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Capítulo UHL 1207 - Ambicioso

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Tenham uma boa leitura!]


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O silêncio que veio depois da fala sobre a “areia movediça” não foi vazio.


Foi um tipo de compreensão acumulada, uma compreensão que não dava alívio, apenas forma. Zao Tian e Jaha não disseram nada, mas os dois entenderam ao mesmo tempo o que Zaki tinha causado no público e por que aquilo era tão perigoso. Não era apenas um reino prosperando, e também não era apenas um monarca tomando decisões cada vez mais grandes. Era uma ideia prosperando até virar hábito, era um símbolo crescendo até virar religião, era gente migrando para ficar perto do que chamavam de futuro, era a paz deixando de ser uma escolha íntima e virando um argumento político, e depois virando uma arma que não parecia o que realmente era porque usava palavras bonitas. Aquele era o tipo de processo que nunca começa com sangue, mas termina produzindo sangue sem nem perceber que foi ele quem produziu.


Zao Tian percebeu o mecanismo com um certo nojo, como quem reconhece a estrutura por trás do palco. Jaha percebeu com a precisão de quem enxerga engrenagens e já sabe o que acontece quando alguém decide acelerar um sistema que deveria ser lento. E, por um instante, a mente dos dois girou na mesma direção: Zaki tinha virado um centro gravitacional. Era isso. Um homem que, mesmo quebrado, puxava tudo para si. Puxava poder, puxava fé, puxava medo, puxava obediência, puxava esperança. Só que, ao contrário de Zao Tian, Jaha não conseguia deixar a pergunta óbvia quieta, porque o que estava sendo narrado tinha uma ausência gritante, uma ausência grande demais para ser coincidência.


Jaha ficou olhando para o Curupira por alguns segundos, como quem tenta decidir se vale a pena interromper. Ele sabia que interromper um relato assim era quase um desrespeito, e, mesmo assim, ele também sabia que deixar passar uma lacuna dessas era aceitar que a história continuasse sendo contada com um ponto cego. A inquietação dele não era emocional como a de Zao Tian; era intelectual, quase operacional, como se ele estivesse olhando para um mapa e alguém tivesse apagado uma estrada que, obviamente, existia.


"E Loki?" Jaha então perguntou.


A voz dele não saiu agressiva. Saiu desconfiada, mas também saiu com fome. Havia naquele tom um incômodo que não era só contra Loki; era contra a ingenuidade que ele percebia em qualquer narrativa que tentasse pintar um deus como um amigo sincero de um humano no ponto mais sensível da história. 


Ao perguntar aquilo, Jaha sustentou o olhar no Curupira, sem baixar a cabeça, sem medo de confrontar um deus com uma pergunta simples.


"Zaki mudou." Jaha disse, com um gesto curto do queixo, como se apontasse para tudo o que já tinham ouvido: "Isso está claro. Mas qual foi a parte de Loki nisso tudo? Não tem como acreditar que Loki só estava querendo fazer o bem. Não tem como acreditar que ele só tentava persuadir Zaki a retornar para o caminho certo. O que ele realmente teve de culpa nessa mudança?"


A pergunta caiu como uma lâmina limpa, e dessa vez até Zargoth pareceu prender a respiração. Porque havia coisas que os orcs entendiam melhor do que humanos, e uma delas era a lógica de uma mão escondida que empurra alguém até a beira e depois finge que só estava acompanhando. Shara'Kala também ficou mais imóvel, não por medo, mas porque ela sabia que aquela pergunta era perigosa de se fazer perto de um deus, ainda que aquele deus estivesse ali como prisioneiro de uma narrativa.


O Curupira não se irritou. Ele não pareceu ofendido nem teatralmente ferido. Ele apenas assentiu de leve, reconhecendo o ponto, como quem admite que o caminho que estava narrando tinha, sim, um desvio inevitável. A resposta, contudo, não veio imediatamente como uma acusação; veio como limite pessoal.


"Grande parte do que eu sei sobre a relação de amizade dos dois… vem do que Loki reportava aos deuses." O Curupira disse.


Ele falou "reportava" de um jeito que tirava a palavra do campo da convivência e colocava onde ela realmente pertencia: relatórios, registros, vigilância. Era uma palavra que não combinava com amizade, e o Curupira não tentou fazê-la combinar. 


Ele então continuou, com calma: "Então vocês precisam entender uma coisa… Se Loki estava agindo com segundas intenções, ele não reportava esse tipo de coisa."


A frase não foi dita como uma desculpa. Foi dita como aviso do tipo de material que existe quando a história é escrita por alguém que tem interesse em se esconder dentro dela. Era como se o Curupira estivesse dizendo: eu posso narrar o que foi dito, o que foi mostrado, o que foi registrado. Mas aquilo que acontece nos intervalos, na escolha de cada palavra, no empurrão pequeno, no incentivo sutil, isso não vira documento quando o autor do empurrão é o responsável pelas informações.


Zao Tian assentiu, sem dizer nada. Aquilo fazia sentido, e ao mesmo tempo era exatamente por isso que a história ficava ainda mais perigosa, porque as partes que interessavam à manipulação eram sempre as partes que não apareciam em registros. Quando alguém é inteligente e egoísta, ele não escreve o próprio crime na primeira página do relatório. Ele escreve a justificativa. Ele escreve o resultado. Ele escreve a versão que o torna útil.


Zao Tian, então, falou. Pouco, seco, com a voz controlada, como se ele não quisesse carregar emoção naquele pedido para não transformar aquilo em um confronto.


"Eu concordo." Ele disse.


O Curupira olhou para ele, e Zao Tian continuou, mantendo o rosto firme: "Mas observe o cenário por completo. Dê a sua opinião. Não… dê a sua análise. O que você acha que pode ter acontecido? Qual era o nível de envolvimento de Loki na mudança de Zaki?"


A forma como Zao Tian falou “análise” tirou qualquer possibilidade de uma resposta diplomática. Ele estava pedindo que o Curupira assumisse a responsabilidade intelectual pelo que enxergava, mesmo que não tivesse como provar com documentos. O pedido que ele fez tinha peso, porque vinha de alguém que, segundo o próprio Curupira, já tinha tomado um lado sem perceber. E isso deixava a conversa ainda mais tensa, porque aquele lado precisava de um inimigo claro, precisava de um culpado que não fossem apenas “circunstâncias”.


O Curupira ficou em silêncio. E dessa vez o silêncio dele não foi calculado para aumentar a tensão. Foi raro. Foi o silêncio de alguém que, pela primeira vez, precisava sair do que “viu” e entrar no que “entende”, como se estivesse juntando peças na cabeça para construir um quadro que não era seguro de tocar. 


O grupo inteiro ficou quieto, porque uma resposta assim, vinda de um deus, não era qualquer coisa. Jaha esperou, quase sem piscar. Ming Xue permaneceu próxima de Zao Tian, sem dizer nada, mas a presença dela era uma âncora para ele não avançar um passo além do necessário. Shara'Kala e Zargoth, ainda afetados pelo que tinham descoberto sobre Gold e Zaki, pareciam assistir a essa análise como quem assiste alguém abrir uma ferida em um corpo que ainda estava vivo.


Então o Curupira falou.


"Eu acredito que meu irmão teve culpa, sim." Ele disse.


Ao dar a sua opinião, ele não suavizou. Não tentou proteger o sangue divino. Não tentou pintar Loki como “complexo” ou “mal compreendido”. A frase veio como uma constatação e, em seguida, ele deu contexto: "Eu acredito que Loki sempre foi ardiloso. Mais egoísta que os outros deuses."


Aquilo não era uma defesa de Zaki, e também não era uma absolvição do panteão como um todo. Era um recorte de personalidade que fazia sentido, porque havia um tipo de egoísmo que é mais perigoso do que a crueldade aberta: o egoísmo que sabe se esconder atrás de uma boa causa. 


O Curupira continuou, como se estivesse descrevendo um padrão repetido na história dos próprios deuses: "Ele se aproximou de Zaki. E, ao tê-lo como aliado… isso pode ter subido à cabeça dele.”


“Zaki era visto como o futuro da humanidade, e depois que ele enfrentou o próprio Gold para defender Loki… meu irmão pode ter se sentido importante demais. Pode ter percebido o tamanho da oportunidade que tinha nas mãos."


Ao escutar aquilo, Jaha estreitou os olhos. Ele já tinha visto esse tipo de fenômeno em outros contextos, em outras pessoas, e a lógica era sempre a mesma: quando alguém recebe, de repente, uma validação que nunca teve, esse alguém tende a querer mais, tende a querer transformar aquela validação em posição, e depois transformar essa posição em controle. 


Por causa disso, Jaha assentiu devagar, como se o Curupira estivesse verbalizando exatamente o que ele tinha suspeitado desde o início.


"Ele viu uma oportunidade de crescer." Jaha comentou, sem ironia: "De virar um protagonista entre deuses e humanos."


O Curupira assentiu.


"Sim." Ele disse. E então ele foi além, porque a análise dele não era só sobre orgulho ou vaidade. Era sobre função. Era sobre como um deus que nunca foi o centro do próprio mundo pode tentar virar o centro de um mundo alheio, usando alguém que o mundo alheio ama como ferramenta.


"Eu acho que Loki agiu como um agente potencializador." O Curupira disse.


Ele não falou “autor” de tudo. Falou “potencializador”. Isso importava, porque não tirava de Zaki a responsabilidade pelos próprios passos. Não transformava Zaki em uma marionete sem vontade. Apenas mostrava que alguém pode não ter criado a rachadura, mas pode ter enfiado os dedos dentro dela e puxado até virar uma fenda.


"Ele viu em Zaki alguém forte, mas ainda mais vulnerável do que parecia. Porque, naquele ponto, Zaki estava mentalmente exposto. Ferido. Isolado. Carregando uma grande culpa."


Depois de dizer aquilo, o Curupira olhou para Zao Tian por um segundo, como se soubesse que aquela palavra, culpa, era uma fronteira entre Zaki e Gold. Gold carregava vergonha e se isolava por orgulho ferido; Zaki carregava culpa e se isolava por confusão moral. Uma pessoa culpada quer se justificar. Uma pessoa envergonhada quer apagar testemunhas. E Loki, como alguém ardiloso que era, teria reconhecido exatamente qual dos dois sentimentos é mais fácil de transformar em um discurso.


"E Loki…" O Curupira concluiu: "Deve ter incentivado. Deve ter ajudado. Deve ter empurrado. Um pouco de cada vez."


O grupo ficou quieto, porque agora, pela primeira vez, a areia movediça tinha uma mão visível. Não uma mão que empurra de uma vez, mas uma mão que oferece apoio enquanto direciona. Uma mão que transforma cada decisão ruim em uma decisão “necessária”, e cada necessidade em uma virtude. 


Zao Tian continuou em silêncio, mas o olhar dele já dizia que, para ele, “potencializador” era um termo suave demais para o que ele sentia. Ainda assim, ele não interrompeu, porque, naquele ponto, ele queria ouvir o Curupira terminar.


Foi então que Ming Xue falou. Foi raro. E ela não falou por curiosidade. Falou porque aquela análise pedia a pergunta seguinte, e porque, diferente de Jaha, ela sabia fazer perguntas com um tipo de calma que impede a conversa de virar um grito. 


O gesto dela foi mínimo, mas a voz saiu firme.


"O que ele queria de verdade?" Ela perguntou.


Não havia hostilidade naquela pergunta. Só precisão. 


O Curupira, por sua vez, olhou para ela e respondeu sem pressa, como se essa parte fosse a mais fácil de compreender, porque não dependia de um detalhe histórico e sim da natureza divina. E, ao responder, ele também falou como alguém que não tinha interesse em mascarar o próprio povo com palavras bonitas.


"Os deuses vivem pelo reconhecimento. E agem por ele." Ele disse.


A frase parecia simples, mas carregava uma verdade que tornava muita coisa inevitável, porque o reconhecimento, para um deus, não era apenas um elogio. Era um combustível. Era hierarquia. Era uma sobrevivência simbólica. Era o que definia quem importava e quem era apenas parte da paisagem no panteão.


"E Loki…" O Curupira continuou, deixando o nome cair com seu peso: "Loki nunca foi um protagonista entre os deuses. Ele nunca foi o centro de nada. Nunca foi o herói. Nunca foi o rosto da glória."


Ele não falou aquilo com pena. Falou com um julgamento seco, quase como se descrevesse um fato que todo deus sabia, mas que poucos admitiam. E então ele conectou o fato à oportunidade: "E, quando ele viu o potencial de Zaki… quando viu a fraqueza mental que Zaki estava vivendo… quando viu o mundo humano prosperando sob aquela liderança… ele deve ter enxergado uma chance."


Jaha ficou imóvel. Zargoth pareceu endurecer. Shara'Kala estreitou o olhar, porque a palavra “chance” sempre soava inocente quando dita assim, mas, na boca de um deus, “chance” raramente era sobre fazer o bem. Era sobre tomar algo e chamar de destino.


"Uma chance de dominar o mundo humano novamente." O Curupira disse. E a palavra dominar não deixou espaço para romantização. Não era uma parceria. Não era uma conciliação. Não era uma nova forma de paz. 


Era controle. Era coleira. Era a velha lógica de que, se os humanos se tornassem previsíveis e dóceis, o panteão poderia dormir sem medo do que chamavam de Fim dos Tempos. 


Ming Xue não mudou a expressão ao escutar aquilo, mas a pergunta seguinte veio quase inevitável, porque ela queria entender a estrutura, não apenas a intenção.


"E como?" Ela perguntou, sem elevar a voz.


O Curupira respondeu com a mesma calma que doía.


"Usando Zaki como fantoche." Ele disse.


Se a palavra fantoche tivesse sido dita por qualquer outro, poderia soar exagerada. Contudo, vinda do próprio irmão de Loki, soou como uma sentença. Porque, naquele ponto, não era mais sobre “influenciar um líder”. Era sobre capturar um símbolo e vestir o símbolo com a roupa que o panteão quisesse.


"Se Loki conseguisse que Zaki conquistasse Decarius e entregasse o mundo humano nas mãos do panteão, ele cairia nas graças do Pai de Todos e nas graças dos outros deuses." O Curupira continuou.


Ele não precisou dizer “à força”, pois a frase carregava isso. E carregava também uma outra coisa: a vergonha acumulada do panteão por ter sido humilhado por Gold. Se alguém devolvesse os humanos ao controle divino, esse alguém viraria um herói. Viraria o redentor do orgulho divino. Viraria útil. E, no panteão, ser útil é ser amado.


"Depois de milênios de vergonha…" O Curupira completou: "O panteão estaria, de novo, no controle dos humanos."


A frase fez o ambiente esfriar. Porque todos ali sabiam o que significava “controle” vindo do panteão. Não era diplomacia. Era domínio. Era um mundo reescrito de cima para baixo. Era a história humana voltando a ser um instrumento. 


Zao Tian não reagiu com palavras, mas a quietude dele era uma reação violenta o suficiente. Era o tipo de silêncio que existe quando alguém sente que toda hipótese ruim acabou de ser confirmada por uma fonte que não tem motivo para mentir naquele ponto.


O Curupira, por sua vez, finalizou, olhando para o grupo como quem fecha um relatório com uma conclusão inevitável. A voz dele não tremeu, e talvez isso fosse o que mais incomodava, porque significava que, para ele, aquilo era óbvio.


"Na minha opinião, Loki queria dar ao Pai de Todos o mundo humano." Ele disse: "Queria dar a ele o controle sobre a raça que ele tanto temia."


A palavra temia ficou no ar como veneno. Porque o medo de deus não é um medo comum. O medo de um deus é o tipo de medo que vira um genocídio preventivo. É o tipo de medo que vira uma profecia cumprida por quem tenta evitá-la. E, ao ouvir aquilo, o grupo entendeu o que vinha por trás da promessa bonita de Zaki: nunca mais haveria guerra, nunca mais haveria fome, nunca mais haveria pobreza. Essa era exatamente o tipo de promessa que alguém faz quando quer que o outro aceite uma corrente como se fosse um presente.


O Curupira ficou quieto por um instante depois de concluir. Não para causar um clima, mas porque, naquele ponto, o que ele tinha dito não era apenas sobre o passado. Era sobre o presente. Era sobre por que, até hoje, o panteão ainda perseguia Decarius. Era sobre por que a palavra “paz” era perigosa demais quando vinha junto de deuses. E, no meio daquele silêncio, o grupo inteiro pareceu finalmente perceber uma coisa com clareza brutal: o erro de Zaki não tinha sido só levantar uma espada contra Gold. O erro tinha sido abrir uma porta interna. 


O golpe no rosto de seu mestre foi o símbolo do que se rasgou. Mas o que se abriu de verdade naquele dia foi a possibilidade de que um deus entrasse na casa humana como um suposto amigo, e ninguém mais tivesse força moral para expulsá-lo sem parecer estar “contra a paz”.


Jaha respirou fundo, e a respiração dele saiu mais pesada do que antes. Ele não parecia satisfeito, mas parecia certo de que tinha encontrado o núcleo do problema. 


A amizade entre Zaki e Loki não era uma amizade comum, e nunca foi. Era um método. Era um investimento. Era uma captura lenta. E o Curupira, ao assumir aquilo, tinha feito algo raro para um deus: ele tinha admitido que o próprio irmão podia ter sido uma das mãos mais sujas daquela época.


Ming Xue não disse mais nada. Ela apenas tocou a mão de Zao Tian de novo, de leve, como se lembrasse a ele que ele ainda tinha um corpo, que ele ainda estava ali, que ele ainda podia escolher como reagir. Zao Tian não apertou a mão dela de volta, mas também não se afastou. Ele deixou o gesto existir, e isso já era uma resposta. Era o único sinal de humanidade que ele se permitia naquele momento, porque o resto dentro dele era puro fogo.


Zao Tian continuou em silêncio, mas o olhar dele, fixo no Curupira, tinha mudado de um jeito que não era explosivo. Era pior. Era uma dureza estável. Era o tipo de expressão que não precisa de um grito para prometer nada, porque a promessa já estava feita por dentro. Se o Curupira tinha dito que Zao Tian já tinha tomado o lado de Gold, naquele instante isso ficou ainda mais claro. E não era só porque Zao Tian admirava Gold. Era porque ele odiava tudo o que Loki representava, e odiava ainda mais a forma como um deus podia vestir uma boa ideia e transformar aquilo em domínio.


O Curupira, por sua vez, não tentou suavizar o impacto do que disse. Ele apenas sustentou o olhar por mais um segundo, como se aceitasse que aquela análise tinha consequências no presente e não apenas no passado. E talvez ele aceitasse porque, sendo quem era, ele já tinha visto a linha final daquele caminho. Ele sabia que certas palavras, quando ditas, não voltam a ser não ditas.


E, naquele ponto, o grupo inteiro entendeu outra coisa, algo que doía de um jeito quase físico: a queda de Zaki não seria um acidente. Seria uma sequência de decisões com boas justificativas. Seria um homem tentando provar ao mundo que Gold estava errado, tentando provar a si mesmo que não traiu ninguém, tentando transformar sua culpa em uma missão e essa missão em lei, enquanto Loki, do lado, sorria por dentro por ter encontrado exatamente o tipo de mente que dá trabalho para ser conquistada, mas que, uma vez conquistada, vira o melhor instrumento.


O silêncio durou mais um pouco. Não porque faltava algo a dizer, mas porque agora havia coisas demais para processar. E, quando o Curupira respirou de novo, ficou claro que ele estava prestes a continuar o relato, mas dessa vez o grupo estava com uma nova lente. 


Eles não estavam mais ouvindo “a história de Zaki”. Eles estavam ouvindo “o processo”. E, quando alguém entende o processo, cada pequena decisão deixa de parecer pequena.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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