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Capítulo UHL 1220 - A Dor Mais Profunda 4

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Tenham uma boa leitura!]


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Aquele planeta que o Curupira descreveu quando falou sobre Amara e a filha de Gold existia como uma nota fora do tom do resto do cosmos.


Dias antes de qualquer guerra, antes de Decarius virar o centro de um massacre e antes de o céu aprender a ser rasgado por nomes grandes demais, aquele mundo ainda era apenas um corpo celeste aquém das intrigas e conspirações. Pequeno, discreto, sem rotas de conflito atravessando sua órbita, sem cultos, sem exércitos, sem tradição de hostilidade. Um lugar que, no mapa mental de quem vivia de guerra, não valia sequer o esforço de ser lembrado.


A geografia dali era suave, feita de vales baixos e planícies largas, com florestas que não pareciam crescer para esconder emboscadas, mas para sustentar vida. Havia rios estreitos, transparentes, que corriam sem pressa e formavam braços por entre pedras arredondadas. As criaturas locais não carregavam marcas de caça constante. Elas tinham medo na medida natural de qualquer animal, mas não tinham o medo específico de quem aprendeu a reconhecer o cheiro da morte.


O céu, à noite, era limpo demais. Mostrava constelações como se o universo ainda fosse uma coisa inocente, e o vento vinha frio só o suficiente para lembrar que ali existiam estações, que o tempo passava, e que não havia urgência além da urgência comum da vida.


Gold escolheu aquele lugar por causa disso.


Aquele não era um refúgio perfeito, mas era um refúgio que parecia possível.


Ele e Amara estavam ali há algum tempo, e, pela primeira vez em um período que nenhum dos dois sabia medir com exatidão, o cotidiano começou a existir sem ser imediatamente devorado por alguma necessidade repentina.


A rotina deles ainda era cautelosa. O cuidado não tinha saído do corpo deles. Não havia descanso completo em alguém como Gold, e Amara carregava a mesma vigilância, só que de um jeito mais particular. Ainda assim, havia algo diferente: a vigilância não era o centro da vida deles. Não mais,


Ela era um pano de fundo. Um hábito que já não mandava em tudo que eles faziam ou pensavam fazer.


E Elira, no meio disso, parecia ter nascido para provar que o mundo podia ser simples. Mesmo para seres tão importantes quanto aqueles dois.


Ela corria pelo terreno como se o planeta fosse dela, mas sem arrogância. Caminhava com curiosidade, tocava folhas, cheirava flores, e aprendia o nome das coisas pela experiência, não por medo. Ela ria com facilidade, e aquele riso fazia Amara se sentir culpada por estar feliz.


Quanto a Gold… Aquilo fazia ele finalmente se sentir vivo.


Naquele dia, sob a sombra de uma árvore larga, o vento batia leve, o ar tinha cheiro de fruta madura e de terra úmida, e o silêncio não tinha ameaça dentro dele.


Elira estava ajoelhada perto de um pequeno grupo de criaturas dóceis, animais de pele fina e olhar curioso, com patas estreitas e caudas compridas que pareciam mais feitas para equilíbrio do que para defesa. Elas vinham e voltavam sem medo, tocando as mãos dela com o focinho, aceitando comida como se aquilo fosse a coisa mais natural do universo.


Elira falava com elas num tom baixo, sem precisar mandar.


Era como se o planeta inteiro reconhecesse nela um lugar seguro.


Amara e Gold estavam alguns passos atrás, sob a sombra mais alta, observando em silêncio por um tempo antes de falar.


Amara foi a primeira a quebrar aquele silêncio.


"Você está exagerando." Ela disse, sem dureza, mais como quem tenta puxar o marido de volta para o chão antes que ele invente um céu inteiro para dar de presente.


Gold nem desviava os olhos da filha.


"Eu sei." Ele respondeu: "E mesmo assim eu vou fazer."


Amara estreitou os olhos, fingindo irritação, mas havia riso nela.


"Vai dar trabalho." Ela disse: "Muito trabalho."


"Não importa." Gold respondeu, simples, como se aquilo encerrasse qualquer argumento possível: "Ela merece."


Amara olhou de novo para Elira, e o olhar dela suavizou mais ainda.


"Ela já sorri o tempo inteiro." Amara disse: "Ela já é feliz. Uma comemoração simples já seria mais do que suficiente."


Gold soltou um som baixo, um tipo de riso contido.


"Ela sempre sorri." Ele concordou, muito feliz: "E eu quero ver ela sorrir mais."


Amara virou o rosto para ele, e a ironia cedeu lugar a algo mais profundo, mais íntimo.


"Você é um pai babão demais." Ela disse, balançando a cabeça: "Você está mimando a garota."


Gold finalmente olhou para Amara, e o olhar dele tinha orgulho, tinha calma, tinha aquela firmeza que ele sempre teve, mas sem o peso do universo inteiro por cima dele.


"Eu estou." Ele disse, antes de avisar: "E eu não pretendo parar."


Amara soltou um riso curto e, por um instante, pareceu que ia fazer mais uma piada.


Mas não fez.


O sorriso dela hesitou, e as palavras que vieram depois saíram com um tipo de lamento discreto demais.


"Eu adoraria ver você fazer isso por ele." Amara disse.


A frase foi simples, mas não precisou de mais nada. Ela ficou ali, suspensa no ar, e o planeta pacífico pareceu ficar mais silencioso por um segundo.


Gold não se mexeu de imediato. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque, por um instante, a felicidade que existia ali encostou numa borda antiga e sangrou um pouco.


Ele respirou fundo, devagar, e o olhar dele voltou para Elira como se precisasse tocar em algo vivo para não cair.


"Eu também." Gold disse, e a voz dele veio baixa: "Eu também desejaria o mesmo."


Amara esperou, com o rosto firme, mas os olhos dela estavam úmidos de um jeito que não era apenas de choro.


Gold, por sua vez, continuou, e o que veio depois não foi um consolo barato.


"O universo nos deu ela." Ele disse: "E eu estou feliz por isso. Feliz de verdade."


Amara engoliu em seco e assentiu lentamente.


"Eu também." Ela disse.


Houve um silêncio curto, e então Amara soltou a próxima frase como quem não consegue evitar, mesmo sabendo que aquilo abre uma ferida.


"Zaki conseguiu tirar da gente uma coisa até o fim." Ela disse, num tom melancólico, quase cansado.


Estava muito claro que ela já chorou muito por aquilo.


Gold respirou de novo, e o jeito como ele respirou mostrou que o assunto ainda tinha garras pontiagudas que machucavam.


Ele não levantou a voz.


Ele não explodiu.


Ele só tentou encerrar.


"Casais perdem filhos." Gold disse: "Acontece. Não é…"


Ele então parou no meio, como se tivesse escolhido as palavras com cuidado para não ferir Amara com a própria tentativa de protegê-la.


"A culpa não foi daquele imbecil." Ele completou, com um desprezo seco na forma como pronunciou o adjetivo: "Ele não merece esse crédito. E a culpa também não foi sua."


Amara soltou um riso sem humor.


"Eu vi como você ficou depois do rompimento com ele…" Ela comentou.


Gold ficou quieto.


"Eu te vi." Ela disse, e a voz dela baixou, como se não quisesse que Elira ouvisse nem de longe, mesmo estando longe demais para isso: "Eu vi você daquele jeito. Triste. Vazio. E eu… eu não aguentava."


Ela soltou o ar de forma triste, e a frase seguinte veio com uma delicadeza cruel, porque não acusava, só mostrava como as coisas podem se encadear mesmo quando ninguém quer.


"Talvez aquilo tenha causado o aborto." Amara disse: "Talvez… eu não sei."


Gold fechou os olhos por um instante curto, relembrando os momentos dolorosos que passou após a perda de seu filho ainda no ventre de Amara.


Quando abriu, o olhar dele tinha dor, mas não tinha defesa.


"Me perdoe." Ele disse.


Foi simples. Foi direto. Foi verdadeiro.


E depois, com a mesma honestidade, ele negou o resto, porque aquilo era a única maneira que ele tinha de impedir que Amara se afogasse em culpa.


"Mas a gente não é médico." Gold disse: "A gente não sabe. E isso… isso aconteceu porque tinha que acontecer."


Amara apertou os lábios, enquanto Gold desviou o olhar para Elira de novo, e só então falou a frase que parecia sustentar ele de pé nos últimos anos.


"E independente do que houve…" Ele disse: "A vida deu pra nós um presente que eu jamais imaginei receber."


Ele falou isso olhando para a filha, como se a simples visão dela fosse o suficiente para justificar que ele ainda respirava.


Elira ria baixinho, oferecendo comida para uma das criaturas, e a criatura aceitava com o cuidado de quem aprendeu, rápido, que ali não havia perigo.


Gold estava com um sorriso pequeno, mas cheio.


Um sorriso de pai.


Um sorriso orgulhoso.


Um sorriso babão.


Amara seguiu o olhar dele e, quando viu o rosto do marido daquele jeito, a dureza dentro dela cedeu um pouco.


"Ela é maravilhosa." Amara disse.


Gold assentiu, como se fosse óbvio demais para ser dito.


Amara então olhou para ele com uma expressão que misturava carinho e provocação.


"E você é gentil demais." Ela disse.


Gold levantou uma sobrancelha, fingindo ofensa.


"Gentil?" Ele repetiu, como se aquela palavra fosse absurda: "De quem será que ela puxou isso?"


Amara soltou um som que quase foi uma gargalhada.


"Com certeza não foi do pai." Ela respondeu, rápida, como se estivesse esperando a oportunidade há algum tempo.


Gold olhou para ela com uma expressão teatral de indignação e, pela primeira vez naquele diálogo, ele riu de verdade.


Um riso curto, mas solto.


"Eu preciso dar esse presente pra ela." Ele disse, voltando ao ponto como quem não larga uma ideia quando decide.


Amara ergueu os olhos para o céu, fingindo cansaço.


"Você é impossível." Ela disse.


"Você sabia onde estava se metendo quando se envolveu comigo." Gold respondeu, com um sorriso que era metade provocação e metade felicidade pura.


Amara tentou segurar por mais um segundo.


E falhou.


Ela acabou sorrindo também.


"Tá." Ela disse, rendida: "Tudo bem. Faça isso então."


Gold abriu o sorriso mais ainda, como se aquela permissão fosse uma vitória.


Contudo, Amara levantou um dedo, lembrando que a vida deles ainda tinha restrições, mesmo naquele planeta calmo.


"Só que… a distância pode atrapalhar o funcionamento da sua técnica." Ela disse, com cuidado: "Não é só vontade."


Gold assentiu, sério agora.


"Eu consigo manter a gente no escuro." Ele disse.


A palavra escuro, na boca dele, não era metáfora comum.


Era um lugar real.


Uma ausência construída.


Uma forma de existir sem ser visto.


"Mas o que vai ficar prejudicado com a distância é a minha percepção." Gold continuou: "Quanto mais eu me concentro para nos esconder… menos eu sinto o resto."


Amara olhou ao redor, para as árvores, para a luz, para as criaturas, para a filha deles, tão tranquila que parecia não ter ideia de que o universo lá fora tinha dentes.


"E você não precisa ficar vigiando o tempo inteiro." Ela disse, num tom mais suave: "Não agora."


Gold não respondeu de imediato, e Amara encostou a mão no braço dele, com uma firmeza gentil.


"Mantenha-nos ocultos." Ela disse: "E confie em mim."


Gold olhou para ela, e o jeito como ele olhou dizia que confiança, nele, nunca foi uma coisa simples. Mas ali, com Amara, com Elira, com aquele planeta, ele conseguiu.


"Eu confio." Ele disse.


Amara soltou um ar aliviado e, só então, deixou escapar um sorriso que tinha algo quase ingênuo.


"Eu vou ficar de olho na nossa filha." Ela disse, como se o universo inteiro pudesse ser reduzido a isso por alguns minutos: "Eu vou estar perto."


Gold olhou para Elira de novo, e a expressão dele suavizou.


Elira estava tão feliz ali. Tão segura, que era como se nada pudesse tocar nela naquele lugar.


Amara percebeu o pensamento no rosto dele e, sem saber, colocou palavras no que os dois estavam evitando dizer em voz alta.


"Ela podia passar anos aqui sem nunca ver hostilidade." Amara comentou, num tom quase sonhador: "Podia crescer achando que o universo é… isso."


Gold soltou um riso baixo.


"Ela ia encher nossa casa de mais bichinhos de estimação." Ele disse.


Amara não resistiu. Ela gargalhou de verdade, e o som da gargalhada dela pareceu combinar com aquele planeta como se fosse permitido ali, como se o mundo aceitasse alegria sem cobrar nada em troca.


Ela segurou o braço de Gold com as duas mãos, puxou ele um pouco mais perto e, sem cerimônia, deu um beijo na bochecha dele.


Gold ficou um segundo imóvel, surpreso por um detalhe tão simples ainda conseguir atravessar ele.


Amara, por sua vez, manteve o rosto perto do rosto dele e os dois ficaram olhando para Elira.


Então Amara disse, num tom baixo, quase íntimo demais para existir: "Você é o melhor pai do mundo."




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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