Capítulo UHL 1221 - A Dor Mais Profunda 5
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O momento que veio depois do beijo na bochecha foi de paz.
Amara ainda estava com a mão no braço de Gold, e o calor daquele contato era tão normal que parecia uma afronta ao resto do universo. Elira continuava no próprio mundo, alimentando as criaturas com a paciência de quem não conhece urgência.
E foi nesse cenário, sem pressa, sem ameaça, que Gold decidiu que era hora de começar a montar o que ele queria dar de presente.
Ele se afastou alguns passos e chamou a filha com um gesto simples.
Elira virou o rosto, limpou a mão na própria roupa com cuidado para não assustar as criaturas e veio até ele com uma tranquilidade que fazia Amara sorrir por dentro.
"O que foi, pai?" Ela perguntou, como se qualquer assunto fosse pequeno e seguro.
Gold respirou fundo e escolheu as palavras com uma delicadeza estranha nele, porque o homem que já tinha dobrado o universo precisava, ali, se comportar como um pai comum.
"Eu vou precisar ficar fora por alguns dias." Ele disse.
Elira piscou devagar.
"Fora?" Ela repetiu, sem alarme. Mais por curiosidade do que preocupação.
"Tem alguns assuntos…" Gold respondeu: "Coisas que eu preciso resolver."
Elira não fez uma única pergunta sobre que assuntos eram aqueles.
A confiança dela no pai era automática. E isso, de algum jeito, doía em Gold e aquecia ao mesmo tempo.
"Eu volto antes do seu aniversário." Ele acrescentou, como se essa fosse a única promessa que importava de verdade.
Elira assentiu, satisfeita, e o olhar dela ficou sério de um jeito quase engraçado, como se ela fosse assumir a posição de alguém muito mais velho.
"Então tome cuidado." Ela disse.
Gold ergueu uma sobrancelha.
Elira apontou para ele com a mesma firmeza que usava para afastar as criaturas de uma planta espinhosa.
"Fica longe de gente má." Ela avisou.
Amara mordeu o lábio para não rir.
Gold, porém, não riu.
Ele inclinou um pouco a cabeça, como se estivesse recebendo instruções de alguém que sabe o que está falando.
"Tá bom." Ele respondeu.
Elira continuou, sem perceber o quão ridículo era dar esse tipo de conselho para quem Gold era.
"E se alguém tentar te roubar…" Ela disse, pensando com seriedade no problema como se fosse real: "Entrega. Entrega tudo."
Gold manteve os olhos nela.
Elira franziu a testa, preocupada de verdade.
"Não faça besteira por coisas materiais." Ela completou: "Não desperdice sua vida por isso."
Gold sentiu o peito apertar por um instante curto, não de tristeza, mas de um tipo de gratidão que ele não sabia expressar.
Ele assentiu devagar, feliz.
"Eu vou fazer tudo isso." Ele disse.
Elira então relaxou, satisfeita, como se a missão dela tivesse sido cumprida.
Amara, atrás, estava quase rindo, porque a cena era boa demais para não ser engraçada.
Gold olhou para ela por um segundo e viu o brilho no olhar da esposa.
Ela estava feliz.
E ver Amara feliz era, para ele, uma das maiores vitórias que ele podia alcançar.
Elira, então, se aproximou mais, como se ainda quisesse acrescentar algo, e baixou a voz de um jeito conspiratório.
"E… se alguém parecer esquisito, não conversa." Ela disse: "Só sai. Pessoas esquisitas sempre querem alguma coisa."
Gold segurou o próprio sorriso.
"Eu prometo." Ele respondeu, com a mesma seriedade.
Elira o encarou por um segundo, tentando decidir se ele estava mesmo levando aquilo a sério ou se estava só concordando por educação. E, como não encontrou nenhuma ironia no rosto dele, assentiu de novo.
"Tá." Ela disse: "Aí tudo bem."
Gold se abaixou um pouco, abriu os braços e puxou a filha para um abraço sem pressa.
Elira aceitou como se aquilo fosse tão natural quanto respirar.
Gold beijou a testa dela.
"Eu volto em breve." Ele disse, com a boca ainda perto do cabelo dela: "Antes de você repetir meu nome mil vezes."
Elira se afastou um pouco e arregalou os olhos, fingindo indignação.
"Eu nem faço isso." Ela respondeu.
Gold ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo.
"Claro." Ele disse.
Elira cruzou os braços e inclinou o rosto.
"Eu já comecei a contar, tá?" Ela falou, teatral, como se estivesse no meio de uma contagem invisível.
Gold não discutiu.
Ele só se aproximou de novo e beijou a testa dela outra vez, mais demorado, como se tentasse colocar naquele gesto toda a segurança que ela acreditava que existia no mundo.
Depois, ele passou a mão pelos cabelos pretos e lisos dela, fazendo um carinho simples.
"Eu já volto." Ele repetiu.
Elira assentiu, e o sorriso dela apareceu de novo, fácil, leve.
Gold então se ergueu, virou para Amara e o olhar dele ficou mais íntimo.
"Cuide dela." Ele disse.
Aquele não era um pedido comum. Era uma frase que carregava um universo inteiro por trás, mesmo sem parecer.
Amara se aproximou, segurou o rosto dele com uma mão e o beijou com calma, como se também estivesse guardando a paz daquele planeta dentro da boca.
"Eu cuidarei." Ela respondeu: "Nós vamos estar aqui quando você voltar."
Gold assentiu. E então, sem chamar atenção, ele simplesmente foi para o céu.
Não com pressa.
Não com a violência de quem rasga o espaço.
Ele subiu como alguém que está indo trabalhar e vai voltar para casa.
Elira olhou para cima, colocou as duas mãos na boca e gritou: "Se você demorar, você vai ter que me aceitar pelo menos mais dois animais de estimação!"
Gold não respondeu.
Ele só sorriu. Olhou para trás uma última vez, viu Amara ao lado da filha, viu Elira acenando como se aquilo fosse uma despedida comum, e guardou aquela imagem como quem guarda uma promessa.
Depois, ele virou de novo e seguiu. Desta vez, para longe de verdade.
Atravessando distâncias que nenhum ser humano deveria compreender, Gold cruzou o vazio com a mesma naturalidade com que Elira atravessava um rio raso. Ele conhecia mais planetas do que alguém poderia contar em uma vida inteira, porque sua jornada de difusão do caminho marcial tinha sido, por eras, uma peregrinação incansável. Ele tinha visto povos nascerem e morrerem, impérios se erguerem e virarem poeira, mundos inteiros se tornarem apenas lembranças.
E, ainda assim, naquele momento, o que ele queria não era poder.
Era um jardim.
Em um desses planetas, muito tempo atrás, ele tinha visto uma flor rara nascendo em montanhas frias, em pontos onde o vento nunca parava de soprar.
Ela mudava de cor o tempo inteiro.
Não era um brilho mágico espalhafatoso.
Era uma variação constante, viva, como se a planta carregasse dentro de si uma paleta de cores inteira e estivesse sempre escolhendo qual usar.
Contudo, o detalhe mais estranho não era esse. O que mais encantava naquela flor era que ela reagia ao humor de quem se aproximava.
Quanto mais leve e feliz a intenção, mais vívidas as cores ficavam.
Quanto mais escura a intenção, mais apagada a flor se tornava, como se recusasse se oferecer a quem carregasse veneno.
Elira era o tipo de pessoa que tornaria um jardim feito daquelas flores uma coisa absurda, porque ela se aproximaria e as flores, naturalmente, explodiriam em cores vivas.
Gold queria ver isso. Ele queria um presente que não fosse só bonito, mas que provasse, diariamente, que a filha dele existia do jeito certo.
Ele queria plantar um horizonte inteiro para ela.
Um jardim que se perdesse na vista.
E ele tinha partido preparado para fazer isso.
Vasos. Ferramentas. Lâminas finas para cortar sem esmagar as raízes. Terras férteis escolhidas a dedo, carregadas em recipientes selados, porque aquela flor tinha fama de morrer se fosse arrancada com brutalidade.
Não era uma flor para quem tem pressa.
Era uma flor para quem tem cuidado.
Depois de viajar bastante, Gold atravessou a atmosfera do planeta-alvo e sentiu o ar.
Era frio, seco, e tinha cheiro de pedra.
O mundo abaixo era montanhoso, recortado por cadeias longas e altas, com picos tão afiados que pareciam rasgar as nuvens. As montanhas carregavam manchas de vegetação baixa e resistente, e entre elas existiam vales estreitos onde se acumulava umidade suficiente para sustentar pequenas florestas de folhas escuras.
Havia vida inteligente ali. E era visível antes mesmo de pousar.
Construções presas às encostas, como se a raça local tivesse aprendido a fazer da gravidade um aliado. Casas de pedra e metal leve, pontes estreitas ligando uma saliência à outra, pequenas torres com bandeiras longas que balançavam com o vento constante. E, ao redor de tudo, havia um tipo de silêncio respeitoso, como se aquele povo estivesse acostumado a ouvir o próprio planeta.
Gold desceu até um patamar de rocha, perto do início de uma trilha que subia para regiões mais altas, e pousou com as ferramentas e os recipientes ao lado.
Então ele olhou para cima, encarando a montanha como quem encara uma tarefa simples.
"Tá." Ele murmurou sozinho: "Hora de começar."
A trilha era estreita, e o vento batia forte o suficiente para puxar a roupa dele. Gold subiu sem pressa, seguindo o próprio instinto e a lembrança vaga de onde tinha visto as flores antes: não em qualquer lugar, mas em pontos onde a rocha tinha um tipo específico de mineral e onde a umidade do ar tocava a pedra no final da tarde.
Ele parou quando viu a primeira.
Uma flor pequena, de pétalas longas e finas, que parecia quase frágil demais para existir naquele ambiente.
Ela estava azul naquele instante.
Um azul vivo.
E, quando Gold se aproximou mais, sem qualquer agressividade, ela começou a mudar.
Do azul para o violeta.
Do violeta para um rosa muito claro.
E então para um dourado suave, como se tivesse reconhecido a natureza daquele que vinha em sua direção.
Gold sorriu sem querer.
"Boa." Ele disse, mais para si mesmo do que para a flor.
Em seguida, ele ajoelhou, tirou uma das ferramentas finas e começou a soltar a terra ao redor, com paciência. Era um trabalho artesanal, e ele fazia com a concentração de quem já teve que segurar o próprio universo, mas que ali escolhia usar essa habilidade para não quebrar uma raiz.
Foi quando uma voz surgiu às costas dele, aguda e indignada.
"Ei!"
Gold virou o rosto devagar.
Quem estava ali não era humano. Era um habitante local, de uma raça que parecia feita para aquele ambiente, com o corpo mais baixo, tronco firme, pernas fortes, pele em tons de pedra escura, como se carregassem poeira mineral na própria carne. Os olhos eram claros demais, quase prateados, e as orelhas tinham um formato alongado e dobrado, como se fossem adaptadas para captar som no vento.
Ele carregava uma mochila grande e uma ferramenta de escavação improvisada. E o olhar dele estava fixo na flor.
"Você tá fazendo o quê?" O habitante perguntou, como se a pergunta fosse óbvia e a resposta tivesse que ser proibida.
"Colhendo." Gold respondeu, simples.
"Colhendo?" O outro repetiu, ofendido: "Essa aqui é minha!"
Gold piscou devagar e retrucou: "Como assim sua?"
O habitante apontou para o chão, como se o ponto de rocha tivesse um dono.
"Eu subi cedo!" Ele disse: "E eu marquei esse lugar!"
Gold olhou ao redor.
Não havia marca nenhuma. Pelo menos não para alguém que não conhecia o sistema local.
"Eu não vi essa tal marca." Gold respondeu.
"Porque você não sabe olhar!" O habitante rebateu, com uma seriedade quase cômica: "Você não é daqui!"
Gold segurou o riso.
"Isso é verdade." Ele admitiu.
O habitante, então, cruzou os braços e inclinou o corpo na direção da flor, como se fosse protegê-la com presença.
"Eu venho aqui há semanas." Ele disse: "Semanas! Eu achei essa antes!"
Gold olhou de novo para a flor, que agora tinha voltado para um tom lilás, como se estivesse assistindo à discussão e achando aquilo interessante.
"E eu preciso dela." Gold disse, sem agressividade: "Eu vim de longe por ela."
"Todo mundo vem de longe quando quer inventar uma desculpa!" O habitante respondeu, indignado: "E daí?"
Gold ficou em silêncio por um segundo, medindo o tamanho da cena.
Ele podia, com um pensamento, fazer aquele ser desaparecer do lugar.
Podia, com menos que isso, arrancar todas as flores da montanha e sair antes do vento mudar.
Mas ele não fez.
Ele apenas respirou e falou como se estivesse falando com alguém do mesmo nível.
"Eu não vou tirar a sua flor se você realmente achou primeiro." Gold disse: "Mas eu também não vou sair daqui sem nada."
O habitante encarou Gold e estreitou os olhos.
"Então você quer brigar?" Ele perguntou, como se a palavra brigar pudesse significar uma disputa entre eles.
Gold olhou para ele e quase sorriu.
"Não." Ele disse: "Eu quero… negociar."
"Negociar?" O outro repetiu, desconfiado, como se essa fosse a palavra mais perigosa do mundo.
Gold apontou com a cabeça para a montanha.
"Tem mais pontos." Ele disse: "Não deve ser só essa flor."
O habitante bufou.
"Claro que tem." Ele respondeu: "Cinco ou seis no máximo, se você tiver sorte. E você apareceu justo na que eu achei."
Em resposta, Gold abriu as mãos, como se admitisse culpa sem ter.
"Então me mostra outra." Ele disse: "E essa fica com você."
O habitante congelou por um instante, como se aquela proposta fosse tão absurda quanto insultuosa.
"Eu vou te mostrar e você vai tentar pegar antes de mim." Ele acusou, imediatamente.
Gold suspirou.
"Você acha que eu sou tão rápido assim?" Ele perguntou.
O habitante olhou para o jeito como Gold tinha pousado, para as ferramentas organizadas, para a calma no rosto dele, e pareceu não saber onde colocar a suspeita.
"Eu acho que você é trapaceiro." Ele respondeu.
Gold riu, baixo, sem maldade.
"Eu não sou." Ele disse: "Eu só… tenho um presente pra fazer."
O habitante hesitou.
"Presente?" Ele repetiu, como se aquela palavra diminuísse a gravidade da disputa pela flor.
"Pra minha filha." Gold respondeu, olhando de novo para a flor como se ela já estivesse no jardim que ele queria criar: "Ela faz aniversário. Eu quero plantar um lugar bonito pra ela."
O habitante ficou em silêncio por dois segundos.
O vento passou, e ele apertou os lábios, pensando.
"E por que tem que ser essa flor?" Ele perguntou, como se ainda procurasse uma razão justa.
"Porque ela muda de cor." Gold respondeu: "E porque ela reage ao humor de quem se aproxima."
O habitante franziu a testa.
"Isso é verdade." Ele admitiu, relutante: "Ela fica apagada quando gente ruim chega perto."
Gold assentiu.
"Minha filha não é ruim." Ele disse: "Ela é… leve."
O habitante olhou para Gold como se estivesse tentando decidir se aquilo era mentira ou não. E, por algum motivo, pareceu acreditar.
Então, ele bufou de novo, como se fosse o gesto padrão dele.
"Tá." Ele disse: "Mas eu não vou te dar nenhum ponto bom de graça."
Gold inclinou a cabeça, esperando, e o habitante apontou para um caminho estreito que subia ainda mais alto.
"Vem." Ele disse: "Mas se você atrapalhar, eu te empurro montanha abaixo."
Gold olhou para o corpo compacto do sujeito e fingiu considerar o risco com seriedade.
"Entendido." Ele respondeu.
Depois daquela discussão inicial, eles começaram a subir juntos. E, já nos primeiros minutos, ficou claro que aquela seria uma disputa ridícula.
O habitante parava a cada dez passos para reclamar que Gold andava no lugar errado.
"Você está pisando onde eu ia pisar!" Ele disse, indignado.
"Eu não sabia que existia esse negócio de reserva de pedra." Gold respondeu, sem ironia.
"É claro que existe!" O outro retrucou: "Eu reservei mentalmente!"
Gold segurou o riso.
Mais adiante, quando avistaram um ponto onde o musgo era mais denso e a rocha tinha um brilho diferente, os dois aceleraram ao mesmo tempo, como se estivessem em uma corrida.
Gold chegou primeiro, mas parou.
O habitante chegou atrás, ofegante, e apontou para ele como se fosse acusar um crime.
"Eu sabia!" Ele disse: "Eu sabia!"
Gold, por sua vez, apenas se afastou um passo, deixando espaço.
"Eu parei." Ele respondeu.
"Porque você é convencido!" O outro falou, sem lógica.
Gold deu de ombros.
"Talvez." Ele disse.
O habitante então se ajoelhou e começou a procurar como quem procura um tesouro enterrado. Ele afastava folhas, mexia na terra, cheirava o ar, e, quando finalmente achou uma flor escondida entre as pedras, ele soltou um som de vitória que foi tão exagerado que Gold quase aplaudiu.
"Ha!" O habitante exclamou: "Essa é minha!"
Gold se abaixou ao lado, olhando com um interesse real.
A flor estava em um tom verde profundo, e, quando Gold chegou perto, ela ficou mais vívida.
O habitante viu isso e arregalou os olhos.
"Ei!" Ele reclamou: "Sai de perto! Você tá deixando ela mais bonita!"
Gold olhou para ele, confuso.
"Isso é ruim?" Ele perguntou.
"É!" O habitante respondeu, como se fosse óbvio: "Ela tem que ficar bonita quando eu chego, não quando você chega!"
Gold finalmente riu.
Se estivesse ali, Amara teria gargalhado. E Elira teria achado aquilo a coisa mais divertida do universo.
O habitante tentou arrancar a flor com pressa e quase quebrou a raiz.
Gold segurou a mão dele por reflexo, com cuidado, sem força.
"Devagar." Gold disse: "Se você puxar assim, ela morre."
O habitante olhou para ele como se estivesse sendo insultado por alguém que apareceu do nada.
"Eu sei colher!" Ele respondeu, ofendido, mas diminuiu a velocidade.
Gold tirou uma ferramenta da própria bolsa e estendeu.
"Usa isso." Ele disse: "É mais fino."
O habitante pegou com desconfiança, como se fosse uma armadilha.
"E se isso explodir?" Ele perguntou.
"Não explode." Gold respondeu.
"Você tem cara de quem traz coisa que explode." O habitante insistiu.
Gold levantou as duas mãos, rendido.
"Eu só trouxe vasos e terra." Ele disse.
O habitante olhou para a ferramenta, depois para Gold, e então para a flor. Ele resmungou alguma coisa incompreensível, e começou a colher do jeito certo.
Gold observou em silêncio, satisfeito por ver que a flor não seria destruída.
Quando o habitante terminou, segurando a planta como se fosse um troféu, ele olhou para Gold com uma expressão desconfiada.
"Tá." Ele disse: "Agora é sua vez. Mas eu vou junto. Porque eu não confio em você."
Gold assentiu, sério, como se aquela fosse uma condição justa.
"Justo." Ele respondeu.
E assim, no primeiro dia, Gold começou a coleta para o jardim que queria dar à filha, discutindo com um apaixonado por flores que achava que todo mundo era trapaceiro, enquanto ele fingia que ainda era inocente.
