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Capítulo UHL 1191 - Honrado

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Tenham uma boa leitura!]


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O Curupira pausou só o tempo suficiente para que a última ideia se assentasse sem na cabeça do grupo.


A frase sobre ferramentas e monstros tinha um efeito inevitável: ela retirava o conforto da caricatura. Se os deuses eram só maldade desde o início, bastava odiá-los. Se eles tinham uma função e se desviaram, então o problema era mais profundo do que ódio.


Zao Tian deixou esse peso correr pelo próprio corpo e mente, ainda assim, manteve a voz no lugar certo.


"Eu entendo o seu raciocínio." Ele admitiu: "E eu consigo aceitar que exista uma função por trás de vocês, porque esse universo inteiro parece funcionar em camadas de equilíbrio e resposta."


Apesar de ter reconhecido, ele não fez a frase virar um elogio.


"Mas isso não muda o que vocês são agora." Zao Tian continuou, e a palavra agora veio como um corte limpo: "Necessários ou não, bons por natureza ou não, vocês se tornaram tiranos."


Ele não precisava gritar para aquela acusação ser enorme.


"A criação não tem e nem prevê uma catástrofe pior do que vocês." Zao Tian disse: "De todas as coisas que podem acontecer, vocês são a mais iminente. Vocês são a pior."


O Curupira não reagiu àquelas palavras com orgulho ferido, nem com um desdém de soberano. Ele reagiu do jeito que vinha reagindo desde o início da conversa: como alguém que se recusa a se iludir.


"Eu concordo." Ele disse. E, mesmo assim, a concordância dele não ofereceu alívio.


"Essa catástrofe vai acontecer." O Curupira completou: "Não por maldição, nem por destino. Vai acontecer porque os meus irmãos não suportam perder o controle do que eles acreditam ter sido feito para eles."


Zao Tian sustentou o olhar, concordando.


"Então você está dizendo que eu vou lutar contra eles." Ele falou.


O Curupira não contornou.


"Você vai." Ele respondeu: "E por isso eu expliquei a natureza deles."


Naquelas palavras, ele deixou claro onde queria chegar antes de cair no assunto que Zao Tian tinha puxado.


"Quando o Pai de Todos acordou e discutiu termos com o humano, ele não estava encenando." O Curupira disse: "Ele realmente queria seguir o acordo."


A palavra acordo, naquela boca, tinha outra espessura.


"O Pai de Todos não mente." O Curupira acrescentou: "Não existe utilidade em mentiras para alguém como ele. E quando ele ordenou que todos os deuses retornassem ao Reino Divino, nós retornamos."


O Curupira não precisou explicar o que significava uma ordem dessa. A própria forma como ele falava mostrava que aquilo era uma lei superior a qualquer vontade.


"E de lá…"Eele continuou: "Nós só saíamos com a ordem dele."


Zao Tian sentiu a coerência tentar se formar e falhar na mesma hora, porque outro fio da história puxava a mente dele para baixo.


Aasimares.


Canibalismo.


O cheiro de uma coisa vil demais para ser encaixada num plano de paz.


"Então eu vou perguntar algo que não encaixa." Zao Tian disse, e o tom dele foi mais frio por confusão do que por raiva: "Se ele queria honrar o acordo e reestruturar vocês, por que começou o canibalismo?"


Depois, ele não usou o título. Na boca de Zao Tian, o nome saiu como uma afronta involuntária ao protocolo divino, e ainda assim foi inevitável: "Por que Odin começou um processo que exigiu a criação dos Aasimares?"


O Curupira não corrigiu Zao Tian pelo nome. Ele entendeu que aquilo não era desrespeito e nem performático. Era um humano tentando nomear um problema sem se esconder atrás de uma reverência que ele não devia à figura.


Ainda assim, quando ele respondeu, ele respondeu do jeito certo.


"Porque o Pai de Todos estava cumprindo o acordo." O Curupira disse: "E ao mesmo tempo… ele estava olhando além do acordo."


Quando falou, ele não tratou aquilo como contradição. Tratou como o tipo de lógica que só existe para alguém que não vê o tempo como os outros veem.


"O humano fez os meus irmãos temerem." O Curupira continuou: "E o Pai de Todos aceitou esse temor como um sinal de que precisávamos mudar."


"Ele ordenou o recuo. Ele ordenou o silêncio. Ele ordenou que o Reino Divino parasse de tocar a criação como uma propriedade.”


O Curupira deixou uma coisa clara, antes de tocar no ponto mais feio.


"Mas o Pai de Todos enxerga sempre à frente." Ele disse: "E ao olhar para frente, ele viu uma necessidade."


Zao Tian não falou. Ele esperou, porque entendeu que qualquer palavra ali mudaria o rumo da explicação.


"O nível da criação estava subindo." O Curupira disse. E, daquela vez, nível não era uma metáfora moral.


Era a estrutura universal que Zao Tian já tinha aprendido a respeitar, porque ela não era opinião de ninguém. 


"A criação estava se tornando alta demais." O Curupira continuou: "Forte demais. Intensa demais. Próxima demais de forças que vocês ainda não compreendem totalmente."


Ele não estava chamando a criação de ameaça por orgulho. O tom dele era de alguém descrevendo uma saturação, um limite de um sistema.


"O Pai de Todos entendeu algo que poucos dos meus irmãos aceitariam sem uma ordem." O Curupira disse: "Para manter o equilíbrio… nós precisávamos acompanhar."


Zao Tian sentiu aquela frase querer virar uma justificativa, e segurou o impulso de interromper. A sensação de nojo existia, mas ele precisava da resposta completa.


"Acompanhar como?" Zao Tian perguntou.


O Curupira não desviou.


"Por meio da coisa mais vil que um deus pode fazer com outro." Ele disse.


E então ele falou como quem se obriga a dizer o nome inteiro do horror, sem amortecer.


"O canibalismo."


Ele não explicou como, nem descreveu a cena, nem transformou em um espetáculo. Ele manteve tudo no nível do que importava: o efeito.


"O Pai de Todos ordenou." O Curupira disse: "E uma ordem dele nunca pode ser desrespeitada por um deus."


Zao Tian percebeu um detalhe na fala.


Não era “não deve”.


Era “não pode”.


"Não é só por respeito." O Curupira continuou, como se soubesse o tipo de conclusão errada que outros poderiam tirar: "Não é só hierarquia."


"Existe algo muito mais forte."


"Uma força sobrenatural que nos obriga a obedecer."


Ele não explicou a natureza exata, porque talvez nem ele tivesse linguagem para isso. Ele apenas confirmou o fato brutal: a vontade divina não existia inteira diante do Pai de Todos.


"Eu desrespeitei muitas coisas na minha existência." O Curupira disse: "Mas eu não consegui desrespeitar isso."


A palavra conseguiu, naquele contexto, era pior do que qualquer “não quis”.


"E eu… eu comi." O Curupira continuou, e não houve orgulho, nem vergonha encenada. Houve uma coisa rara nele… pesar.


"Eu canibalizei muitos dos meus irmãos."


A frase não precisava ser maior, e ele não parou nela.


"Eu não estava… inteiro quando isso começou." O Curupira disse.


Ele não usou a palavra loucura naquele momento, mas ele descreveu o efeito como quem se lembra do próprio corpo se tornando hostil.


"Comer os meus irmãos me deformou por dentro." Ele falou: "Não no poder. Na mente."


"Isso criou em mim transtornos que eu não tinha capacidade de nomear naquela época."


Ele não romantizou trauma. Ele apenas afirmou a consequência.


"Eu virei um perigo."


"Um perigo até para eles."


O Curupira deixou isso claro sem se colocar como vítima e sem poupar a monstruosidade do fato.


"Eu atacava qualquer um que se aproximasse." Ele continuou: "Não por estratégia. Por instinto. Por repulsa. Por confusão. Por uma raiva que eu não sabia a eum direcionar."


"Eu não entendia por que eu estava fazendo aquilo."


"Eu não entendia por que eu tinha sido forçado a fazer aquilo."


“Mas eu odiava fazer aquilo.”


Zao Tian sentiu o próprio estômago apertar mais. O Curupira falando assim tirava o tema da esfera de “crueldade fria” e colocava num lugar ainda pior: o de um sistema que arrasta até deuses para uma degradação que eles não conseguem controlar ou até suportar.


"E nesse período…" O Curupira continuou: “Apenas dois podiam se aproximar de mim."


Ele não disse isso como se fosse um privilégio. Disse como se fosse uma constatação que o envergonhava.


"O Pai de Todos e Krishna."


O nome de Krishna, no meio daquele parágrafo, veio com o peso certo: ele não era só o guardião do sono. Ele era a única presença capaz de ficar de pé ao lado do que tinha sido deformado.


"O Pai de Todos não podia ser atacado por mim." O Curupira disse, e a frase que veio depois foi absoluta: "Nenhum deus pode levantar um dedo contra ele."


"Estando eu fora de mim, ou não."


Ao terminar aquela parte, ele deixou claro que aquilo não era uma regra social. Era uma impossibilidade do ser.


"E Krishna…" o Curupira continuou: "Krishna se aproximava porque conseguia suportar."


"Ele conseguia suportar os meus ataques." O Curupira disse: "E quando eu tentava esmagá-lo com o que eu sou, ele permanecia."


"Ele permanecia porque ele existia para isso."


Zao Tian reconheceu o padrão e sentiu o frio piorar. Krishna, sempre. Não como pessoa. Como uma função.


"Eu odiava a presença dele naquela época." O Curupira disse, e não houve contradição: "Não porque ele me ferisse. Porque ele me lembrava."


"Ele me lembrava que eu estava preso numa ordem."


"Ele me lembrava que eu não tinha escolha."


"Ele me lembrava que o meu próprio corpo tinha virado uma arma contra mim."


Apesar de estar se abrindo, o Curupira não prolongou essa intimidade além do necessário. Ele não queria que isso virasse uma história sobre dor pessoal. Ele queria que virasse entendimento do mecanismo.


"Eu achei, por muito tempo, que aquilo era o Pai de Todos preparando uma guerra." O Curupira disse. E a frase tocou exatamente onde Zao Tian estava pensando, e por isso doeu mais.


"Eu achei que ele estava fazendo os meus irmãos acumularem poder para esmagar a criação quando o acordo se tornasse inconveniente."


Zao Tian não negou, porque ele mesmo tinha pensado isso mil vezes.


"Mas eu estava errado." O Curupira continuou. E ele não disse isso como absolvição. Ele disse como uma descoberta amarga.


"O Pai de Todos respeitava o humano." Ele disse, se referindo a Gold: "E não era por medo, mas, sim, por confiança."


"Ele via naquele humano algo raro… Ele via alguém que cumpriria a própria palavra."


"Ele via alguém que manteria a paz, enquanto nós mantivéssemos a paz."


A frase, naquele contexto, era chocante por si só, porque ela colocava Gold num lugar que, para a criação, era inconcebível: alguém que até o Pai de Todos considerava confiável.


“Mais com ele… veio um grande risco…” Antes de continuar, o Curupira percebeu o risco de falar o nome naquele contexto e se corrigiu antes de abrir um corredor desnecessário de pré julgamentos.


"Quando eu falo de risco, eu não estou falando de Gold." Ele disse, como se aparasse a própria frase: "Eu estou falando do nível que ele alcançou."


"Do padrão de força."


"Do que ele representou como possibilidade."


Zao Tian manteve o olhar duro.


"Então por que fazer isso?" Ele perguntou: "Se não era preparação para guerra, se ele queria honrar o acordo, por que forçar vocês ao pior?"


O Curupira respondeu com algo que, para qualquer um ali, era tão errado que parecia mentira, e ainda assim ele falou com a mesma frieza de quem descreve a gravidade.


"Porque o Pai de Todos via o universo como um sistema de barreiras." Ele disse: "E para ele… nós somos a última barreira."


Ali, Zao Tian sentiu o significado real se aproximar.


"Última barreira contra o quê?" Zao Tian perguntou.


O Curupira não falou um nome. Ele falou uma função, porque era isso que importava para aquele tipo de mente.


"Contra o colapso." Ele disse.


"Contra forças universais que não se importam com a vida, com a criação, com a continuidade."


"Contra desequilíbrios que, se romperem, não matam um planeta..."


"Matam galáxias inteiras."


Ele não estava dizendo isso para assustar. Estava dizendo porque, na cabeça do Pai de Todos, aquilo era sua responsabilidade.


"E se a criação sobe… nós precisamos subir junto." O Curupira disse.


"Não mais para dominar a criação."


"Para impedir que uma força, qualquer força, rompa o limite e faça o universo perder a estabilidade."


Zao Tian entendeu a estrutura e, ainda assim, sentiu nojo. Porque mesmo quando uma justificativa é lógica, ela pode ser monstruosa.


"E foi aí que o Pai de Todos viu o que viria." O Curupira continuou.


"Ele iria dormir de novo."


"E quando ele dorme… não há mais ninguém como ele."


"Não existe outra presença capaz de impor aquele tipo de contenção."


Ao escutar aquilo, Zao Tian percebeu o núcleo da paranoia divina.


"Ele não confiava que vocês conseguiriam manter esse papel sem ele." Zao Tian disse.


O Curupira assentiu.


"Ele não confiava." Ele confirmou.


"Então ele fez o que fez: ele ordenou um protocolo de emergência."


"Ele ordenou que nós acompanhássemos o nível da criação. Mesmo que isso nos destruísse por dentro."


O Curupira deixou a frase respirar e então entregou o ponto que amarrava Aasimares ao horror sem torná-los um “plano de guerra”.


"Os Aasimares não nasceram como preparação para a guerra." Ele disse: "Eles nasceram como uma tentativa de reduzir o canibalismo."


Zao Tian estreitou os olhos.


"Reduzir?" Ele repetiu.


O Curupira não suavizou.


"Poupar." Ele corrigiu: "Poupar a nós… do que nós estávamos fazendo uns com os outros."


"O Pai de Todos ordenou que as pesquisas começassem. E foi assim que Prometheus e o primeiro Heimdall conduziram o nascimento dessa raça."


Ali, ele deixou claro o propósito original.


"Uma forma de criar algo que o universo não reconhece como parte comum da criação."


"Algo com poderes fixos, pré-definidos."


"Algo que poderia cumprir a sua função sem exigir que nós despedaçássemos uns aos outros repetidamente."


Zao Tian sentiu um calafrio que mistura repulsa com compreensão.


"Então a ideia era poupar vocês." Zao Tian disse, e a frase saiu com um gosto ruim: "Não… alimentar ainda mais."


O Curupira acenou.


"A ideia era poupar." Ele confirmou.


"E o Pai de Todos… sofreu por isso."


A palavra sofrer, na boca de um deus, parecia um erro de linguagem, mas o Curupira não recuou.


"Ele não tinha prazer nisso." Ele disse: "Ele não tinha ego nisso. Ele não precisava provar nada."


"Ele fez porque viu uma necessidade."


"Porque, para ele, essa necessidade precisava de uma solução."


Zao Tian sentiu a cabeça querer negar, porque a crueldade continuava sendo crueldade, independente do motivo.


"E o que aconteceu depois…" Zao Tian começou, antes de perguntar: “Por que tudo mudou?”


“Por que Odin decidiu atacar, se ele queria, como você disse, manter a paz?”




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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