Capítulo UHL 1212 - O Prelúdio da Guerra
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Tenham uma boa leitura!]
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O Curupira não continuou imediatamente depois de falar do sono do Pai de Todos.
A história já tinha passado do ponto em que eventos eram apenas eventos. Agora, ela era um peso acumulado, e o que vinha a seguir exigia uma mudança de olhar. Zao Tian percebeu isso antes mesmo de o deus falar de novo, porque o Curupira não estava mais descrevendo um passado distante. Ele estava descrevendo a origem direta do mundo que existia agora, e, por mais que Zao Tian odiasse admitir, havia um tipo de lógica por trás daquele horror que não podia ser ignorada.
"O retorno da visão do Fim dos Tempos não foi só um susto." O Curupira disse: "Foi um retorno do mesmo futuro."
Ele não usou aquilo como um gancho dramático. Falou como quem aponta um dado que muda todas as variáveis. Se a visão tivesse mudado, Odin poderia interpretar como um aviso, como uma correção de rota, como uma ameaça futura que ainda poderia ser desviada. Mas ela voltou igual. O mesmo fim. O mesmo colapso. A mesma sensação de que, em algum ponto, tudo que existe seria engolido e deixaria de ser. E, para um ser como Odin, cuja noção de responsabilidade era inseparável da noção de controle, aquilo era mais do que medo. Era uma afronta.
"O Pai de Todos acreditou por muito tempo que tinha contido isso." O Curupira continuou: "Ele acreditou que a ponte que foi construída com o Reino da Luz tinha resolvido a parte mais difícil do problema."
A expressão problema, na boca dele, não era neutra. Era o tipo de palavra que revela o modo como os deuses enxergavam a criação. Para Odin, a humanidade não era uma raça com história e autonomia. Era uma variável capaz de produzir o fim. E se uma variável ameaça o universo, ela precisa ser contida. Essa era a lógica, e essa lógica não precisava de crueldade para existir. Ela só precisava de convicção.
Zao Tian ouviu aquilo com o rosto firme, mas a sensação dentro dele não era só raiva. Era um incômodo de outra natureza. O ódio pelos deuses era fácil. Ele vinha de tudo que havia sido feito, de tudo que ainda era feito, de tudo que seria feito se alguém como Odin tivesse chance de impor sua ordem de novo. Contudo, naquele ponto, a história tinha empurrado Zao Tian para um pensamento que ele normalmente esmagaria antes mesmo de nascer.
No lugar dele… eu faria o mesmo.
A frase surgia na sua mente e ele odiava que surgisse, porque ela contaminava a clareza moral que ele gostava de manter. Ela não fazia os deuses parecerem menos monstruosos, mas fazia o monstro parecer humano. E isso era, para Zao Tian, um tipo de traição interna.
Jaha percebeu o movimento desse pensamento de um jeito diferente. Ele não conhecia o ódio de Zao Tian pela mesma raiz emocional, mas entendia a estrutura do que estava sendo descrito. O que o Curupira dizia era a forma mais perigosa de racionalidade: quando alguém acredita ter um diagnóstico perfeito sobre o futuro, qualquer método vira um tipo de medicina. E medicina, quando aplicada por um ser com poder absoluto, vira limpeza. Vira extermínio com o nome de prevenção.
Zao Tian não falou, mas a mente dele fez um desvio inevitável a todo momento. Se Odin via o fim do universo como consequência possível do crescimento humano, então humanos como ele, como Gold, como qualquer um que carregasse ódio suficiente para desafiar os deuses, seriam vistos como catalisadores. E se, do ponto de vista humano, Odin era um tirano que precisava ser derrubado, do ponto de vista divino Zao Tian poderia ser exatamente o que Odin era para ele.
Um monstro.
Um monstro que precisava ser eliminado.
Aquela mera ideia era ofensiva porque colocava os deuses num papel que Zao Tian detestava conceder: o papel de criatura ameaçada. Não ameaçada moralmente, mas ameaçada existencialmente. E é aí que a realidade ficava estranha, porque, para os dois lados, o raciocínio era o mesmo em essência. Para ambos, a sobrevivência da própria raça e da própria continuidade dependia do desaparecimento do outro.
Isso criava um paralelo que Zao Tian odiava. Não porque diminuía a culpa divina, mas porque mostrava que, quando dois lados acreditam estar lutando pela continuidade do que existe, a guerra não nasce do ódio. Ela nasce de uma matemática muito mais pura e crua.
"O Pai de Todos ficou transtornado por isso." O Curupira disse: "Ele sentiu a aproximação do próprio sono."
A palavra sono, naquele contexto, era uma ausência. Era uma lacuna de comando. Era o momento em que o universo ficava sem o vigia que se achava indispensável.
O Curupira não precisou detalhar a mecânica para o grupo, porque o peso disso já estava assentado desde outras histórias: quando o Pai de Todos dormia, as coisas se moviam sem ele, e coisas que ele não toleraria encontravam espaço para existir.
"Para ele, esse sempre foi o risco real." O Curupira continuou: "A criação pode suportar medos, suportar conflitos, suportar guerras. O que ela não podia suportar, na cabeça dele, era ficar sem controle no momento em que o fim estava no horizonte."
Zao Tian sentiu o pensamento anterior se aprofundar com uma nitidez cruel. Ele odiava Odin, mas entendia o raciocínio. Se ele, Zao Tian, soubesse que iria cair num sono do qual poderia não acordar, e se ele visse um futuro onde tudo acabava, ele também tomaria medidas antes de perder a chance. A diferença era que Zao Tian tomaria medidas para destruir os deuses, enquanto Odin tomaria medidas para destruir aqueles que ameaçavam os deuses.
E, naquele ponto, a diferença prática desaparecia.
Era apenas aniquilação em direções opostas.
"É por isso que eu disse que o paralelismo é perverso." O Curupira disse, e a frase veio como se ele estivesse respondendo algo que ninguém tinha perguntado em voz alta: "Zaki e Pemma traçaram caminhos inversos. Um tirano se esvaziou até virar uma promessa viva de arrependimento. Um santo se inflou até virar uma certeza viva de superioridade."
"E o Pai de Todos e você…"
Ele olhou para Zao Tian sem provocação, antes de concluir: "São lados opostos de um mesmo ponto de convergência. O ponto onde a sobrevivência de seus lados vira uma justificativa. E onde essa justificativa se transforma em massacre."
Jaha absorveu aquilo com um tipo de desconforto que não era uma emoção simples, era reconhecimento. Era o mesmo desconforto de perceber que o inimigo não é burro. Não é apenas cruel por prazer. Ele pode ser cruel por lógica, e a crueldade por lógica é mais difícil de vencer porque ela não se desfaz com apelos morais.
Zao Tian, ao escutar aquilo, sentiu algo que ele raramente sentia quando pensava em deuses: uma lucidez perigosa. Se Odin estava chegando perto do sono e viu de novo a mesma visão, então a janela de decisões dele tinha fechado. E quando uma janela dessas fecha, o que vem não é um debate. O que vem é um ato.
O Curupira confirmou isso, dizendo: "A volta da visão e a aproximação do sono levaram o Pai de Todos a tomar uma atitude drástica."
"Algo que ele não queria."
A frase, do jeito que foi dita, não soou como uma desculpa. Soou como algo pior: a declaração de que até o monstro preferia não ser isso, mas aceitou ser porque acreditou que precisava.
"Ele tentou sustentar a crença de que a ponte com o Reino da Luz era suficiente." O Curupira continuou: "Ele tentou acreditar que a convivência controlada e a presença divina tinham neutralizado o risco. Mas a visão voltou como se fosse uma forma de condenação."
Zao Tian percebeu que aquela era a diferença central entre esperança e pânico. Odin tinha vivido séculos se convencendo de que tinha evitado o destino, mas a visão retornando destruía essa crença e colocava uma pergunta no lugar: o que eu fiz não foi suficiente, então o que eu faço agora?
Odin respondeu essa pergunta como quem tinha apenas uma linguagem disponível: eliminar variáveis.
"Uma guerra de limpeza se fez necessária." O Curupira disse, e a expressão foi colocada sem enfeite, como se ele soubesse que qualquer tentativa de suavizar aquilo seria insulto à verdade.
Limpeza.
Era assim que eles chamavam.
Não guerra preventiva, não contenção, não defesa. Limpeza.
Limpeza pressupõe sujeira. E sujeira, para um deus, é tudo aquilo que não se submete.
O Curupira prosseguiu, e agora o relato dele deixou de ser sobre sentimentos e virou sobre planejamento.
"O Pai de Todos compreendeu que a guerra teria que ser universal." Ele disse: "Não apenas porque ele queria garantir a vitória, mas porque ele sabia que, se fosse parcial, os alvos se espalhariam, se esconderiam, cresceriam, e o risco aumentaria."
"E o primeiro ponto desse planejamento foi definir o alvo principal."
Quando ele terminou de dizer aquilo, ele fez parecer óbvio que o alvo principal não era o mais forte presente no mundo humano, nem o mais amado, nem o mais perigoso para os humanos. Era o mais perigoso para os deuses.
"E o alvo principal foi aquele que, desde o princípio, não era visto como uma ameaça ao Pai de Todos e à criação." O Curupira disse.
Ele deixou essa frase pairar o suficiente para que o absurdo fosse sentido. Porque, em algum momento, Gold tinha sido apenas um humano. Um humano sem título. Um humano que, por mais que tivesse feito coisas impensáveis, havia se tornado, para Odin, um problema resolvido quando os termos foram impostos e o panteão se retirou da intervenção direta.
Mas a realidade tinha mudado. E a visão tinha voltado.
"Diante da nova realidade, Gold precisava ser eliminado." O Curupira concluiu.
O nome veio como se fosse uma pedra caindo em água parada.
Zao Tian sentiu algo forte dentro do peito. Era aquela sensação de inevitabilidade que só existe quando se percebe que o inimigo escolheu o alvo mais correto possível do ponto de vista dele. Gold era o único ser vivo que já tinha humilhado o panteão de verdade. Era o único que tinha uma técnica para se ocultar do olho de Heimdall. Era o único que tinha motivos suficientes para odiar deuses e humanos sem precisar de narrativas para sustentar o seu ódio.
"O Pai de Todos concluiu que Gold era o único ser vivo capaz de realizar o tipo de ruptura que a visão mostrava." O Curupira contou.
"Realmente, Gold tinha motivo..." O Curupira continuou: "Motivos de sobra."
"Ele odiava os deuses."
"Ele odiava a forma como a criação foi administrada."
"E ele odiava a humanidade que o traiu quando escolheu conforto e medo em vez de coerência."
Zao Tian ouviu essa última parte como uma lâmina sendo cravada em seu peito, porque doía reconhecer que a humanidade, em muitas eras, realmente foi capaz disso.
"O problema era que Gold estava desaparecido." O Curupira continuou: "E não era um desaparecimento comum."
Ele explicou de modo direto, sem mistificar. Gold não era um fugitivo escondido numa caverna. Gold era alguém que tinha aprendido a viver fora de alcance.
"Ele vivia fora do alcance dos olhos dos deuses e dos humanos." O Curupira continuou: "Não havia pistas. Não havia avistamentos. Não havia rumores confiáveis. Não havia um único fio que dava para puxar."
Isso tornava o planejamento de Odin mais perigoso ainda, porque significava que, para encontrar Gold, o panteão teria sacudir tudo. E sacudir tudo é, por si só, iniciar uma guerra.
"Mas ele precisava ser encontrado." O Curupira explicou: "E o Pai de Todos precisava eliminá-lo."
Jaha deixou escapar um suspiro por entender a consequência lógica. Se o alvo principal não é encontrado, a guerra se expande. Ela se torna uma busca implacável que passa por cima de qualquer um que tenta se colocar no caminho.
"O Pai de Todos não planejou agir só contra Gold." O Curupira acrescentou: "Ele planejou um enorme mapa de riscos."
"Ele mapeou inúmeros outros alvos."
"Em planetas diversos. Em raças diversas."
Ele descreveu isso como se fosse o tipo de coisa que só um panteão com alcance universal poderia fazer. Não era uma espionagem comum. Era uma observação que foi feita ao longo de séculos.
"Alvos que, na cabeça dele, precisavam ser eliminados em prol da continuidade do universo conhecido." O Curupira disse.
A frase soou diferente, pois a continuidade do universo conhecido era uma expressão que não deixava espaço para compaixão. Ela fazia a existência de uma raça inteira parecer um pequeno detalhe comparado ao medo do fim.
Zao Tian, por sua vez, percebeu um outro paralelo ali, e ele o odiou.
Na guerra contra o Olho, ele também mapeou alvos. Ele também definiu riscos. Ele também colocou nomes numa lista e aceitou que, para salvar os seus, ele teria que destruir os deles. A única diferença era que Zao Tian não fingia que isso era uma limpeza. Ele chamava de guerra. Odin, porém, chamava de necessidade cósmica.
"Isso levou os deuses para um planejamento de guerra em escala universal." O Curupira continuou: "E desde o começo… eles sabiam que seria total."
A palavra total foi dita como forma de esclarecer que haveria territórios neutros de verdade. Não haveria povos ignorados por estarem longe. Não haveria segurança em ser pequeno. Quando uma guerra é total, até quem não quer lutar acaba dentro do campo de batalha.
"Nós sabíamos disso, porque, para eliminar os alvos principais… ou mesmo para tentar eliminá-los… teríamos que lutar contra as raças às quais eles pertenciam." O Curupira explicou.
"Todos sabiam que isso iria acender o universo." O Curupira continuou: "Sabiam que a eliminação de um alvo não seria um corte limpo. Seria o começo de um incêndio."
"O Pai de Todos reuniu o panteão por muito tempo." O Curupira disse: "E, por um tempo, o Reino Divino virou uma enorme sala de planejamento."
“Nomes... Rotas... Alvos... Cronogramas… Elementos... Selos... Interdições... Estratégias para enfrentar povos inteiros... Estratégias para quebrar o moral de mundos inteiros...”
"Tudo foi levado em consideração, e naqueles planejamentos, havia um pensamento central." O Curupira completou: "O medo do fim."
"O medo do que ele não conseguiu mudar fez o Pai de Todos aceitar uma conclusão que ele evitou por muito tempo." O Curupira disse.
"Ele precisaria destruir todas as ameaças antes de dormir."
Zao Tian sentiu a frase se encaixar com violência dentro dele. Antes de dormir. Era isso. O mundo antigo teria sido destruído não apenas por ódio, mas por prazo.
"Esse foi o prelúdio da Grande Guerra." O Curupira concluiu: “Foi assim que os deuses começaram a se distribuir e preparar para dar início ao maior conflito que o universo já conheceu.
