Capítulo UHL 1194 - Inacreditável
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O silêncio que se instalou depois da última frase do Curupira não foi o tipo de silêncio que dá tempo para alguém pensar.
Foi o tipo que rouba o pensamento.
O ar parecia mais pesado porque, de repente, a ideia de ordem divina tinha perdido o único rosto que, até então, sustentava qualquer ilusão de previsibilidade: Heimdall.
Se ele podia ser morto… então tudo e todos podiam ser atingidos.
Zao Tian não foi o primeiro a falar, e isso, por si só, já era um sinal de que a revelação tinha acertado fundo.
Ele viu, no canto da visão, os pequenos movimentos do grupo, como se cada um tentasse encontrar um lugar para se sentar ou encostar.
Mesmo os que nunca tinham gostado de Heimdall, os que tinham sido perseguidos por ele, ainda assim sentiam o mesmo impacto.
Porque não era sobre afeto.
Era sobre uma mudança estrutural.
"Como…" Alguém deixou escapar, e a palavra morreu no meio do caminho.
A pergunta existia em todos, com variações, mas o núcleo era um só.
Como os deuses puderam fazer isso?
Como mataram o único que podia manter a vigilância em todos os lugares?
Como arrancaram o olho do próprio sistema que eles mesmos tinham acabado de reconstruir?
E, pior…
Se eles conseguiram fazer isso uma vez, o que impede que façam de novo com qualquer outro?
Zao Tian sustentou o olhar no Curupira e deixou a voz sair apenas quando percebeu que, se não puxasse o controle de volta para a linha, o grupo se perderia num emaranhado de especulações.
"Isso… não faz sentido." Ele disse.
A frase foi simples, mas havia nela uma violência contida, porque ele não estava negando um detalhe, e sim o universo inteiro que vinha sendo montado na cabeça dele.
"Se Heimdall era usado como um guia, como uma rede… como uma garantia de que ninguém estava desamparado… como eles matam o único que fazia tudo isso funcionar?"
O Curupira não pareceu ofendido pelas perguntas. Ele pareceu reconhecer que aquela era a forma correta de reagir ao que ele mesmo tinha dito.
"Foi exatamente isso que aconteceu conosco." Ele respondeu, se referindo ao choque do grupo.
Depois, ele manteve o tom firme, mas, por baixo, havia algo parecido com uma lembrança amarga.
"O panteão inteiro ficou em choque naquele dia."
Ele olhou para o grupo como se, naquele momento, não estivesse falando com a criação, e sim com uma parte dele mesmo que ainda lembrava do que era estar cercado por deuses e sentir medo.
"Não foi um choque teórico." Ele continuou.
"Foi luto."
"Foi pavor."
"Foi a sensação de que o chão do Reino Divino tinha mudado de lugar."
O grupo permaneceu mudo, e o Curupira aproveitou esse silêncio para colocar a peça mais assustadora na mesa.
"Geb e Zeus… são nomes que podem ser questionados." Ele disse.
"Vocês conseguem imaginar motivos. Conseguem imaginar ambição. Conseguem imaginar desvio."
Ele não elogiou ninguém ao dizer isso. Ele apenas reconheceu que, na lógica da criação, esses nomes ainda cabiam dentro de um tipo de explicação humana: vaidade, poder, disputa.
"Mas Krishna…" O Curupira falou, e o nome atravessou o espaço com um peso diferente: "Krishna está acima de qualquer questionamento entre nós."
Ele não disse acima por ser melhor.
Ele disse acima no sentido de função absoluta.
"Por causa dele estar envolvido, ninguém via outra forma de aquilo ter acontecido sem a vontade… ou a autorização do Pai de Todos."
Zao Tian sentiu o próprio peito apertar.
Ele já tinha aceitado a ideia de que Odin era uma contenção, mas aceitar que Odin autorizou a execução de Heimdall era outra coisa.
Era o mesmo aceitar que a parede de contenção havia decidido quebrar um pilar do próprio sistema.
"Então alguns questionaram." O Curupira continuou, como se lesse os pensamentos do grupo e confirmasse que eles não eram os únicos a ter reagido assim.
"Perguntaram o que foi que aconteceu."
"Perguntaram por que foi que aquilo aconteceu."
"Perguntaram se havia algum perigo imediato, se havia alguma traição, se havia algum inimigo que tinha atravessado o limite do próprio Reino Divino."
A voz do Curupira não correu, pois ele parecia querer que cada etapa ficasse clara.
"Mas Krishna não explicou." Ele disse.
"Naquele dia, Krishna foi o porta-voz dos três."
"Ele olhou para os meus irmãos e disse que aquilo foi a vontade do Pai de Todos."
Zao Tian teve a impressão de sentir a mesma frase atravessando aquele espaço.
Foi a vontade.
E, no Reino Divino, a vontade do Pai de Todos não era uma decisão que se discutisse.
Era uma realidade.
"Krishna disse que, em alguns dias, o Pai de Todos se pronunciaria." O Curupira continuou.
"E disse mais uma coisa."
O Curupira deixou o olhar pesar.
"Ele pediu para que não tivéssemos medo."
Aquela frase, vindo de Krishna, era quase uma ironia involuntária, porque, se Krishna pede para que ninguém tenha medo, isso significa que o medo é inevitável.
"Ele pediu para que a gente se preparasse." O Curupira completou: "Para a mudança que estava por vir."
O grupo pareceu ficar ainda mais quieto.
Zao Tian percebeu o modo como vários olhos se moviam sem se fixar em nada, como se a mente tentasse antecipar, desesperada, o que poderia ser tão grande a ponto de justificar um assassinato desses.
"Preparassem como?" Zao Tian perguntou.
O Curupira respondeu sem oferecer conforto.
"Todos recuaram." Ele disse.
"Todos se encolheram no Reino Divino."
"Por alguns dias, não houve viagens."
"Não houve visitas."
"Não houve presença nos mundos."
"Os deuses ficaram tensos, esperando o pronunciamento."
Ele não precisou dizer que a criação sentiu o impacto. Mesmo sem saber de Heimdall, mesmo sem entender a mecânica interna, o universo percebe quando o panteão se fecha e suspende a própria interferência.
Zao Tian pensou no vazio que isso deve ter causado em mundos acostumados, naquele período, a receber ajuda. E, por mais que odiasse os deuses, ele reconheceu o tamanho do estrago que um silêncio desse poderia causar.
Jaha, que vinha calado havia tempo demais para alguém como ele, deixou a pergunta sair com a precisão de quem tenta cortar o pânico em partes analisáveis.
"Em algum momento, eles pensaram em um golpe?" Ele perguntou.
A palavra golpe não era uma provocação. Era uma hipótese.
O Curupira não negou.
"Pensaram." Ele confirmou: "E não foi por maldade. Foi mais uma tentativa de organizar o impossível."
Depois, ele descreveu o que aconteceu em seguida com um cuidado que deixava claro que aquilo tinha sido um daqueles momentos em que até deuses buscam explicações que não existem.
"Alguns chegaram a cogitar que Krishna, Geb e Zeus tinham matado o Pai de Todos." Ele disse.
"Que eles tinham tomado a Sala do Trono e que agora estavam fingindo luto para controlar o resto de nós."
Zao Tian quase soltou ar pelo nariz, num riso que não era riso, e sim incredulidade.
Era ridículo e, ainda assim, era uma possibilidade que alguém desesperado poderia pensar.
O Curupira logo confirmou o que Zao Tian já estava pensando.
"Essas ideias não duraram mais do que o tempo de saírem das bocas deles." Ele disse: "Porque conhecer o poder do Pai de Todos é o suficiente para destruir esse tipo de fantasia."
Ele não falou de forma grandiosa. Falou como quem descreve uma verdade física.
"Nem se todos os deuses se juntassem…" Ele continuou: "Isso seria possível."
"E mais do que isso… nenhum deus é capaz de levantar um único dedo para ferir o Pai de Todos."
Zao Tian sentiu o nojo subir de novo.
Não pelo Pai de Todos ser intocável, mas pela implicação de que a vontade deles não era deles. Que até os monstros do universo eram, de certo modo, prisioneiros de um trono.
"Então… eles tentaram outra explicação." O Curupira continuou: "E ela também parecia lógica."
Ele deixou um breve silêncio, como se lembrasse do momento em que ouviu isso pela primeira vez.
"Muitos cogitaram que o Pai de Todos tinha voltado ao seu sono."
"Que a reunião tinha sido o último ato consciente dele antes de adormecer."
"Que os três estavam assumindo as rédeas por necessidade."
Zao Tian percebeu o encaixe dessa hipótese. Ela explicava a ausência. Ela explicava o silêncio.
Só que o Curupira matou a hipótese com a mesma firmeza com que matou a anterior.
"Mas um deus sente quando o Pai de Todos está acordado." Ele disse.
"É inevitável."
"É como sentir uma gravidade que se impõe sobre tudo, mesmo a quilômetros de distância."
Ele olhou para o grupo e afirmou, sem margem para dúvidas.
"E nós sentíamos. Todos nós sentíamos…"
"O Pai de Todos estava acordado."
O grupo absorveu aquilo com um certo tipo de desconforto.
Zao Tian então puxou mais um fio da história.
"E Iara e Osíris?" Ele perguntou.
A menção de Iara carregava, para eles, uma confusão que não era simples.
Na Singularidade, ela salvou vidas.
Ela tinha mostrado uma intervenção que parecia genuína, mas isso não apagava o fato de que ela era parte do panteão.
"O que aconteceu com eles depois?" Zao Tian terminou.
O Curupira respondeu com uma secura que sugeria que aquilo também tinha sido ruim.
"Eles foram questionados. Bastante questionados."
"Porque foram os dois que saíram da Sala do Trono e não participaram do assassinato."
"Porque, depois daquela reunião, tudo mudou."
Ele não descreveu as pressões como brigas. Descreveu como a dinâmica natural de um grupo de soberanos inseguros.
"E os dois se isolaram." Ele disse.
"Se fecharam."
"Evitaram todos."
"E quando falaram… disseram o mesmo que Krishna."
Ele deixou a frase sair como uma cópia fria.
"O Pai de Todos vai explicar depois de chorar por Heimdall."
O grupo ficou mais quieto ainda.
O Curupira pareceu reconhecer como aquilo soava. E, mesmo assim, manteve.
"Esses dias foram longos." Ele disse: "Mesmo para nós."
Ele não explicou como o tempo funciona para deuses naquele contexto, porque nem precisava.
Quando se espera por uma resposta do Pai de Todos, numa situação grave como aquela, o tempo vira um peso.
"Mas o momento chegou." O Curupira continuou, e, naquele ponto, a voz dele mudou mais uma vez.
Não para melancolia agora, mas para algo mais perto de atenção. Como se ele se lembrasse não apenas do evento, mas da sensação do ambiente.
"O Pai de Todos saiu da Sala do Trono Divino." Ele disse: "Ele apareceu para nós."
Zao Tian sentiu o grupo ao redor se prender naquela imagem.
Até eles, que nunca viram Odin, que só conheciam a ideia, sentiam a pressão de imaginar o que é estar diante de uma entidade que faz até deuses se curvarem por consequência de sua presença.
"O Reino Divino estava cheio." O Curupira disse.
"Eles estava preenchido por curiosidade."
"Por medo."
"Por necessidade."
"Porque quando o Pai de Todos chama… mesmo os orgulhosos se movem."
Naquele relato, ele não descreveu o cenário como um salão belo. Ele descreveu como um lugar que, naquele dia, parecia menor do que deveria ser.
"Eu vi o Pai de Todos." O Curupira disse. E, pela primeira vez na conversa inteira, ele deixou uma nuance pessoal atravessar a fala.
"Ele estava… diferente."
Zao Tian não falou. Ele deixou o Curupira traduzir a imagem inteira.
"O Pai de Todos sempre transmitiu calma." O Curupira continuou.
"Confiança."
"Uma paz que não precisava ser explicada."
Ele soltou o ar devagar.
"Mas naquele dia… eu vi um olhar triste."
"Abatido."
"E havia nele algo que eu não tinha visto antes."
Ele hesitou por um instante, como se a palavra fosse inadequada para falar de Odin, e mesmo assim disse.
"Ansiedade."
O grupo pareceu endurecer, pois se o Pai de Todos fica ansioso, o que sobra para o resto do universo?
Zao Tian sentiu o impulso de perguntar se aquilo era possível, mas o Curupira já tinha dito. E ele não era alguém que inventava nuances para deixar uma história mais intensa.
"O Reino Divino inteiro ficou nervoso." O Curupira disse: "Não era só insegurança sobre Heimdall."
"Era o tipo de nervosismo que nasce quando você percebe que nem a figura que sempre sustentou o equilíbrio está em paz consigo mesma."
Zao Tian, enquanto o Curupira falava, percebeu que ele estava tentando se preparar para uma frase que não existe preparação suficiente para dizer.
"E então ele falou." O Curupira disse: "O Pai de Todos anunciou que Heimdall morreu sob ordens dele."
A frase atingiu de novo, mesmo já dita antes, porque agora vinha com a confirmação da própria boca do trono.
"Em sua explicação para nós, ele disse que a onisciência precisava deixar de existir por algum tempo."
Zao Tian sentiu o estômago apertar de nojo.
"Por algum tempo…" Ele repetiu, baixo, como se aquela parte fosse uma ameaça maior do que a morte em si.
O Curupira assentiu.
"Sim." Ele respondeu: "Ele disse que a onisciência, do jeito que existia, precisava ser interrompida."
Zao Tian sentiu o impulso de dizer que isso era uma loucura, mas o Curupira já tinha mostrado que Odin não fazia as coisas por impulso.
Então, se Odin removeu a onisciência, o motivo tinha que ser pior do que o caos que viria.
"O Pai de Todos disse que viu algo." O Curupira continuou. E a próxima frase foi como sentir uma lâmina fria encostar na nuca: "Ele viu o futuro."
O grupo ao redor pareceu perder o ar ao mesmo tempo.
Zao Tian sentiu uma tensão diferente surgir, não uma tensão de luta, mas uma de limite cognitivo.
O futuro… Odin podia ver o futuro?
O Curupira, sem explicar essa parte, prosseguiu.
"Nesse futuro…" Ele disse, devagar: "O Pai de Todos viu o Fim dos Tempos."
Dessa vez, uma expressão era grande demais para caber no peito de um humano, foi citada. Mesmo para alguém como Zao Tian, que já viu mundos sendo esmagados e ainda assim continuou de pé, aquilo soava como algo que não deveria existir.
"O Fim dos Tempos…" Zao Tian repetiu, e a voz dele saiu rouca, incrédula.
O Curupira confirmou com a cabeça.
"Sim."
"Não foi uma guerra."
"Não foi uma crise."
"Não foi um colapso local."
"Foi um fim."
Ele não precisou exagerar, porque só dizer a palavra fim já fazia o resto.
"E, para justificar o que mandou fazer, o Pai de Todos disse mais uma coisa." O Curupira continuou.
Nesse momento, ele olhou diretamente para Zao Tian, como se soubesse que aquilo encostaria nele de um jeito muito específico.
"Ele disse que o Fim dos Tempos seria causado… por um manipulador da luz."
O silêncio que se seguiu não teve espaço para perguntas imediatas.
Porque, para Zao Tian, a luz não era só um elemento, era parte do que ele era. E a frase, lançada daquele jeito, não parecia uma acusação direta… mas parecia um presságio que encontrou o alvo certo por coincidência.
