Capítulo UHL 1186 - Verdadeiras Intenções
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A ideia de culpa ainda estava presa na garganta de Zao Tian quando ele percebeu que, se continuasse ali, olhando para Uhr’Gal como se o planeta fosse um espelho, acabaria perdendo o fio do que importava.
Ele não tinha o direito de ficar parado.
Não com o irmão lá embaixo.
Não com um mundo inteiro tentando entender o que quase aconteceu.
Então, ele puxou o ar, sentiu o braço direito reclamar como se fosse um bloco de dor amarrado ao ombro, e deixou a reflexão morrer onde tinha nascido.
Não porque tinha sido resolvida, mas porque precisava ser engolida.
Por fim, Zao Tian ergueu o olhar para o grupo e falou: "Vamos para Uhr’Gal."
Ninguém questionou.
Ming Xiao assentiu na mesma hora e puxou o movimento, não como quem lidera, mas como quem não vai permitir que a indecisão vire mais uma tragédia.
Ming Xue acompanhou, mantendo a atenção no planeta e no ambiente, como se ainda esperasse uma mudança brusca do Curupira.
Ragnar e Singrid ficaram ligeiramente à frente, instintivamente, porque, mesmo com o recuo do deus, o espaço ao redor de Uhr’Gal ainda carregava o tipo de tensão que faz qualquer guerreiro tratar o silêncio como ameaça.
Hildeval e Gu Ren vieram logo atrás, guardando ângulos.
Cruz, Kyon, Joster, Gins e Jaha mantiveram a formação, todos atentos ao que poderia surgir do nada.
Shara’Kala não pediu permissão.
Ela apenas desceu junto, como se voltar para o próprio mundo fosse uma necessidade física, e não uma decisão.
Pouco a pouco, a aproximação de Uhr’Gal trouxe um detalhe que nenhum deles tinha sentido de longe.
O planeta parecia cansado.
Não em energia, mas em estado.
Era como se o mundo inteiro tivesse sido apertado com força e agora estivesse tentando se lembrar qual era o formato original do próprio céu.
As primeiras correntes de ar começaram a se formar quando entraram na camada onde Uhr’Gal voltava a ter uma atmosfera sem a compressão do casulo.
O som do vento, ainda fraco, já era o suficiente para provocar reações em solo.
Do alto, eles viram movimentações em vários pontos do planeta.
Orcs saindo de estruturas, subindo em muralhas, apontando para o céu.
Alguns pareciam procurar o Curupira por reflexo.
Outros pareciam procurar algo ainda mais complexo: uma explicação.
E então Zao Tian se tornou visível.
A forma como os orcs reagiram não foi uma surpresa para ele.
Ele conhecia o olhar.
Aquela mistura de rancor com superstição.
Aquele tipo de ódio que não se limita a quem você é, mas ao que você representa, ao que você “traz” quando aparece.
Zao Tian tinha estado em Uhr’Gal antes.
E, naquele dia, Cruz era prisioneiro.
Aquela história ainda vivia na boca de muita gente. E agora, de novo, o planeta tinha quase virado um túmulo.
E de novo, Zao Tian estava ali.
Parecia que o universo tinha um senso de ironia muito cruel.
Os orcs não chegaram a gritar ofensas naquele instante.
Eles apenas… ficaram tensos.
Os guerreiros mais próximos das muralhas ergueram armas, para lembrar a si mesmos que ainda tinham alguma coisa nas mãos além do medo.
Um grupo de vigias trocou gestos rápidos.
Zargoth percebeu isso lá embaixo, antes mesmo de ver o grupo com clareza, e se moveu.
Ele ficou ainda mais colado em Zao Rei, posicionando o próprio corpo de forma que qualquer ameaça que viesse do céu precisaria passar por ele primeiro.
Zao Tian viu aquilo de longe, e algo apertou por dentro.
Ele não acelerou como alguém indo para batalha. Ele apenas desceu direto, sem sem desvio, como quem precisa tocar uma única coisa para ter certeza de que tudo é real.
Quando os pés dele encostaram no solo, o silêncio em volta ficou ainda mais pesado.
Alguns orcs recuaram um passo.
Outros deram um passo à frente, como se quisessem impedir a aproximação.
Zao Tian ignorou todos. Depois, ele atravessou a distância entre si e Zao Rei como se nada mais existisse.
Zao Rei o viu chegar, e o olhar dele mudou.
Não havia surpresa… Havia alívio de uma forma quase dolorosa.
Zao Tian, naquele momento, não abriu uma conversa. Não mediu palavras.
Ele simplesmente envolveu o irmão com um abraço forte, urgente, quase bruto, como se quisesse esmagar a possibilidade de perder Zao Rei dentro do próprio peito.
"Você está bem?" Zao Tian perguntou.
A voz dele saiu baixa, mas carregada de preocupação.
Zao Rei soltou um ar curto, como se aquele abraço tivesse lembrado ao corpo dele que ainda podia respirar.
"Estou bem, irmãozinho." Ele tentou acalmar o irmão que, na cabeça dele, ainda era seu ‘irmãozinho’.
A palavra veio com uma normalidade estranha diante de tudo, como se Zao Rei se recusasse a deixar as circunstâncias roubarem aquela intimidade.
"Eu achei que fosse morrer." Zao Rei continuou, e soltou uma risada curta, sem alegria: "Eu senti a flecha atravessando e achei que tinha acabado. Mas não aconteceu nada comigo."
Zao Tian se afastou apenas o suficiente para olhar o rosto do irmão.
Ele não tocou.
Ele analisou com os olhos, como alguém que aprendeu a ver sinais em detalhes que a maioria ignora.
Respiração…
Postura…
Olhar…
O tipo de tensão residual que fica no corpo depois que a morte encosta de verdade.
Zao Tian percebeu pequenas coisas.
O tremor contido.
O esforço para parecer firme.
E, ao mesmo tempo, a integridade.
Zao Rei estava vivo.
Inteiro.
E aquilo foi o suficiente para Zao Tian sentir a parte de dentro dele afrouxar.
Por um instante, ele fechou os olhos.
Só um instante.
Depois virou o rosto para Zargoth.
O khan não tinha relaxado ainda.
Ele continuava com o corpo posicionado como um escudo, e os olhos dele não estavam em Zao Tian como amigo.
Estavam em Zao Tian como um risco.
O que era justo.
Zao Tian sustentou o olhar de Zargoth e fez um gesto de cabeça enquanto dizia: "Obrigado."
Zargoth não respondeu de imediato.
Ele olhou para Zao Rei, como se confirmasse que o humano estava mesmo inteiro, e só então falou: "Eu não fiz nada além da minha obrigação."
Zao Tian negou com um movimento simples, quase irritado, porque aquele tipo de frase, naquele contexto, soava como alguém tentando reduzir um ato que tinha um peso real.
"Você protegeu a minha família." Zao Tian disse.
Zargoth estreitou os olhos.
Ele não gostava de elogios.
Ele não gostava de se distrair com qualquer coisa que não fosse o próximo golpe.
Então, ele encarou Zao Tian por um segundo e, em vez de aceitar o agradecimento, empurrou a conversa para onde importava.
"O que está acontecendo?" Zargoth perguntou, direto.
Ele apontou o queixo para o céu, para o vazio acima, para onde o casulo não existia mais, para onde o Curupira tinha sido uma prisão e agora era uma ausência, e perguntou: "Você sabe por que aquele deus está aqui? Por que el cercou nosso planeta?"
Zao Tian não respondeu com certeza, porque não tinha.
"Eu ainda não sei a maioria das respostas." Ele disse.
Zargoth não pareceu satisfeito, mas não interrompeu. Contudo, a voz dele endureceu, e ele perguntou: "Então me diga pelo menos quem diabos ele estava caçando em solo orc."
Naquele instante, alguns orcs próximos prenderam a respiração.
O nome “caçando” ainda doía, pois eles tinham visto flechas atravessarem coisas que não deviam ser atravessadas.
Tinham visto sangue surgir como se o ar fosse ferido.
Tinham visto pessoas caírem sem entender por quê.
Zao Tian sentiu os olhares em volta. Sentiu o ódio profundo. O medo novo. Mas ele não se importou.
Ele olhou para Zargoth e respondeu de forma sincera: "Samir."
O efeito foi imediato.
Zargoth não recuou, mas a musculatura do rosto dele travou por um segundo.
Ele não era um homem fácil de surpreender, mas aquele nome tinha peso demais para ser recebido com calma.
Shara’Kala, ao lado, apertou os punhos.
"Um dos três." Ela disse, com desprezo puro.
Zao Tian assentiu.
"Ele estava em Uhr’Gal." Zao Tian continuou: "O Curupira estava caçando ele. Eu consegui vê-lo mesmo quando ele entrou no Domínio da Miragem Eterna."
Alguns orcs próximos trocaram olhares sem entender a parte técnica, mas entenderam o que importava: havia um inimigo invisível em solo orc.
E o deus tinha reagido a isso.
Zargoth não perguntou como Zao Tian tinha visto. Ele avançou para a parte que era do interesse dele.
"Por que ele estaria aqui?" Zargoth perguntou.
A pergunta não era retórica.
Zao Tian olhou para Zao Rei por um segundo antes de responder.
"Eu quero saber a mesma coisa." Ele disse.
Então, ele devolveu a pergunta para quem tinha mais informação daquele solo do que qualquer humano: "Zargoth… você faz alguma ideia do que um dos irmãos poderia estar fazendo em Uhr’Gal?"
Zargoth abriu a boca para responder com a primeira hipótese óbvia.
Uma infiltração.
Um reconhecimento.
Uma tentativa de destruir a aliança.
Contudo, ele travou antes da fala, os olhos dele se deslocaram, e, por um instante, algo mudou no rosto do khan.
Não foi medo.
Foi uma percepção.
Um encaixe tão rápido que parecia iluminação.
Zargoth olhou para Zao Rei.
Depois olhou para Zao Tian de novo.
E falou como se estivesse juntando duas imagens que, até então, não tinham conexão.
"Ele não tinha assuntos com Uhr’Gal." Zargoth disse, devagar.
O tom dele era pesado, porque a conclusão que vinha a seguir era pior do que qualquer suspeita vaga.
"Ele tinha assuntos com seu irmão." Zargoth concluiu.
Zao Tian ficou imóvel. Tudo ao redor pareceu diminuir.
Zao Rei, por sua vez, franziu o cenho, confuso: "Comigo?"
Zargoth apontou para o próprio peito, onde a memória estava mais nítida do que qualquer descrição.
"A primeira flecha do Curupira." Zargoth disse, antes de explicar: "A primeira… atravessou você."
Zao Rei tocou a própria roupa por reflexo, como se tentasse localizar a sensação.
Zargoth continuou: "Ela atravessou você e acertou um alvo invisível atrás. Eu vi o impacto no ar. Eu vi sangue surgindo onde não havia corpo. Eu vi a reação de algo que não podia ser visto."
Depois de dizer aquilo, ele encarou Zao Tian e confirmou acreditar nele: "Agora eu sei o que era."
Zao Tian sentiu o estômago se contrair.
Zargoth concluiu, sem hesitar: "Era o Samir."
O silêncio que veio depois foi ruim.
Não era um silêncio de alívio.
Era um silêncio de perceber o tamanho do que quase aconteceu.
Zao Rei ficou parado por um instante, como se a mente dele tivesse demorado um pouco mais para aceitar.
Ele olhou para Zao Tian, e a voz dele saiu baixa, com medo: "Então… ele estava atrás de mim..."
Zao Tian não respondeu de imediato.
A mão esquerda dele apertou por instinto.
Ele encarou o irmão, e o olhar dele ficou mais duro, mais velho por dentro, como se um pedaço da realidade tivesse acabado de encaixar do jeito mais cruel possível.
"Covarde." Shara’Kala disse, como se o insulto fosse pequeno demais para caber na raiva dela.
Então, foi Jaha quem se moveu, não com o corpo, mas com a mente.
O homem respirou fundo, e o olhar dele ganhou um foco frio.
Ele olhou ao redor.
Orcs.
Humanos.
Krovackianos.
Uma aliança frágil.
Um planeta que quase virou um cárcere.
Um refém que era, na verdade, um pilar.
Depois daquilo, a boca de Jaha se abriu, e a voz dele veio como uma lâmina, não por agressividade, mas por clareza: "Isso explica tudo."
Cruz virou o rosto para ele e perguntou: "Explica o quê?"
Jaha não fez mistério. Ele apontou para Zao Rei com o queixo, sem desrespeito, mas com a lógica de quem vê pessoas como peças em um tabuleiro que o inimigo usa sem culpa.
"A Trindade não precisava vencer uma guerra hoje." Jaha disse: "Ela precisava nos quebrar."
Zargoth estreitou os olhos e perguntou: "Quebrar como?"
Jaha respondeu sem levantar o tom, e isso tornou o que ele disse ainda pior.
"Se Samir mata Zao Rei…" Ele começou, e o nome saiu pesado, porque ninguém ali queria ouvir aquela hipótese dita em voz alta.
"Zao Tian perde o chão."
Zao Tian não reagiu, mas a tensão no corpo dele aumentou.
Jaha, entretanto, continuou, implacável, olhando para Zao Tian: "Ele age sem controle. E o universo inteiro sabe disso, porque já viu o que ele faz quando alguém que ele ama é tirado dele."
Shara’Kala encarou Jaha com raiva, como se quisesse negar, mas não conseguiu, porque o ponto era verdadeiro demais para ser combatido com orgulho.
Jaha prosseguiu: "Isso arruinaria a aliança recém-formada. Orcs e humanos se matariam de novo. Krovackianos seriam puxados para escolher lados ou para aproveitar o caos. O que nós acabamos de construir cairia em uma tarde."
Ming Xiao franziu o cenho, entendendo a conjuntura.
"E isso seria só o começo." Ele acrescentou.
Jaha assentiu.
"Porque Zao Rei não é só um irmão amado." Ele falou: "Ele é um ativo de segurança. Uma âncora política. Uma garantia. E não é o único no universo."
Zargoth ficou imóvel.
O olhar dele desceu por um segundo, como se lembrasse de juramentos e acordos que ele nunca confiou completamente.
Jaha colocou a parte final no lugar, e o peso da frase caiu como uma pedra.
"A morte dele poderia iniciar um efeito cascata." Jaha disse: "Execuções de reféns. Em cada casa. Em cada lugar que está sustentando a aliança na força do medo e na promessa de contenção. A Trindade ganha uma guerra caótica sem precisar estar presente, porque nós fazemos o trabalho por eles."
O ar pareceu ficar mais denso.
Alguns orcs próximos, que não entendiam tudo, entenderam o suficiente.
Morte de um irmão.
Guerra.
Retaliação.
Um mundo inteiro em chamas.
Zargoth encarou Zao Tian, e pela primeira vez o olhar dele não era só desconfiança.
Era avaliação de sobrevivência.
"Então o Curupira…" Zargoth começou.
Zao Tian cortou com firmeza, mas sem agressão.
"Ele impediu." Zao Tian disse. E, ao dizer isso, ele sentiu a culpa voltar por um segundo, não como reflexão, mas como um gosto amargo.
Porque, se Samir tinha vindo para aquilo, então Uhr’Gal tinha sido colocada em risco por causa do sangue dele.
Por causa do nome dele.
Por causa do tipo de guerra que segue Zao Tian como uma sombra.
Zao Rei, ao lado, respirou fundo e tentou parecer leve, como sempre fazia para não deixar o irmão afundar.
"Eu estou aqui." Ele disse, e chamou Zao Tian de novo, como se aquela palavra fosse uma corda: "Irmãozinho."
Zao Tian assentiu, e o olhar dele não suavizou, mas firmou.
Ele virou para Zargoth.
"Samir escapou." Ele disse: "Eu não consigo mais vê-lo. Eu não consigo rastreá-lo agora. Mas ele esteve aqui. E ele veio com uma intenção."
Zargoth rangeu os dentes e admitiu: "Então ele vai voltar."
Zao Tian não negou.
"Ele é covarde demais para voltar, mas vai tentar de novo, de um jeito ou de outro." Zao Tian respondeu.
Depois de dizer aquilo, Zao Tian ele olhou para o céu e agradeceu ao benfeitor de sua família: “Obrigado!”
