top of page
Garanta o seu exemplar.png

Capítulo UHL 1236 - O Fim de Tudo

[Capítulo semanal!!! 


ATENÇÃO: LINK ATUALIZADO. Venham fazer parte da nossa comunidade no Telegram! https://t.me/+tuQ4k5fTfgc1YWY5


ATENÇÃO: OS EXEMPLARES FÍSICOS E DIGITAIS DO PRIMEIRO LIVRO DE O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS NAS MAIORES LIVRARIAS DO BRASIL E DO MUNDO. APOIE O NOSSO TRABALHO E GARANTA JÁ UM EXEMPLAR TOTALMENTE REESCRITO E REVISADO, E COM TRECHOS INÉDITOS.


Quer ver um mangá de O Último Herdeiro Da Luz? Então, a sua ajuda é muito importante para que possamos alcançar novos limites!


Para patrocinar um capítulo, use a chave PIX: 31988962934, ou acesse https://www.ultimoherdeirodaluz.com/patrocinarcap para outros métodos de pagamento, que podem ser parcelados em até 3x sem juros.


Para ver as artes oficiais da novel, que estão sendo postadas diariamente, siga a página do Facebook https://www.facebook.com/Herdeirodaluz


Ou a página do instagram https://www.instagram.com/herdeirodaluz/


Todas as artes e outras novidades serão postadas nas nossas redes sociais, e vêm muitas outras por aí, então siga as nossas páginas e não perca a chance de mostrar à sua mente qual é o rosto do seu personagem favorito!


Ps: Link do Telegram atualizado!


Tenham uma boa leitura!]


-----------------------


Depois de contar sobre o massacre do panteão, Curupira disse que, por um tempo, ele acreditou que o seu silêncio tinha funcionado.


Ele estava tremendo de medo, tremendo de um jeito que não tinha nada a ver com frio ou cansaço, e sim com o corpo tentando decidir se ainda valia a pena continuar existindo. O Reino Divino estava cheio de cadáveres e energia residual, cheio de marcas que pareciam feridas abertas no próprio tecido do domínio. E, no meio daquele cemitério, ele ficou imóvel, comprimindo a própria aura até quase nada, como se pudesse se reduzir a um ruído de fundo, como se pudesse virar parte das estrelas, como se o tamanho dele pudesse ser usado ao contrário e torná-lo invisível justamente por ser grande demais para parecer um indivíduo.


Por alguns instantes longos, ele achou que Gold não tinha notado. Não por confiança, mas porque o desespero sempre procura uma fresta para respirar. O silêncio do panteão tinha virado uma coisa absoluta, uma ausência de som que parecia, por si só, uma oração. Não havia gritos. Não havia passos. Não havia amuletos vibrando. Só o peso do que tinha acabado de acontecer e o som distante, quase imaginário, de energia se dissipando como fumaça.


"Eu achei, por um instante, que eu tinha virado uma pedra." O Curupira disse no presente, com uma amargura que não pedia compreensão: "Achei que ele tinha gasto tudo naquilo e que, por alguma falha do destino, não ia olhar para mim."


Ele contou que esse tipo de pensamento é feio, porque não tem honra, não tem coragem, não tem nada. É só sobrevivência nua. E, naquele dia, ele não tinha mais nada além disso para oferecer. Ele mantinha Iara dentro de si, protegida em uma região onde o tremor dela não escaparia como som. Mesmo assim, ele sentia o medo dela como se fosse um segundo coração batendo rápido demais.


E então o momento chegou.


O Curupira disse que foi um silêncio diferente que anunciou isso, não um som. Foi a sensação de ser visto. O tipo de sensação que atravessa o corpo e faz a pele lembrar que existe. Aquele instante em que você percebe, antes de qualquer palavra, que os olhos de alguém se voltaram para você e que esse olhar tomou uma decisão.


"Quando as vozes calaram de vez…" Ele disse: "Quando até os últimos soluços morreram… o olhar daquele homem veio para mim. E na hora eu senti que tudo tinha acabado."


Ele contou que não foi um olhar de surpresa, nem um olhar de busca. Foi um olhar de alguém que já sabia onde estava tudo, e só estava esperando o momento de se permitir ver. A presença de Gold, naquele ponto, não era mais a de um predador correndo atrás de som. Era a de uma entidade cansada, parada num Reino Divino vazio, olhando para o que restou como se estivesse olhando para uma paisagem que ele odiava ter que visitar.


O Curupira disse que tentou manter a mesma imobilidade. Tentou sustentar a ilusão por mais um instante. Só que, quando alguém daquele nível decide olhar para você, o corpo entende que a mentira não se sustenta. Ele sentiu a própria aura querendo subir por instinto, como se o organismo quisesse se defender, e ele teve que esmagar isso dentro de si, como se esmagasse um grito para não deixar escapar.


"Eu falei com Iara naquele momento." Ele disse.


Ele explicou que não foi uma conversa longa, porque não havia tempo. Foi uma troca curta, íntima, feita no lugar onde ele a mantinha abrigada. Uma comunicação que, para eles, não precisava de som externo. Iara estava tão apavorada quanto qualquer outro deus que tinha vivido aquele dia, e talvez mais, porque ela estava escondida dentro de alguém que não podia correr de verdade.


"Eu disse a ela que não havia onde se esconder." O Curupira continuou: "Eu disse que, se ele tinha olhado para nós, então era o fim. E que pelo menos… pelo menos nós morreríamos juntos."


Ele confessou que sentiu vergonha ao dizer isso, porque, por milênios, ele tinha sido grande demais para precisar falar desse jeito. Grande demais para admitir impotência. Só que aquele dia arrancou dele o direito de fingir grandeza. A única coisa que restava era a honestidade crua. E a honestidade crua, para um deus, é humilhante.


"Iara não respondeu com palavras bonitas." O Curupira disse: "Ela não pediu por um milagre. Ela não tentou me convencer de que havia uma saída. Ela só… aceitou comigo."


Ele descreveu essa aceitação como a coisa mais triste que ele já sentiu nela. Não era uma resignação elegante. Era cansaço. Era o tipo de cansaço que faz alguém parar de brigar com o destino porque percebe que brigar não muda nada. Ele sentiu Iara se encolher dentro dele, e isso doeu de um jeito estranho, porque ela sempre foi uma presença marcante em sua vida. Sempre foi uma força. Sempre foi alguém que, mesmo assustada, mantinha uma dignidade. Ali, ela estava pequena de verdade.


Enquanto ele dizia isso a ela, Gold ficava olhando para ele.


Gold não se mexia.


Gold não falava.


E, por algum motivo, esse silêncio foi pior do que o massacre que veio antes, porque no massacre havia impulso. No silêncio havia intenção.


"O rosto dele era de alguém cansado." O Curupira descreveu: "Mas não era o cansaço físico de quem apanha e se levanta, nem mental. Era… um cansaço existencial."


Ele disse que viu isso porque já tinha visto esse tipo de olhar em si mesmo, em raros momentos em que o tamanho do universo parecia grande demais para justificar continuar. Só que, em Gold, aquilo tinha outra densidade. O Curupira sentiu que Gold não estava ali para celebrar, nem para provar, nem para construir uma ordem nova. Gold só queria que tudo acabasse.


"Ele só queria pôr um fim naquele destino que insistia em não deixá-lo quieto." O Curupira disse: "Naquele tormento que vinha atrás dele como uma sombra, como se o universo tivesse prazer em nunca dar descanso para ele."


O Curupira contou que ficou olhando para Gold e, pela primeira vez, tentou imaginar o que existia por trás daquele silêncio. Não por compaixão, não por bondade, mas por curiosidade mórbida. Um ser que tinha perdido tudo e ainda assim continuava andando. Um ser que tinha acabado de derrubar um panteão inteiro, e ainda assim parecia menos vivo do que um mortal comum.


Foi nesse intervalo que Gold falou.


O Curupira disse que a voz dele saiu baixa, curta, sem qualquer peso agressivo. Era o tipo de voz que não precisa de gritos porque a realidade já obedecia ele.


"Revelem-se." Gold disse.


O Curupira admitiu que não houve resistência. Não houve pensamento de lutar. Não houve tentativa de barganha. Quando alguém daquele nível te ordena, você entende que a alternativa é sofrer por um minuto a mais e morrer do mesmo jeito. Então ele obedeceu.


"Eu obedeci." O Curupira disse, e a frase veio amarga por ser simples.


Ele contou que deixou a aura subir o mínimo necessário para existir como alguém. E, em seguida, abriu espaço dentro de si para que Iara aparecesse. Ele a trouxe para o mundo de novo, porque não havia mais motivo para escondê-la. O fim, ali, era claro.


Iara apareceu ao lado dele, pequena perto do tamanho do Curupira, e mesmo assim grande o bastante para ter seu peso no ambiente. Ela estava pálida, com o olhar perdido, e o tremor nela não era disfarçável. Era o tremor de alguém que já viu o pai cair, o irmão morrer e o seu mundo virar um cemitério, tudo no mesmo dia.


"Ele viu Iara comigo." O Curupira disse: "Ele viu o medo dela. Viu o mesmo medo que tinha estado em todos nós o tempo inteiro."


O Curupira contou que, por um segundo curto, sentiu algo que não combinava com o que Gold vinha fazendo. Não era perdão. Não era piedade no sentido limpo. Era um tipo de hesitação.


"Eu senti algo próximo de compaixão." O Curupira disse.


Ele explicou com cuidado, porque sabia como aquilo soava absurdo. Compadecer-se do panteão depois do que o panteão tinha feito parecia uma piada de mau gosto. Só que não foi compaixão pelos deuses como instituição. Foi um reflexo pequeno, violento, quase involuntário, como se uma parte de Gold ainda reconhecesse um traço humano em dois seres que, naquele instante, não estavam gritando, não estavam correndo, não estavam pedindo, não estavam tentando enganar.


"Era como se a mente dele lutasse contra o coração." O Curupira disse: "Como se o monstro lutasse contra a humanidade."


Ele descreveu essa humanidade como algo pendurado por um fio fino, desgastado, prestes a arrebentar, mas ainda presente. Era uma coisa mínima, quase ridícula, mas o Curupira viu. E ver isso foi pior do que não ver, porque significava que Gold estava consciente do que estava fazendo. Significava que ele não era um animal cego. Ele era um homem quebrado que ainda se lembrava do que era ser homem e, mesmo assim, continuava.


"Ele era como a imagem dos portões da morte." O Curupira disse: "E eu achei que aqueles portões iam se fechar sobre nós."


Ele contou que Iara também achou. Ela apertou os dedos, como se procurasse alguma oração que não existia, e olhou para o Curupira de um jeito que não era um pedido de salvação. Era uma despedida.


Só que, em vez do golpe, o olhar de Gold se desviou.


Foi rápido. Como decisão repentina. Como se, naquele instante, algo maior do que Curupira e Iara tivesse chamado a atenção dele. Gold olhou para longe, para dentro do Reino Divino, para um ponto que não era um corredor nem uma sala, mas um núcleo. O Curupira sentiu, no mesmo instante, que o alvo não era mais nenhum deus individual.


"Ele olhou para a Grande Mãe." O Curupira disse.


O Curupira explicou o que isso significava do jeito que um deus que viveu aquilo consegue explicar. O Salgueiro da Vida era mais do que uma planta. Era uma raiz universal. Era a fonte do retorno, do renascimento, do ciclo. Era a forma como os deuses, por mais que morressem, voltavam. Era dali que os frutos nasciam. Era dali que a máquina se alimentava.


"Era de lá que nós vínhamos." O Curupira disse: "Era dela que nós renascíamos como frutos."


O Curupira disse que, quando Gold olhou para aquilo, ele entendeu que a rendição deles não significava nada. Porque Gold não estava limpando um campo de batalha. Agora… Gold estava mirando a origem.


E, com palavras curtas, Gold falou de novo.


"Vocês serão os últimos a existir." Gold disse.


O Curupira contou que ouviu essas palavras como quem ouve uma sentença maior do que a própria morte. Porque morrer, para um deus, sempre foi temporário. O ciclo sempre foi uma promessa. Só que “ser os últimos a existir” significava uma coisa diferente: significava que o ciclo seria cortado.


"E tudo acabará como começou." Gold completou.


O Curupira disse que não queria entender. Não queria traduzir a frase no próprio cérebro. Era como se a mente dele tentasse se proteger da imagem que vinha em seguida, como se fechar os olhos por dentro pudesse impedir o inevitável.


"Eu não queria compreender com clareza." O Curupira disse: "Porque compreender era aceitar."


Ele contou que Iara também reagiu. Ela deu um passo pequeno para trás, como se estivesse recuando de uma queda, e o rosto dela se torceu numa mistura de medo e incredulidade.


Gold não olhou mais para eles.


A compaixão que o Curupira tinha sentido, se existiu, foi esmagada pelo próximo impulso. Gold se moveu na direção da Grande Mãe com um passo que não foi um passo, e sim um deslocamento que fez o ar do Reino Divino vibrar como uma pele tocada por fogo.


"O que veio depois abriu meus olhos à força." O Curupira disse.


Ele descreveu o instante em que Gold chegou diante da Grande Mãe como o momento em que entendeu, de verdade, o que estava prestes a perder. 


Gold parou diante dela e, pela primeira vez desde que tinha entrado no Reino Divino, o silêncio dele pareceu diferente. Menos ódio voltado para fora e mais um vazio voltado para dentro. Como se ele estivesse olhando para a raiz e reconhecendo ali não apenas a máquina dos deuses, mas a própria repetição do tormento. Enquanto aquilo existisse, a perseguição não acabaria. Enquanto aquilo existisse, o universo sempre teria um jeito de trazer de volta a mão que tenta controlar, a boca que dá ordens, o olho que vigia.


"Ele queria o fim." O Curupira disse: "Não o fim de um grupo. O fim de um ciclo."


Gold então levantou a mão.


O Curupira disse que não houve liturgia. A luz ao redor dele não se juntou como um feixe controlado. Ela surgiu como uma presença, como se o Reino Divino fosse um lugar incapaz de manter sombras na frente daquela existência. A aura dourada dele se expandiu, e as estruturas do domínio começaram a reagir como se estivessem sob pressão interna. O chão sagrado, aquele chão que sempre suportou o caminhar arrogante de deuses, tremeu como se fosse frágil. As paredes que mantinham a arquitetura do Reino Divino vibraram, e o Curupira sentiu algo que nunca tinha sentido antes dentro daquela casa: vulnerabilidade.


"Eu senti o Reino Divino ficar doente." O Curupira disse.


Gold encostou a mão na Grande Mãe.


E o toque foi um ataque.


O Curupira descreveu que, no primeiro contato, não houve uma explosão imediata, mas um efeito mais cruel: a vida da árvore reagiu, como se tivesse sido ferida.


A casca da Grande Mãe escureceu em pontos, como madeira queimando por dentro. As veias luminosas que corriam pelo tronco se contraíram como nervos. O Reino Divino inteiro foi tomado por um som que não era de madeira se partindo, mas de algo vivo sendo ferido em nível estrutural. Um gemido antigo, um ruído profundo que parecia vir do próprio chão.


Iara soltou um som baixo, involuntário, como um soluço que ela tentou engolir tarde demais. O Curupira a segurou com o próprio corpo, por instinto, porque naquele momento até o ar parecia perigoso.


"Ele começou a atacar." O Curupira disse.


Ele contou que Gold começou a arrancar a função dela. Cada segundo de contato parecia drenar, quebrar, desorganizar as estruturas de renascimento. O Curupira sentiu isso como uma mudança na própria existência, como se um vínculo interno tivesse sido puxado com violência.


"Foi como sentir minhas raízes internas sendo arrancadas." Ele disse.


Gold apertou a mão e a luz se espalhou pelo tronco como fogo correndo por óleo. Rachaduras surgiram, não apenas na casca, mas no brilho interno. A Grande Mãe, que sempre foi uma certeza, começou a perder essa certeza. O Curupira sentiu a rede divina, mesmo com todos os outros mortos, reagir em convulsão, como se a fonte do ciclo estivesse entrando em colapso.


Ele disse que tentou falar, tentou dizer alguma coisa, não para Gold, mas para si mesmo, como quem procura uma última justificativa para existir. Só que não havia frase. Havia apenas a imagem de Gold, calado, encostado na origem do panteão, destruindo com a paciência de alguém que não tem mais pressa porque não tem mais vidas para salvar.


"E eu entendi." O Curupira disse, com a voz pesada no presente.


Ele entendeu que não era um ato de raiva momentânea. Era uma decisão final. Era Gold dizendo que não bastava matar os deuses presentes. Não bastava derrubar o Pai de Todos. Enquanto a Grande Mãe existisse, a ideia de “depois” existiria. E Gold não queria um depois.


Ele queria um fim.


O Curupira disse que, naquele instante, enquanto a Grande Mãe gemia e o Reino Divino tremia como um animal ferido, ele percebeu que a morte deles não tinha sido evitada por silêncio. Tinha sido adiada por um motivo ainda mais cruel.


Gold queria que eles fossem os últimos.


Gold queria que eles vissem o começo do encerramento.


E o Curupira, tremendo com Iara abrigada em si, assistiu ao primeiro pedaço daquilo que os deuses sempre chamaram de eterno começar a rachar, e soube, com uma clareza que doía, que o curso da história estava finalmente saindo das mãos de todos eles.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram
bottom of page