Capítulo UHL 1199 - O Reino Que Surgiu Por Acaso
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Tenham uma boa leitura!]
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O Curupira ouviu o último pensamento cair e não o corrigiu.
Ele deixou o grupo ficar com aquilo por um instante.
Uma ideia, e não uma mentira.
Era como se fosse necessário aceitar esse detalhe antes de tentar entender o resto, porque, a partir dali, a história deixava de ser simples o bastante para caber em um vilão.
Depois de absorver aquilo, Jaha foi o primeiro a puxar o fio novo, com a objetividade de quem se recusa a deixar o passado virar uma névoa.
"E Odin?" Ele perguntou: "Como ele reagiu a isso?"
"Como ele viu dois seres daquele tamanho construindo um projeto com esse tipo de alcance… e não percebeu que era perigoso?"
Zao Tian manteve a expressão dura.
Ele não gostava de onde aquela pergunta ia levar.
Ele não gostava de imaginar o Pai de Todos como alguém que “deixou passar”.
O Curupira respondeu sem pressa, mas sem evasão.
"Ele percebeu o perigo." Ele disse.
Aquela simples frase tirou do ar a hipótese de ingenuidade.
"O Pai de Todos previa cenários." O Curupira continuou: "Vários cenários."
"Alguns eram ruins."
"Alguns eram suportáveis."
"Alguns pareciam ser a única forma de impedir um resultado pior."
Ele olhou para o grupo.
"E, na mente dele… o risco não era algo que se elimina."
"Era algo que se cerca."
Jaha franziu a testa.
"Cerca… como?" Ele perguntou.
O Curupira respondeu com um conjunto de certezas que, ao mesmo tempo, explicavam e deixavam um gosto amargo.
"Enquanto estivesse acordado, o Pai de Todos acreditava que podia conter Zaki, se fosse necessário." Ele disse: "Seja como um capataz ou como um limite."
"E ele também acreditava em outra coisa…"
Ele deixou a pausa durar o suficiente para o grupo sentir o que vinha.
"Ele acreditava que Gold estava atento."
A menção de Gold, naquele ponto, mudou o ar.
Jaha sentiu isso.
Zao Tian sentiu isso.
Todos sentiram.
"O Pai de Todos sabia o que Zaki era." O Curupira continuou: "Um discípulo de Gold."
"Alguém criado pelo caminho de Gold."
"E alguém ainda longe do nível do próprio mestre."
Ele sustentou o olhar em Zao Tian, como quem entrega uma peça de xadrez que muda a leitura do tabuleiro.
"E, se Zaki saísse da linha… ele estaria sob os olhos do Pai de Todos, mas ele também estaria sob os olhos de Gold."
Jaha ficou quieto.
Zao Tian sentiu um impulso de raiva nascer, mas esperou.
O Curupira não suavizou.
"Naquela época… O Pai de Todos vigiava." Ele disse, antes de acrescentar: "E acreditava que Gold também vigiava."
Ele fez uma pausa.
"Não de forma declarada."
"Não como um tutor que anda atrás."
"Mas ele estava atento a qualquer tendência tirânica do discípulo."
Jaha suspirou.
"E Odin confiava que Gold faria o certo." Jaha concluiu.
O Curupira assentiu.
"Confiava." Ele respondeu.
A palavra caiu no meio do grupo como algo sujo.
Confiava.
A confiança de um deus em um humano.
A confiança de um humano em um humano.
E, dentro disso, a sugestão implícita de que alguém, em algum ponto, falhou.
Com isso, o silêncio apertou de novo, só que desta vez não era o medo do fim.
Era uma tensão moral.
Zao Tian sentiu o incômodo se formar como um espinho debaixo da unha.
E ele não aceitou escutar aquilo.
"E daí?" Ele disse, e a voz dele veio muito firme: "Então a culpa é de Gold?"
Ele olhou para o Curupira, com raiva, e descarregou: "A ideia é essa? Que o homem mais próximo de Zaki falhou com ele?"
Ao escutar aquilo, Jaha abriu a boca para falar, mas Zao Tian não deu espaço ainda. Porque aquilo tocava em um ponto que ele não aceitava por princípio.
"Zaki era adulto." Zao Tian continuou: "Um homem com mais de um milênio de vida, pelo menos."
"Ele não precisava de uma babá."
Ele apenas deixou a frase sair do jeito que era.
"Se alguém falhou nessa história… foi Zaki."
A afirmação se assentou com a dureza que ele julgava ser necessária.
"Ele deixou Loki se aproximar." Zao Tian disse: "Ele aceitou um deus como confidente."
"E, se isso tudo é real… ele caiu por vontade própria em algum ponto."
Ninguém contestou Zao Tian.
E nem foi porque concordavam em tudo, mas porque entendiam o instinto.
Zao Tian não suportava a ideia de reduzir um monarca milenar a uma vítima das circunstâncias.
O Curupira também não parecia interessado em salvar ninguém, então, ele apenas respirou, como quem separa a explicação da absolvição.
"Eu não disse isso para isentar Zaki." O Curupira falou, e então acrescentou, olhando diretamente para Zao Tian: "Nem para isentar Loki."
Daquela forma, ele manteve o tom no lugar certo.
"Eu disse isso para explicar por que o Pai de Todos deixou aquilo continuar."
"Porquê ele não cortou no início."
"Porquê ele aceitou a construção como uma possibilidade."
Nesse momento, Jaha finalmente interveio, não para discutir o mérito de Zao Tian, mas para impedir que a conversa se quebrasse por causa do tom.
"Ele está contando como os envolvidos pensavam." Jaha disse para Zao Tian, com calma: "Não é opinião dele."
Zao Tian apertou a mandíbula e olhou com insatisfação para Jaha.
Depois olhou para o Curupira. E soltou o ar devagar, como quem recolhe a própria raiva antes que ela se transformasse em uma arma contra a pessoa errada.
"Eu sei." Zao Tian disse.
A frase saiu curta.
Ele então olhou para o Curupira e falou com uma firmeza mais controlada.
"Me desculpa."
O Curupira assentiu, e, por um instante raro, pareceu aliviado por não ser transformado em um alvo.
"Obrigado." Ele disse, e então colocou a distância necessária entre os próprios pensamentos e os pensamentos que ele estava narrando.
"As opiniões do Pai de Todos… de Loki… de qualquer um nessa história… não refletem as minhas." Ele afirmou: "Eu só estou descrevendo a lógica que eles usaram."
Zao Tian assentiu, mais calmo agora.
"E como isso começou?" Ele perguntou: "Como Zaki e Loki deram início a esse projeto?"
O Curupira respondeu, e a resposta veio com um detalhe que parecia pequeno, mas mudava o peso do que estava sendo construído.
"Com sutileza." Ele disse: "Zaki começou no Reino da Luz."
Assim que foi dita, a frase acendeu uma curiosidade imediata em Jaha, porque o Reino da Luz era uma dessas coisas que a história sempre citava como se todos já soubessem, mas quase ninguém tinha visto de perto.
"O Reino da Luz…" Jaha repetiu. E depois ele franziu a testa, incomodado pela própria ignorância: "Ele é mencionado o tempo inteiro, mas poucos tiveram contato direto."
"Como ele surgiu, de verdade?"
O Curupira pareceu aceitar a pergunta como algo necessário, como se não fosse possível falar do projeto sem desenhar o cenário onde ele nasceu.
"Por acaso." Ele disse.
A resposta surpreendeu.
Por acaso.
Como uma coisa tão grande nasce por acaso?
O Curupira prosseguiu.
"Por causa de Gold." Ele disse.
"Gold se instalou em uma região de Decarius."
"Nada grandioso."
"Nada planejado."
"Ele só… ficou."
Zao Tian ouviu aquilo com uma sensação estranha, porque conhecia bem a maneira como o universo insistia em criar lendas em torno de alguém que só queria silêncio.
"E aí os peregrinos começaram." O Curupira continuou.
"Gente indo até lá para vê-lo."
"Para tentar falar com ele."
"Para tentar entender como alguém que humilhou o panteão respirava, como se vestia, como olhava para o céu."
Jaha absorveu, atento.
"Alguns queriam fé." O Curupira disse.
"Outros queriam proteção."
"Outros queriam proximidade com o maior poder conhecido."
Ele fez uma pausa.
"E muitos… só queriam morar perto dele."
Zao Tian ergueu a sobrancelha.
"Morar?" Ele repetiu.
O Curupira assentiu.
"Ele sentiam-se seguros." Ele disse: "É simples."
"Se o homem mais poderoso e famoso do universo está ali… ninguém vai atacar."
"Ninguém vai invadir."
"Ninguém vai arriscar."
A lógica daquelas palavras era feia, mas funcional.
O Curupira continuou.
"Primeiro surgiu um pequeno assentamento."
"Depois virou uma aldeia."
"Depois uma cidade."
"E, sem que Gold quisesse… virou uma nação."
Jaha, ao escutar, ficou preso no detalhe.
"Sem que ele quisesse..." Ele repetiu, como se tentasse imaginar isso.
O Curupira assentiu.
"Gold nunca foi um líder daquele povo." Ele disse.
"Ele nunca organizou um governo."
"Ele nunca criou leis."
"Ele nunca chamou ninguém de súdito."
"Contudo, a luz mais poderosa de todas… deu nome a um reino."
A frase tinha ironia, e o Curupira não tentou esconder isso.
"Reino da Luz." Ele disse.
"Organizado sem a participação dele, mas sob a figura dele."
Zao Tian sentiu uma vontade de rir quando escutou aquilo.
Aquele era o tipo de tragédia cômica que o universo costuma inventar.
Alguém que quer paz e isolamento… E o mundo inteiro decide construir uma nação em volta dele.
Isso é cruel e engraçado ao mesmo tempo.
"E não foi pouca gente." O Curupira continuou: "Com o tempo, aquilo ficou grandioso. E, obviamente, sem qualquer ameaça de guerra."
Ele olhou para o grupo.
"Com Gold lá, mesmo que como residente… ninguém teria coragem de atacar."
Jaha franziu a testa, interessado em um detalhe que sempre voltava na história.
"E os discípulos?" Ele perguntou: "Gold treinava alguém?"
O Curupira assentiu.
"Quando ele gostava de alguém… ele treinava um ou outro." Ele disse.
"Poucos."
"Quase sempre por impulso."
"Mas quase nenhum aguentava."
Zao Tian entendeu antes da frase terminar, porque ele sabia, na pele, o que o Curupira queria dizer.
O Curupira apenas completou o que ele já sabia.
"Digamos que o regime de treinamento dele era… desumano."
"Doloso."
"Interminável."
"Praticamente impossível."
Jaha respirou com um desconforto quase divertido, porque aquelas palavras traziam recordações.
"Isso eu consigo imaginar." Ele concordou.
O Curupira não sorriu, mas aquela história permitia uma ironia discreta.
"E eles construíram até um palácio para ele." Ele disse.
"Sem pedir."
"Sem consultar."
"Como se fosse natural que o maior ser vivo da criação tivesse um trono."
Naquele momento, Zao Tian fechou a cara, pois Gold e um trono simplesmente não combinavam.
"Ele se recusou a morar lá." O Curupira continuou, antes de afirmar: "E ficou na casa simples dele."
E então veio o detalhe que parecia pequeno, mas que dava cor ao absurdo.
"Até que um dia… ele teve um pesadelo."
O grupo ficou atento.
"O que aconteceu?" Jaha perguntou.
O Curupira respondeu.
"Ele destruiu a própria casa sem querer." Ele disse: “Com um impulso de energia. Um reflexo."
Zao Tian sentiu a imagem se formar nitidamente na sua mente.
Gold acordando.
A luz saindo.
A casa virando pó.
O Curupira, por sua vez, prosseguiu.
"Depois disso, ele ficou alojado no palácio por um tempo."
"Por necessidade."
"E foi ali que algo que ninguém previu aconteceu."
Jaha ergueu a sobrancelha.
"Ele… gostou?" Ele perguntou.
O Curupira respondeu.
"Ele fez amizade com os empregados." Ele disse: "E, com o tempo, passou a frequentar o lugar."
"Não como rei, mas como alguém que achou um pequeno refúgio humano em meio ao peso de ser… quem ele era."
Zao Tian sentiu um incômodo naquele momento.
Não era pena. Era o reconhecimento de que até monstros de poder têm momentos de vulnerabilidade.
"Mesmo com ele indo lá com frequência, a política do Reino da Luz acontecia sem a participação dele." O Curupira continuou, antes de contrapor: "Mas os amigos dele… apareciam de vez em quando."
"Daren."
"Yang Zai."
"Halfkor, o Rei Esmeralda."
"Moira."
"E outros."
Ele não descreveu cada um. Só entregou o suficiente para mostrar que, quando visitavam Gold, eles acabavam ajudando aquele povo a se organizar, nem que fosse por influência e exemplo.
"Quando eles passavam por ali… resolviam um problema aqui, uma disputa ali." O Curupira disse.
"Sem tomar o reino como deles."
"Sem impor."
"Era só… uma manutenção de estabilidade."
Jaha absorveu tudo.
Zao Tian também.
Aquilo explicava porquê o Reino da Luz sempre teve uma aura de centro do mundo, mesmo sem ter sido fundado por decreto.
"O nome daquele lugar só ganhou sentido de verdade depois." O Curupira continuou: "Quando Zaki sobreviveu aos treinamentos de Gold."
A frase fez o ar mudar, porque sobreviver ao treino de Gold era, por si só, um tipo de coroação.
"Ele se tornou uma potência." O Curupira disse: "Um nome. Um farol para a criação."
Depois veio a conclusão que fechava o círculo: "E foi Zaki quem deu forma ao reino."
Zao Tian ficou imóvel.
Jaha também.
"Ele foi o verdadeiro gestor." O Curupira completou: "O grande rei."
"Foi por isso que ele foi coroado como o Monarca da Luz."
O silêncio caiu no grupo, só que dessa vez não era contenção de medo. Era a sensação de que a história estava se rearrumando de novo. Porque o Reino da Luz, que parecia um pano de fundo, era na verdade o primeiro palco.
O lugar onde a ideia de paz começou a ter corpo.
Um corpo que tinha nome.
Zaki.
E a pergunta que ficou presa, sem ser dita, era simples demais e assustadora demais.
Se aquilo nasceu por acaso, em torno de Gold…
Então o projeto de Loki e Zaki não surgiu do nada.
Ele surgiu de um lugar real, existente, protegido, admirado.
Um lugar onde a criação já estava predisposta a acreditar.
E, quando a criação está predisposta a acreditar, a diferença entre o símbolo e a idolatria fica pequena demais para ser vista antes de ser tarde.
