Capítulo UHL 1188 - O Que Vem a Seguir
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A palavra “inevitável” ficou pendurada no ar como um gosto metálico, porque não era só uma previsão.
Era como um veredito.
Zao Tian manteve os olhos no Curupira por um instante a mais do que o natural, como se tentasse medir, não a ameaça, mas a intenção.
Ele não via sarcasmo naquelas íris avermelhadas. Via um tipo de seriedade que não dependia de aprovação de ninguém.
Ao redor, os orcs continuavam próximos demais.
Eles tinham recuado por instinto quando a forma humanoide surgiu, mas a curiosidade e o medo os empurravam de volta, como um mar tentando invadir a margem de novo.
Eles não queriam exatamente ouvir.
Eles queriam garantir que não estavam sendo enganados. E, ao mesmo tempo, queriam qualquer pedaço de informação que pudesse virar um rumor e, depois, pânico.
Zao Tian percebeu isso.
Ele percebeu porque já tinha visto povos se destruírem pelo que não conseguem compreender.
Então, ele virou o rosto para Zargoth.
"Retire os seus." Ele pediu, baixo: "Retire todos os seus. Nós não queremos isso se espalhando como fogo em palha."
Zargoth estreitou os olhos, como se fosse questionar o direito de um humano dar ordens em Uhr’Gal, mas ele não questionou.
Ele entendeu o risco.
Entendeu porque tinha passado as últimas horas tentando manter um planeta inteiro em pé sem que o pânico virasse uma revolta.
Zargoth virou e ergueu a voz, e a voz dele veio com a força de quem tem a autoridade máxima naquele planeta.
"Recuem!"
Alguns guerreiros hesitaram.
Um deles, mais alto, abriu a boca como se fosse argumentar.
Zargoth cortou antes que a primeira sílaba virasse som: "Recuem agora."
Ele apontou com o queixo para os mais próximos, e o olhar dele foi duro: "Se eu vir qualquer um se aproximando, qualquer um, não importa o nome, não importa a função, eu vou considerar desobediência em tempo de guerra."
O silêncio foi imediato.
Os orcs começaram a se afastar.
Os mais curiosos tentaram ficar em ângulos onde ainda pudessem ver.
Zargoth percebeu e apontou para eles também: "Mais longe."
Ele fez um gesto, e uma linha de guerreiros se posicionou, formando uma barreira ara proteger o próprio povo daquilo que poderia ouvir e interpretar errado.
Shara’Kala observou, e por um instante a expressão dela amoleceu.
Ela não gostava de Zargoth.
Não confiava nele. Mas, naquele minuto, ela viu o que ele era de verdade quando o mundo estava prestes a quebrar.
Um khan.
Quando os orcs finalmente se afastaram o suficiente, Zargoth voltou, mantendo Zao Rei ligeiramente atrás de si, por hábito.
Ele olhou para Zao Tian e assentiu.
"Está feito."
Zao Tian agradeceu com a cabeça.
Enquanto isso, a presença do Curupira parecia ocupar espaço até no silêncio.
Cruz não tirava os olhos do deus, mas também não perdia Zao Tian de vista, porque ele conhecia o jeito como decisões demais cabem dentro de um garoto que aprende rápido demais.
Jaha, como sempre, parecia observar três camadas ao mesmo tempo.
Zao Tian deu um passo à frente e então falou: "Obrigado por salvar o meu irmão."
Zao Rei, ao lado, reforçou o agradecimento com um gesto de cabeça, mas ouvir Zao Tian agradecer um deus era estranho até para ele.
O Curupira inclinou a cabeça apenas o suficiente para reconhecer a frase.
Depois de agradecer, Zao Tian seguiu para o que importava.
"Por que?" Ele perguntou: "E como você sabia que a vida dele corria perigo?"
O Curupira não pareceu ofendido.
Ele pareceu… compreensivo.
Era como se perguntas assim fossem parte do peso de sua existência.
"Eu sabia porque eu os observo." O Curupira respondeu.
A voz dele não vinha de uma garganta.
Vinha como um tipo de percepção organizada em palavras: "Desde o dia em que os encontrei pela primeira vez."
Zao Tian manteve o rosto imóvel, e o Curupira continuou: "Naquele dia, eles se esconderam em meu corpo achando que eu era um planeta."
Zargoth apertou a mandíbula ao ouvir aquilo, como se a ideia de alguém chamar o Curupira de planeta fosse uma afronta ao próprio conceito de um mundo.
"O Domínio da Miragem Eterna estava com eles." O Curupira disse, e a forma como ele pronunciou o nome do tesouro divino carregava um rancor frio: "O tesouro do meu irmão Loki."
"Eu reconheci." O Curupira disse: "E eu os confrontei."
Zao Tian escutou e não interrompeu.
"Naquele dia, eles escaparam." O Curupira continuou: "Não porque eram superiores. Porque eram como vermes em madeira úmida. Quando você tenta arrancar, eles já estão em outra fissura."
A frase fez alguns dos presentes acenarem com a cabeça.
"Naquela ocasião, eu deixei uma parte de mim em Samir." O Curupira disse.
Zao Tian inclinou o rosto, intrigado.
"Uma farpa." O Curupira explicou: "Uma farpa. Um fragmento vivo. Não para ferir. Para vigiar."
Zao Tian sentiu o cenho franzir de forma espontânea. Uma parte do Curupira dentro de Samir desde então…
Isso explicava muita coisa que não tinha explicação.
"E você monitorou os três desde então." Zao Tian concluiu.
"Eu os monitorei." O Curupira confirmou: "E eu vi neles algo que raramente se mostra com tanta clareza."
Shara’Kala rosnou, baixinho: "Covardia."
O Curupira olhou para ela apenas o suficiente para reconhecer que ela tinha razão, mas não toda ela.
"O significado verdadeiro da maldade." Ele acrescentou.
A palavra não foi dramática. Foi clínica, como um diagnóstico.
Zao Tian ficou quieto, mas o olhar dele endureceu.
"Então por que não agiu antes?" Ele perguntou: "Se sabia, por que esperou?"
O Curupira não desviou da pergunta.
"Porque agir não é sempre destruir." Ele respondeu: "E porque eu precisava ver até onde eles iriam."
Ao escutar aquilo, Zao Tian sentiu um gosto amargo subir, mas engoliu.
Ele não gostava de respostas que soam como destino.
O Curupira, entretanto, continuou, como se fosse inevitável explicar.
"Eu vi quando o plano deles amadureceu." Ele disse: "Eu vi quando decidiram tirar uma peça específica do tabuleiro para derrubar todas as outras."
Zao Tian olhou para Zao Rei por reflexo.
O irmão dele estava ali, vivo, mas o peso da hipótese ainda rondava como uma sombra.
"Você viu o plano de matar o meu irmão." Zao Tian disse.
"Eu vi." O Curupira confirmou: "E eu vi o que isso causaria."
Jaha já sabia a resposta, mas ele não interrompeu.
Ele queria ouvir como um deus descreve o mesmo raciocínio.
O Curupira deu mais um passo na direção da clareza, e o vento roçou as folhas vermelhas do cabelo dele.
"Humanos, orcs e krovackianos mal começaram a sustentar a própria aliança." Ele disse: "Ela não está firmada em confiança. Está firmada em contenção, em medo e em promessas que podem ser quebradas rápido demais."
Zargoth estreitou os olhos, porque aquilo era ofensivo… E verdadeiro.
"O impacto da morte de Zao Rei não seria apenas emocional." O Curupira continuou: "Seria estrutural. Vocês começariam a se despedaçar por dentro. E o despedaçar de vocês chamaria a guerra."
Shara’Kala desviou o olhar por um segundo, como se detestasse que um deus dissesse isso em voz alta.
"E uma guerra agora…" O Curupira disse, e a palavra “agora” veio carregada: "Não terminaria com fronteiras redesenhadas. Terminaria com o fim da criação do jeito que vocês conhecem."
Zao Tian sentiu o corpo inteiro ficar mais atento quando escutou aquelas palavras.
"O fim da criação…" Ele repetiu, devagar.
O Curupira assentiu.
"Há coisas se movendo." Ele disse: "Acima de vocês. Ao redor de vocês. Dentro de vocês. E vocês ainda não conseguem ver."
Zao Tian segurou a vontade de pedir detalhes naquele instante porque ple precisava terminar o caminho lógico primeiro.
"Por isso você veio para Uhr’Gal." Ele disse.
"Por isso eu vim." O Curupira confirmou: "Eu decidi agir pessoalmente."
Zargoth não se aguentou e deixou escapar o ressentimento: "E mesmo assim não respondeu quando eu tentei falar com você."
O Curupira olhou para Zargoth.
Não havia desprezo naquele olhar, havia uma frieza que parecia dizer que respostas são um luxo em tempo de perigo.
"Eu não vim para negociar." O Curupira disse: "Eu vim para impedir uma ruptura."
Zargoth segurou a raiva.
Não por concordar, mas por perceber que discutir com aquilo era inútil naquele momento.
Zao Tian manteve o foco.
"Quando você apareceu, Samir ficou inquieto." Ele disse, juntando as peças.
"Ficou." O Curupira confirmou: "Ele sentiu meu olhar, mesmo escondido."
Zao Tian recordou a própria percepção. A forma como Samir se movia, como se o espaço fosse dele. E, ainda assim, havia aquele instinto sujo.
O medo.
"Mas ele não abortou a missão." Zao Tian disse.
"Não." O Curupira respondeu: "Porque a maldade deles não é só um produto de cálculos. É por orgulho. É por vingança. É pelo prazer de quebrar algo que não lhes pertence."
Shara’Kala cerrou os dentes, porque seu mundo estava sendo usado como peça de manobra para atingir outra pessoa.
Zao Tian olhou para Zargoth, depois para Zao Rei, depois para Jaha.
"Quando Zargoth tentou me chamar…" Zao Tian começou.
Jaha completou: "Samir decidiu agir."
O Curupira confirmou.
"Quando Zargoth chamou Zao Tian, Samir viu a porta se fechando." Ele disse: "Ele sabia que, se esperasse mais, teria que lidar com seu retorno. E ele preferiu agir cedo demais a perder a chance."
Zao Rei fechou os olhos por um segundo, por imaginar o quão perto a lâmina tinha encostado dele.
Zao Tian continuou, sem deixar o irmão se afundar.
"Então você cercou Uhr’Gal." Ele disse: "Por quê?"
O Curupira respondeu sem hesitar.
"Porque, nos limites do meu corpo, nenhuma dimensão fica oculta." Ele disse: "Dentro do que eu sou, o Domínio da Miragem Eterna não é um esconderijo."
Ming Xue sentiu um arrepio correr na nuca, porque a implicação do que elas estava ouvindo era absurda.
Um deus cujo corpo, por si, anula o truque dimensional que a Trindade usa como uma vantagem absoluta…
"Ele não teria como fugir." Zao Tian entendeu.
"Ele não teria como fugir sem passar por mim." O Curupira confirmou.
Zargoth respirou fundo, e, pela primeira vez, uma peça se encaixou no rancor dele.
O casulo não tinha sido só uma ameaça…
Tinha sido uma jaula, mas não para os orcs.
Zao Tian estreitou os olhos e perguntou: "Você queria mantê-lo preso até eu chegar?"
O Curupira assentiu.
"Eu queria." Ele disse: "Eu queria que ele ficasse contido. Encurralado. Forçado a existir onde eu podia atingi-lo e onde vocês podiam se preparar."
Zao Tian olhou para Zao Rei e comentou: "E então ele resolveu matar."
"Sim." O Curupira disse: "E por isso precisei agir de outra forma."
Zargoth soltou um ar e fez uma expressão dura enquanto dizia: "Atirando flechas em tudo."
"Atirando nele." O Curupira corrigiu, sem elevar o tom: "E eu o atingi."
Zao Tian lembrou do que viu pela flecha…
Samir sendo forçado a se mover.
"Mas nenhuma flecha foi fatal." Zao Tian disse, e a frase veio como uma constatação amarga.
O Curupira confirmou.
"Ele está mais forte do que na última vez que o vi." Ele disse: "Mais resistente. Mais preparado para suportar dano e ganhar tempo."
Sem nem perceber, Zao Tian apertou os dedos da mão esquerda, e a dor do braço direito pareceu responder, lembrando que o poder sempre cobra um preço.
"E depois…" Zao Tian continuou, e os olhos dele escureceram: "Ele atacou você para abrir brecha."
O Curupira não negou.
"Ele tentou ferir meu corpo para criar um ponto de escape fora do meu alcance." Ele disse.
Zao Tian viu, na mente, a sequência.
Samir correndo para a borda da influência.
Criando distância.
Comprando o único recurso que um covarde sempre tenta comprar.
Tempo.
"Ele também tentou usar distorções espaciais." Zao Tian disse, lembrando das oscilações que sentiu do lado de fora.
"Tentou." O Curupira confirmou: "Mas eu interfiro nelas."
Hildeval franziu o cenho e acabou perguntando: "Você consegue contrariar distorções!?"
"Eu posso rasgar o que eles acham que é um caminho." O Curupira respondeu.
A frase fez os presentes prenderem a respiração.
Aquilo colocava o Curupira em um patamar ainda mais difícil de medir.
Zao Tian, mesmo surpreso, continuou mantendo o foco: "Então ele se afastou. Saiu do seu raio. E fugiu para onde eu vi."
O Curupira assentiu.
"Ele pensou rápido." Ele disse: "Ele entendeu que, perto de mim, o Domínio da Miragem Eterna não era mais um abrigo. Então ele usou o que tinha e criou ma abertura para sair da minha área de influência."
QUando lembrou da fenda por onde Samir escapou, Zao Tian sentiu o peso do próprio ataque voltar como lembrança.
O planeta apagado.
A família exterminada.
A fuga.
O Curupira olhou para ele e prosseguiu: “Lá, naquele planeta que você destruiu, estava o último refúgio de toda a operação deles."
"Os Shui." Zao Tian disse, finalmente.
O Curupira assentiu.
"Eles fabricavam clones." Ele continuou, colocando em palavras o que já era dor na boca de muitos: "Eles alimentavam a mentira. Eles sustentavam o exército fantasma que vocês já enfrentaram em pedaços, sem ver a fonte."
Zao Tian respirou fundo.
O peso da palavra “operação” era diferente quando dita por um deus, porque fazia tudo parecer menos pessoal e mais… mecânico. Como se vidas tivessem virado peças há muito tempo.
O Curupira terminou de falar, e o silêncio que veio depois não foi respeitoso.
Foi cauteloso.
Era o tipo de silêncio que uma sala faz quando ninguém quer perguntar, mas todo mundo sabe que precisa.
Zargoth foi o primeiro a se mover. Ele encarou o Curupira, e, mesmo com a postura firme, havia algo naquele olhar que denunciava um incômodo profundo.
A história do “por que” ainda estava incompleta.
"Então era isso." Zargoth disse, e a voz dele saiu baixa, áspera: "Samir usou nosso mundo como um corredor para chegar ao irmão dele."
Ele apertou o cabo da arma por reflexo e então completou, com o mesmo jeito de quem não aceita narrativas pela metade: "Mas você não está aqui só por isso."
Shara’Kala virou o rosto devagar na mesma direção.
Ela também sentia.
O Curupira não era um ser que atravessaria o vazio e se instalaria na órbita de um planeta apenas por uma tentativa de assassinato.
Aquilo tinha sido o gatilho. Não a razão total.
Zao Tian sustentou o olhar no Curupira.
"Você disse que veio impedir uma ruptura." Ele falou: "Veio impedir a guerra entre a criação, impedir a reação em cadeia… e salvou o meu irmão."
"Mas isso não explica tudo."
O Curupira ficou imóvel por um segundo.
A forma feita de vinhas pareceu respirar com o vento, como se o próprio planeta estivesse respirando através daquela figura.
"Você está certo." O Curupira disse.
A confirmação não veio como quem admite algo que jamais pretendeu esconder, apenas precisava que eles estivessem prontos para ouvir.
"Salvar Zao Rei e impedir a guerra entre vocês foi crucial." Ele olhou por cima dos ombros do grupo, como se observasse Uhr’Gal inteiro sem mover os olhos: "Porque, se vocês começassem a lutar entre si agora…"
A pausa foi curta, mas teve peso: "Muitos morreriam."
Zargoth rangeu os dentes.
Shara’Kala travou a mandíbula.
Ming Xiao e Ming Xue trocaram um olhar rápido, porque ambos sabiam o que “muitos” significava quando dito por alguém que enxergava a guerra como uma escala e não como uma cena.
"E a morte em massa enfraqueceria a criação." O Curupira continuou: "Ela quebra alianças, quebra recursos, quebra linhas de defesa, quebra a capacidade de existir como um conjunto."
"E isso dá aos meus irmãos um caminho mais fácil."
A palavra “irmãos” saiu como sempre saía da boca dele.
Sem ódio, mas carregada de uma decepção antiga, como se ele chamasse de família algo que já havia se tornado outra coisa.
"Se vocês se destruíssem aqui, os meus irmãos teriam menos trabalho." O Curupira disse: "Menos resistência."
Zao Tian sentiu a nuca arrepiar.
Não era medo. Era o instinto reconhecendo um padrão. O mesmo padrão de quando a guerra está grande demais e, de repente, alguém percebe que ninguém ali era o verdadeiro alvo.
"Você está dizendo que eles estão se movendo!?" Zao Tian falou, lentamente.
O Curupira assentiu.
"Neste exato momento." Ele confirmou.
E o jeito como ele disse “exato” fez tudo parecer menor, como se, em algum lugar que eles não podiam ver, algo já tivesse começado.
"Meus irmãos estão ficando mais fortes." O Curupira disse: "Eles estão se preparando."
Zargoth franziu o cenho e perguntou, só para confirmar: "Preparando para quê, exatamente?"
O Curupira não respondeu com uma frase única, porque aquilo não era uma resposta única.
Ele falou como quem desenha uma muralha com palavras.
"Para retornar." Ele disse.
"Para cobrar." Ele disse.
"Para devorar o que restou do que vocês chamam de liberdade." Ele finalizou.
Nesse momento, Shara’Kala deu um passo involuntário para frente, como se quisesse atacar a própria ideia, e perguntou: "E por que agora?"
O Curupira inclinou a cabeça de leve e respondeu: "Porque vocês os desafiaram."
Ninguém respondeu na hora. Porque era verdade. Porque a criação vinha vencendo.
Vinha sobrevivendo.
Vinha destruindo peças divinas.
Vinha acumulando força.
E tudo isso, para os deuses, era o mesmo que insolência.
Zao Tian sentiu o peso daquela verdade bater de frente com outra.
A culpa dele.
A sensação de ser um arrastão de desgraça.
Ele tentou empurrar isso para longe, mas o Curupira pareceu perceber, como se as farpas dentro de Samir tivessem ensinado ao deus o cheiro de certas emoções.
"Vocês acham que tudo isso é local." O Curupira disse: "Acham que é sobre um planeta, sobre um povo, sobre uma raça..."
Ele olhou para Uhr’Gal, depois para o grupo, e então de volta para Zao Tian, e afirmou: "Mas o movimento é muito maior."
Depois de dizer aquilo, o Curupira olhou no fundo dos olhos de Zao Tian e disse: "VocÊ sempre esteve no centro de tudo!”
Aquela frase caiu como uma pedra, deixando todos, principalmente Zao Tian, desajeitados.
Ming Xue estreitou os olhos, e a mão dela se moveu um pouco, como se quisesse tocar Zao Tian e puxá-lo de volta para perto dela, para protegê-lo.
O Curupira, por sua vez, continuou.
"Você acha que está apenas respondendo a golpes recentes." Ele disse: "Mas você é uma continuidade de algo muito mais antigo."
Zao Tian sentiu a garganta secar.
Ele já tinha ouvido ecos disso de outras bocas. De outros inimigos. Mas nunca daquele jeito.
"O passado não terminou." O Curupira disse: "E você não pode entender o que está por vir sem entender o que aconteceu antes."
Zao Tian apertou o maxilar até quase trincar os dentes.
Ele estava nervoso.
"Eu sei o que aconteceu antes." Ele respondeu, com frieza contida. "Eu não vivi, mas eu sei."
O Curupira inclinou a cabeça de novo, discordando.
"Você viu partes." Ele disse: "Você viveu as consequências. Você viveu os efeitos…”
Ele ergueu uma mão feita de vinhas e deixou a própria palma aberta, como se estivesse mostrando algo invisível, e completou: "Mas você não viu o todo. Você não viu os acordos. Você não viu a estrutura por trás do que vocês chamam de acaso."
Quando escutou aquilo, Jaha respirou fundo, e o olhar dele ficou mais atento ainda.
O tipo de atenção de quem percebe quando uma peça rara finalmente aparece na sua frente.
Ming Xiao, por sua vez, manteve a voz firme, mas cuidadosa: "O que você quer dizer com ‘estrutura’?"
O Curupira olhou para ele por um instante.
"Eu quero dizer que meus irmãos não estão apenas reagindo." Ele respondeu: "Eles estão coordenando. Eles estão dando continuidade."
A palavra mudou o ar.
Coordenação significava propósito.
Significava plano.
Significava que a guerra não seria apenas força contra força. Seria a criação sendo empurrada para se dividir, para enfraquecer, para se matar.
Exatamente o que quase aconteceu em Uhr’Gal.
Zao Tian absorveu aquilo e sentiu a própria pergunta voltar, ainda mais amarga.
"Então impedir a nossa guerra interna foi só… um passo." Ele disse.
"Foi um passo vital." O Curupira corrigiu, antes de explicar: "Porque, se vocês se rasgassem agora, eu perderia o pouco tempo que ainda existe."
Zargoth estreitou os olhos e questionou: "Você disse ‘tempo’ como se fosse curto."
O Curupira não negou.
"É curto." Ele disse. E então voltou o olhar para Zao Tian, como se tudo convergisse para ele de novo.
"Você está no centro, porque você é um ponto de ruptura." O Curupira falou: "Um ponto que pode unir, ou quebrar. Um ponto que pode acelerar ou retardar."
Zao Tian ficou imóvel.
A raiva dele quis subir, porque ele odiava toda essa coisa de destino. Odiava profecias. Odiava a ideia de ser usado. Mas, ao mesmo tempo, ele lembrava da frase do Curupira: “fim da criação”.
E esse tipo de frase normalmente não é usada por diversão.
"Então o que você quer de mim?" Zao Tian perguntou.
O Curupira respondeu sem demora.
"Que você saiba." Ele disse: "Que você entenda."
Depois, ele deu um passo, e a presença dele pareceu crescer sem mudar de tamanho: "Porque os meus irmãos estão se movendo agora, e você não pode reagir a algo assim como reagiu até hoje."
Zao Tian sentiu o peito apertar à medida que ele se aproximava.
Então, o Curupira concluiu, com uma calma que era pior do que qualquer ameaça: "Você precisa ver o que aconteceu antes…"
Ele encarou Zao Tian como se estivesse oferecendo algo que não se oferece duas vezes, e finalizou: "Para entender o que acontecerá a seguir."
