Capítulo UHL 1235 - O Fim da Grande Guerra
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O Curupira disse que a cena de Gold segurando o Pai de Todos pelos cabelos foi pior do que terror, porque o terror ainda deixa uma saída. O terror ainda te dá pernas. O terror ainda pode ser respondido com uma corrida, com uma fuga, com algum instinto.
Aquilo não.
Aquilo foi um impacto tão grande que o panteão pareceu falhar ao mesmo tempo, como se a ordem mais básica do organismo fosse interrompida. Até os que tinham acabado de se rasgar em brigas internas, até os que estavam com sangue de irmãos nas mãos, até os que tinham passado o dia inteiro gritando “ordem” e “dever”, ficaram imóveis. A mente tentou processar e não conseguiu. O Reino Divino, que sempre foi a casa onde o medo virava arrogância, virou um espaço apertado demais para conter a verdade.
"Quando alguém sente terror, ele ainda pensa em correr." O Curupira disse: "Naquele momento, ninguém correu. Ninguém teve a força de sequer levantar a mão."
Ele contou que viu deuses chorarem como crianças. Não de um jeito contido, não com a dignidade falsa que muitos ainda tentavam sustentar. Choraram com o som ruim do desespero, com o rosto se quebrando sem controle, como se o próprio corpo estivesse expulsando algo que não cabia nele. Outros dobraram os joelhos no mesmo instante, não por devoção, mas porque perderam o apoio interno. E os que não dobraram, tremeram. Um tremor contínuo, como se o corpo estivesse tentando se convencer de que ainda estava vivo.
"Eu vi Grandes Deuses ajoelharem." O Curupira disse: "Não porque acreditavam em súplica. Ajoelharam porque não tinham mais esperança."
Ele disse que, naquele dia, esperança era o único nome possível para aquilo que sustentava a vaidade divina. Enquanto Odin existia como uma certeza, eles se sentiam invencíveis mesmo quando estavam apavorados. Enquanto Odin estava de pé, eles chamavam o medo de prudência. Chamavam a fuga de estratégia. Chamavam a crueldade de necessidade. Só que ver Odin daquele jeito destruiu a palavra certeza. E quando a certeza morre, tudo que estava sustentado em cima dela despenca.
Ele disse que Gold estava calado.
Não havia discurso. Não havia acusação. Não havia explicação. Ele não precisava dizer o nome de Amara ou de Elira ali, porque o silêncio dele já carregava algo maior do que qualquer nome. O semblante dele dizia que aquilo tinha passado do ponto em que uma causa precisa ser justificável.
"Ele estava lá para terminar o que nós começamos." O Curupira disse: "E os deuses entenderam isso do jeito mais claro que já entenderam qualquer coisa."
O Curupira descreveu que ninguém conseguia falar. Ninguém conseguia perguntar. Ninguém conseguia tentar negociar. O espaço inteiro tinha uma tensão de garganta fechada, como se cada um soubesse, instintivamente, que qualquer som poderia chamar a morte. A ironia era cruel demais para ser ignorada: um panteão que sempre viveu se impondo pelo som e pela presença agora tinha medo do próprio choro.
"Eles não acreditavam." O Curupira disse: "Eu senti isso em cada um. A mente deles tentando forçar uma alternativa. Uma falha de percepção. Um truque. Um golpe de sorte. Qualquer coisa que não fosse a realidade."
“Mas a realidade tinha um corpo, e estava ali, na mão de Gold.”
“O movimento que veio depois foi lento o bastante para virar uma memória em cada olho que conseguiu acompanhar, e ainda assim foi como ver um astro caindo. Gold, sem pressa, ergueu o corpo do Pai de Todos perante os deuses.”
“Não foi uma exibição de força apenas. Foi um ato de humilhação final, um recado que atingia não só os que estavam presentes, mas tudo que ainda existia fora daquele domínio.”
“O Pai de Todos estava quase desfalecido.” O Curupira não fingiu que sabia o que se passava dentro dele, mas descreveu o que viu: “A cabeça dele pendia de um jeito pesado, com o corpo sem firmeza, como se a própria aura não estivesse mais segurando a forma. Os olhos dele estavam abertos, mas pareciam longe. Não era um olhar de comando. Era um olhar de alguém que sentiu, pela primeira vez, o peso de não conseguir.”
"Ele também não tinha força para dizer nada." O Curupira disse: "E isso foi o que quebrou os outros. Porque, por eras, nós acreditamos que o Pai de Todos sempre teria a palavra final."
Naquele instante, Odin não tinha palavra. E o olhar dele, no relato do Curupira, não foi de raiva. Foi distante, derrotado, e havia nele algo que não combinava com o Pai de Todos: um pedido silencioso. Não um pedido de misericórdia para si. Um pedido de desculpas para os outros deuses por ter perdido.
"Talvez nem ele acreditasse que podia perder." O Curupira disse: "Mas ele perdeu."
“Gold continuou calado por mais alguns segundos. E então, quando falou, a voz dele não veio alta. Veio nítida, seca, quase tranquila de um jeito que deixou aquilo pior. Porque a tranquilidade, naquele contexto, parecia uma insanidade. Parecia alguém que já tinha atravessado o inferno e voltado sem nada para salvar.”
"‘Eu queria que você visse.’" Gold disse ao Pai de Todos.”
O Curupira contou que a frase atravessou o Reino Divino como uma lâmina. Não pela agressividade da voz, mas pelo significado. Gold estava falando com Odin não como alguém que negocia, mas como alguém que declara.
"‘Eu queria que você visse o que está prestes a acontecer com seus filhos.’ Gold continuou.”
O Curupira disse que, quando Gold usou a palavra filhos, muitos deuses sentiram uma vergonha indescritível, porque eles nunca se viram como filhos no sentido humano. Eles se viam como extensões. Como peças. Como forças. Mas ali, naquele momento, a palavra filhos soou como uma dependência exposta. Soou como uma fragilidade. Soou como aquilo que eles nunca admitiram ter.
“O Pai de Todos tentou se mover.” O Curupira disse que parecia que ele tentou, por instinto, recuperar alguma postura, alguma dignidade final. Só que o corpo não obedeceu. A aura falhou de novo. O olhar dele continuou perdido, e o silêncio dele era a prova viva de que a luta tinha arrancado dele mais do que ferimentos.
Depois, Gold olhou para Odin como se o estivesse examinando por dentro, como se estivesse procurando ali alguma faísca do ser que sustentou o universo com vigilância e medo por eras. E então Gold falou de novo, e a frase seguinte foi pior que a primeira, porque não era uma ameaça de morte, era algo ainda pior.
"‘Eu queria que você visse.’ Gold repetiu, sem mudar o tom: ‘Mas você não vai ver nada.’"
O Curupira disse que, naquele instante, alguns deuses começaram a soluçar de um jeito mais alto, sem perceber, como se o corpo estivesse traindo a única regra que podia oferecer alguma chance de sobrevivência: ficar quieto.
Gold não se importou. Era como se o som só confirmasse o que ele já tinha decidido.
"‘Você vai ficar para sempre no vazio.’ Gold disse para o Pai de Todos: ‘Sem saber o que aconteceu com seus queridos filhos.’"
A palavra queridos, na boca de Gold, foi puro veneno. Foi a lembrança de que Odin construiu tudo aquilo em nome de um futuro que ele dizia proteger, e mesmo assim tratava os próprios filhos como instrumentos. Gold estava devolvendo essa lógica com uma crueldade refinada: eu vou tirar de você até a informação.
"‘E sem saber o que eu fiz com eles.’ Gold completou.”
O Curupira disse que essa frase foi o ponto onde o panteão entendeu que não havia negociação possível. Não havia oferta. Não havia troca. Não havia apelo moral. Gold não estava ali para vencer. Ele estava ali para apagar.
E então veio o gesto.
Não foi rápido. Foi lento o suficiente para virar um horror aberto.
Gold mudou a mão nos cabelos de Odin, ajustando o aperto como quem ajusta uma pegada em uma ferramenta. Odin, pendurado, não reagiu. O corpo dele balançou levemente, e esse balanço ridículo foi mais humilhante do que qualquer golpe.
O Pai de Todos parecia pequeno, impotente.
Gold levou a outra mão ao pescoço de Odin.
O Curupira contou que viu o movimento com uma clareza que nunca esqueceu, porque era simples. Não foi uma técnica. Não foi uma explosão. Não foi um golpe de luz rasgando o universo. Foi a mão de um homem fazendo uma coisa muito antiga.
"Ele torceu." O Curupira disse.
Ele descreveu gesto por gesto, porque o gesto era o que matava. A mão de Gold fechou na base do crânio de Odin, firme, e a outra sustentou o corpo de um jeito que impedia qualquer tentativa de reação reflexa. Então Gold girou, devagar no começo, como se tivesse escolhido dar ao panteão tempo para entender o que estava vendo. O pescoço do Pai de Todos cedeu com um estalo íntimo, o barulho seco de algo que deveria ser indestrutível se partindo como um osso.
O Curupira disse que o Reino Divino inteiro pareceu prender o ar naquele instante. E então, quando o giro completou, veio uma sensação que atravessou todos ao mesmo tempo: a presença de Odin se apagando. Não sumindo de uma vez, mas falhando, como chama que perde oxigênio. Uma fração de segundo de resistência, e depois um vazio.
"Aura nenhuma substitui isso." O Curupira disse: "Quando o centro cai, o resto sente como se estivesse caindo também."
Ele disse que ouviu gritos entre os deuses. Gritos de dor e de pânico, como se o corpo deles estivesse sendo arrancado por dentro. Alguns gritaram o nome do Pai de Todos, como se o nome pudesse segurar o que tinha acabado de acontecer. Outros gritaram sem palavras, só som, só medo.
E foi aí que Gold se moveu.
O Curupira descreveu a mudança como uma troca de mundo. Até então, o Reino Divino estava paralisado. Depois do estalo, o lugar virou um campo de caça. E Gold era como um predador guiado por som.
"Quanto mais barulho alguém fazia, mais rápido ele chegava." O Curupira disse.
Gold não precisava procurar com olhos. Ele não precisava fazer varreduras. Ele escutava, e o som era seu próximo endereço.
O Curupira contou que o primeiro a morrer depois de Odin foi um deus que teve o impulso estúpido de tentar correr. O som dos passos ecoou no solo sagrado como um tambor, e Gold apareceu diante dele antes do corpo concluir o movimento. Não foi uma morte limpa. Gold bateu. Bateu com a mão fechada, como tinha batido em Zaki. O deus caiu no chão, e Gold continuou batendo até não sobrar som de respiração, nem energia tentando sustentar a sua forma. O céu interno do Reino Divino tremulou quando a energia do morto se soltou em clarões curtos, como estilhaços de luz.
O Curupira disse que, ao ver isso, alguns tentaram calar o próprio choro tapando a boca com as mãos. Mas o choro vinha do peito, e o peito fazia barulho. Outros tentaram fugir sem correr, arrastando-se em silêncio, como animais. Outros tentaram destruir o próprio amuleto de comunicação para não ter que responder a ninguém, como se o vínculo quebrado os tornasse invisíveis. Não tornou.
Gold era silêncio e movimento. E quando chegava, chegava para bater.
O Curupira descreveu outro deus, um Grande Deus, que Gold atravessou como atravessa fumaça.
Ele disse que a luz de Gold não era algo que ele pedia para existir. Ela existia porque ele existia.
"Ele não precisava de técnicas para romper defesas." O Curupira disse. "Ele só precisava estar ali."
Gold chegou no Grande Deus e o espancou no lugar, como se quisesse que todos ouvissem o som do corpo desmanchando. Houve um momento em que o Grande Deus tentou implorar, mas implorar também fazia barulho. E Gold respondeu com mais golpes.
O Curupira contou que, depois de duas ou três mortes assim, o panteão entrou em um silêncio doentio.
Era sobrevivência na sua forma mais bruta. Deuses arrancavam as próprias lágrimas com raiva, como se isso fosse possível. Deuses mordiam a língua para não gemer. Deuses se abraçavam e tremiam, tentando reduzir qualquer vibração do corpo. E, mesmo assim, alguém sempre falhava.
"Um soluço." O Curupira disse: "Um grito curto. Um nome dito sem querer. Uma respiração alta demais."
“E Gold aparecia.”
O Curupira não descreveu cada morte, porque não havia como contar todas. Foram muitas. Foi o fim inteiro. Mas ele descreveu o padrão que ficou na memória dele, que estava lá.
"Ele batia até terminar." O Curupira disse: "E quando terminava, ele já estava no próximo."
“Não havia piedade. Não havia seleção de culpados individuais. Não havia distinção de quem tinha participado mais ou menos.”
Odin tinha morrido. E com Odin, a sentença pareceu se tornar universal. Gold estava encerrando o panteão como se estivesse arrancando uma praga pela raiz.
"E nós não tivemos tempo de virar outra coisa." O Curupira disse: "Nós não tivemos tempo de pedir perdão. Nós não tivemos tempo de reorganizar. Nós não tivemos tempo de pensar."
Ele contou que viu deuses se matarem tentarem suicídio, tentando escolher a própria morte em vez de serem encontrados por Gold. Só que nem essa opção Gold dava a eles.
O Curupira disse que, com o tempo, o Reino Divino ficou cheio de corpos caídos e energia residual tremendo no ar, como se o domínio inteiro estivesse se transformando em cemitério. E no meio desse cemitério, Gold caminhava sem pressa aparente, porque a pressa não era mais necessária. Eles estavam presos. Eles estavam ali.
Foi aí que o Curupira disse a verdade final daquele dia.
"Todos os outros deuses morreram." Ele disse.
Ele não falou isso com orgulho. Nem com vergonha. Falou como um fato. Como quem descreve um evento natural e horrível. O panteão, aquele que tinha incendiado o universo para caçar um homem, acabou dentro da própria casa, caçado pelo homem que eles acordaram.
"E só eu e Iara ainda estávamos vivos." O Curupira continuou.
Ele disse que a única razão era o silêncio. Não poder. Não esperteza. Apenas.. .silêncio.
"Eu fiquei quieto." O Curupira disse: "Eu fiquei quieto como se estivesse morto."
Ele explicou como isso foi possível. Ele era grande demais para se esconder, mas naquele caos o tamanho dele também era uma camuflagem estranha. Em um Reino Divino tremendo, cheio de corpos e explosões de energia, a presença dele já era conhecida como um peso constante. Ele aprendeu, ao longo das eras, a se tornar um ruído fixo. E naquele instante, ele usou isso. Abaixou a aura até o mínimo, prendeu qualquer vibração interna, e colocou Iara dentro de si ainda mais fundo, onde nem o tremor do medo dela escaparia.
"Iara entendeu." O Curupira disse: "Ela ficou quieta também."
Ele disse que sentiu o terror dela como um tremor interno, mas ela segurou. Não por coragem, mas porque também queria viver. Ela estava rendida. Ela tinha desistido. E, por isso, não tentou ser uma heroína. Não tentou se mover. Não tentou chorar alto. Ela só suportou.
"Foi como fingir de morto diante de um predador." O Curupira disse: "E nós tivemos sorte de o predador estar ocupado demais matando os que gritavam."
O Curupira contou que houve momentos em que Gold passou perto demais. Perto o suficiente para o domínio parecer gelar. Perto o suficiente para o Curupira sentir a luz de Gold como uma lâmina encostando no nervo. E ele ficou parado. Não porque confiava que seria poupado. Mas porque qualquer movimento seria o fim.
"Naquele momento, ele não nos escolheu." O Curupira disse: "Não porque perdoou. Porque não ouviu."
Ele deixou essa frase cair com um peso quase ridículo, porque o destino do panteão inteiro pareceu depender, no fim, de uma coisa banal: barulho.
O Curupira disse que, quando o último grito morreu e não sobrou som algum além de ruína, Gold ficou parado por alguns instantes. O Reino Divino estava quieto de um jeito que nunca esteve, porque o silêncio ali não era paz. Era ausência de vida.
"E foi ali que eu entendi que a Grande Guerra acabou." O Curupira disse: "Não por tratados. Por falta de soldados."
Ele disse que os deuses iniciaram a guerra, incendiaram o universo, chamaram o desastre, e o desastre voltou para casa e arrancou a mão que acendeu o fogo.
"Esse foi o fim do panteão." O Curupira concluiu.
Ele não disse que foi o fim da dor, nem o fim do medo, nem o fim do caos no cosmos. Ele disse apenas que o exército divino morreu ali. E sem exército, a guerra como eles planejaram não podia continuar.
"A guerra iniciada pelos deuses acabou ali." Ele repetiu, como quem sela uma lápide: "Porque não tinha mais ninguém para lutar."
E então, com um cuidado que parecia estranho vindo dele, o Curupira disse a última coisa daquele trecho, como se ainda estivesse sentindo a cena no corpo.
"Eu sobrevivi àquele massacre porque fiquei quieto." Ele disse: "E essa é a verdade mais feia de todas. Porque, naquele dia, não foi a bravura que salvou alguém. Foi o silêncio que eu fiz ao ver meus irmãos e irmãs sendo espancados até a morte."
