Capítulo UHL 1203 - Entre a Desolação e o Ódio
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A palavra “marca” nunca fez justiça ao que existia no rosto de Gold.
Zao Tian sempre soube disso, mesmo antes de entender o porquê.
Ele cresceu vendo aquela cicatriz no rosto de seu mestre como se fosse parte do próprio conceito de Gold, como se o universo tivesse desenhado aquela linha ali para que ninguém confundisse o que era força com o que era ferida.
E agora, ouvindo o Curupira contar o instante em que aquilo nasceu, Zao Tian sentiu uma espécie de vertigem interna. Porque, de repente, a cicatriz deixou de ser um detalhe.
Ali, ela virou uma cena.
Ela virou um som.
Ela virou uma escolha.
Zao Tian viu aquela imagem na própria cabeça, tão nítida que chegou a doer: Zaki se atirando, a lâmina subindo, o movimento desesperado, e, no fim, o sangue no rosto do homem que devia ser intocável.
Zao Tian conheceu Gold com quinze anos.
Naquela época, Gold já não tinha um corpo físico. E ainda assim, a cicatriz estava lá.
Mesmo como espírito, ele carregava aquele corte como se fosse uma coisa material, como se a própria alma dele tivesse sido talhada e decidido manter o talho visível.
Zao Tian, com o tempo, soube que aquilo tinha sido feito por Zaki.
Ele nunca soube dos detalhes.
Nem se importava em saber.
Ele sempre tratou isso como um fato frio, como se fosse apenas a origem de um traço marcante num rosto já marcado por tantas outras coisas.
Até aquele momento, ele nunca soube a história real.
Ele nunca soube que a espada subiu por causa de Loki.
Ele nunca soube que Zaki levantou uma lâmina contra o próprio mestre para proteger um deus.
E, agora que sabia… o que ele sentiu não foi apenas revolta.
Foi desolação.
Foi a sensação de que algo dentro dele estava tentando se reorganizar e falhando, porque a mente não consegue encaixar uma traição desse tamanho num homem que, por tantos séculos, foi tratado como um símbolo.
Zao Tian ficou em silêncio enquanto o Curupira terminava o relato, mas por dentro, ele se mexia.
Não com palavras, e sim com um tipo de inquietação física.
Era como se a pele ficasse quente demais. Como se o peito apertasse. Como se o sangue pedisse um gesto para voltar a circular.
Então… ele pensou na primeira vez que viu aquela cicatriz de perto.
Ela sempre pareceu como uma marca que não combinava com uma vitória.
Ela não tinha aquele ar de batalha vencida. Não tinha o gosto de um troféu.
Aquela cicatriz… Nunca foi uma ostentação.
Gold nunca a tratou como um enfeite.
Ele não a usava para intimidar.
Ele não a exibia para lembrar aos outros do que era capaz.
Ele simplesmente… A deixava ali.
Como se fosse um preço. Como se fosse uma lembraça que ele não queria esquecer, mesmo odiando lembrar.
Zao Tian sempre achou aquela cicatriz estranha, porque Gold podia remover aquilo quando quisesse.
Gold podia apagar qualquer coisa.
Podia reconstruir a carne. Podia reconstruir o espírito. Podia apagar os traços de dor do jeito que se apaga a poeira de uma roupa.
Mas ele não apagou.
Ele escolheu carregar. E, agora, Zao Tian entendeu.
Aquela marca não estava no rosto.
Nunca esteve.
Ela estava em algum lugar mais interno. Mais profundo.
Em um canto onde nem a força do mais poderoso de todos alcançava.
A cicatriz era uma vergonha. Era uma decepção. Era um aviso para si mesmo.
Aquela marca era o símbolo de um instante em que Gold descobriu que, mesmo sendo o mais forte, ele podia ser ferido por um motivo que nenhum inimigo conseguiria reproduzir.
Não foi um ataque que o machucou.
Foi um filho.
Foi alguém que ele treinou.
Foi alguém que ele escolheu.
Foi alguém que ele deixou falar primeiro.
E essa parte doeu em Zao Tian com uma violência brutal.
Porque a honra que Gold ofereceu a Zaki, naquele começo, agora parecia uma lâmina se voltando contra ele.
Gold confiou.
Gold deu o benefício da dúvida.
Gold abriu um espaço que ele não abria para ninguém.
E, no fim, ele teve o rosto cortado justamente por quem ele não tinha vontade de revidar.
Zao Tian sentiu pena naquele momento.
Pena de verdade.
Uma pena amarga e cheia de raiva junto.
Ele não gostava de sentir pena de Gold. Era como se o próprio conceito fosse ofensivo, como se fosse errado olhar para aquele ser e enxergar fragilidade.
Contudo, não era uma fragilidade.
Aquilo era a parte humana que Gold odiava admitir que ainda existia nele.
Era o ponto onde o poder não resolve as coisas.
O Curupira ainda estava ali, quieto, mas Zao Tian mal o ouvia agora, porque, dentro dele, o silêncio tinha outra coisa e direção.
Tinha Gold.
Gold, desde o começo, não dizia nada.
Ele não interferia.
Ele não reclamava de estar sendo exposto.
Talvez, ele tivesse reconhecido que aquele era o momento que inevitável aconteceria. O momento em que sua história seria revelada.
Ele deixou isso acontecer. E, mesmo assim, parecia que a presença dele tinha ficado mais pesada, como se o próprio espírito estivesse tentando encolher-se para caber em um lugar onde ninguém pudesse tocar nesse assunto.
Zao Tian apertou a mandíbula com tanta força que parecia que ia trincar os dentes.
Ele imaginou o que Gold deve ter sentido naquele momento.
Não o corte em si. Não o sangue. Mas o que o corte significava.
O que o corte dizia…
Zaki preferiu Loki.
Zaki, diante do mestre e contra o mestre, defendeu um deus.
Zaki não só caminhava com o panteão, mas tinha coragem de pedir que aquele panteão se apresentasse na frente de Gold, como se o passado de Gold fosse só um detalhe incômodo.
Zao Tian sentiu uma espécie de náusea naquele momento. E, junto dela, uma tristeza bruta.
Gold deve ter perdido o chão.
Não por medo, mas por desorientação. Por descobrir que a pessoa mais próxima dele estava devolvendo tudo pelo que ele lutou, com as próprias mãos, para as mesmas forças que destruíram o mundo dele.
Gold fez tudo o que fez.
Ele humilhou os deuses.
Ele matou deuses.
Ele rompeu a hegemonia divina.
Ele abriu uma fenda na história para que a criação respirasse.
E, no fim… O discípulo que sobreviveu ao treino dele, o discípulo que virou um monarca, o discípulo que deveria ser a continuidade, estava trazendo os deuses de volta para dentro da casa que ele reconstruiu.
Zao Tian não tinha como mensurar aquilo.
Mas ele tinha como sentir.
Ele tinha como sentir a derrota emocional. Sentir o peso de uma esperança quebrando. Sentir o momento exato em que alguém decide que nunca mais vai confiar em ninguém.
E aquela cicatriz… Era o registro definitivo.
Não na carne.
Na alma.
Zao Tian entendeu, naquele segundo, que Gold levou aquela marca para sua essência. Para um lugar nas memórias que ele jamais apagaria. E isso explicava porquê Gold não falava disso.
Não era só arrogância.
Não era só desprezo.
Era porque, se ele falasse… Ele teria que olhar para aquilo por dentro. E Gold não aceitava que ninguém visse uma fraqueza nele, nem ele mesmo.
Zao Tian respirou fundo, e o ar que entrou arranhou o peito.
Ele sentiu o coração bater com uma força desordenada.
E, de repente, a pena virou outra coisa.
Virou ódio.
Um ódio profundo por Zaki.
Um ódio que não vinha só do ato, mas do simbolismo do ato.
Porque Zaki, naquele dia, não cortou apenas um rosto.
Ele cortou uma história.
Ele cortou uma confiança que o próprio Zao Tian luta para conseguir.
Ele cuspiu na mão que o levantou do chão quando ele não era nada.
Naquele momento, Zao Tian ouviu, dentro da própria cabeça, todas as comparações que já escutou ao longo da vida.
Zaki isso.
Zaki aquilo.
Zaki como referência.
Zaki como modelo.
Zaki como o que ele deveria imitar.
Às vezes, antes, Zao Tian aceitava a ideia de pegar o que havia de bom naquele homem e evitar o que havia de ruim.
Ele não queria repetir erros.
Ele queria aprender com a história.
Contudo, depois de escutar aquela parte da história… Até o que havia de bom em Zaki ficou contaminado.
Tudo que envolvia o nome dele ficou repulsivo.
Porque o bom, naquele contexto, tinha sido usado como uma desculpa. Como uma justificativa. Como um brilho falso para cobrir a pior decisão possível.
Zao Tian sentiu o próprio corpo agitar com uma intenção indescritível.
Ele queria distância do nome Zaki.
Ele queria distância das comparações. Distância de qualquer elogio que tentasse colocar os dois na mesma categoria só porque tiveram o mesmo mestre em épocas diferentes.
A ideia de ser associado a ele, naquele instante, parecia suja.
Parecia uma ofensa.
Zao Tian apertou os punhos, e o som dos seus ossos rangendo sob pressão foi discreto, mas real.
Jaha percebeu.
Ming Xue percebeu.
Todos perceberam que a reflexão estava virando tempestade dentro dele.
E o Curupira, quieto, apenas observava.
Sem interromper. Como se soubesse que aquilo precisava acontecer.
Zao Tian, então, escutando uma história que não era dele, entendeu algo sobre si mesmo.
Ele se sentiu ainda mais ligado a Gold.
Não por idolatria, mas por reconhecimento. Por ver, finalmente, que aquele homem não era feito apenas de força.
Ele era um sobrevivente de uma perda que nenhum poder apaga.
E, ao mesmo tempo, Zao Tian jurou ali mesmo, sem dizer em voz alta, que jamais seguiria os passos de Zaki.
Jamais.
Não importava o quanto tentassem convencê-lo de que havia virtude ali.
Não importava o quanto apontassem o Reino da Luz como prova de que Zaki “quis o bem”.
Porque, na cabeça de Zao Tian, naquele momento, havia uma linha muito clara que não podia ser cruzada.
E Zaki atravessou.
Ele ainda atravessou com uma espada na mão. E o resultado daquela travessia ficou gravado no rosto de Gold para sempre.
Zao Tian não sabia o que Gold fez depois disso.
Ele não sabia como a história se desenrolou. Não sabia onde, exatamente, o caminho de Zaki virou o que virou.
Mas ele sabia uma coisa…
O que aconteceu ali era imperdoável.
E a cicatriz era a prova.
Uma prova do que se perdeu.
Lentamente, vivendo um turbilhão de emoções e promessas feitas em silêncio, Zao Tian levantou o olhar devagar, como se o simples gesto fosse pesado demais.
Depois, ele encarou o Curupira, e a voz dele, quando finalmente saiu, tinha menos raiva do que tinha nojo.
"Continua." Ele disse, mas, por dentro, uma parte dele já tinha decidido que não havia mais espaço para admiração em sua vida. Não havia mais espaço para resgate daquele nome.
Zaki, para ele, deixou de ser um nome histórico e virou um aviso.
Aquele homem se tornou um caminho que não era digno de ser trilhado por ninguém.
Principalmente por ele.
