Capítulo UHL 1217 - A Dor Mais Profunda
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O Curupira terminou a frase sobre a garota e, por um instante, a própria ideia do que tinha sido dito pareceu ficar maior do que o lugar onde eles estavam.
Zao Tian sentiu primeiro como um calor bruto, subindo do estômago para o peito, como se alguma coisa tivesse sido acordada à força dentro dele. Não era uma raiva que vinha dele. Ele conhecia a própria raiva como conhece uma lâmina. Sua raiva tinha forma, direção, objetivo. Aquilo, porém não tinha direção. Aquilo era um bloco de ódio sem nome, profundo demais, grande demais, e tão denso que parecia ocupar seu corpo inteiro.
A respiração dele falhou. As mãos tremeram. E, antes que pudesse pensar em qualquer palavra, as lágrimas vieram como se ele tivesse levado um golpe invisível, uma pancada que não quebra os ossos, mas quebra o que segura a vontade no lugar.
Zao Tian tentou travar o rosto, tentou engolir o que subia pela garganta, mas o choro não obedeceu. Era como se alguém, dentro dele, estivesse chorando por um motivo que ele não tinha vivido, e mesmo assim o corpo dele estivesse pagando o preço.
Cruz viu o primeiro sinal e ficou rígido. Ele chegou a abrir a boca, como se fosse perguntar o que tinha acontecido, mas a pergunta morreu antes de nascer.
Aquilo aconteceu por instinto e empatia. Até ele, que sempre tinha um jeito de rasgar o ambiente com a própria presença, sentiu que aquilo que tomava Zao Tian não era uma emoção comum e era grande demais para ser interrompida sem virar uma profanação.
O Curupira percebeu o choro, mas não parou. Ele não fez disso um espetáculo, nem tentou oferecer conforto. Ele apenas continuou falando como alguém que entende que, às vezes, uma verdade só consegue existir se for dita até o fim, mesmo quando ela quebra alguém no meio do caminho.
"Eu lembro dela." Ele disse. A frase veio sem grandiloquência, e ainda assim pareceu esmagar o ar.
"Eu não a vi durante o golpe. Eu não estava naquele planeta. Mas eu vi imagens depois. Eu vi relatos cruzados. Eu vi o pavor em deuses que não costumavam demonstrar nada parecido com pavor. E eu ouvi o silêncio do panteão quando eles entenderam o que tinha acontecido."
Zao Tian apertou os dentes, tentando impedir que o som do choro escapasse, e só conseguiu piorar. As lágrimas escorreram mais rápido, queimando o rosto como se fosse culpa.
O Curupira não mudou o tom de pesar de um pecador e continuou.
"Ela era bonita." Ele disse, e a palavra não veio como um elogio barato. Veio como quem registra um fato que ficou gravado porque era impossível conciliar com o resto.
"Olhos escuros. Cabelos pretos, lisos, caindo com uma simplicidade que não parecia pertencer à guerra. Pele branca, sem marcas de combate, sem os sinais que você espera ver em alguém que já precisou sobreviver a algo grande demais."
Quando a frase caiu, Zao Tian puxou o ar e soluçou, sem conseguir segurar.
O Curupira continuou, e havia respeito na precisão dele, como se ele estivesse falando de uma coisa sagrada que foi profanada.
"O olhar dela era puro." Ele disse: "Não era um olhar de ódio. Não era um olhar de ambição. Era gentil. E é isso que torna o evento muito pior, porque você espera que um ato desses nasça do mesmo veneno que nós carregávamos. Mas, no caso dela, não nasceu."
O choro de Zao Tian se intensificou como se cada detalhe fosse uma chave abrindo uma porta que ele não sabia que existia dentro de si. Aquilo não era apenas tristeza. Era uma lembrança. Uma lembrança que não fazia sentido para ele, e ainda assim fazia seu corpo inteiro reagir como se estivesse lembrando de algo que nunca aconteceu com ele.
O Curupira não olhou para o grupo e não pediu permissão para continuar. Apenas disse mais.
"Ela estava naquele planeta por acaso, ou por erro de rota, ou por uma circunstância que ninguém entendeu na hora. E quando os nossos passaram do limite, quando começaram a ferir criaturas que nem tinham linguagem para entender por que estavam sendo feridas, ela não tentou negociar. Ela não tentou correr. Ela não tentou pedir misericórdia para quem não estava oferecendo misericórdia a ninguém."
Ele fez uma pausa curta e então falou: "Ela só agiu e deu um golpe."
Zao Tian tremeu.
"Um golpe." O Curupira repetiu, porque era a única forma de manter a realidade daquilo no lugar: "Sem nenhuma preparação longa, sem chamar atenção do céu, sem transformar o planeta em um palco. Ela só avançou para impedir que eles continuassem machucando aquelas criaturas e, com um único movimento, matou todos os deuses enviados."
"Aquilo foi rápido demais para ser uma luta. Foi rápido demais para ter qualquer mérito técnico do lado deles. Foi uma diferença entre poder e a inexistência dele."
Zao Tian chorava em silêncio, mas o silêncio não era controle. Era incapacidade de falar. O corpo dele estava tomado por um sentimento que não pertencia a ele e, ainda assim, era sentido por ele como se fosse o núcleo da própria alma.
O Curupira continuou, e a precisão dele parecia cortar mais fundo a cada frase.
"Ela não estava tentando provar nada. Ela só queria que eles parassem."
"Quando foi reportado o que aconteceu, por um sobrevivente que estava longe e conseguiu escapar, o panteão inteiro virou os olhos para lá.”
O Curupira deixou claro como aquilo foi recebido por Odin e por quem estava ao redor dele.
"Quando você está exterminando o universo e, num planeta que nem era alvo, um grupo de deuses morre para uma garota de dezenove anos… Não importa se ela parecia gentil. Não importa se o motivo dela foi impedir o abuso. A única coisa que importa é que ela provou que o nosso domínio não era absoluto."
Ele então disse o que o panteão fez percebeu o risco.
"Prometheus era o Grande Deus mais próximo dali." O Curupira disse: "E ele recebeu a ordem de seguir para lá."
"Prometheus estava indo para destruir o planeta inteiro em um único golpe." O Curupira disse: "Não para punir uma garota, mas para apagar o lugar onde aquilo aconteceu, como se apagar o lugar apagasse a possibilidade de repetição."
Zao Tian engasgou com o próprio choro, e as lágrimas caíram mais, pesadas, como se o corpo dele estivesse tentando expulsar algo que não cabia dentro.
O Curupira seguiu, e então entrou a parte que ninguém naquele período teria previsto como interferência.
"Mas Prometheus não chegou a fazer isso." Ele disse: "Porque Krishna foi pessoalmente."
O nome atravessou o espaço com a frieza de uma lâmina bem afiada.
O Curupira não tentou justificar por que Krishna foi. Ele não fingiu saber as conversas internas, mas deixou claro o que era óbvio para qualquer um que viu a forma como o panteão se moveu naquela guerra.
"Quando uma anomalia daquele tamanho aparece, a mão mais competente à disposição do Pai de Todos tinha que resolver pessoalmente." O Curupira disse.
Ele então explicou o que sabia da garota, com um cuidado que parecia quase indecente em meio à brutalidade do que viria a seguir.
"Ela era poderosa." Ele disse: "Poderosa de um jeito que não combina com a idade que tinha, nem com aquele planeta, nem com qualquer curva que nós tínhamos calculado. Ela podia enfrentar deuses, e ela tinha acabado de provar isso. Ela podia matar, e matou.”
“Mas o poder dela ainda era imaturo e relativamente baixo em comparação ao de Krishna."
Zao Tian ouviu aquilo como se fosse uma sentença antecipada, e o choro virou algo pior, como se o corpo dele soubesse, antes de ouvir, o que Krishna faria.
"Krishna não foi para medir ou investigar." O Curupira disse, antes de afirmar: "Ele foi para exterminar."
"E foi rápido." Ele disse: "Rápido o suficiente para a garota não ter tempo de entender que a guerra do universo tinha atravessado a porta dela. Rápido o suficiente para ela não ter tempo de virar uma lenda. Krishna a matou como quem elimina uma praga, sem hesitar, sem carregar peso no rosto, sem permitir que o planeta guardasse uma chance para o futuro."
Zao Tian chorou mais forte, e agora não foi um choro contido. O som escapou, e a vergonha que ele normalmente sentiria nem conseguiu aparecer. Ele não tinha espaço para orgulho. Ele não tinha espaço para dignidade. Havia apenas aquela coisa que coabitava dentro dele, expandindo e esmagando seus sentimentos.
O Curupira continuou, e, por um instante, o respeito que ele demonstrava pela garota parecia ser o único gesto humano naquela narrativa inteira.
"Ela morreu sem ter feito nada além de tentar impedir um abuso." Ele disse: "E isso, para mim, ficou marcado como o ponto mais sujo da guerra inteira, porque foi desnecessário em qualquer leitura moral que não seja a leitura do medo."
Ele não disse aquilo como uma declaração de vergonha da sua própria raça.
"Depois disso, eu vi o que acontece quando o panteão se sente afrontado. Eles não viram a coragem dela como algo para ser compreendido. Viram como algo para ser esmagado com mais força."
O Curupira então falou do que veio logo depois, e foi aí que o evento deixou de ser apenas um registro isolado e virou um gatilho.
"E a morte dela não encerrou o assunto." Ele disse, antes de completar: "Ela abriu uma porta muito maior."
Zao Tian continuava chorando, e o rosto dele já não parecia responder ao próprio comando. As mãos dele se fecharam com força, como se agarrassem algo que não existia, como se tentassem segurar um corpo que já tinha sido perdido.
O Curupira então falou o próximo nome com a mesma objetividade, e, ainda assim, o peso do nome mudou o ar: "Amara."
"Minutos depois da execução, Krishna foi atacado por Amara." O Curupira disse.
Depois de dizer aquilo, o Curupira descreveu o instante como algo triste demais.
"Ela chegou aos prantos." Ele disse: "Prantos de verdade.”
“Ela estava destruída por dentro, e ela correu para lá como uma criatura sem qualquer cálculo de sobrevivência."
"Ela avançou como alguém que acabou de perder o que sustentava a própria vida." O Curupira disse.
Zao Tian chorou como se aquela frase tivesse sido dita dentro da cabeça dele, e o ódio que crescia não tinha forma de vingança ainda. Era só um mar escuro subindo, se acumulando, procurando um ponto para transbordar.
O Curupira continuou, e a maneira como ele descreveu Amara era cruel porque era humana.
"Ela acusou Krishna." Ele disse: "Ela o chamou pelo nome e disse que ele tinha matado a filha dela."
O Curupira deixou a palavra filha cair com todo o peso que a informação possuía. E ele descreveu Amara avançando como uma criatura que já tinha perdido qualquer noção de limite.
"Ela atacou Krishna como se a diferença entre eles não existisse." O Curupira disse: "Como se, se ela corresse com ódio suficiente, o universo fosse obrigado a aceitar que aquilo era justo."
"Não foi coragem no sentido limpo." Ele disse. "Foi desespero, porque quando alguém mata o seu filho, o mundo inteiro perde o sentido."
Ele disse que, naquele instante, Amara era a segunda criatura mais procurada do universo e, mesmo assim, parecia não se importar com o próprio título, com o próprio risco, com a própria caça que existia sobre a cabeça dela.
"Nós estávamos em guerra, mas ainda havia regras internas. Ainda havia prioridades. Ainda havia cálculos." Ele disse: "Amara apareceu ali e arrancou esse cálculo do lugar por alguns minutos, porque ela não estava operando com a lógica de sobrevivência. Ela estava operando com a lógica de punir o mal."
Ele disse que Krishna, naquele período, já tinha exterminado mundos inteiros sem piscar. Ainda assim, a presença de Amara naquele estado o assustou.
Enquanto isso, internamente, Zao Tian, chorava e tentava dizer algo para o responsável por fazê-lo sentir a pior dor que ele já sentiu na vida.
“Gold… Eu… Eu sinto muito…” Zao Tian falou como se a dor da perda fosse dele também, mas reconhecendo que ele nunca poderia sentir toda a extensão da dor que Gold provavelmente sentiu e sentia até hoje.
Gold, por sua vez, estava calado e permaneceu assim. Contudo, a comunicação veio através do choro de Zao Tian que, como uma forma de resposta, ficou ainda mais forte.
