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Capítulo UHL 1222 - A Dor Mais Profunda 6

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Tenham uma boa leitura!]


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O sol daquele planeta não descia como em mundos apressados. Ele escorria devagar pelas montanhas, dourando as cristas de pedra, deixando sombras longas se esticarem pelos vales como se a noite estivesse chegando só porque era a hora certa, não porque alguém mandou.


Gold e o habitante local passaram o dia inteiro subindo e descendo encostas, discutindo por detalhes que, se vistos de longe, pareceriam ridículos demais para merecer voz.


E, ainda assim, funcionou.


Não porque eles tinham virado amigos, mas porque havia uma lógica simples no trabalho.


A criatura sabia ler a montanha e Gold sabia não estragar o que encontrava.


O rabugento reclamava o tempo inteiro, mas era exatamente esse tipo de atenção obsessiva que fazia ele perceber coisas que alguém comum ignoraria: a textura certa do musgo, o cheiro de umidade preso em uma rachadura, a pedra que refletia a luz com um tom ligeiramente diferente, denunciando o mineral que aquelas flores pareciam gostar.


Gold, por sua vez, não fazia barulho.


Ele não quebrava galhos.


Ele não pisava onde não precisava.


Ele não arrancava o que não tinha certeza de conseguir replantar.


Isso irritava o outro em alguns momentos.


"Você é lento." O habitante disse, pela centésima vez, como se a acusação fosse um fato moral.


"E você é ansioso." Gold respondeu, no mesmo tom, como se estivesse comentando sobre o clima.


"Eu sou eficiente." O rabugento retrucou.


"E eu sou cuidadoso." Gold devolveu.


O habitante bufou, como sempre, mas então apontou para um trecho de rocha escura perto de uma saliência.


"Ali." Ele disse.


Gold olhou.


O musgo estava mais úmido.


O vento batia de um jeito diferente.


E havia um cheiro sutil de mineral frio.


Eles acharam mais duas flores naquele trecho.


Uma estava num tom amarelo suave que virou verde quando o rabugento se aproximou.


A outra, ao sentir Gold, explodiu em um violeta tão vivo que o habitante se irritou com a própria falta de controle.


"Isso não é justo!" Ele reclamou: "Ela gosta de você!"


Gold não respondeu com provocação. Ele apenas sorriu, pequeno, como quem acha o outro engraçado.


Quando o dia enfim terminou, os dois desceram da montanha com os recipientes mais pesados.


Gold tinha quatro flores bem seladas em vasos improvisados, com terra úmida e raízes intactas.


O habitante tinha cinco. E, mesmo tendo uma flor a mais, o rabugento parecia pronto para iniciar uma guerra diplomática.


"Quatro!" Ele disse, como se aquilo fosse uma ofensa: "Você veio do nada, atrapalhou meu ponto e ainda saiu com quatro!"


Gold parou na trilha, colocou as ferramentas no chão e respirou, aceitando a reclamação como parte do vento.


"Eu preciso de muitas." Gold disse.


O habitante franziu a testa.


"Muitas quanto?" Ele perguntou, já desconfiado de que a resposta seria absurda.


"Muitas mesmo." Gold respondeu: "Eu vim pra cá pensando em levar bem mais do que quatro."


O rabugento soltou um som de escárnio.


"Então você veio pro planeta errado." Ele disse: "Aqui não nasce flores pra gente gananciosa."


Gold não se ofendeu. Ele apenas olhou para o horizonte de montanhas e então falou como quem oferece uma ideia natural.


"Eu acho que a gente pode trabalhar junto." Gold disse.


O habitante congelou por um segundo, como se Gold tivesse sugerido algum tipo de crime.


"Juntos?" Ele repetiu: "Você tá falando sério?"


"Você tem uma sensibilidade e um conhecimento que eu reconheço como útil." Gold respondeu, sem puxar o ego do outro, sem elogiar demais. Só registrando: "E se a gente for em outras montanhas… dá pra achar mais."


O rabugento apertou os lábios.


"Eu não tenho condições de ficar viajando por aí." Ele disse, como se aquilo encerrasse tudo.


Gold inclinou a cabeça e perguntou: "Por quê?"


"Porque eu preciso comer." O habitante respondeu, apontando para si mesmo com indignação: "Eu tenho uma vida. Eu tenho casa. Eu tenho contas. Eu tenho… fome."


Gold ficou em silêncio por um instante, e então respondeu como se fosse óbvio.


"Eu banco tudo." Ele disse.


O habitante piscou: "Banca o quê?"


"Todos os custos." Gold respondeu: "Comida. Estadia. Transporte do que for necessário. Você não vai gastar nada."


O habitante recuou meio passo, como se aquela generosidade fosse suspeita.


"Não existe nada de graça." Ele disse, desconfiado.


"Eu não estou oferecendo de graça." Gold respondeu: "Eu estou oferecendo em troca da sua ajuda."


O rabugento cruzou os braços e perguntou: "E a partilha?"


Gold não vacilou.


"Metade pra você, metade pra mim." Ele disse, primeiro.


O habitante estreitou os olhos.


"Hum..."


Gold continuou, deixando claro que aquilo não era uma armadilha.


"Se você achar mais pontos do que eu, você leva mais flores. Se eu achar mais, eu levo mais." Gold disse: "E se uma flor reagir mais a você e ficar apagada comigo, eu não vou fingir que é minha."


O habitante abriu a boca, fechou, e depois apontou um dedo para Gold como se estivesse acusando.


"E eu não gasto nem um tostão." Ele afirmou, com força.


Gold assentiu.


"Nem um." Ele confirmou.


O rabugento ficou em silêncio por alguns segundos, fazendo contas invisíveis, ponderando riscos, lembrando que era estranho demais um forasteiro pagar tudo só pra colher flores.


"Você é esquisito." Ele disse por fim.


"Eu já ouvi isso hoje." Gold respondeu.


O habitante bufou.


"Tá." Ele disse, como se estivesse cedendo não por vontade, mas porque a proposta era boa demais pra jogar fora: "Mas eu vou te avisando: se você tentar me enganar, eu te jogo montanha abaixo."


Gold olhou para ele com calma.


"Entendido." Ele respondeu, como se aquilo fosse apenas uma regra de convivência.


E foi assim que eles partiram para a próxima montanha.


No caminho, o rabugento não parou de falar sobre a partilha, sobre como ele não ia carregar peso demais, sobre como Gold tinha cara de quem esconde alguma coisa, sobre como a flor atrai inveja, sobre como gente ruim cheira de longe.


Gold só escutava. E talvez, sem perceber, ele até achasse aquele barulho confortável.


Porque era um barulho comum.


Um tipo de problema pequeno.


Um tipo de vida que não ameaçava ninguém.


Eles atravessaram um vale estreito, seguindo por trilhas menos usadas.


O rabugento insistiu em evitar as rotas principais, dizendo que nelas sempre tem olhos demais.


Gold não questionou.


E foi quando uma emboscada aconteceu.


Não foi um ataque divino.


Não foi um choque de poder.


Foi só o mundo fazendo o que eles fazem quando existe algo valioso circulando.


Cinco figuras surgiram das pedras acima, descendo pela encosta com agilidade.


Eram da mesma raça do companheiro, com a mesma pele em tons de pedra, os mesmos olhos claros.


Contudo, os olhos deles tinham outra coisa.


Uma pressa feia.


Um brilho de quem já decidiu que o trabalho dos outros vale menos.


Eles carregavam armas simples, lâminas curvas e bastões com pontas endurecidas, e cercaram os dois com confiança.


"Entreguem as flores." Um deles disse.


O rabugento abriu os braços num gesto desesperado, já irritado antes mesmo de sentir medo.


"Eu falei!" Ele gritou, virando para Gold: "Eu falei que isso ia atrair ladrões!"


Gold não respondeu de imediato. Ele apenas olhou para os cinco com calma, como se estivesse observando uma chuva.


"Vocês não precisam fazer isso." Gold disse, numa voz baixa.


O líder dos ladrões riu.


"Não precisamos?" Ele repetiu, zombando: "Claro que precisamos. Porque vocês têm e a gente quer."


Gold manteve o tom.


"Vão embora." Ele disse: "Ninguém quer se machucar."


Os ladrões riram mais alto.


Um deles deu um passo à frente e apontou a lâmina para o peito de Gold.


"Você fala como se tivesse escolha." Ele disse.


O rabugento começou a resmungar atrás, furioso.


"Eu sabia… eu sabia… eu devia ter ficado na minha montanha…"


Gold olhou para o companheiro por um instante, e naquele olhar havia algo curioso: uma espécie de lembrança.


Era a promessa que ele fez.


Elira tinha dito para entregar tudo. Para não fazer besteira por coisas materiais. Para não desperdiçar a vida a toa.


Gold podia esmagar aqueles cinco com um suspiro. Podia tirar o ar do pulmão deles sem mover um dedo. Podia fazer o corpo deles esquecer que existia.


Mas ele não fez.


Ele respirou…


Pegou o recipiente com as flores…


E estendeu…


"Pode levar." Gold disse.


Ao ver aquilo, o rabugento congelou.


"Você tá louco?" Ele chiou, incrédulo: "A gente passou o dia inteiro subindo e descendo pedra pra isso!"


Gold não se explicou. Ele apenas olhou para ele com calma.


"Entrega." Gold disse, como se estivesse pedindo algo simples.


O rabugento apertou os punhos.


"Eu não vou entregar!" Ele sussurrou, indignado: "Eu vou…"


Gold não elevou o tom, mas pediu: "Entrega."


E o rabugento, por mais que reclamasse, por mais que xingasse com os olhos, viu algo no rosto de Gold que era grande demais para discutir.


Ele engoliu em seco, tremendo de raiva, e, resmungando palavras que não pareciam nem linguagem, estendeu também as flores dele.


Os ladrões pegaram tudo com pressa.


Um deles cheirou uma flor, viu as cores vibrarem, e sorriu como se tivesse ganhado o mundo.


"Então é isso." O líder disse, satisfeito: "Vocês aprenderam a lição."


Depois do roubo, eles foram embora rindo, descendo a trilha como se aquilo fosse um grande feito.


Quando o grupo sumiu entre as pedras, o rabugento explodiu.


"Desgraçados!" Ele gritou para o vazio: "Parasitas! Isso é suor! Isso é trabalho! Isso é um dia inteiro com a perna doendo! E eles vêm e pegam!"


Enquanto xingava, ele chutou uma pedra com tanta raiva que o pé dele doeu e ele xingou mais alto por isso.


Gold ficou quieto por alguns segundos.


Depois falou com a mesma calma.


"A gente consegue mais." Ele disse.


O rabugento virou para ele com os olhos arregalados.


"Consegue?" Ele repetiu, como se fosse um insulto: "E quando eles voltarem? E quando outro grupo vier? Você vai ficar entregando tudo igual um imbecil?"


Gold respirou, olhou para a trilha, e depois respondeu.


"Se precisar, eu entrego." Ele disse.


O rabugento ficou sem voz por um instante.


"Você é doente." Ele murmurou.


Gold não se defendeu. Ele apenas tentou puxar o outro de volta para o que importava.


"Eu vim pra cá por um motivo." Gold disse: "E não vai ser um roubo que vai impedir."


O rabugento respirou forte, ainda tremendo.


"Eu perdi tudo." Ele disse, como se fosse morrer de ódio.


Gold inclinou a cabeça.


"Eu te dou sessenta por cento." Ele respondeu.


O rabugento piscou: "O quê?"


"Do que a gente colher daqui pra frente..." Gold disse: "Sessenta será para você. Quarenta para mim."


O rabugento abriu a boca.


Fechou.


Fez uma conta rápida.


E, mesmo assim, ainda conseguiu reclamar.


"Você está tentando me comprar." Ele acusou.


"Eu estou tentando te manter comigo." Gold respondeu, simples: "Porque você é bom nisso."


O rabugento soltou um som baixo, irritado, mas a raiva começou a mudar de lugar e virou receio.


"E se nos assaltarem de novo?" Ele perguntou, agora menos agressivo e mais preocupado.


Gold olhou para ele.


"Então a gente colhe de novo." Ele disse.


O rabugento ficou em silêncio, mastigando a própria frustração, então resmungou, como quem aceita sem admitir.


"Tem um caminho alternativo." Ele disse, por fim: "Pelos desfiladeiros do norte. É mais difícil. Mais frio. Mas os malditos bandidos preguiçosos não gostam."


Gold assentiu.


"Então vamos por lá." Ele respondeu.


O rabugento, por sua vez, ainda xingava baixinho, ainda amaldiçoava os ladrões, ainda dizia que aquilo era injusto, mas ele caminhava ao lado de Gold. E, enquanto os dois seguiam por trilhas mais escondidas, com as mãos vazias e o humor pesado, Gold, por dentro, se sentia feliz por ter cumprido a promessa que fez para a filha.


Mesmo perdendo o que foi buscar naquele dia, ele tinha ganhado algo que o fez se sentir bem.



O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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