Capítulo UHL 1193 - O Tolo Cego
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Tenham uma boa leitura!]
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Zao Tian terminou a pergunta e não precisou repeti-la.
O grupo inteiro estava preso nela.
O Curupira, porém, não deu a resposta que a ansiedade queria.
Ele não era alguém que joga uma verdade no rosto e some. Ele vinha narrando os fatos como quem reconstrói uma linha do tempo com cuidado, para que ninguém ali confundisse causa com desculpa ou perdesse os pontos importantes.
"A mudança foi repentina." Ele disse. E, por alguns instantes, isso foi tudo.
"Nem mesmo os que eram mais avessos a vocês… esperavam que isso pudesse acontecer." O Curupira continuou.
Depois, ele olhou para o grupo como se confirmasse, pelo olhar, que não estava inventando um passado bonito. Não havia motivo para enfeitar as coisas, pois a realidade daquele presente já era ruim demais.
"Aquela forma de interagir com a criação virou o novo normal." Ele disse.
"E o mais estranho…" A palavra estranha, na boca dele, veio como algo genuíno: "É que funcionou."
Zao Tian não comentou, mas o músculo do maxilar dele se contraiu. Parte dele queria dizer que nada daquilo importava. Outra parte queria entender.
O Curupira escolheu até um exemplo que parecia impossível de encaixar na imagem que todos tinham dos deuses.
"Até Hefesto." Ele disse.
O nome, ali, não era só um nome. Era um símbolo de arrogância e isolamento para a criação. Um deus conhecido mais por criação de armas do que por qualquer gentileza.
"Hefesto se apaixonou." O Curupira continuou.
A frase pairou, absurda, por um segundo.
"Ele se casou com uma elfa." O Curupira disse, e não havia ironia: "Gilgamesh."
"Ele viveu ao lado dela por tempo suficiente para que aquilo deixasse de ser um capricho." O Curupira prosseguiu.
"E quando tudo desandou…" Ele fez uma pausa curta, como quem segura o resto da frase para não entregar o ponto cedo demais: "Hefesto chegou a se virar contra os meus irmãos."
O grupo se mexeu.
Zao Tian não falou nada ainda. Ele esperou.
A pressa, ali, era uma perda de tempo e informações.
O Curupira percebeu a apreensão geral sem precisar que ninguém confessasse.
Então, ele respondeu do jeito dele: com calma.
"Eu sei o que vocês querem." Ele disse: "Uma linha clara. Um momento. Um gatilho."
Ele ergueu o olhar.
"Mas se eu te der só o gatilho sem te dar o contexto… você vai entender errado. E vai lutar errado." Ele concluiu, olhando diretamente para Zao Tian.
A acusação ali não era sobre habilidade. Era sobre a leitura do inimigo.
Zao Tian respirou uma vez, e o ar pareceu cortar o peito dele por dentro.
"Então continue." Ele disse.
O Curupira assentiu.
"Durante esse período…" Ele começou: "A paz virou um hábito. Virou a nossa rotina. Não era mais uma obrigação imposta através do medo.”
“Era um jeito de existir."
Ele não romantizou. Ele apenas descreveu a estabilidade como ela era: um fato que se repetiu por tanto tempo que virou normal.
"As amizades duraram." Ele continuou.
"Algumas foram superficiais. Algumas foram circunstanciais." Ele admitiu, porque não estava vendendo santidade: "Mas algumas foram reais."
Ele deixou essa palavra ficar no ar por um instante, como se fosse o núcleo mais ofensivo para a imagem atual dos deuses.
"E até Heimdall…" O Curupira disse.
"Até Heimdall mudou." O Curupira afirmou.
Agora, o grupo inteiro pareceu ficar mais atento.
O Curupira prosseguiu, sem pressa, mas sem se perder.
"Antes, ele era caçado." Ele disse.
"Odiado."
"Conveniente demais como alvo para todos os erros do panteão."
"Mas com o tempo… ele foi reinserido." O Curupira continuou.
"Não porque meus irmãos ficaram misericordiosos."
"Porque o Pai de Todos ordenou que o panteão parasse de sangrar por dentro."
Zao Tian engoliu a seco. Heimdall reinserido não parecia apenas improvável. Parecia um insulto ao que a criação tinha sofrido.
E, mesmo assim, o Curupira foi específico.
"Heimdall passou a guiar." Ele disse.
"Não a guiar a criação."
"A guiar os próprios deuses."
Ele olhou para Zao Tian como se garantisse que ele entendeu a diferença.
"Ele observava onde vocês precisavam de ajuda." O Curupira explicou: "E ele definia quais de nós deveriam ir."
"Não por favoritismo, mas pela função que poderíamos exercer."
"Se um Dom específico era necessário em um lugar… Heimdall sabia qual Dom. E ele sabia qual deus tinha que se mover."
Zao Tian sentiu o próprio corpo reagir com um desconforto difícil de nomear.
Era nojento reconhecer que aquilo fazia sentido.
A onisciência, usada como logística, como rede de auxílio, era coerente com a ideia de uma ferramenta do universo.
E era exatamente isso que tornava a história mais perversa. Porque significava que o panteão chegou perto demais do que deveria ter sido. Mas ninguém pode ver isso agora.
O Curupira terminou essa parte e, pela primeira vez desde que começou a narrar o período de paz, a expressão dele mudou.
Não foi para a raiva.
Não foi para o orgulho.
Foi para algo mais pesado…
Melancolia.
O tom de voz dele caiu um pouco, como se o peso do que vinha a seguir exigisse um outro tipo de som.
"Nem Heimdall…" Ele disse, mais baixo, mais grave: "Pôde ver o que estava por vir."
A frase fez o ar mudar.
Zao Tian percebeu na hora. Não só pelo conteúdo, mas pela forma com que ele falava.
Sem se controlar, ele inclinou o rosto, tenso, e perguntou: "O quê aconteceu?"
O Curupira não respondeu na mesma hora.
Ele olhou para um ponto que não estava no grupo. Estava em algum lugar no fundo da memória, e pensou. E lembrou.
"Existe um lugar no universo…" Ele disse devagar: "Onde a onisciência de Heimdall não alcança."
Zao Tian apertou os dedos sem perceber.
"Que lugar?" Ele perguntou.
O Curupira respondeu com uma reverência que não era servil. Era um reflexo do próprio tecido das coisas.
"A Sala do Trono do Pai de Todos." Ele anunciou.
"Aquele lugar…" O Curupira continuou: "Parece estar fora dos limites da realidade."
"Não é só um salão."
"É algum tipo de fronteira."
"Uma espécie de corte entre o que existe e o que não pode ser observado."
"Até o olho de Heimdall fica cego ali."
Zao Tian sentiu a espinha gelar, porque, se Heimdall não via, então o panteão podia esconder um evento até do próprio deus que via tudo.
E o Curupira, por sua vez, confirmou, sem precisar explicar.
"Um dia…" Ele disse. E aquela expressão pequena, um dia, carregou o peso de milênios se movendo de lugar.
"O Pai de Todos convocou uma reunião." O Curupira continuou.
"Não foi uma reunião aberta."
"Não foi um conselho."
"Foi um chamado seletivo."
Depois de dizer aquilo, ele enumerou os nomes, um a um, como se cada um fosse um prego fixado no tempo.
"Krishna."
"Zeus."
"Geb."
"Iara."
"Osíris."
A menção de Iara, ali, veio como uma lembrança feliz e odiada ao mesmo tempo.
Na Singularidade, ela salvou a vida do grupo inteiro, mas ela ainda era uma deusa e ninguém sabia como ela era agora.
O Curupira não descreveu o que foi discutido.
Ele não disse o motivo, porque ele não podia.
Ele apenas deixou o clima do próprio relato sugerir que aquilo foi grande o bastante para mudar a história.
"Heimdall não foi chamado." Ele completou.
"Ele estava trabalhando e tinha errado muito no passado, então ele achava isso normal e não desconfiou." O Curupira disse.
"Como eu disse, ele não via o que acontecia lá dentro."
"E por causa disso… Ele achou…" O Curupira pausou, e a pausa teve um certo tom de pena: "Que receberia ordens quando a reunião terminasse."
O grupo ao redor parecia não respirar agora.
Todos estavam com a espectativa tão alta que chegavam a babar.
Zao Tian percebeu as bocas entreabertas, os olhos fixos, e uma tensão coletiva tentando se transformar em uma pergunta e falhando.
O Curupira então prosseguiu.
"Quando eles saíram da Sala do Trono…" Ele disse, e a voz dele ficou ainda mais baixa: "Krishna, Zeus e Geb atravessaram os corredores em silêncio."
"Não houve discussão."
"Não houve hesitação."
"Não houve vaidade."
“E era isso que tornava tudo pior…” O Curupira fez uma pausa, com pena do irmão.
"Eles foram direto até Heimdall." O Curupira deixou o nome ficar no ar por um segundo, como se até ele odiasse dizer o que vinha a seguir: "E eles o mataram."
Aquela frase caiu como se o próprio universo tivesse engolido a luz por um instante.
"Sem que ele pudesse reagir." O Curupira continuou, num tom acusatório agora..
"Sem que ele suspeitasse."
"Sem que ele sequer entendesse que estava em perigo."
“Porque a paz tinha virado um hábito.”
“Porque a violência tinha saído da lógica do nosso cotidiano.”
“Porque ninguém, nem mesmo os meus irmãos, esperava ver Grandes Deuses matando outro Grande Deus justamente naquele tempo pacífico e de reinvenção.”
Ao escutar aquilo, Zao Tian nem se mexeu. Ele sentiu o corpo endurecer como pedra. E, ao redor, a reação foi imediata e humana.
Olhos arregalados. Respirações falhando. Bocas se abrindo como se o ar tivesse ficado pesado demais para ser engolido.
O Curupira, ainda com a palavra, viu aquilo e não tentou suavizar.
"Foi um choque." Ele disse.
"Para todos."
"Para o panteão inteiro."
Ele deixou a frase cair e então completou com a parte que transformava aquele assassinato em um terremoto ainda maior.
"Depois do que fizeram, Krishna, Zeus e Geb anunciaram que estavam sob ordens do Pai de Todos." Ele disse: "Eles anunciaram, sem tremor na voz, que ninguém deveria incomodá-lo por alguns dias."
Enquanto falava, o Curupira olhou para Zao Tian com uma expressão que parecia carregar a mesma incredulidade de quando aquilo aconteceu.
"Eles disseram que o O Pai de Todos não receberia ninguém, porque…" Ele disse, e a frase seguinte veio como um absurdo que não tinha como existir e, ainda assim, existiu: "O Pai de Todos estava chorando por Heimdall."
“Ele estava chorando pelo que teve que fazer.”
O silêncio que seguiu aquela revelação não foi um silêncio de respeito.
Foi um silêncio de colapso.
Era como se, por um instante, todas as peças do universo tivessem mudado de lugar ao mesmo tempo. E toda elas estavam ainda mais bagunçadas.
