Capítulo UHL 1225 - A Dor Mais Profunda 9
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Tenham uma boa leitura!]
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Gold ficou imóvel por um tempo que Zhevalk não soube medir.
Não era um tempo normal. Era como se o mundo tivesse voltado a respirar, mas ele tivesse esquecido como fazer isso.
O vento continuava passando pelas montanhas, carregando poeira e cheiro de pedra queimada, e o céu ainda tinha aquele brilho sujo no horizonte, como se uma ferida luminosa tivesse sido aberta longe dali. Zhevalk, atrás, ainda tremia, sem coragem de se aproximar, e mesmo assim sentia que o perigo naquele ponto não vinha mais dos invasores que tinham sido apagados em segundos. Vinha do silêncio do homem à frente, do jeito como ele olhava para o nada como se estivesse esperando que o universo desmentisse a si mesmo.
O rosto de Gold não desmoronou como o de alguém comum. Não havia grito, nem queda, nem punição externa. Havia apenas uma ausência tão absoluta que parecia ter ocupado o espaço onde antes existia tudo. Por um instante curto, Zhevalk teve a impressão de que o ar ficou mais pesado, como se o planeta inteiro tivesse sido empurrado para baixo por um peso invisível.
A dor não veio como uma explosão.
Ela veio como uma perda de sentido.
Gold tinha sido construído, por eras, para perseguir o topo. Não um topo simbólico, mas o verdadeiro limite do caminho marcial, o ponto em que um cultivador deixa de ser um indivíduo e vira uma força que a criação precisa levar em conta. Ele tinha passado a existência inteira caminhando na direção disso, e quando finalmente chegou onde todo cultivador sonha em tocar, ele descobriu que ainda havia uma borda acima. Havia um limiar que nunca tinha se mostrado antes, uma abertura no teto da realidade, algo que não era apenas “mais poder”, mas um salto de natureza, como se o universo, ao sentir a dor dele, tivesse oferecido uma última porta.
Era uma crueldade disfarçada de presente. Um convite para se tornar ainda maior, para atingir o verdadeiro topo, aquele que não pertence a nenhum nome, a nenhum reino, a nenhuma era. Gold sentiu isso com clareza. Sentiu o chamado como um fio estendido para a mão dele, fácil, disponível, como se bastasse querer.
Por um segundo, a velha fome de avanço tentou se mover dentro dele, porque essa fome era um hábito, era uma identidade, era o que mantinha a mente dele funcionando mesmo quando tudo ao redor era guerra.
E então ele fechou a mão.
Não para agarrar…
Para negar.
O gesto foi pequeno, mas o mundo reagiu como se tivesse sido ferido. A energia ao redor tremeu, porque ele segurou o que podia ser o maior salto do caminho marcial e escolheu não dar.
Ele escolheu ódio.
Escolheu a dor.
Escolheu ficar no limiar sem atravessar.
E essa escolha foi mais violenta do que qualquer execução que ele tinha feito instantes antes, porque era uma violência contra si mesmo.
Gold, o homem que tinha feito da ascensão uma religião pessoal, desistiu do final do caminho naquele segundo, não por fraqueza, mas por perda absoluta de motivo.
O topo estava ao alcance das suas mãos, e ele simplesmente não quis mais, porque não havia mais para quem ser maior.
Zhevalk não entendia nada disso. Não tinha palavras para “limiar”, nem para “topo do cultivo”, nem para “negação do avanço”. Mas ele sentiu. Sentiu como se alguém tivesse colocado uma lâmina no centro do peito dele e girado bem devagar.
Os olhos dele arderam. A garganta fechou. E, quando a primeira lágrima escorreu, ele tentou limpar com raiva, achando que era só um medo atrasado. Só que não era. Era outra coisa, algo que não era dele e, mesmo assim, estava dentro.
Era como se a dor daquele homem tivesse encontrado um corpo vulnerável e se espalhado, contaminando tudo que tocava. E junto com a dor veio uma repulsa cega, um ódio que não tinha um alvo específico ainda, mas que já condenava qualquer coisa que tivesse participado daquilo.
Zhevalk nunca tinha odiado “deuses” antes, porque a palavra para ele era um mito distante. Mas agora ele odiava com o instinto de alguém que foi obrigado a sentir uma perda que nem era sua.
Gold continuou em silêncio. E o silêncio dele não era vazio. Era um lugar onde as ideias morriam antes de nascer.
A energia ao redor começou a se comportar de um jeito estranho. O chão sob os pés dele rachou por tensão, como se o espaço estivesse sendo puxado por dentro. O ar ficou frio e quente ao mesmo tempo, uma sensação impossível que fazia o corpo de Zhevalk querer recuar. As sombras das pedras se deformaram por um instante, alongando e encurtando sem que o sol tivesse mudado. O vento perdeu a direção, rodopiando em círculos curtos como se não soubesse mais para onde ir.
Zhevalk sentiu a própria pele arrepiar. Era como se o planeta tivesse entendido que algo maior do que ele estava prestes a se mover.
E então Gold se moveu.
Não foi um passo.
Foi um desaparecimento.
Ele simplesmente saiu do lugar com uma velocidade que não deixou rastro. O céu, por um instante, pareceu rasgar, não em luz, mas em geometria. Zhevalk ergueu o olhar tarde demais para acompanhar, e o que ele viu foi o ar se dobrando em linhas tortas, como se alguém tivesse amassado um tecido invisível e soltado.
O deslocamento de Gold foi tão violento para o espaço que o próprio tecido do cosmos reagiu como uma matéria real sob estresse. A trilha atrás dele se distorceu. Pedras pequenas levitaram e depois caíram. O ar estalou.
A distância perdeu a definição.
Quando Gold atravessou o céu daquele planeta, ele não estava apenas voando. Ele estava rasgando o espaço a ponto de criar cicatrizes temporárias.
Em pontos distintos, longe dali, o tecido do cosmos cedeu por instantes curtos, formando buracos de minhoca espontâneos, pequenos túneis instáveis que se abriram e se fecharam como feridas nervosas. Não eram portais feitos por técnicas calculadas. Eram consequências.
O universo, incapaz de suportar a forma como ele se deslocava, criava atalhos involuntários para aliviar a tensão. Em regiões onde nada deveria acontecer, estrelas tremiam por um micro instante. Em corredores vazios, o espaço ficava mais fino e depois se corrigia.
A própria estrutura da realidade parecia se curvar para permitir a passagem dele, não por respeito, mas por sobrevivência.
Gold atravessou essas distorções sem sequer olhar para elas.
Porque ele tinha um destino. E junto com o destino vinha algo pior do que o ódio…
A esperança.
Gold sentia uma esperança desesperada, aquela que nasce quando o cérebro se recusa a aceitar que o que foi perdido é real.
Enquanto se movia, Gold alimentou a última mentira possível. A ideia de que podia estar errado. A ideia de que o fio interno tinha falhado por algum motivo técnico. A ideia de que a ocultação, ao ser liberada, tinha criado uma confusão temporária. A ideia de que Amara e Elira estavam vivas e que tudo aquilo era apenas um pesadelo, um erro de leitura, um mal-entendido cruel, mas passageiro.
Gold carregou essa esperança como se fosse um corpo nos seus braços. A esperança era pequena, mas era o único motivo para ele continuar se movendo sem se despedaçar no meio do caminho. Porque, se fosse verdade, se elas estivessem mortas, então nada do que ele era tinha sentido. E ele ainda não estava pronto para aceitar isso com a mente inteira.
Ele acelerou.
E o cosmos começou a se deformar com mais violência.
Onde ele passava, a luz das estrelas parecia se esticar, porque o espaço entre os pontos era puxado como um elástico e depois solto. A frente dele se transformava em túnel e se desfazia. Atrás, o universo deixava pequenas cicatrizes que se fechavam logo depois, mas não sem consequências.
Em mais de um ponto, buracos de minhoca temporários se abriram por frações de segundo e engoliram poeira cósmica, fragmentos de rocha, até mesmo pequenos satélites desabitados, cuspindo isso em outros lugares de forma aleatória.
O deslocamento de Gold estava criando um caos de segunda ordem, como se a dor dele tivesse virado uma força física que o cosmos precisava acomodar.
Ele atravessou regiões onde antes havia galáxias. E então a esperança começou a rachar.
Ele sentiu isso, porque, ao se aproximar do setor onde ele tinha deixado Amara e Elira, o universo não tinha mais a mesma textura. Havia silêncio demais.
Gold viu, à distância, o lugar onde deveria existir uma espiral luminosa, um conjunto de braços galácticos com milhões de pontos brilhando… E não havia mais. Havia escuridão e detritos, como se alguém tivesse apagado uma pintura inteira com a mão aberta.
Ele atravessou mais um trecho e viu outra ausência. E outra. Galáxias apagadas do mapa, conjuntos inteiros de vida reduzidos a nada. Era o tipo de destruição que não deixa nem mesmo uma ruína reconhecível. Só deixa a falta delas.
A esperança dele tentou sobreviver mesmo assim. Ela se agarrou ao argumento mais patético possível: talvez não tenha sido aqui. Talvez eu errei a rota. Talvez eu tenha sentido errado. Talvez o universo esteja distorcido demais e eu esteja olhando o lugar errado.
Gold se forçou a aceitar essa mentira por mais alguns segundos, porque a alternativa era cair na real. A alternativa era o colapso interno, o colapso de alguém que passou eras construindo uma razão para existir e agora não tinha mais nada para sustentá-lo de pé.
Então… ele chegou.
E o pesadelo virou realidade.
O planeta onde ele tinha deixado a família estava ferido de um jeito que não combinava com ataque comum. Havia cicatrizes na crosta visíveis mesmo de longe. Havia regiões inteiras arrancadas. Havia um gosto metálico no ar, como se a energia do lugar ainda estivesse queimando.
A natureza pacífica não existia mais. O céu estava manchado. E, no meio desse cenário, havia presenças.
Deuses.
Gold sentiu antes de ver.
E então ele viu.
Krishna estava lá, como uma presença física, uma massa de poder tão concentrada que fazia o espaço ao redor parecer mais pesado. E nas mãos dele, como se fosse um troféu, como se fosse uma peça de caça, como se fosse nada, estava o corpo morto de Amara.
A esperança morreu de uma vez.
Não lentamente.
Não com uma transição aceitável.
Ela morreu como uma lâmpada sendo apagada.
Gold ficou suspenso no ar por um instante, e a realidade pareceu prender a respiração com ele. O corpo dele não tremeu. O rosto dele não se distorceu. Mas algo dentro dele se rompeu num nível que não era mais emocional. Era estrutural. Era a quebra de um alicerce. Porque ver Amara morta não era apenas ver uma pessoa morta. Era ver o centro do mundo dele sendo segurado por um inimigo como uma isca. Era ver a prova definitiva de que ele não chegou a tempo. Era ver que toda a crença de que poderia estar errado era só uma mentira que ele contou para não enlouquecer no caminho.
A dor que veio naquele instante trouxe um silêncio absoluto.
Um silêncio tão denso que o espaço ao redor pareceu se dobrar, como se o universo tivesse percebido que tinha feito algo que não podia desfazer.
A luz ao redor ficou estranha.
Não mais bonita ou mais feia.
Apenas estranha.
Como se as cores estivessem perdendo a vontade de existir.
Gold olhou para Krishna, e havia algo de deliberado na maneira como ele segurava Amara. Não era descuido. Não era casualidade. Era provocação. Era o panteão dizendo: nós queimamos o universo inteiro para você aparecer, e agora nós temos o que você ama nas mãos.
A crueldade daquilo era tão explícita que dava pena.
Porque, naquele instante, o ser mais poderoso da criação não tinha mais nada para proteger.
Ele não tinha mais nada para segurá-lo.
E os deuses e a criação inteira, sem saber, estavam prestes a pagar por isso.
