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Capítulo UHL 1219 - A Dor Mais Profunda 3

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Tenham uma boa leitura!]


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O luto não diminuiu quando o Curupira parou de falar. Ele apenas mudou de forma.


A tristeza já não era só choro, ou soluços, ou aquela sensação de nó na garganta. Ela tinha virado uma presença no ambiente, algo que não dependia mais do corpo de ninguém para existir. O ar parecia pesado, como se cada respiração precisasse abrir caminho por dentro de uma coisa invisível.


Zao Tian continuava tremendo. As lágrimas já não eram um jorro. Elas vinham em ondas curtas, violentas, interrompidas por engasgos que ele tentava esconder com o maxilar travado, como se a própria vergonha ainda tentasse sobreviver dentro dele. Mas a vergonha não tinha espaço ali. Não havia dignidade que segurasse aquilo. O que existia ali era uma dor que não tinha o direito de caber em um corpo só.


E agora o grupo inteiro estava dentro dela.


Cada um chorava sem conseguir encontrar um ponto de apoio. Mesmo os que costumavam sustentar o mundo com a cara fechada estavam quebrados por dentro, porque aquela dor não era apenas sobre uma morte, nem sobre uma injustiça isolada. Ela era sobre o destino de um homem que nunca encontrou descanso e, quando encontrou, perdeu tudo de um jeito que nem o universo deveria permitir.


O Curupira observou aquilo em silêncio, com um tipo de resignação amarga, como se soubesse que, uma vez que certas verdades ganham um lugar à luz, elas não podem ser desditas, e não existe como voltar ao estado anterior.


Ele esperou o tempo que julgou necessário para que o grupo continuasse respirando, mesmo que respirasse errado.


Zao Tian enxugou o rosto com a mão, e a mão voltou molhada. Ele tentou controlar o tremor dos dedos e não conseguiu. Havia um esforço claro ali, a tentativa desesperada de se recompor, de se recolher para dentro, de impedir que o que vinha de Gold transbordasse de novo. Só que não era um transbordamento comum. Era como se a presença dentro dele tivesse sido arrancada de um lugar enterrado e agora estivesse em carne viva, sem pele, sem proteção.


Cruz estava perto, e o simples fato de estar ali dizia mais do que qualquer frase que ele pudesse inventar.


Ming Xue respirava curto. 


Ming Xiao mantinha os olhos baixos, mas as lágrimas continuavam caindo, como se o corpo dele tivesse decidido que não havia mais motivo para fingir força.


O Curupira finalmente falou outra vez.


"Daqui pra frente, meus relatos vão ficar menos detalhados." A frase veio simples, mas carregada de uma verdade que se encaixou com facilidade dentro daquele silêncio.


"Eu não quero esconder nada." Ele continuou: "Nem tenho medo de dizer."


Ele fez uma pausa, curta, apenas o suficiente para deixar o grupo entender que aquilo não era uma escolha, mas um limite real.


"Mas a maioria das testemunhas do que aconteceu depois disso morreu." Ele disse. E então completou, como se fosse necessário cravar a natureza desse buraco: "O que eu sei, nessa parte, vem das comunicações." 


"Vem dos amuletos. Vem de mensagens desesperadas dos meus irmãos enquanto eles estavam sendo esmagados. Vem de frases interrompidas pelo fim de suas vidas."


Ele então olhou para Zao Tian, não como quem pede desculpas por continuar, mas como quem reconhece que aquilo, por si só, já era uma crueldade: fazer um garoto ouvir a autópsia de uma dor que nem ele viveu, mas que ele carregava na memória.


"Eu ouvi nomes sendo gritados." O Curupira disse: "Ouvi irmãos pedindo reforço como se o reforço existisse. Ouvi irmãos tentando explicar o que estavam vendo sem ter vocabulário pra isso."


Ele soltou o ar, e por um instante parecia que até ele tinha dificuldade de sustentar a linha do que viria.


"Depois que a garota morreu e depois que Amara caiu… ficou um clima de expectativa que não parecia normal nem pra nós."


Zao Tian engoliu em seco, e o corpo dele tremeu de novo, não por antecipação do relato, mas porque o nome Amara ainda era um gatilho que atravessava a presença de Gold como uma lâmina.


O Curupira continuou, sem pressa: "Por algumas horas, ninguém apareceu."


Ele não precisou dizer quem era esse ninguém. O grupo entendeu do mesmo jeito que entendeu tudo antes: como quem sente uma coisa no osso, sem explicação.


"E aquilo mexeu com a cabeça dos deuses." Ele disse: "Mexeu do jeito ruim. Do jeito covarde. Do jeito que faz alguém procurar uma saída onde não existe."


Ele foi cuidadoso em como colocava as perguntas, porque sabia que algumas delas eram insultos, mesmo sendo pensamentos.


"Eu ouvi, dentro do panteão, deuses perguntando onde ele estava." O Curupira disse: "Deuses tentando justificar o silêncio dele."


"Será que ele abandonou a família?" O Curupira repetiu, citando algo que ouviu de verdade: "Será que ele se importava menos do que parecia?"


Ele fez outra pausa.


"Será que ele estava com medo?"


A palavra medo, naquele contexto, soou indecente.


Zao Tian fechou os olhos com força e as lágrimas voltaram, com uma linha quente escorrendo sem que ele percebesse. Porque aquilo não era só raiva. Era humilhação. Era o universo inteiro tentando reduzir Gold à lógica dos outros, como se ele fosse um homem comum fugindo do próprio peso.


O Curupira percebeu a reação, e manteve o tom firme.


"Sinceramente, eu não acredito que eles pensassem isso de verdade." Ele disse: "Não no fundo."


Ele explicou como ele acreditava que aquilo funcionava.


"Eles queriam acreditar. Porque acreditar nisso fazia a espera doer menos." O Curupira olhou para o vazio, como se estivesse lembrando daquele intervalo de tempo como um lugar físico.


"Aquelas horas foram estranhas." Ele disse: "E foram longas."


Ele falou longas como quem descreve um animal preso numa sala pequena.


"Todo mundo lembrava da cruzada dele." O Curupira continuou: "Lembrava do que ele fez quando decidiu humilhar o panteão."


"O ódio ainda existia." 


"Mas o medo existia junto."


E então veio a mudança de tom que fez aquela parte ficar ainda mais amarga: o jeito como os deuses passaram a se convencer de que, desta vez, era impossível dar errado.


"Só que a situação agora era diferente." O Curupira disse, antes de explicar o motivo: "O Pai de Todos estava acordado agora."


"E Krishna estava ao lado dele."


O Curupira deixou o significado afundar, e aí explicou sem pressa como aquela certeza deformava a mente dos deuses.


"Quando o Pai de Todos está desperto, a sensação que se instala é de que o universo já decidiu." Ele disse: "E quando Krishna está inteiro, depois de matar Amara, essa sensação vira uma certeza nos nossos corações."


O Curupira então fez um adendo que não tinha humor, só crítica: "Se é que dá pra dizer tínhamos um coração."


"Todos se sentiram invencíveis." O Curupira continuou: "Não porque eram corajosos, mas porque estavam cercados pela máquina inteira."


Ele então explicou onde estava a diferença entre o passado e aquele momento.


"O panteão que Gold humilhou… não era o mesmo panteão agora." Ele disse: "Naquele tempo, muita coisa ainda não tinha sido consumida. Muita coisa ainda não tinha sido devorada."


"Os deuses não tinham milênios de canibalismo e consumo de Aasimares acumulados na carne." Ele disse: "O nosso líder deles dormia. O guardião estava distante. E foi por isso que Gold fez o que fez."


O Curupira respirou devagar.


"Agora, quase toda a máquina estava de pé." Ele disse: "E nós olhávamos para o mapa e não víamos como perder."


Ele não disse que essa certeza era verdadeira. Ele disse que era o que eles acreditaram.


"Gold era um humano." Ele disse: "Fora da lógica, mas humano."


Ele não acrescentou nada que pudesse soar como desmerecimento. O próprio peso da frase já era suficiente.


"E do outro lado estava o Pai de Todos." Ele continuou, sem aumentar o tom. "E com ele, Krishna."


"Então, por algumas horas, houve uma sensação de vitória antecipada." O Curupira completou.


“Uma sensação que não era uma comemoração, porque ainda havia o medo antigo.”


“Aquilo era um tipo de alívio cruel, como se o panteão estivesse finalmente convencido de que a caçada tinha terminado antes mesmo do último passo.”


"E foi aí que a coisa mudou." O Curupira continuou: "De verdade."


Ele deixou a frase ficar no ar, como se desse ao grupo a chance de se preparar, mesmo sabendo que nada prepara alguém para aquilo.


"Gold apareceu." O Curupira contou.


Naquele momento, Zao Tian inspirou, e a inspiração falhou no meio. O peito dele apertou como se uma mão invisível tivesse fechado o espaço por dentro. As lágrimas voltaram com força, e desta vez ele não tentou esconder.


O Curupira continuou, agora com um cuidado diferente, porque essa parte tinha outro tipo de peso, pois não era mais a tragédia da garota. Era a chegada do homem que todos tinham incendiado o universo para forçá-lo a sair da toca.


"Krishna ainda estava onde matou Amara." Ele disse.


Ele então descreveu a cena de forma crua, quase simples demais: "Ele estava segurando o corpo dela."


O grupo inteiro sentiu um arrepio atravessar o luto, porque a ideia de alguém segurar um corpo como isca era uma violência que não precisava de sangue novo para doer.


"E Eir estava lá." O Curupira continuou: "A deusa com o Dom da Cura."


Ele não disse que Eir tinha compaixão. Ele apenas descreveu o que ela estava fazendo.


"Ela estava reconstruindo Krishna." Ele disse: "Fechando ferimentos. Tornando ele inteiro de novo, como se a luta com Amara pudesse ser apagada do seu corpo."


O Curupira fez uma pausa curta e então colocou o motivo real daquela cena.


"Krishna segurava Amara porque queria que Gold aparecesse." Ele disse, e a frase foi dita como uma descrição de um plano cruel, sem qualquer tentativa de suavizar.


"A guerra começou para isso." O Curupira continuou: "Nós queimamos o universo inteiro pra isso. E agora, na cabeça de todos, aquilo era a isca perfeita."


Depois de dizer aquilo, ele soltou o ar de um jeito que soou quase como desprezo por ele mesmo.


"Às vezes você deseja uma coisa sem entender o que está pedindo." Ele disse: "E foi isso que aconteceu ali."


O Curupira olhou para Zao Tian, e por um instante pareceu que ele mediu o quanto aquilo estava esmagando o garoto, não como curiosidade, mas como culpa.


"Gold apareceu." Ele repetiu, como se o próprio verbo aparecer fosse insuficiente.

E então veio a parte que mudou a temperatura do ambiente, mesmo sendo só uma frase.


"E Krishna não viu a chegada dele."


Aquelas palavras não eram só uma informação. Eram mais uma humilhação divina condensada, era a prova de que, por mais que Odin estivesse acordado, ainda havia coisas no universo que aconteciam fora do alcance da percepção comum.


Quando prosseguiu, o Curupira não tentou exagerar. Ele apenas descreveu o efeito do que aconteceu.


"Krishna foi atacado com tanta força que atravessou quase a distância de uma galáxia." Ele disse.


Aquela imagem, por si só, já era absurda o bastante para quebrar a cabeça de qualquer um.


"Ele só entendeu que tinha sido atingido depois." O Curupira continuou: "Depois que conseguiu parar."


Ele falou parar como quem sabe que essa palavra, ali, era uma linha de sobrevivência.


"E foi só então que ele percebeu que o corpo de Amara não estava mais nos braços dele." O Curupira disse.


O grupo ficou em um silêncio de choque.


Zao Tian soluçou, e o soluço veio carregado de um tipo de desespero que não tinha nada a ver com o corpo dele. Era Gold. Era o homem finalmente se movendo, não para matar, não para humilhar, mas para pegar de volta o que era dele, como se o universo inteiro estivesse errado por ter permitido que aquilo fosse usado como uma ferramenta.


O Curupira continuou, e a frase seguinte veio como a parte mais triste do evento: "Depois de pegar o corpo da sua amada Amara, Gold desapareceu logo depois."


Naquela frase, o Curupira não descreveu uma fuga, porque não aquilo que estava acontecendo. 


O luto no grupo pareceu crescer de novo, só que agora tinha outra camada: a sensação de que, por baixo de toda a guerra, havia uma coisa muito simples e muito humana acontecendo.


Um homem pegando o corpo da mulher que amava.


Um homem fazendo isso sem anúncio, sem ameaças ou discursos. Sem permitir que todos transformassem aquilo em um símbolo.


Zao Tian chorou mais forte, e dessa vez o choro não era só dor. Era um tipo de reconhecimento, como se a presença de Gold dentro dele tivesse, por um segundo, deixado a guerra inteira de lado e lembrado do único ponto do universo que realmente importava naquele instante.


O Curupira não falou por alguns segundos.


Ele deixou o silêncio existir, como forma de respeito. E quando ele voltou a falar, a voz dele parecia mais baixa, por estar pisando em um terreno onde até ele sentia que não devia gritar.


"A partir daí…" O Curupira disse: "As coisas começaram a mudar." O Curupira disse, antes de completar: “Nós encontramos o que queríamos… Mas a “isca”, não atraiu uma caça, e sim… O caçador!”





O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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