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Capítulo UHL 1190 - Ferramentas

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Tenham uma boa leitura!]


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O Curupira deixou a última frase cair como ela era: não um aviso, mas um fato que já tinha começado. E, por alguns instantes, ninguém respondeu.


Porque a criação, quando encosta numa coisa grande demais, não reage com bravura. Ela reage tentando descobrir onde, exatamente, está o chão.


Zao Tian não desviou os olhos do Curupira, mas a mente dele já tinha se deslocado para outro lugar, puxada por uma lembrança que não era dele e, ainda assim, doía como se fosse.


Krishna.


O nome tinha aparecido poucas vezes na vida dele, mas sempre do mesmo jeito: como um limite. Como uma sombra que não precisava se impor para ser temida.


Heimdall tinha falado do guardião do Pai de Todos com aquele tom de quem descreve uma ferramenta perfeita, não uma pessoa. E Íxion, mais tarde, tinha dito o mesmo de um jeito diferente, quase como alguém que admite uma verdade incômoda: a devoção total não era uma virtude de Krishna, era um tipo de forma de existência.


Krishna não escolhia.


Krishna não opinava.


Krishna apenas executava.


E, no meio dessas lembranças, havia outra imagem, mais silenciosa, mais íntima, mais venenosa: o nome de Amara associado à mão de Krishna de um jeito que Zao Tian nunca tinha deixado sair em voz alta.


Ele sentiu o estômago apertar e não permitiu que aquilo virasse uma expressão no rosto.


Se ele deixasse, o grupo inteiro saberia que tinha tocado em um nervo que não era só estratégico. E ali, diante do Curupira, ele não podia permitir que a conversa se contaminasse com a parte da história que ainda sangrava dentro do que Gold foi e do que a criação herdou.


Ele respirou devagar, como quem coloca uma tampa sobre algo perigoso, e manteve a voz no lugar certo.


"Se Krishna saiu do lado de Odin…" Ele começou, e a frase ficou incompleta por um momento, não por dúvida, mas por peso. Porque todos ali tinham escutado histórias suficientes para entender o que significava um guardião abandonar o posto mesmo sem uma ordem.


Não era ousadia. Era urgência.


Zao Tian não olhou para os outros enquanto falava. Ele não precisava. Ele sabia que a tensão tinha se espalhado por aquela pequena formação como eletricidade numa linha.


"Então eu vou perguntar outra coisa." Ele disse, antes de pedir: "E eu quero uma resposta limpa."


A palavra “limpa” não foi um pedido de gentileza. Foi um pedido de precisão.


"Salomão." O nome saiu sem drama, mas foi como jogar um pedaço de carne no meio de uma sala de predadores.


"Você pode confirmar que o primeiro Aasimar está vivo?" Zao Tian perguntou: "E que ele está sendo usado agora?"


Por um instante raro, o Curupira demonstrou algo que quase parecia surpresa.


Não porque a pergunta era absurda, mas porque ela revelava uma informação que a criação, normalmente, não deveria ter.


"Você sabe sobre ele..." O Curupira disse.


"Isso poupa muitas explicações." Ele acrescentou, e então deixou a resposta cair sem tentar amortecer: "A resposta é sim."


"Salomão está vivo."


"Ele está sendo usado agora mesmo."


A frase seguinte veio logo depois, sem espaço para a esperança se formar.


"Ele está sendo usado como procriador."


"Para gerar Aasimares que servirão de alimento para meus irmãos."


O Curupira não descreveu nada além do necessário, e foi justamente isso que fez a coisa ficar mais pesada.


Não havia metáforas.


Não havia exageros.


Era um procedimento.


Um uso.


Uma linha industrial aplicada ao que deveria ter sido impossível.


Zao Tian percebeu, num relance, que o grupo se entreolhou.


Não porque não acreditavam, mas porque queriam estar errados.


Mesmo aquela gente, acostumada com as guerras, precisa, de vez em quando, de uma mentira para respirar com mais tranquilidade.


O Curupira viu isso com clareza, e a forma como ele reagiu não teve desprezo.


Teve algo raro em um deus: o reconhecimento do impacto.


"Desculpem." Ele disse.


A palavra saiu de forma simples, como se tivesse sido tirada do lugar onde ele guarda suas concessões. Então, ele prosseguiu: "Mas eu estou aqui para ser sincero e realista."


Não houve um pedido de perdão além disso.


Não houve uma tentativa de consolar.


O Curupira não era alguém que consolava. Ele era alguém que informava algo para evitar um colapso.


Depois, ele continuou no mesmo ritmo, agora olhando para Zao Tian como quem escolhe o caminho mais eficiente para não deixar brechas.


"Eu não sei até onde vai o conhecimento de vocês sobre os Aasimares." Ele disse, antes de continuar: "E eu preciso deixar algo claro antes que vocês preencham esse assunto com superstições ou com mitos."


"A criação dessa raça foi apenas uma necessidade em tempos sombrios."


Ele não explicou quais tempos, nem citou nomes, nem desenhou cenários, mas todos ali sabiam do que ele estava falando.


"E, pelo menos no começo…" O Curupira continuou, sem mudar o tom: "Não foi uma preparação para a guerra."


Ele deixou a frase terminar exatamente ali, como se soubesse que qualquer palavra a mais abriria um corredor inteiro de revelações que precisavam ser entregues na ordem certa.


E permaneceu olhando para Zao Tian, como se perguntasse se ele estava disposto a ouvir o resto.


Zao Tian não respondeu de imediato, não porque estivesse ponderando se queria ouvir, mas porque estava tentando encaixar a frase na lógica do mundo.


Aasimares como necessidade… E não como preparação?


Por mais que pensasse, a mente dele sempre voltava para o mesmo ponto: se você cria algo tão específico, tão estranho ao próprio universo, é porque existe uma ameaça específica.


E uma ameaça específica, para Zao Tian, quase sempre tinha um nome.


Guerra.


Sendo assim, ele sustentou o olhar no Curupira e perguntou, sem elevar a voz: "O que você quer dizer com isso?"


A pergunta não teve fúria. Teve uma tensão controlada, como se ele estivesse segurando uma corda para não arrebentar: "Como uma raça assim pode ter sido criada para outro fim que não fosse se preparar para uma guerra?"


O Curupira, por sua vez, não respondeu como quem justifica um pecado. Respondeu como quem volta a um lugar que preferia não revisitar.


"Porque vocês olham para nós com um filtro inevitável." Ele disse: "O filtro do que nos tornamos."


"Mas nem tudo começou do jeito que terminou."


Ele deixou a frase atravessar o espaço entre eles sem pressa e então prosseguiu num caminho que, até ali, ele não tinha aberto.


"Eu vou dizer uma coisa que muitos dos meus irmãos nunca admitiriam." O Curupira falou: "Eu não tive contato com a criação como eles tiveram."


"Não por escolha moral."


"Por impossibilidade."


Ele não precisou explicar por quê. O próprio tamanho dele já era uma explicação mais do que explícita.


"Mesmo quando eu tentei, eu era… grande demais." Ele continuou: "Próximo demais de parecer um desastre. Distante demais de parecer um rosto."


"Para a maioria da criação, eu não era uma presença com quem se conversa."


"Eu era um céu que podia cair."


O Curupira não disse isso com uma tristeza dramática. Disse como um fato que moldou a existência dele.


"E por isso eu passei eras sozinho."


"Sozinho num sentido que meus irmãos não conhecem."


"Porque eles sempre tiveram adoração, disputa, vozes ao redor, barulho suficiente para não ouvirem os próprios pensamentos."


"Eu, entretanto, não tinha isso."


"Eu tinha tempo."


E foi nessa palavra, tempo, que a voz dele mudou de um jeito sutil.


Ela não ficou mais suave.


Ficou mais… Íntima.


"Se eu tivesse convivido mais com a criação… talvez eu também tivesse sido contaminado." Ele disse: "Talvez eu também tivesse aprendido a gostar do controle, como eles. A confundir soberania com função. A confundir o medo alheio com ordem."


Ele não pediu desculpas por essa possibilidade. Ele apenas reconheceu o que poderia ter sido.


"Mas eu não aprendi."


"Eu fiquei à margem."


"E por estar à margem, eu comecei a ver a estrutura."


O Curupira inclinou a cabeça, como se procurasse a forma exata de traduzir aquilo para um humano sem transformar em religião.


"Vocês pensam que nós nascemos para mandar." Ele disse: "Pensam que nascemos para reinar."


"Isso é o que meus irmãos contam para vocês."


"Isso é o que eles contam para si mesmos."


O Curupira não aliviou a acusação, mas o caminho dele não era moral. Era algo mais mecânico.


"Eu, na minha concepção, fui criado como parte de um sistema." Ele continuou, antes de deixar claro: "Não do sistema dos deuses."


"Do sistema do universo."


"Da Grande Mãe."


Ali, ele pronunciou Grande Mãe e, ao mesmo tempo, a imagem do Salgueiro da Vida se impôs como a única fonte que existia acima até do orgulho divino.


"A Grande Mãe não dá frutos por capricho." O Curupira disse: "Ela dá frutos quando há uma necessidade. Quando há um risco que precisa ser absorvido. Quando há um desequilíbrio que precisa de um contrapeso."


O Curupira não fez poesia do Salgueiro, porque ele não era um devoto. Ele era u um produto.


"E eu… sou um fruto estranho." Ele admitiu: "Grande demais. Denso demais. Difícil demais de existir perto de qualquer coisa."


"Por muito tempo, eu me perguntei por quê."


"Eu me perguntei isso por eras."


Ele ergueu uma mão de vinhas e não apontou para o céu, mas para o próprio corpo.


"Então… eu entendi. Ou pelo menos acho que entendi"


"Eu não fui criado para governar a criação."


"Eu fui criado para abrigá-la."


A frase, dita daquele jeito, não veio como uma revelação mística ou um devaneio. Veio como um encaixe lógico.


"Eu sou um mundo." O Curupira disse: "Eu posso sustentar a vida."


"Eu posso sustentar bilhões de formas de vida como as suas, se for preciso."


"Eu posso esconder o que precisa sobreviver quando tudo ao redor desaba."


Então, ele não usou o termo que usava para si mesmo como um “receptáculo de continuidade”.


"Eu fui feito como um refúgio final." Ele concluiu: "Uma reserva viva."


"Uma garantia de que, se um dia a criação for esmagada por uma catástrofe que varre mundos… ainda exista um lugar onde ela possa se esconder e recomeçar."


Ao escutar aquilo, Zao Tian sentiu algo estranho subir e ficou sem saber se era repulsa, respeito ou incômodo.


Porque a lógica ali era ofensiva de um jeito impressionantemente sutil: significava que alguém, em algum nível, já tinha considerado que o universo poderia falhar ao ponto de precisar de um último abrigo.


Ao mesmo tempo, isso fazia sentido demais para ser descartado.


Confuso demais, ele segurou a própria expressão e falou apenas o necessário.


"Isso… tem lógica." Zao Tian disse, como se admitir isso fosse uma traição a si mesmo.


O Curupira assentiu, uma vez.


"A lógica é tudo o que eu tive." Ele respondeu, sincero.


Zao Tian não gostou do rumo que aquilo tomou, porque, se aquilo era verdade, então a conversa era maior do que guerra entre raças.


Era sobre colapso.


Era sobre design.


Era sobre o universo se prevenindo contra si mesmo.


"E você vê os outros deuses do mesmo jeito?" Zao Tian inevitavelmente perguntou, porque aquela ideia incomodava demais: "Como tendo uma função?"


O Curupira não pareceu surpreso pela pergunta.


Ele pareceu satisfeito por ela existir.


"Sim." Ele disse.


E então ele mudou o foco, de si para o conjunto.


"Principalmente os Grandes Deuses." O Curupira continuou: "Os que possuem Dons."


"Vocês acham que eles sempre existiram do jeito que existem hoje."


"Mas isso é falso."


"No princípio, havia poucos."


"Pouquíssimos."


"E mais nasceram conforme as crises surgiam."


"Conforme as necessidades surgiam."


Ele deixou a ideia assentada e então a tornou mais concreta, sem virar uma lista longa.


"Cada Dom é uma resposta." O Curupira disse: "Uma solução emergencial."


"Uma forma do universo restaurar o equilíbrio quando o equilíbrio ameaçava romper."


Depois de introduzir aquilo, ele escolheu um exemplo que o grupo conhecia por experiência e pelo horror que ele carregava.


"Ares… Por exemplo…" O Curupira disse.


Ele não falou o nome como quem reverencia. Falou como quem lê uma função em uma lista.


"O Dom da Ira."


"Vocês olham para isso e veem só destruição."


"Mas houve épocas em que a guerra era o único mecanismo capaz de impedir que a vida se tornasse uma massa estagnada e doente."


"Houve épocas em que populações cresceriam até consumir tudo ao redor, até colapsar por fome e por doença, levando o próprio ecossistema junto."


"Houve épocas em que espécies não evoluiriam nunca, porque não havia pressão suficiente para quebrar o conforto."


"Nessas épocas, a guerra foi um recurso necessário."


"Brutal, mas necessário."


Ao dizer aquilo, ele não suavizou. Ele não tentou fazer Ares parecer bom. Ele apenas explicou a lógica que teria gerado um Dom assim.


Depois, ele escolheu outro nome que, na boca dele, vinha carregado de ressentimento, mas mesmo assim ele falou com uma certa honestidade intelectual.


"Loki." O Curupira disse.


"O Dom da Mentira." Ele analisou.


"Vocês acham que a mentira é só corrupção."


"E às vezes é."


"Mas houve momentos em que a realidade era desesperadora demais para uma mente suportar."


"Houve momentos em que uma verdade, dita do jeito errado, no tempo errado, no ouvido errado, teria desencadeado uma cadeia de eventos que destruiria não uma vida… mas milhões."


"Uma mentira, que se tornava uma nova verdade… podia impedir um destino assim."


"Podia segurar uma mão no último segundo antes do golpe."


"Podia dar tempo."


"E o tempo muda tudo."


O Curupira deixou isso claro sem precisar pedir que gostassem da ideia.


"E é por isso que eu digo que vocês erram quando concluem que esses Dons, por natureza, são maus."


"Eles não nascem como maldades."


"Eles nascem como ferramentas."


A última palavra saiu com o peso que ela tinha na boca dele, porque ele não estava elogiando. Ele estava apenas definindo.


"Na minha opinião…" O Curupira continuou: "Nós, os deuses somos ferramentas do universo para o bem."


"Em nossa natureza, nós não somos maus."


Ele não disse isso como uma defesa deles ou dos irmãos. Ele tinha passado uma conversa inteira chamando-os de doentes, arrogantes, perigosos, então, ele só queria dar alguma explicação.


Talvez aquilo fosse contraditório. Ou pior… sugeria que o que se corrompeu ao longo do tempo não foi o poder que nasceu para isso. Foi o propósito de seu uso.


"E o que vocês estão vendo agora…" o Curupira concluiu a sua forma de pensar, se referindo ao seus irmãos: "Não é a natureza original deles."


"Isso é o resultado de milênios de ego, de soberania sem freio, de uma crença que se tornou uma religião interna: a de que controlar é existir."


Ao terminar aquela parte, o Curupira sustentou o olhar em Zao Tian e deixou o que vinha por trás da frase pairar como um bloco inteiro…


Se ferramentas podem se tornar monstros… Então a criação não estava lidando só com inimigos.


Ela estava lidando com uma função do universo que perdeu o próprio rumo.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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