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Capítulo UHL 1197 - A Grande Mentira

[Capítulo semanal!!! 


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Tenham uma boa leitura!]


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O Curupira deixou a última frase cair e não tentou preencher o espaço com pressa.


Ele sabia o que tinha acabado de dizer.


Ele sabia o que ela fazia com qualquer mente que ainda tentasse acreditar em alguma forma de justiça universal.


"Ele não encontrou um nome."


"Ele encontrou um risco."


E aquele risco, agora, tinha virado uma sombra sentada no mesmo círculo que eles.


O grupo continuava quieto, mas o silêncio já não era paralisia.


Era contenção.


Era gente segurando a própria língua porque qualquer palavra mal colocada poderia virar uma acusação irreversível.


Zao Tian manteve o olhar no Curupira.


Ele se obrigou a respirar, e, ao mesmo tempo, ele se obrigou a não olhar para os companheiros para medir o que eles estavam pensando, porque ele já sabia.


A palavra luz tinha virado um peso desde o início da conversa.


Jaha, como sempre, tentou puxar a conversa para um lugar onde as coisas pudessem ser medidas.


"Então existiram… possibilidades na criação." Ele disse.


Não foi uma pergunta. Foi a conclusão inevitável.


"Sim." O Curupira respondeu. E, ao dizer sim, ele aceitou que o próximo bloco de informações seria mais perigoso do que tudo que ele tinha narrado até ali, porque agora não era sobre deuses se observando por paranoia. Era sobre o panteão olhando para fora, para a criação, e construindo listas.


"Existiram candidatos." O Curupira continuou.


A palavra candidatos, naquela boca, não tinha nada de casual. Era como ouvir alguém falar de um catálogo de ameaças.


"Alguns eram só… hipóteses." Ele disse.


"Alguns foram descartados cedo."


"Outros duraram tempo demais nas mãos do medo."


Zao Tian torceu o nariz, porque aquilo deixava claro que o Pai de Todos não tinha apenas pensado. Ele tinha agido.


"Quem?" Jaha perguntou.


A voz dele ainda tinha controle, mas por trás havia uma fome de entender, uma necessidade quase obsessiva de pôr nomes nas coisas para que elas deixassem de ser monstros abstratos.


O Curupira assentiu. Ele não parecia confortável ao listar aquilo, mas também não hesitou, como se aquele inventário fosse uma verdade que precisava existir no mapa antes de qualquer decisão futura.


"Um orc chamado Gar’Thun." Ele disse.


"Era um guerreiro que manipulava a luz por um caminho bruto, quase instintivo, e a força dele crescia rápido demais para o que era comum na época."


O grupo absorveu.


Zao Tian não comentou, mas sentiu a cabeça doer com a ideia de um orc sendo observado pelos deuses por sua afinidade com luz, como se a criação inteira estivesse sob uma lupa.


"Uma elfa chamada Aelyra." O Curupira continuou.


"Ela não tinha a agressividade de um arauto, mas tinha uma clareza tão forte de propósito que, por um tempo, alguns acharam que isso poderia virar fanatismo."


Ele não explicou mais do que isso. Ele não precisava, pois o ponto era que existiam nomes de todas as raças.


"Um krovackiano." O Curupira disse, e a palavra krovackiano trouxe um desconforto diferente ao grupo, porque o histórico daquela raça com guerra e brutalidade sempre fazia a mente encaixar o pior.


"Ele chamava-se Varkh." Ele continuou.


"Ele tinha um modo de usar a luz como se fosse uma lâmina de energia, mas a própria natureza dele o tornou previsível demais."


Zao Tian estreitou os olhos e questionou: "Previsível?"


O Curupira assentiu.


"Ele era violento por padrão." Ele disse, antes de explicar: "E a visão do Pai de Todos não falava de violência simples."


"Falava de um fim que exige algo mais do que brutalidade."


Jaha ficou atento a isso.


"Então o risco era alguém capaz de… escolher e ser vesátil." Jaha disse, juntando as peças.


O Curupira não confirmou nem negou de imediato. Ele apenas prosseguiu com a lista.


"Um gigante chamado Odrik." Ele continuou.


"Um ser proeminente, com uma persistência absurda."


"Mas a luz nele nunca passou do primeiro limiar."


O Curupira falava como quem tinha lido relatórios por eras, como quem conhecia cada tentativa do mapa que Odin construiu.


"E existiram outros." Ele completou.


"Nomes que vocês nunca ouviram."


"Planetas que já não existem."


"Linhas que morreram antes de virar algo."


Zao Tian sentiu a mandíbula endurecer, porque havia algo de ofensivo em saber que o universo teve tanta gente marcada e descartada como a hipótese de uma catástrofe.


Jaha, porém, não soltou o fio.


"E entre os humanos?" Ele perguntou: "Se vocês estavam monitorando… então estiveram entre nós também."


O Curupira assentiu.


"Teve um humano." Ele disse. E, ao dizer isso, ele deixou claro que aquela parte era importante para mostrar que nem todo monitoramento virava uma lenda.


"Chamava-se Kalen." O Curupira continuou: "Na antiguidade, ele foi um cultivador que tocou a luz muito cedo e parecia promissor."


Zao Tian prestou atenção. Ele não conhecia o nome, e isso por si só era uma prova de que nem todos com potencial conseguem um lugar na história.


"Ele não foi para frente." O Curupira disse: "Ele estagnou."


"E quando estagnou, o risco caiu."


Naquele momento, Jaha franziu a testa, como se avaliasse a lógica por trás de chamar alguém de risco só por ter estagnado.


"Então o risco também é… aceleração?" Ele perguntou.


O Curupira respondeu com honestidade.


"O risco, para Odin, era uma combinação." Ele disse.


"Potencial."


"Velocidade de crescimento."


"E a possibilidade de ser conduzido."


A última frase ficou no ar de um jeito estranho.


Conduzido…


Zao Tian sentiu que aquela palavra não combinava com o que eles tinham vivido. Ela combinava com manipulação.


E aí, então, o Curupira chegou no nome que, mesmo antes de ser dito, parecia já estar no centro daquela conversa desde o começo.


"E teve Zaki." Ele disse.


Não foi dramático.


Não foi anunciado. Mas o efeito foi imediato.


O grupo inteiro reagiu. Mesmo os que estavam tentando não demonstrar emoções deixaram escapar micro expressões de surpresa, porque Zaki era um nome com história demais para ser tratado como mais um nome de uma lista.


Zao Tian fechou a cara. Zaki era o ponto onde o passado e o presente da criação sempre se chocavam. Onde ele e Gold convergiam de alguma forma.


Jaha, por sua vez, foi o primeiro a falar, porque a mente dele não conseguia ficar em silêncio diante da implicação do nome mencionado.


"Ele era o maior potencial, não é!?." Jaha disse, como reconhecimento.


O Curupira assentiu com mais certeza do que tudo.


"De longe." Ele respondeu. E então ele completou com a peça que tornava aquilo inevitável: "E também… ele era discípulo de Gold."


Se existia alguém capaz de se aproximar de Gold, não seria um deus, não seria um protegido do panteão. Seria alguém que foi moldado pelo caminho de Gold.


"E os deuses viram isso." O Curupira continuou.


"Viram antes de vocês."


"Viram quando ele ainda era só um nome pequeno para a criação."


"Viram porque o Pai de Todos mandou ver."


"Mandou acompanhar."


"Mandou medir."


Zao Tian franziu o cenho e perguntou: "E o que vocês viram nele?"


O Curupira respondeu de um jeito que surpreendeu alguns, porque não veio com desprezo e não veio com suspeitas gratuitas.


"Lealdade." Ele disse: "Justiça."


"E um esforço fora do comum."


O Curupira não tentou transformar Zaki em um santo.


Ele não fez discurso de defesa.


Ele só descreveu o que, para o panteão, era um perfil raríssimo em alguém com um poder crescendo rápido daquele jeito.


"Ele parecia ambicioso." O Curupira continuou: "Porque quem olha de fora confunde disciplina com fome."


"Mas ele não era."


"Ele queria crescer porque via responsabilidade nisso."


"Ele queria crescer porque sabia que, se não crescesse, outros cresceriam por motivos piores."


Ao escutar aquilo, Jaha ficou quieto por um instante, enquanto Singrid sentia orgulho.


Enquanto para ela Zaki era alguém mal compreendido, era difícil para ele ouvir aquilo sem encaixá-lo na própria imagem que a criação tinha de Zaki antes da queda.


"Se até vocês enxergavam ele assim, então por que ele virou… o que virou?" Jaha perguntou.


A pergunta saiu carregada.


Zao Tian sentiu ansiedade pela resposta, porque aquela pergunta atravessava muita coisa que o grupo tinha sofrido, diretamente e indiretamente, por causa das escolhas de Zaki.


O Curupira olhou para ele, depois para Jaha, e respondeu com uma calma que doeu.


"Porque ser justo não impede ser manipulável." Ele disse.


A frase foi curta, mas ela carregava uma crueldade simples.


"E isso foi o que mais assustou o Pai de Todos."


Zao Tian franziu o cenho e teve que perguntar: "Manipulável como?".


O Curupira respondeu com precisão.


"Zaki era suscetível a ser enganado." Ele disse.


"Não por falta de inteligência, mas por excesso de fé em certas coisas."


"Ele acreditava em símbolos de paz."


"Ele acreditava em promessas."


"Ele acreditava que, se alguém falasse com convicção suficiente, poderia estar dizendo a verdade."


Jaha apertou a mandíbula, pois aquele tipo de vulnerabilidade, em alguém comum, é só um defeito. Em alguém com potencial para alcançar Gold, era um perigo imensurável.


"E, para o Pai de Todos, isso era uma brecha muito perigosa." O Curupira continuou.


"Não era o coração de Zaki que parecia com a visão. Era a possibilidade de alguém colocar um coração diferente no lugar."


O grupo absorveu em silêncio.


Zao Tian sentiu o peso dessa frase como uma coisa física, porque ele reconheceu isso em si mesmo, de um jeito torto.


Ele sabia o que era ter um destino tentando ser escrito por outras mãos.


Jaha respirou fundo e comentou: "Então Odin tentou… controlar a variável."


O Curupira assentiu.


"Ele tentou protegê-lo do caminho." Ele disse, antes de deixar claro: "Não quebrá-lo."


Essa frase soou estranha.


Para humanos, proteção e Odin não costumavam caber na mesma linha.


Contudo, o Curupira não parecia preocupado com a estranheza. Ele parecia preocupado com o fato de que eles não estavam entendendo o tamanho do jogo.


"Foi por isso que Odin fez algo que vocês não imaginam." O Curupira continuou.


"Ele enviou Loki." O Curupira disse.


Por um instante, ninguém respirou.


O nome de Loki, ali, era um veneno por si só.


Zao Tian sentiu o próprio sangue esquentar, como se a palavra tivesse encostado em uma ferida antiga e arrancado a casca.


Jaha arregalou um pouco os olhos.


"E você quer que eu acredite que isso foi uma boa ideia?" Jaha disse, num tom irônico.


Zao Tian não disse nada, mas a expressão dele ficou dura.


Loki, para eles, não era um mensageiro neutro. Era o nome associado à queda. Ao desvio. À corrosão do caminho de Zaki.


O Curupira percebeu isso e não reagiu com irritação.


Ele já esperava.


"Eu entendo o que Loki é na cabeça de vocês." Ele reconheceu: "Eu entendo o que a história fez com o nome dele."


Ele olhou para Zao Tian.


"E eu entendo que, para você, isso é quase uma provocação."


Zao Tian sacudiu a cabeça e respondeu: "Não é quase."


A frase veio afiada.


O Curupira aceitou sem discutir.


Então ele falou a parte que mudava tudo.


"Loki não foi enviado para corromper ninguém." Ele disse.


O grupo travou.


Jaha pareceu não ter ouvido direito.


"O quê?" Jaha perguntou, e desta vez foi uma pergunta genuína, sem cálculo, sem ironia, só incredulidade.


“Isso é sacanagem!” Zao Tian estreitou os olhos e deixou escapar: "Você está dizendo que Loki se aproximou de Zaki por ordem de Odin… para manter ele no caminho?"


O Curupira, por sua vez, assentiu.


"Sim." Ele respondeu. E, ao dizer sim, ele colocou uma bomba no centro de tudo que o grupo acreditava sobre aquele período.


"Essa era uma missão dada pelo próprio Pai de Todos." O Curupira continuou.


"Não foi uma brincadeira."


"Não foi uma maldade aleatória."


"Não foi um capricho divino."


Jaha puxou ar.


"Mas Loki…" Ele começou, e a frase morreu porque o nome sozinho já carregava o resto.


O Curupira completou por ele.


"É o deus da mentira." Ele disse: "Eu sei."


"E vocês estão pensando exatamente o que todos pensaram quando souberam que ele seria enviado."


Zao Tian não se segurou.


"Então por que Odin mandaria Loki para uma missão tão crucial como essa?" Ele perguntou.


A pergunta saiu com uma raiva contida, porque ela parecia a própria definição de contradição.


Se Odin queria evitar o fim, por que mandar a pessoa mais associada ao desvio?


O Curupira respondeu sem demora, como se essa pergunta tivesse sido feita mil vezes desde aquele dia.


"Porque ele era o único que podia fazer aquilo." Ele disse.


A frase provocou um silêncio diferente, de resistência.


Zao Tian sentiu que a mente do grupo inteiro tentava rejeitar a resposta antes mesmo de analisar.


O Curupira não tentou convencer pelo tom. Ele explicou pelo mecanismo.


"Zaki precisava ser acompanhado de perto." Ele disse.


"De verdade."


"Não por visitas ocasionais."


"Não por relatórios distantes e periódicos."


"De perto."


Jaha franziu a testa e perguntou: "Vocês não tinham outros meios?"


O Curupira respondeu.


"Nós tínhamos vigilância." Ele disse.


"Tínhamos observação."


"Mas Zaki não era qualquer um."


"Ele era discípulo de Gold."


"Ele estava crescendo em um ritmo que fazia até deuses considerarem a possibilidade de que ele tocaria o mesmo limiar."


Zao Tian sentiu a boca secar ao escutar aquilo, porque aquilo implicava que Zaki poderia, em algum momento, escapar da própria capacidade do panteão de intervir.


"E Odin não queria intervir tarde." O Curupira continuou.


"Ele queria intervir antes."


"Com um laço."


"Com uma proximidade."


"Com alguém que pudesse falar com Zaki todos os dias e perceber uma mudança antes dela virar irreversível."


Jaha engoliu seco naquele momento, porque, ouvindo assim, o Curupira, ou melhor, Odin, tinha alguma razão.


"E por que Loki?" Ele insistiu mesmo assim, porque ele precisava de uma resposta clara.


O Curupira respondeu com a peça que tornava a escolha inevitável.


"Porque Loki era o único que podia estar ao lado de Zaki o tempo inteiro… sem que isso parecesse uma prisão e sem que ele percebesse."


Zao Tian franziu o cenho.


"Sem parecer uma prisão?" Ele repetiu.


O Curupira assentiu.


"Sim." Ele disse: "Porque se Odin colocasse um guardião aberto ao lado de Zaki, Zaki teria rejeitado."


"Ele era leal."


"Ele era justo."


"Mas ele não era obediente ao panteão."


"Ele era obediente ao caminho dele."


"Se ele sentisse qualquer forma de controle, ele se afastaria."


Jaha ficou quieto, pois aquilo fazia sentido. E era exatamente isso que tornava tudo pior.


"O Pai de Todos precisava de alguém que soubesse se mover sem ser visto como um perseguidor ou fiscal." O Curupira continuou: "E Loki era isso."


Zao Tian apertou os dedos.


"Por ser manipulador." Ele disse.


O Curupira não negou, mas alterou a afirmação.


"Por ser capaz de mentir." Ele disse: "E por ser capaz de manter alguém seguro usando ferramentas que não parecem ser as melhores."


Jaha fez a pergunta que vinha logo atrás.


"Ferramentas como quais?" Ele perguntou.


O Curupira respondeu com a palavra que, para eles, agora, tinha virado uma espécie de maldição recorrente no presente.


"O Domínio da Miragem Eterna." Ele disse.


O grupo endureceu.


Zao Tian sentiu um impulso de raiva.


A Miragem Eterna, naquele momento da guerra deles, era um dos maiores problemas que existiam.


Era o instrumento que a Trindade estava usando para se mover, para ver, para desaparecer e reaparecer, para construir uma sombra em cima da realidade.


Saber que aquilo tinha sido de Loki era uma coisa. Contudo, saber que Odin tinha usado isso como ferramenta de vigilância era outra.


"Esse maldito tesouro…" Zao Tian começou.


O Curupira completou.


"Era de Loki." Ele disse: "E, na época, era o único meio de acompanhamento absoluto sem uma interferência aberta."


"Com a Miragem, Loki podia estar presente sem aparecer."


"Ele podia observar sem entrar no caminho."


"Ele podia acompanhar sem impor o peso de uma presença constante."


"Ele podia seguir Zaki de planeta em planeta, de conflito em conflito, sem deixar rastro."


Jaha, então, estreitou os olhos e cogitou: "E se fosse necessário…"


O Curupira assentiu, e completou: "Ele podia controlar." 


"Ele podia gerar um nível de influência que nenhum outro deus era capaz."


"Palavras certas antes da decisão errada."


"Uma amizade no momento em que a solidão vira uma brecha."


"Uma presença que impede que outra presença, dessa vez, ruim, se instale."


Ele deixou a frase ficar no ar, e a implicação dela se formou sozinha.


Odin não queria que alguém fizesse a cabeça de Zaki. Então ele mandou alguém para ocupar esse espaço.


Só que o alguém escolhido foi Loki.


Jaha apertou a mandíbula e comentou, sem maldade: "Por melhor que fossem as intenções, isso não muda o que aconteceu." 


A frase saiu como um aviso, como se ele se recusasse a deixar aquela revelação virar uma tentativa de absolvição.


Zao Tian concordou sem dizer nada.


O Curupira não discutiu.


"Eu não estou tentando mudar o que aconteceu." Ele disse: "Eu estou te dizendo o que motivou o começo."


Ele olhou para Zao Tian.


"Vocês sempre acharam que Loki se aproximou por maldade."


"Que ele viu Zaki como uma ferramenta."


"Que ele quis recuperar o controle dos deuses."


Ele fez uma pausa curta, e então afirmou: "E não é assim que tudo começou."


O grupo ficou quieto.


Zao Tian sentiu um incômodo que não era alívio. Era a sensação de que a história estava puxando um tapete embaixo do que eles usaram como certeza por tempo demais.


"Então Loki foi… um zelador." Jaha disse aquilo, e a frase saiu quase com nojo, porque ela parecia incompatível com a história conhecida por eles.


O Curupira escolheu outra palavra, e respondeu: "Um vigia."


"E um amigo." Ele finalizou.


A palavra amigo, envolvendo aqueles dois seres, parecia perigosa. Perigosa demais.


Zao Tian sentiu a garganta apertar de novo, e teve que perguntar: "Amigo de verdade?"


O Curupira não respondeu com certeza absoluta.


Ele respondeu com honestidade.


"No começo, era uma missão." Ele disse, antes de completar: "Depois… as coisas ficam menos simples."


Jaha, ao escutar aquilo, respirou fundo, como se tentasse segurar a avalanche de perguntas, e escolheu uma.


"Se era uma missão, então Odin confiava em Loki." Ele disse.


O Curupira concordou.


"O Pai de Todos confiava na utilidade dele." Ele respondeu.


"Não na pureza."


"Não em moral."


"Ele confiava na capacidade."


Ele olhou diretamente para Jaha e avisou: "Se vocês querem entender o Pai de Todos, entendam isso."


"Ele não escolhia as ferramentas pelo que elas diziam ser."


"Ele escolhia pelo que elas conseguiam fazer quando as coisas apertavam."


Zao Tian ficou quieto, pois a frase era nojenta, mas coerente. E coerência, naquele contexto, era o que mais assustava.


"Então Loki esteve ao lado de Zaki o tempo inteiro." Zao Tian disse, como uma conclusão pesada.


O Curupira confirmou.


"Sim." Ele disse.


"Esteve vigiando."


"Zelando para que ele não caísse em tentação."


"Impedindo que o risco crescesse sem controle."


Jaha, entretanto, soltou o ar devagar e disse: "E mesmo assim… ele caiu." 


A frase veio baixa, mas carregada de frustração, porque ela mostrava que o plano falhou do jeito mais cruel possível.


O Curupira não negou o fracasso.


"Sim." Ele disse: "E é por isso que a história de vocês olha para Loki como olha."


Zao Tian sentiu o impulso de perguntar logo a parte que doía mais, mas ele segurou.


Ele sabia que, se perguntasse com raiva, ele só ia receber raiva de volta.


Então ele falou com uma dureza controlada.


"Você está dizendo que Loki não queria destruir Zaki… e ainda assim destruiu." Zao Tian disse.


O Curupira assentiu.


"Eu estou dizendo que as coisas mudaram no meio." Ele respondeu: "E quando coisas assim mudam… as intenções podem continuar iguais e o resultado ainda assim virar um desastre."


Jaha franziu a testa.


"Como isso mudou?" Ele perguntou.


O Curupira olhou para ele, e por um instante pareceu escolher o ponto exato onde a história deveria continuar sem quebrar o ritmo.


"Porque o Pai de Todos não estava lidando com um inimigo claro." Ele disse.


"Ele estava lidando com uma possibilidade."


"Com um futuro possível."


"Com risco oculto."


Ele respirou.


"E o risco não é um objeto que você segura na mão."


"O risco é uma coisa que escapa pelas frestas."


Zao Tian sentiu o peso dessa forma de enxergar as coisas. E ele lembrou da palavra que o Curupira tinha usado antes…


Conduzido.


E, naquela palavra, existia uma pista do que viria.


"Odin mandou Loki para ocupar o espaço que outra influência poderia ocupar." O Curupira continuou.


"Para manter Zaki estável."


"Para impedir que alguém o tocasse com uma narrativa errada."


"Mas ninguém previa todos os atores."


Zao Tian apertou os dedos.


"Nem Heimdall previa." Ele murmurou, mais para si do que para os outros.


O Curupira assentiu.


"Nem Heimdall." Ele disse: "Nem o Pai de Todos."


Jaha ficou quieto por um instante, pensando e digerindo tudo.


Então ele falou algo que parecia pequeno, mas era importante para manter a conversa honesta.


"Então existiram vários monitorados… e vocês não mataram nenhum." Ele disse.


O Curupira confirmou.


"O Pai de Todos não matou nenhum da criação naquele período." Ele respondeu: "E isso é parte do que torna tudo mais complexo."


Zao Tian ergueu o olhar.


"Complexo como?" Ele perguntou.


O Curupira respondeu, com uma calma difícil de existir.


"Porque ele podia." Ele disse: "E ele não fez."


Essa frase atravessou o grupo na mesma hora.


Ninguém gostava de Odin, mas reconhecer que ele tinha poder para esmagar tudo e escolheu não esmagar… criava um problema moral que a criação não queria ter que enfrentar.


"E isso não significa que ele era bom." O Curupira completou, como se adivinhasse o que Zao Tian estava prestes a pensar: "Significa que ele estava tentando segurar uma linha que ele mesmo não sabia se conseguiria segurar."


Zao Tian permaneceu quieto.


Por dentro, a mente dele já estava voltando ao mesmo lugar.


Luz.


Relatórios.


Risco.


Zaki.


Loki.


A sensação de que tudo isso, no fim, era só o prelúdio do que eles estavam vivendo agora era impossível de não existir.


Jaha, por sua vez, puxou a conversa de volta para o ponto que importava.


"Então, se Zaki era o maior potencial, e Loki foi enviado para manter ele no caminho…" Ele disse, e então pausou por alguns segundos, antes de completar a pergunta: "E a história que a criação conhece é que Loki fez a cabeça dele… então onde isso quebrou?"


O Curupira olhou para Jaha.


Depois olhou para Zao Tian.


E a resposta dele veio num tom que não era de suspense, nem de espetáculo.


Era de uma constatação pesada.


"Quebrou quando a missão virou um vínculo." Ele disse.


"Quebrou quando a vigilância virou convivência."


"Quebrou quando Loki começou a acreditar que podia guiar Zaki melhor do que o próprio caminho que ele seguia."


Zao Tian sentiu a raiva subir. Ele segurou, mas sentiu.


"E quebrou…" O Curupira continuou: "Quando o Pai de Todos começou a desconfiar de todo mundo, inclusive das próprias ferramentas."


O grupo ficou quieto, pois essa última frase parecia abrir uma porta para uma sequência de eventos maiores, porque agora não era só Loki falhando.


Era o sistema inteiro se corroendo por dentro.


"E isso foi antes do panteão desandar." Zao Tian disse.


O Curupira assentiu.


"Foi no início do desandar." Ele respondeu: "E vocês só viram o resultado final porque a história de vocês é feita de cicatrizes, não de bastidores."


Jaha ficou em silêncio.


Zao Tian também.


Por um momento, o grupo todo pareceu entender que a revelação de Loki não era uma absolvição, nem uma desculpa, nem um perdão. Era só uma forma de mostrar o quão desesperado o universo tinha ficado quando o Pai de Todos viu um futuro que ele não conseguiu aceitar. E, no centro desse desespero, alguém como Zaki virou o foco.


Não porque era mau, mas porque tinha potencial demais para sobreviver a uma mentira.


Zao Tian bufou, antes de dizer: "Então Odin tentou impedir o fim… mantendo perto dele quem poderia se tornar o fim."


O Curupira não negou.


"Sim." Ele respondeu: "E esse é o tipo de ironia que destrói mundos."


O grupo ficou preso no peso dessa frase, porque, naquele instante, o passado tinha parado de ser só passado. Ele tinha se transformado em uma engrenagem que ainda girava, e o som dessa engrenagem estava apontando para um único lugar.


A mesma luz.


A mesma palavra.


O mesmo medo.


E o mesmo detalhe inevitável que Zao Tian não disse em voz alta, mas sentiu como se fosse uma sentença sendo escrita em silêncio.


Se Odin apostou em Gold como equilíbrio, e apostou em Loki como contenção, e ainda assim o universo chegou onde chegou…


Então o problema nunca foi apenas um nome. Foi a própria existência de um caminho capaz de tocar o fim.


E em Zao Tian… esse caminho continuava vivo.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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