Capítulo UHL 1234 - A Última Queda
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Tenham uma boa leitura!]
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O Curupira continuou contando sobre a batalha interna entre os deuses, e disse que, naquele caos, houve um detalhe que não combinava com o panteão, e por isso ficou gravado nele como uma espécie de afronta.
"Enquanto eles brigavam…" Ele falou: "Eu protegi uma amiga."
Aquela frase não veio com um tom de heroísmo. Veio como uma confissão. Como alguém admitindo que, no meio de um incêndio, escolheu segurar uma coisa pequena que ainda parecia importante demais para ser deixada para trás.
"As relações entre nós, deuses, sempre foram tensas." O Curupira continuou: "Tensas de um jeito doentio. Não é como as tensões que vocês conhecem. Não é só uma rivalidade. É um tipo de convivência que nasce com veneno e cresce com veneno."
Ele explicou que os deuses viviam disputando poder, importância, prestígio, domínio, influência. E essas palavras, na boca dele, não eram abstratas; eram o alimento do ego de seres que já eram grandes demais. Ele disse que, mesmo quando não havia uma guerra, sempre havia algo sendo medido e comparado. Quem tinha mais seguidores, quem tinha mais território, quem tinha mais feitos para exibir. Quem era mais ouvido pelo Pai de Todos. Quem tinha mais permissão para falar em nome dele.
"E quando isso não bastava, vinham as traições." Ele disse: "Pequena às vezes. Grande em outras. Mas constante. Principalmente entre os Grandes Deuses."
O Curupira não tentou fingir que ele estava acima disso. Ele disse que aquela cultura contaminava tudo, porque, quando você vive cercado por entidades que podem se esmagar com palavras e com golpes, você aprende a desconfiar como aprende a respirar. A desconfiança vira instinto. E o instinto vira uma regra.
"Eu vi irmãos que lutaram lado a lado se apunhalarem por um motivo que não vale uma migalha." Ele disse: "Eu vi alianças virarem pó em um dia. Eu vi promessas serem usadas só para ganhar tempo. E eu vi deuses chamando isso de sabedoria."
Ele respirou devagar e então fez o contraponto, sem romantizar.
"Mas nem todos agiam assim uns com os outros." O Curupira disse: "Era raro. Era mesmo. Mas existia."
Ele explicou que existiam relações que chegavam perto de uma amizade real. Não amizade no sentido humano de leveza constante, mas uma amizade dentro do que os deuses eram capazes de sustentar. Um tipo de carinho que não era exibido, mas existia. Um vínculo que fazia um visitar o outro sem pedir nada em troca. Um vínculo que permitia confessar seus medos. Permitia rir de coisas pequenas. Permitia dizer verdades que você não diria em público.
"E eu tive alguém assim." Ele disse.
A voz dele não mudou, mas a forma como as palavras se encaixaram indicou que aquilo era importante. Não porque fosse bonito, mas porque era o tipo de coisa que, em meio ao panteão, parecia quase um erro.
"O nome dela era Iara." O Curupira disse.
"Iara era uma Grande Deusa." Ele continuou: "E por milênios ela esteve na minha vida. Não como uma aliada de ocasião. Não como alguém que aparece quando quer alguma coisa. Ela era uma companhia verdadeira. Sincera."
Ele disse aquilo como se admitisse, sem orgulho, que a solidão é inevitável quando você é grande demais para caber no mundo.
"O meu tamanho me afastava de tudo." O Curupira disse: "Vocês acham que a multidão impede a solidão. Mas não impede quando você não consegue se misturar."
Ele então explicou que, mesmo no Reino Divino, ele tinha que ficar longe. Não por respeito, mas pelo seu porte físico. Por impossibilidade. Ele não conseguia tocar inteiramente os pés nem no solo sagrado. O corpo dele, de um tamanho que fazia um planeta parecer uma referência razoável, era uma presença que ocupava espaço demais para ser tratada como igual. Sendo assim, mesmo quando ninguém o expulsava, o espaço expulsava.
"Ser do tamanho de um planeta faz você ser alguém solitário." Ele disse: "Porque você não senta em uma sala. Você não encosta num ombro. Você não atravessa um corredor. Você observa tudo de longe."
Ele contou que, no começo, isso parecia uma vantagem. A distância virava um trono quando o ego ainda manda. Só que, com o tempo, a distância virou isolamento. Virou uma forma de existir que não tem contato. E contato, mesmo para deuses, é um tipo de alimento.
"Eu podia ouvir o panteão inteiro." Ele disse: "Mas não podia estar com o panteão inteiro."
Ele disse que Iara, porém, sempre o visitou. E visitava de um jeito que não tinha segundas intenções. Ela simplesmente aparecia, atravessando o espaço como quem atravessa uma rua, e sentava onde podia sentar, perto o bastante para tocá-lo.
"Ela conversava comigo." O Curupira disse: "Conversava como se eu não fosse um monumento. Como se eu fosse alguém."
Ele disse que, em alguns períodos, ela passou meses consecutivos com ele. Meses. Não dias, não visitas rápidas. Meses de rotina. Iara aparecia, trazia histórias, perguntava coisas pequenas, contava do que tinha visto, do que tinha sentido. Às vezes falava de política divina, às vezes falava de tédio, às vezes falava de coisas tão insignificantes que se tornavam preciosas justamente por serem insignificantes.
"E ela não me tratava como uma ferramenta." Ele disse: "Não me tratava como um posto avançado. Não me tratava como uma arma a ser usada."
O Curupira falou que, em um panteão de egos enormes, isso era quase uma heresia. Ser visto como alguém, e não como um recurso.
"E eu também a via." Ele disse: "Eu via o medo dela. Eu via os momentos em que ela fingia que não tinha dúvidas. Eu via quando ela precisava de um lugar para existir sem ser julgada."
Ele não disse isso como se a amizade fosse pura. Ele disse como era: um pacto singelo em meio a uma cultura de traição. Um lugar onde a língua podia descansar. Onde a mente podia tirar a armadura por alguns instantes.
"Por isso, quando o caos começou…" O Curupira continuou: "Eu não pensei muito."
Ele descreveu o Reino Divino naquele instante como um corpo convulsionando. Deuses gritando, correndo, se agarrando sem qualquer justificativa. A hierarquia desmoronando e virando briga. E, no meio disso, ele sentiu Iara.
"Eu senti a presença dela perto demais do barulho." Ele disse: "E eu soube que, se eu não a tirasse dali, ela ia ser engolida."
O Curupira contou que ele se moveu como podia se mover naquele lugar apertado. Não com delicadeza. Com urgência. Ele não podia atravessar corredores do mesmo jeito que outros. Ele era grande demais para desaparecer, e grande demais para fugir com rapidez.
"Eu a encontrei." Ele disse: "E não precisei perguntar nada. Eu olhei para ela e vi o mesmo que eu sentia."
“Iara estava cansada. Não cansada da batalha, mas cansada de existir em uma estrutura que estava revelando seu verdadeiro rosto. Cansada de ver deuses se matando por medo. Cansada de ouvir o nome do Pai de Todos virar uma desculpa, virar uma arma, virar um escudo e virar uma chantagem.”
"E eu abriguei Iara no meu corpo." O Curupira disse.
Ele explicou isso de modo simples, como algo que só faz sentido para quem entende o tamanho dele. Havia espaço. Havia cavidades. Havia regiões internas onde ele podia proteger alguém menor do que ele sem esmagá-la. Não era só um gesto bonito. Era físico.
"Eu a coloquei dentro de mim." Ele repetiu, porque aquela imagem era real: "Como quem guarda a única coisa que ainda quer guardar."
Ele contou que Iara não resistiu. Não questionou. Não argumentou sobre honra. Ela só aceitou. E o Curupira disse que isso, por si só, foi um tipo de confissão.
"Nós dois, naquela altura, não queríamos mais lutar." Ele disse.
Ele falou isso de um jeito que não buscava aprovação. Era o que era. Nenhum dos dois queria lutar contra Gold. Nenhum dos dois queria lutar contra seus irmãos. Nenhum dos dois queria vencer qualquer coisa. Porque a vitória, naquele ponto, tinha perdido a capacidade de significar algo bom.
"Não havia mais sentido." O Curupira disse: "Mesmo se a vitória viesse, ela seria o começo de algo pior do que o que nós já estávamos vivendo."
Ele então pediu para o grupo imaginar. E, ao pedir, a pergunta não foi retórica. Foi um golpe de lucidez.
"Imaginem o Pai de Todos vencendo e restaurando a ordem." O Curupira disse: "O que acontece depois?"
Ele não esperou resposta, porque a resposta estava escrita no que eles já estavam vendo.
"Os deuses estavam brigando entre si. Se matando." Ele continuou: "E a guerra ainda nem tinha chegado ao Reino Divino. Se a ordem fosse restaurada, seria uma ordem em cima de um panteão rachado, assassino e com dívidas de sangue internas."
Ele respirou e deixou a parte mais fria aparecer.
"E o Pai de Todos iria dormir em breve." Ele disse: "Ele mesmo disse."
O Curupira falou isso como quem segura a própria raiva. Porque aquela era a ironia máxima: Odin conduziu o universo com a obsessão pelo controle, mas o controle dele era temporário. O sono vinha. Sempre vinha. E ele sabia disso.
"O que um panteão rachado faria quando ele não estivesse mais lá?" O Curupira perguntou.
A pergunta ficou pairando no ar. Porque, para quem entende como os deuses eram, a resposta era óbvia e horrível: guerra interna. Retaliação. Caça. Vingança. O panteão se devorando em nome de uma ordem, e a ordem virando uma palavra vazia.
"Foi naquele momento que eu e Iara desistimos de tudo." O Curupira disse.
Ele não disse desistimos como se fosse covardia. Ele disse como renúncia. Como alguém largando uma arma porque entendeu que a arma já não está defendendo nada.
"Nós nos rendemos por dentro." Ele continuou: "Aceitamos o que estava por vir, seja lá o que fosse."
Ele disse que sabia, com aquela maldição que era a sina dele, que ele não seria morto. Ele sabia do ciclo, sabia do que aconteceria depois. Sabia do que vinha. Mas saber não dava permissão para falar. Porque a existência dele tinha uma regra cruel: ele sabia o que iria acontecer, mas nunca conseguia agir fora do presente do jeito que desejava. Ele vivia preso ao agora, sentindo o medo do agora como se o futuro não existisse, mesmo quando sabia que existia.
"E eu não conseguia contar a Iara." O Curupira disse.
Ele explicou que não era uma escolha moral. Era uma prisão.
"Eu não podia dizer que ficaria tudo bem." Ele continuou: "Eu não tinha esse direito. Eu não tinha essa liberdade. Eu só podia viver o medo que, naquele presente, minha existência estava fadada a viver."
Ele disse que Iara percebeu. Não porque ele explicou, mas porque ela o conhecia. Ela sentiu a diferença entre o silêncio por decisão e o silêncio por impossibilidade.
"E ela não me pressionou." O Curupira disse: "Ela só… ficou."
Ele contou que, enquanto ele a mantinha protegida dentro de si, o barulho do Reino Divino piorava. O panteão continuava se despedaçando em tempo real. E ele ouviu coisas que nunca esqueceu: deuses implorando por ordem, deuses ameaçando, deuses chorando, deuses gritando o nome do Pai de Todos como se o nome dele fosse um amuleto.
"Eu ouvi a morte dentro de casa." O Curupira disse.
Ele disse que muitos se mataram antes mesmo da luta chegar. Alguns morreram em brigas de punição. Outros morreram tentando impedir a fuga. Outros morreram porque ficaram no meio. Outros estavam se mataram por desespero puro, como se preferissem escolher o fim do que esperar o fim escolhido por outro.
"E eu vi Grandes Deuses matarem outros Grandes Deuses." Ele disse.
“Não foi uma batalha grandiosa. Foi em atos feios, rápidos, brutais, motivados por pânico e raiva. Porque, quando a hierarquia caiu, o poder virou uma ferramenta de briga doméstica. E nada é mais grotesco do que ver deuses se reduzindo a isso.”
"Quando você vive séculos alimentando o ego…" O Curupira disse: "E de repente percebe que talvez não exista um amanhã, você não vira um santo. Você vira um animal."
Ele disse isso sem se excluir. Sem fingir superioridade. Apenas como um diagnóstico de espécie.
"E então…" O Curupira continuou, e a voz dele ficou ainda mais dura: "A luta chegou."
Ele não descreveu como um impacto único, porque não foi. Foi um estado. Foi um peso esmagador atravessando os portões como se portões fossem um conceito frágil. Foi a sensação do Reino Divino sendo tocado por algo que não deveria tocá-lo.
Os que sobraram, os sobreviventes daquela implosão interna, não tiveram coragem de lutar.
"Eles se renderam." O Curupira disse: “Todos os deuses se renderam…”
Ele explicou que eles se renderam não por honra, mas por evidência. Porque, quando você sente duas entidades encostando no seu mundo, você entende que não existe espaço para você ali. Você entende que qualquer tentativa de interferir é só pedir para ser apagado.
"E nós nos rendemos antes mesmo de entender o que estava acontecendo." Ele disse.
E então veio a imagem que se tornou a memória mais violenta da história do Reino Divino. Porque era uma inversão impossível.
"Eles chegaram… mas não exatamente juntos e lutando." O Curupira disse.
Ele falou isso devagar, porque a frase ainda parecia errada na boca dele.
"O que nós vimos foi… Gold."
“Gold não apareceu como um rei. Não apareceu como um profeta. Não apareceu como uma arma triunfante. Ele apareceu ferido. Machucado de um jeito que dava para sentir, mesmo sem entender a extensão.”
"Gold estava muito machucado." O Curupira disse: "E ainda assim… ele estava de pé."
“E na mão dele…”
"Ele segurava o Pai de Todos." O Curupira continuou, e ele contou que o silêncio se impôs dentro do Reino Divino como se o próprio lugar tivesse esquecido como produzir som.
"Ele segurava o Pai de Todos pelos cabelos." O Curupira disse.
A frase era absurda. Não por forma. Por significado. Odin, o centro. Odin, o ponto fixo. Odin, o que nunca cai. Odin, a última certeza. E ali estava ele quase desfalecido, com o corpo pesado, com o olhar perdido ou fechado, e a presença falhando como uma chama que não consegue mais se sustentar.
"O corpo do Pai de Todos estava quase apagando." O Curupira disse: "Não estava morto. Mas estava… no limite."
“E Gold o arrastava com a mão. Não como um mero troféu exibido com alegria. E sim como uma mensagem.”
"Eu não sei o que aconteceu no caminho até ali." O Curupira disse: "Eu não sei como a luta se transformou nessa cena. Eu só sei o que eu vi quando o Reino Divino se abriu para aquela presença."
Ele disse que, no instante em que Gold apareceu segurando Odin, o caos interno do panteão parou. Por choque. Por um silêncio forçado. Porque, diante daquela imagem, não havia grito que se sustentasse. Não havia argumento. Não havia plano. Tudo que restava era a constatação de que o mundo tinha mudado.
"Eu senti Iara tremer dentro de mim." O Curupira disse: "E eu senti algo pior do que medo nela."
“Era luto. Era o entendimento de que, independentemente do que viesse a seguir, nada seria como antes. Mesmo se o Pai de Todos vivesse de novo, ele não era mais invencível. Mesmo se Gold morresse, o panteão já tinha se revelado.”
"E foi naquele instante que…" O Curupira continuou: "Eu entendi a palavra rendição de um jeito que eu nunca tinha entendido."
“Não era só baixar armas. Era aceitar que a história tinha virado outra coisa. Que o panteão tinha sido quebrado por dentro e por fora. Que o futuro, se existisse, não teria mais o mesmo formato.”
Ele deixou essa imagem assentada por um tempo, como se o próprio relato precisasse respirar.
"Gold estava ali, com o Pai de Todos desfalecido na mão." O Curupira repetiu, porque era a frase que queimava.
"E nós… nós não éramos nada." Ele afirmou.
