porque o medo de um povo inteiro não desaparece no instante em que um perigo aparentemente recua.


Ele apenas muda de forma. E, naquele momento, a forma do medo era a pergunta que ninguém queria dizer alto.


E se isso for só uma troca?


E se isso for só o começo?


A dúvida pairava, mas o recuo continuou.


A parte que cobria Uhr’Gal não se abriu de uma vez, como se alguém tivesse rasgado a prisão.


Ela se soltou em fases.


Primeiro, surgiram clareiras.


Pequenas áreas onde o contorno do planeta voltou a ficar nítido para quem observava de fora, como se o Curupira estivesse desfazendo o fechamento por pontos, testando o espaço, retirando a pressão aos poucos.


Depois, essas clareiras cresceram.


A massa viva se afastou em ondas lentas, retraindo-se como um tecido sendo recolhido, e, a cada metro que se afastava, Uhr’Gal parecia respirar de novo, como se o planeta estivesse lembrando que existe um céu.


Singrid sentiu a energia do ambiente mudar.


Não como um aumento de poder.


Como um retorno.


Como se algo que tinha sido abafado voltasse a existir.


"A atmosfera…" Ela comentou, baixa, mais para si mesma do que para os outros: "Ela está se soltando."


Shara’Kala fechou os olhos por um instante.


Ela não tinha visto isso com os próprios olhos antes, mas sentia.


Sentia no peito.


Sentia no fato de que a pressão que tinha ficado presa na mente dela desde que tinha visto o planeta trancado começava a diminuir.


O Curupira continuou recuando, e aquilo que antes parecia uma prisão completa começou a virar apenas uma presença ao redor, distante, como um predador que se afasta sem virar as costas.


E então, finalmente, o movimento atingiu o ponto que todo mundo estava esperando.


O bloqueio ao redor de Uhr’Gal desapareceu por completo.


O planeta ficou exposto.


Inteiro.


Livre.


E, no mesmo segundo em que Uhr’Gal voltou a ser um mundo que podia ser visto como tal, o Curupira começou a se rearranjar em algo menor.


Não menor em escala humana, mas menor em sua própria escala divina.


A massa viva que antes envolvia o planeta orc se contraiu, puxando-se para dentro, comprimindo-se em um corpo único, como se todo aquele ser tivesse decidido abandonar a forma de casulo e voltar a ser algo que ocupa espaço com limites.


A forma de um planeta.


Enquanto isso, do chão de Uhr’Gal, a cena foi outra.


Para quem estava em solo, o céu não tinha voltado de repente como um clarão.


Ele voltou como um desvelar lento.


Primeiro, a luz mudou.


A claridade que atravessava o tecido verde começou a perder aquele aspecto filtrado, como se o mundo inteiro estivesse preso sob uma pele grossa.


A cor do dia ficou menos estranha.


As sombras, que tinham ficado erradas, voltaram a cair onde deveriam cair.


E o vento.


O vento voltou.


Um vento normal, com cheiro de poeira, com frio, com vida.


As pessoas sentiram isso primeiro na pele. Depois, olharam para cima. E foi aí que o pânico, que vinha sendo sustentado por horas de incerteza, deu lugar a uma coisa mais perigosa do que ele.


Esperança.


Esperança faz as pessoas se levantarem do chão mesmo quando deveriam ficar deitadas.


Esperança faz as pessoas correrem para fora de suas casas mesmo quando o céu ainda pode desabar.


Nos mercados, nas ruas, nos pontos de vigia, orcs começaram a apontar, a gritar, a se empurrar para ter uma visão melhor.


O teto vivo acima deles estava se afastando. E não estava se afastando como um inimigo sendo empurrado.


Ele estava se afastando porque queria.


Uma velha orc caiu de joelhos na terra e apertou as mãos contra o rosto, balbuciando palavras que não eram uma oração formal, mas eram um tipo de súplica antiga.


Um grupo de guerreiros em muralhas, que tinha passado horas esperando flechas que atravessavam tudo, parou de erguer escudos.


Eles ficaram apenas olhando, como se estivessem tentando decorar o céu antes que ele fosse tomado de novo.


O silêncio nos amuletos ainda existia, mas, naquele instante, para muita gente em Uhr’Gal, aquilo já não importava.


Porque o céu estava de volta.


E o céu era a primeira prova de que o mundo deles ainda estava ali.


No centro de tudo, Zargoth ainda estava colado em Zao Rei como uma sombra armada, por puro instinto.


Ele tinha passado o tempo inteiro como se pudesse deter uma calamidade com o próprio corpo se fosse necessário, como se a vida do humano fosse a única linha que não podia romper naquele dia.


Quando o recuo começou, Zargoth foi o primeiro a reagir.


Ele ergueu o olhar, e a mão dele, por reflexo, apertou com mais força a arma que carregava.


Ele não relaxou.


Ele não sorriu.


Ele apenas avaliou, pois avaliar era a forma que ele tinha de não ser enganado.


Zao Rei, ao lado, estava com o rosto manchado de poeira e sangue de outro, mas o olhar dele estava cravado no céu como se aquilo fosse a única coisa que ele tinha pedido ao universo desde que a prisão surgiu.


O tecido vivo acima se afastou mais uma vez, abrindo uma fenda de céu real, e, naquele momento, Zao Rei soltou o ar como se tivesse prendido a respiração por uma vida inteira.


Zargoth viu, e, por um segundo, a expressão dele oscilou.


Não foi alegria.


Foi alívio misturado com receio.


Alívio porque o mundo não estava sendo esmagado.


Receio porque um deus não recua sem motivo.


"Não baixem a guarda." Zargoth disse para os guerreiros ao redor, sem tirar os olhos do alto: "Não ainda."


Contudo, por dentro, até ele teve que aceitar um fato: Se aquilo fosse o fim, era um fim que eles tinham pedido sem acreditar que viria.


O recuo seguiu, e, em fases, o céu de Uhr’Gal foi recuperado.


Primeiro, um círculo de azul.


Depois, um arco maior.


Depois, uma abóbada quase inteira, com estrelas reaparecendo no limite do dia, como se o universo estivesse devolvendo o próprio rosto para o planeta.


As pessoas começaram a chorar sem vergonha nenhuma.


Algumas riam, nervosas, sem entender o que estavam sentindo.


Outras gritavam os nomes de parentes, chamando para fora, chamando para ver, como se ver fosse algum tipo de proteção.


Ao mesmo tempo, havia aqueles que não conseguiam comemorar porque a memória do que tinha acontecido ainda estava viva demais e era dolorosa demais.


Os que tinham visto flechas atravessando ruas.


Os que tinham visto sangue surgir onde não havia corpo.


Os que tinham visto guerreiros caírem sem serem feridos…


Eles encaravam o céu como se esperassem a próxima etapa. O próximo golpe.


Como se a retirada fosse só um intervalo.


Enquanto isso, no vazio, o grupo de Zao Tian assistia ao Curupira terminar a retração.


Agora, o corpo dele já não cercava Uhr’Gal.


Agora, ele era um mundo em si, afastando-se, se comprimindo, assumindo um contorno próprio, como se a forma original dele fosse algo mais “limpo” do que aquele casulo.


Shara’Kala ficou imóvel, e, por um instante, a força dela pareceu falhar.


Não no corpo, mas na voz.


Ela olhou para Uhr’Gal exposto, livre de novo, e engoliu seco.


O orgulho dela queria dizer que era apenas o mínimo, mas o coração dela, escondido atrás do orgulho, sabia o que aquilo significava para um povo inteiro.


Então, ela fechou os olhos por um instante, e, quando abriu, havia um brilho estranho ali.


Não era gratidão.


Era alívio.


E isso, para alguém como ela, era quase íntimo demais para ser mostrado.


"Está… aberto." Ela disse, como se precisasse ouvir a própria voz confirmando que não era imaginação: “Uhr’Gal ainda está lá!”


Ming Xiao, ao lado dela, o olhou para Zao Tian e perguntou: "O que fazemos agora?”


Aquela pergunta era mais do justa, afinal, Zao Tian parecia saber mais sobre o Curupira e suas reais intenções do que qualquer um ali podia deduzir.


Todos estavam perdidos em relação ao motivo daquele deus colossal estar em Uhr’Gal. E isso não era nenhum demérito, pois desde que apareceu, o Curupira não fez contato algum com ele.


Zao Tian olhou para Ming Xiao, e depois olhou para o planeta orc exposto.


Naquele momento, ele olhou como alguém que sente o peso de um irmão lá embaixo, de um Khan lá embaixo, de um mundo inteiro tentando entender por que ainda está vivo.


Zao Tian viveu coisas muito aterrorizantes na vida e momentos que ele achou que seria o fim, que não tinha escapatória. E isso dava a ele a empatia e até o direito de entender o que Uhr’Gal estava sentindo… O que seu irmão estava sentido… O que cada orc, independentemente da idade, estava sentido.


Esse entendimento trouxe à tona, na mente de Zao Tian, uma série de lembranças que ele queria esquecer, mas por sorte, ou azar, não era capaz de fazer isso, porque seu próprio corpo tornava isso impossível de ser feito.


O povo devia estar com medo… Apreensivo. 


Quantas vezes Zao Tian e seu povo, sua família viveram algo assim?


Famílias tentaram esmagá-los.


Clãs e alianças tentaram esmagá-los.


Impérios tentaram esmagá-los.


Até raças marcharam contra eles.


Contudo, Zao Tian e sua família, seu povo, ainda estavam ali. 


Eles sobreviveram a tudo que foi jogado neles. A cada tentativa de extinção. Mas… Mesmo vivos, mesmo ‘vitoriosos’ sobre a morte… As sequelas ainda existiam nos corações de cada um deles, por mais que todos se esforçassem para esconder.


Zao Tian, olhando para Uhr’Gal, via seu povo… Via seu amigos… Via o Vale da Esperança.


Uhr’Gal não era tão diferente deles. 


Ambos viveram massacres, superaram, mas continuam sendo pressionados por um destino implacável que não pena alguma deles e não dá nenhum tipo de trégua para eles respirarem.


De certa forma, por algum motivo, Zao Tian começou a se sentir responsável por tudo o que aconteceu com Uhr’Gal.  Porque ele sentia que foi por causa dele, direta ou indiretamente, que aquele mundo orc começou a passar por todas aquelas provações e sofrimentos.


Tudo que cruzava o caminho de Zao Tian terminava daquele jeito. 


Vivendo em constante estado de alerta ou medo.  Se vendo sempre envolvido em uma batalha ou desafio ainda maior do que o último que, geralmente venceu, mas gerou alguma consequência ou sequela.


Era culpa dele?


Zao Tian não conseguia parar de pensar aquilo.


Talvez, aquele não fosse o momento ideal para esse tipo de reflexão. Mas foi ali que ela aconteceu.


Foi ali que ela veio.


No fim, Zao Tian ainda era um humano, mesmo que todos o enxergassem como um monstro, em todos os sentidos.


Ele tinha sentimentos; Ele suava; Ele sangrava; Ele sorria e ele chorava.


E, sendo assim, ele sentia culpa, também. 


Por mais conforto que recebesse naquele momento, esse sentimento era algo dele. Algo que ele deveria lidar uma hora ou outra. E algo que ele não era capaz de controlar quando vinha à tona ou não.


O homem que tinha acabado de exterminar uma família inteira. Um planeta inteiro, incluindo crianças e qualquer outra vida que porventura habitasse ali, estava se sentindo culpado por um planeta que nem da sua raça era.


O ‘monstro’ que acabou de cometer uma atrocidade era, no fim, um humano como qualquer outro. 


Pelo menos por dentro.



O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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