Capítulo UHL 1208 - Omissão
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O que ficou depois da análise sobre Loki não foi só um silêncio.
Foi um tipo de quietude pesada, como se o ar tivesse ganhado densidade e passado a exigir esforço para atravessar o peito. Não era uma quietude de medo imediato, porque ninguém ali estava tremendo ou dando passos para trás. Era uma quietude de entendimento. Um entendimento que começa a desenhar, por dentro, uma linha do tempo com conexões que antes pareciam absurdas e que, agora, pareciam inevitáveis.
Zao Tian não disse nada. Ele não precisava. A presença dele era um aviso constante, e o olhar dele, fixo no Curupira, parecia ter se tornado um objeto por si só, uma lâmina que estava sempre encostada no pescoço da conversa, lembrando a todos que aquilo não era um debate teórico. Era o tipo de coisa que explicava por que o universo tinha chegado onde chegou.
Ming Xue ainda estava com a mão próxima da dele, não o segurando, mas disponível. Uma parte do grupo teria visto aquilo como um gesto pequeno. COntudo, naquele contexto, era o único gesto que parecia capaz de impedir que Zao Tian transformasse cada conclusão em uma erupção de raiva.
Jaha, por sua vez, permaneceu parado, como se estivesse reorganizando a mente. E Shara'Kala e Zargoth, ainda tentando digerir o peso de Gold ter virado as costas para tudo, pareciam presos numa sensação incômoda: a história que eles conheciam desde sempre era real, mas as causas eram piores do que qualquer versão que já tinham repetido em voz alta.
O Curupira respirou de novo, e a forma como ele fez isso pareceu uma mudança de marcha. O que ele tinha dito sobre Loki era o tipo de análise que fecha portas. Agora, ele voltava a falar sobre Zaki, e era impossível não sentir que as portas que se fechavam não eram só sobre o passado. Eram sobre todos os caminhos que a realidade tentou construir depois.
"Depois disso…" O Curupira disse, e a voz dele voltou àquela cadência fria de relato: "O Monarca da Luz continuou a avançar. E, por um tempo, houve gente que acreditou que ainda dava para trazê-lo de volta."
Ele não falou da esperança como virtude. Falou como esforço. Como insistência. Como uma tentativa de segurar alguém que já começou a afundar, mesmo sabendo que a areia movediça puxa mais forte quando alguém se debate.
"Halfkor e Moira aconselharam Zaki por muito tempo." Ele continuou.
A menção daqueles nomes, naquele momento, acendeu uma atenção diferente no grupo. Halfkor e Moira não eram figuras pequenas. Eles não eram nobres de ocasião nem líderes sem peso real. Eles eram forças. Eram pilares do mundo humano naquela época. E a ideia de que os dois tinham tentado, de forma exaustiva, puxar Zaki de volta para uma linha racional tornava a queda dele ainda mais assustadora, porque significava que não foi por falta de aviso.
"Eles tentaram do jeito deles." O Curupira disse: "Com paciência. Com argumentos. Com confronto. Com lembranças. Com medo. Com carinho."
Ele não entrou em detalhes sobre como essas conversas foram. Não precisava. O grupo sabia, pelo que já tinham ouvido sobre Zaki antes da ruptura, que Halfkor e Moira eram o tipo de pessoas que não desistiriam por capricho. Se eles desistiram… era porque chegou num ponto em que insistir passou a ser inútil, ou passou a ser perigoso.
"E, ainda assim…" O Curupira completou, deixando a frase cair com o peso certo: "Eles desistiram."
Ele então olhou para o grupo e concluiu, sem dramatizar: "E, quando desistiram, eles cortaram relações com o Reino da Luz."
A expressão de Zargoth mudou por um instante, como se o cérebro dele tentasse medir o que significa, politicamente, cortar relações com um reino que está no centro de uma religião global. Shara'Kala também entendeu o que aquilo implicava: quando líderes se afastam assim, não é por discordância simples. É por reconhecer que a proximidade vira um risco. Vira contaminação. Vira um tipo de submissão lenta.
"Halfkor e Moira entenderam que não podiam fazer mais nada por Zaki." O Curupira disse: "E que ficar perto dele… Só prolongaria a ilusão de que ele ainda ouvia alguém."
Jaha soltou um ar lento pelo nariz, e, por um segundo, parecia que ele queria perguntar o que exatamente Zaki fazia para tornar o contato insustentável. Mas ele não interrompeu. Ele já tinha interrompido uma vez. E, agora, o que vinha a seguir era o tipo de revelação que se perde se alguém corta a cadência do narrador.
O Curupira então moveu a história para outra força, outra presença, outra barreira.
"O Reino da Escuridão fechou as portas para o Reino da Luz muito antes disso." Ele disse.
O nome, por si só, fez os dois orcs se ajeitarem, como se o corpo reconhecesse o perigo antes do cérebro. Porque, para eles, o Reino da Escuridão não era um ponto no mapa. Era o lugar que possuía o homem que tinha transformado o medo em estratégia apenas existindo, e a estratégia em massacre quando decidiu mover a mão.
"Daren…" O Curupira disse, e o nome pareceu escurecer o ar: "Ele fechou as portas ainda na época em que Gold e Amara partiram."
A frase não era apenas uma informação política. Era a declaração de uma fratura histórica. O grupo inteiro entendeu isso. Zao Tian entendeu. Ming Xue entendeu. Jaha entendeu. Shara'Kala e Zargoth entenderam com um tipo de gelo no estômago, porque eles não conheciam a intimidade daquela época, mas conheciam o peso do nome Daren como um fato.
"Daren se compadecia de Gold e da sobrinha." O Curupira continuou, usando a palavra compaixão como se fosse uma coisa rara vindo daquele homem: "E ele viu a traição de Zaki como algo imperdoável."
O Curupira não fez discursos. Ele não tentou justificar. Ele apenas deixou claro que, para Daren, aquilo não foi uma divergência moral, não foi um evento político, não foi um acidente inevitável numa era confusa. Foi traição. E traição, para alguém como Daren, não é um tema para ser debatido em uma mesa. É um tema para ser encerrado.
O Curupira então citou a Dinastia Yang, e a forma como ele encaixou isso no relato fez o cenário ficar mais nítido.
"A Dinastia Yang se afastou alguns anos depois." Ele disse: "E Yang Zai tomou essa decisão no dia em que Zaki começou a pregar, abertamente, que deuses e humanos deveriam viver em sociedade."
Shara'Kala inclinou o rosto de leve, e Zargoth pareceu curioso. Eles não tinham quase nenhum conhecimento sobre Yang Zai, mas sabiam o que uma decisão dessas significava quando vem de um imperador que carrega o peso de uma dinastia inteira. Era um corte sendo feito não por emoção, mas por leitura.
Yang Zai viu a pregação e entendeu o que vinha junto. Não era “paz”. Era uma reaproximação com forças que já tinham usado o mundo humano como parque de diversões.
"E Elijah…" O Curupira disse, como se o nome exigisse uma explicação diferente: “Nunca foi de fato um governante."
A frase trouxe uma imagem mais simples no meio de tanta tensão, mas o Curupira não a usou para aliviar o ambiente. Ele a usou para posicionar aquela figura.
Elijah era poderoso o suficiente para governar um território, mas não tinha interesse em carregar esse tipo de responsabilidade nas costas.
"Ele vivia nas montanhas." O Curupira continuou: "Com sua família. E não se envolvia nos assuntos dos outros."
Aquela era a forma mais limpa de dizer: não contem com ele. E o Curupira colocou isso como um fato histórico, não como uma crítica.
Quando ele terminou de alinhar os líderes e as portas que foram fechadas, ficou claro o desenho: o Reino da Luz estava ficando sozinho com sua própria fé. Os aliados estavam recuando. Os céticos estavam cortando. Os pragmáticos estavam se afastando. E os que não se importavam estavam… seguindo suas vidas.
"Halfkor e Moira foram os únicos que tentaram exaustivamente trazer Zaki de volta à realidade." O Curupira reforçou: "E mesmo eles… desistiram."
O silêncio que veio dessa frase foi quase orgânico. Porque ela dizia o que ninguém queria dizer em voz alta: se Halfkor e Moira desistiram, não era por falta de amor. Era por falta de caminho.
Foi então que o Curupira avançou para um ponto que deslocou a história de um processo gradual para um evento concentrado. E, pela forma como ele falou, ficou claro que aquilo era um marco.
"Um dia…" Ele disse: "Foi convocada uma reunião entre os líderes mundiais."
O grupo se concentrou. Zao Tian não piscou. Jaha virou um pouco o rosto, como quem reconhece que, quando líderes se reúnem assim, a história deixa de ser abstrata e entra no caminho de uma grande decisão.
"Daren convocou Halfkor, Yang Zai, Moira e Elijah." O Curupira continuou: "Para tratar de Zaki."
A palavra tratar, ali, não era diplomática. Era clínica. Era a palavra que se usa quando alguém é visto como um problema inevitável.
E então veio o detalhe que fez a temperatura do ambiente mudar, como se uma lâmina invisível tivesse passado perto demais.
"Naquele dia…" O Curupira disse: "Loki se infiltrou na reunião."
Ming Xue se manteve imóvel, mas os dedos dela tensionaram por um instante, como se o corpo reconhecesse uma ameaça de forma instintiva. Jaha estreitou os olhos. Zao Tian… permaneceu exatamente como estava, mas o olhar dele se tornou mais pesado.
O Curupira prosseguiu sem se apressar, como quem sabe que esse tipo de detalhe precisa ser dito com clareza para não gerar dúvidas.
"Ele usou o Domínio da Miragem Eterna." O Curupira concluiu: "E assistiu tudo."
A frase foi o tipo de coisa que faz a realidade parecer menor, porque ela confirmava uma suspeita que sempre existe quando se fala de Loki: ele não perde uma oportunidade de estar presente onde não foi convidado. E, mais importante, ele não perde uma oportunidade de ver o que os outros planejam para então agir em cima disso.
"Daren, na frente de todos…" O Curupira disse, e a voz dele ganhou um peso ainda maior: "Pediu permissão para matar Zaki."
O ar pareceu parar por um segundo. Mesmo sabendo que a história caminhava para esse tipo de catástrofe, ouvir aquilo de forma tão direta era diferente. Era como se o mundo humano inteiro tivesse chegado ao ponto de considerar assassinar o seu símbolo máximo de prosperidade. Não por inveja. Não por guerra. Mas por medo do que ele estava se tornando.
"E ele pediu para livrar o mundo inteiro da catástrofe que Zaki estava atraindo." O Curupira completou.
A palavra catástrofe encaixou perfeitamente. Não era exagero. Não era dramatização. Era a única palavra que cabia quando um homem amado por milhões começava a pregar algo que, na prática, devolvia o mundo humano para a mão dos deuses.
O Curupira então descreveu as reações, uma a uma, como se estivesse reconstruindo a sala.
"Elijah foi o mais indiferente." Ele disse: "Mas não concordou nem recusou."
Ele fez uma pausa curta, e então concluiu: "Ele apenas disse que aquilo não era da conta dele. E que ele não ficaria com esse sangue nas mãos."
A frase era típica de alguém que vive longe, que não se envolve, que não se vê como parte do jogo. Mas, naquele contexto, ela também era uma omissão poderosa, porque não tomar lado numa decisão dessas é o mesmo querer tomar um lado, ainda que a pessoa não admita.
"Yang Zai foi contra." O Curupira continuou.
Ele não pintou Yang Zai como santo. Ele pintou como imperador, como alguém que entende o mundo humano como um organismo com reações previsíveis.
"Ele argumentou que, apesar de não concordar com Zaki, assassinar um monarca tão amado pelo seu povo traria guerra." O Curupira disse. E continuou, costurando a lógica até o fim: "Isso atrairia as nações para um conflito inevitável. Criaria vingadores. Criaria fanáticos. Criaria mártires. E o nome de Zaki viraria um estandarte que ninguém conseguiria rasgar."
Aquela parte fez sentido para todo mundo ali, porque era a parte humana do problema: você não mata um símbolo sem multiplicá-lo. Você não corta uma religião com uma espada e espera que a fé não sangre para todos os lados.
"Halfkor e Moira…" O Curupira disse em seguida, e a voz dele, pela primeira vez, pareceu carregar algo mais emotivo: "Foram os mais emotivos."
Ele não quis dizer irracionais. Ele quis dizer humanos. E havia uma diferença nisso.
"Eles tentaram acreditar em Zaki." Ele explicou: "Ou melhor… Naquele antigo Zaki que eles conheceram."
A frase parecia doer nele enquanto dizia, como se o Curupira também reconhecesse a crueldade desse tipo de esperança: a esperança de que alguém volte a ser quem era. Uma esperança que, quase sempre, só prolonga o tempo antes da queda.
"Apesar de não terem conseguido trazê-lo de volta…" Ele disse: "Eles acreditavam que aquele homem ainda estava lá."
"Que aquela bondade ainda existia."
"Que ele acordaria em algum momento."
O Curupira deixou isso no ar por um instante, e então trouxe o golpe final daquela reunião: a consequência da objeção.
"As objeções foram um balde de água fria em Daren." Ele disse. E, pela forma como ele falou, ficou claro que Daren não estava ali buscando apoio emocional. Ele estava ali tentando evitar o inevitável. Ele estava oferecendo a solução que ninguém queria aceitar porque suja a consciência de quem a aceita.
"Daren avisou que aquela talvez fosse a única oportunidade de fazer o que precisava ser feito." O Curupira continuou, e a voz dele ficou ainda mais firme: "Porque, com a velocidade que Zaki avançava no caminho marcial, uma hora ou outra ele superaria Daren."
A frase atravessou a sala imaginária da reunião como uma explosão silenciosa. E, no presente, onde o grupo escutava aquilo, ela teve um efeito ainda maior.
Shara'Kala endureceu.
Zargoth arregalou os olhos de um jeito que ele provavelmente não lembrava como fazer.
Porque, para os dois, Daren não era apenas forte. Daren era o limite. Era o teto. Era a figura que fazia tudo parecer menor, pois a existência dele, por si só, organizava as escolhas de milhões de pessoas que nem sequer o conheciam pessoalmente.
O Curupira continuou, e a frase seguinte veio como uma constatação: "E quando isso acontecesse… não teria ninguém, mesmo naquela sala, que poderia pará-lo."
Foi nesse ponto que o choque dos dois orcs realmente apareceu.
Aquilo bateu como um colapso interno que os deixou por um instante fora do próprio corpo. Eles se entreolharam por uma fração de segundo, e naquele olhar havia uma pergunta que nenhum deles ousou verbalizar: como alguém ultrapassa Daren?
Shara'Kala tinha visto Daren ser usado como arma de dissuasão apenas por ficar às margens do território que abrangia os planetas orcs. Ela tinha visto o medo coletivo crescer como um incêndio sem chama, apenas pela certeza de que ele existia e que poderia agir. Aquela presença tinha sido suficiente para apagar qualquer vontade de atacar a humanidade, não por moral, mas por instinto de sobrevivência.
Zargoth tinha vivido o mesmo medo, mas em outra escala. Ele tinha visto Daren, em outro momento, segurar praticamente sozinho uma coalizão orc-krovackiana de milhões de soldados. Ele tinha visto aquilo deixar de ser uma lenda para virar realidade. E, quando algo vira realidade desse jeito, o cérebro cria uma uma imagem de que aquilo não pode ser ultrapassado. Aquilo é o fim do caminho. Aquilo é o topo.
Então, ouvir que Daren estava sentindo medo de ser ultrapassado… ouvir que ele via a própria impotência como destino possível… era como ouvir que o céu podia cair.
Zao Tian percebeu a reação dos dois orcs, mas não desviou a atenção. Ele entendeu o choque deles porque ele entendia o que Daren era no imaginário do universo. E foi exatamente por isso que aquela frase de Daren, naquele passado, era tão importante: ela não estava exagerando. Daren não era o tipo de homem que usa o medo como um argumento sem ter certeza do que está falando. Se Daren disse aquilo, era porque ele enxergava algo em Zaki que ninguém queria admitir.
O Curupira esperou um instante, como se desse ao grupo o tempo mínimo para engolir essa informação, e então prosseguiu.
"Mesmo com esses avisos…" Ele disse: "Uma votação foi iniciada."
O silêncio ficou mais duro.
"E Daren perdeu." O Curupira concluiu.
A palavra perder ali foi quase absurda, porque Daren, no imaginário de muitos, não perdia. Não em decisão. Não em força. Não em presença. Mas ele perdeu em política. Perdeu em abrir a consciência alheia. Perdeu no lugar onde a moral e o medo da culpa costumam vencer a necessidade.
"Por unanimidade." O Curupira disse.
A frase caiu como sentença final. Ninguém autorizou o assassinato. Ninguém teve coragem. Ninguém quis carregar a mancha de matar o Monarca da Luz, mesmo sabendo o que poderia acontecer se não o fizessem.
O Curupira então fez uma ressalva, porque a história não era simples demais para caber num “não”.
"Yang Zai foi o mais propenso a aceitar." Ele disse.
Zao Tian estreitou os olhos levemente. Aquilo era coerente. Yang Zai era imperador que enfrentou um tirano por muito tempo. Ele entendia as consequências. Ele entendia que, em certos casos, a guerra é inevitável de qualquer forma, e a pergunta real é apenas quando e em quais condições.
"Mas, no fim…" O Curupira continuou: "Ele autorizou com condições."
Ele então explicou sem pressa, com a precisão que tornava o absurdo ainda mais real.
"Zaki só poderia ser morto se realmente estivesse quase alcançando Daren… e não mudasse."
Era um tipo de autorização que não autorizava nada. Era uma tentativa de manter uma porta aberta para o ato extremo, mas empurrar a decisão para um futuro em que talvez fosse tarde demais. Era uma forma de dizer: não agora, não hoje, não com minhas mãos, não com minha assinatura como destino imediato.
O Curupira, então, descreveu o efeito daquela votação em Daren, e foi como se o passado respirasse raiva.
"Aquela votação deixou Daren revoltado." Ele disse.
"Assim que ela se encerrou…" O Curupira continuou: "O Demônio da Escuridão rechaçou qualquer contato com todos daquela sala."
A palavra rechaçou foi perfeita. Não foi um afastamento educado. Foi um corte de relações.
"Ele avisou que estava fechando as portas do Reino da Escuridão para todo o mundo externo." O Curupira disse: "E que, a partir daquele momento, eles estavam sozinhos."
Zao Tian sentiu, por dentro, o peso real daquilo. Não porque ele dependesse de Daren, mas porque ele entendia o que significava perder o último limite, o último medo que impedia certas escolhas. Se Daren fechava as portas, ele estava dizendo: não contem comigo quando o inevitável acontecer. E isso era uma maldição, não um aviso.
O Curupira finalizou, como quem entrega a sentença que encerra a reunião e abre a era seguinte: "E ele disse, antes de sair, que eles deveriam enfrentar as consequências da decisão que tomaram naquele dia… com as próprias vidas e consciências."
Naquele instante, mesmo sem o Curupira ter narrado o próximo passo, o grupo inteiro entendeu a gravidade de algo simples: quando até Daren diz que o tempo está acabando, e o mundo escolhe esperar mesmo assim, não é o mundo que está sendo cauteloso. É o mundo que está aceitando o risco e chamando isso de prudência.
Zao Tian, por trás de todas aquelas análises políticas, tinha uma conclusão simples dentro dele: Gold teria entendido Daren. Gold teria concordado. Gold teria feito aquilo sem precisar de uma votação.
Zao Tian não expressou nada, mas o olhar dele, naquele momento, parecia dizer que a história estava se estreitando. E que, quando ela se estreita assim, não há espaço para discursos.
Só para decisões.
