Capítulo UHL 1238 - O Passado Toca No Presente
[Capítulo semanal!!!
ATENÇÃO: LINK ATUALIZADO. Venham fazer parte da nossa comunidade no Telegram! https://t.me/+tuQ4k5fTfgc1YWY5
ATENÇÃO: OS EXEMPLARES FÍSICOS E DIGITAIS DO PRIMEIRO LIVRO DE O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS NAS MAIORES LIVRARIAS DO BRASIL E DO MUNDO. APOIE O NOSSO TRABALHO E GARANTA JÁ UM EXEMPLAR TOTALMENTE REESCRITO E REVISADO, E COM TRECHOS INÉDITOS.
Quer ver um mangá de O Último Herdeiro Da Luz? Então, a sua ajuda é muito importante para que possamos alcançar novos limites!
Para ver as artes oficiais da novel, que estão sendo postadas diariamente, siga a página do Facebook https://www.facebook.com/Herdeirodaluz
Ou a página do instagram https://www.instagram.com/herdeirodaluz/
Todas as artes e outras novidades serão postadas nas nossas redes sociais, e vêm muitas outras por aí, então siga as nossas páginas e não perca a chance de mostrar à sua mente qual é o rosto do seu personagem favorito!
Ps: Link do Telegram atualizado!
Tenham uma boa leitura!]
-----------------------
O Curupira deixou o silêncio cair depois da última frase como se estivesse largando uma pedra no chão.
Não havia mais detalhes para descrever naquele relato. Não havia mais mapas para abrir. O que ele contou não era apenas uma história; era a costura real de um buraco que, por eras, tinha sido preenchido por suposições, por contos convenientes, por versões que davam a cada lado uma saída digna. A verdade, porém, não tinha saída. A verdade tinha sangue, tinha medo, tinha uma estrutura inteira desabando, e um final que ninguém sabia explicar.
Por alguns segundos, ninguém falou.
O ar parecia pesado como se a própria narrativa tivesse deixado uma camada de poeira dentro do peito de cada um. Não era só choque. Era o tipo de compreensão que muda a forma como você enxerga o céu quando olha para cima. Até o silêncio tinha um som estranho, como se todos estivessem ouvindo o universo com um ouvido diferente.
Ming Xiao foi o primeiro a se mexer.
Ele não falou de imediato. A mão dele foi ao rosto num gesto contido, e os dedos pararam no meio do caminho, como se até tocar a própria pele fosse um esforço. Os olhos dele, que sempre carregaram a responsabilidade de segurar o reino que ele estava construindo de pé, estavam fixos num ponto vazio, mas não era distração. Era algo mais emocional, era a tentativa de colocar em forma aquilo que não queria ter forma.
Halfkor tinha sido, por muito tempo, um nome que existia como sombra e como referência. Um rei que tinha construído algo que resistiu enquanto o mundo derretia, um símbolo de disciplina em meio ao caos. Ming Xiao carregava isso por dentro, porque não herdou apenas um trono; herdou um ideal. E agora ele tinha ouvido que Halfkor morreu sob o peso de uma guerra que não era “um grande evento”, mas o centro de uma tragédia cósmica.
O que Ming Xiao sentiu naquele instante foi uma espécie de vertigem. O Reino Esmeralda que ele tentava reerguer não era uma continuação de um projeto humano comum. Era uma resposta tardia a um massacre que tinha sido desenhado como uma ferramenta de caça. E isso mudava tudo. Mudava o significado do esforço dele. Mudava a arrogância de achar que “reconstruir” era só juntar pedaços.
A voz dele saiu baixa quando finalmente saiu.
"Então…" Ming Xiao começou, e a palavra ficou incompleta por um segundo, como se não soubesse qual caminho seguir. Ele engoliu em seco, encarou o Curupira com um misto de repulsa e necessidade, e terminou: "Então o que Halfkor tentou fazer… não era só teimosia. Era… uma linha inteira do universo apostando que nós podíamos ser mais do que isso."
Ele não disse “isso” como ataque ao Curupira. Disse “isso” como ataque ao destino, ao desenho, ao fato de que alguém pôde olhar para a criação e decidir que a melhor forma de resolver um problema era incendiar tudo.
Ming Xiao fechou os olhos por um instante, e quando abriu de novo havia um brilho agressivo ali, não de raiva explosiva, mas de decisão. A história que ele ouviu não diminuiu o reino que queria construir. Ao contrário. Fez ele entender por que Halfkor era tão obcecado com disciplina, com um “reino” que não fosse só território, mas uma ideia. Se o universo sempre convergia para esmagar a humanidade, então o que um rei fazia não era governar. Era segurar uma muralha com as próprias mãos.
E Ming Xiao, naquele segundo, pareceu aceitar que o reinado dele não era apenas um título. Era uma continuidade involuntária de uma guerra que nunca terminou de verdade, apenas mudou de cara.
Do outro lado, Jaha estava imóvel, mas não era paralisia. Era uma tensão ativa.
Os olhos dele pareciam mais claros do que antes, não por luz, mas por foco. Jaha sempre teve a mente inquieta, uma curiosidade sem limites, uma sede de conhecimento que parecia um buraco no próprio peito. Só que ali, diante do relato do Curupira, a curiosidade dele não tinha gosto de brincadeira. Tinha gosto de ferida.
Ele tinha ouvido sobre o ciclo, sobre a Grande Mãe, sobre o fim do panteão, sobre a interrupção súbita de algo que parecia o próprio Fim dos Tempos. Ele tinha ouvido, sobretudo, sobre o ponto mais irritante para alguém como ele: a lacuna. O lugar onde até Curupira dizia “eu não sei”. O lugar onde o universo, por um instante, calou e ninguém entendeu por quê.
Jaha respirou fundo e, diferente de antes, não disparou perguntas em sequência. Ele escolheu uma, como quem escolhe uma lâmina específica.
"Quando tudo parou…" Ele disse, e a voz dele foi firme, mas sem agressividade: "Você disse que ninguém entende o que aconteceu. Mas você sentiu alguma coisa antes de parar? Um padrão? Uma mudança de textura no tremor? Alguma diferença entre o último ataque e o silêncio?"
A pergunta veio de um lugar que misturava fome e respeito. Jaha queria aquela resposta como quem tem sede quer água, mas ele também sabia que, naquela história, forçar demais era indecente. Era como cutucar um cadáver para ver se ele mexe.
O Curupira não respondeu de imediato, e essa demora foi uma resposta por si só. Jaha apertou os lábios e assentiu sozinho, como se já estivesse fazendo, internamente, uma lista de hipóteses. Não hipóteses para se consolar, como os deuses fizeram com “talvez Odin esteja atraindo”, mas hipóteses como ferramentas de compreensão. Ele já parecia estar construindo um mapa mental do ciclo, da fonte, do silêncio, da possibilidade de que a Grande Mãe tivesse algum mecanismo que ninguém compreendia, ou que Gold tivesse feito algo que ninguém viu.
Só que, por baixo dessa fome intelectual, havia um desconforto humano que Jaha não gostava de mostrar: a percepção de que o conhecimento, naquele universo, não protege. O conhecimento pode até te matar mais devagar, porque faz você ver o que está vindo.
Já Ming Xue não estava olhando para o Curupira naquele momento.
Ela estava olhando para o chão, como se o chão fosse um lugar mais seguro para manter a mente presa. O rosto dela estava calmo demais, e quem conhecia Ming Xue sabia que aquela calma era perigosa. Era o tipo de calma que aparece quando algo dentro dela foi tocado num nível que não tem reação fácil.
Moira.
Ming Xue não a conheceu, mas ela carregava parte da herança dela como quem carrega um nome que pesa mesmo sem uma memória direta. Moira era um pilar na história da humanidade, uma peça central na defesa, uma presença que o universo precisou esmagar pessoalmente. E agora Ming Xue tinha ouvido como Moira caiu, como Zeus e Zaki foram até ela, como selaram linhagens, como desmontaram futuros. Ela tinha ouvido que Moira resistiu e que o planeta inteiro pagou por isso, que a guerra tratou as lideranças humanas como alvos técnicos.
E, pior: ela tinha ouvido que o Reino da Luz, liderado por Zaki, participou de tudo isso como se fosse uma renovação virtuosa.
Ming Xue respirou, devagar, e o ar pareceu entrar com dificuldade, como se o peito dela estivesse cheio de vidro.
O que ela sentia não era só revolta pelos mortos. Era o tipo de revolta que nasce quando você percebe que o universo tem uma obsessão em tomar do humano aquilo que ele tem de mais raro: a chance de escolher. Moira lutou e foi punida por lutar. E a punição não foi apenas a morte. Foi uma tentativa de cortar o futuro.
Ming Xue levantou o olhar por um instante, e o olhar dela cruzou o de Zao Tian.
Não foi um diálogo. Foi um acordo silencioso entre eles. Aquele tipo de acordo que não precisa ser dito porque já existe no sangue. O futuro que ela dividia com ele, como esposa, como parceira de destino, de repente parecia amarrado a uma herança que nenhum dos dois pediu. Moira não era “um passado distante”. Moira era uma sombra que ainda existia no formato do mundo. E agora Ming Xue sabia que aquela sombra tinha sido esmagada com uma crueldade calculada.
Ela não falou naquele instante, mas o jeito como ela apertou os dedos mostrou que a história não estava passando por ela como informação. Estava entrando como combustível.
Ragnar e Hildeval estavam quietos, cada um com sua forma de carregar o impacto, mas os dois tinham o mesmo olhar de quem foi forçado a revisar uma idolatria.
Eles conviveram com Zaki na Singularidade.
Não o Zaki do Reino da Luz. Não o Zaki que se vendeu como paz enquanto ajudava a exterminar. Eles conviveram com um Zaki que, depois de enxergar o que tinha sido e o que tinha feito, tentou fazer o que podia no único lugar onde se pode fazer alguma coisa sem mudar o passado: o loop.
A Singularidade, aquele espaço-tempo torto que permite visitar um período, mas não alterá-lo, sempre foi para eles um lugar de brutalidade, treino e repetição. Um lugar onde a humanidade tentava arrancar força do próprio tempo. E ali, naquele lugar, Zaki tinha sido outra coisa: um mestre duro, exigente, quase cruel na forma como treinava, mas com uma intenção que eles reconheceram como real. Zaki os moldou como Gold o moldou um dia, com a mesma obsessão por preparação, por resistência, por um desenvolvimento que não dependia de nenhuma sorte.
Ragnar se mexeu primeiro, com um gesto curto com a mandíbula, como se estivesse triturando uma ideia. A voz dele saiu grave e meio amarga.
"Ele… não parecia um monstro lá." Ragnar disse.
Hildeval assentiu lentamente, e o assentimento dele parecia mais pesado do que qualquer frase.
"Ele parecia alguém tentando pagar uma dívida que não tinha como pagar." Hildeval completou.
Nenhum dos dois estava tentando limpar o nome de Zaki. Nenhum dos dois era tolo para tentar fazer isso. Eles só estavam descrevendo a dor de descobrir que o homem que os preparou para sobreviver tinha sido, em outro tempo, um dos braços mais sujos do extermínio.
E isso doía neles por um motivo específico: porque eles tinham acreditado que aquele arrependimento significava que havia, por trás de tudo, um motivo que pudesse ser explicado. Uma tragédia, uma manipulação, uma mentira maior. Eles sempre mantiveram um “talvez” dentro do peito, mesmo quando a realidade gritava o contrário. O “talvez” era o último lugar onde eles guardavam a admiração. E agora o Curupira tinha arrancado esse “talvez” com as mãos.
Exatamente por isso, Singrid estava pior do que eles.
Desde o começo do relato, ela tinha os olhos presos no vazio, mas não era distração. Era negação. O corpo dela estava rígido demais, como se a musculatura estivesse tentando segurar a mente dentro do crânio para ela não cair.
Ela conviveu com Zaki na Singularidade também, mas o laço dela não era apenas de admiração por um mestre forte. Era aquele tipo de vínculo emocional que nasce quando alguém vira sua referência absoluta num período de formação. Singrid tinha criado um amor platônico por Zaki, uma admiração quase cega que ela nunca disse em voz alta porque o orgulho dela não deixava, mas que vivia em tudo: no jeito como ela repetia gestos, no jeito como ela defendia o nome dele quando alguém ousava reduzir.
E havia mais.
A armadura dela.
Singrid não “usava” uma armadura. Ela carregava Zaki. Ela carregava o que sobrou dele.
Quando ela foi à Forja de Hefesto para criar sua Arma do Espírito, ela encontrou o próprio Zaki no Rio das Almas. E ele sacrificou a alma e a possibilidade de reencarnação para virar a armadura que ela ostenta sem abrir mão. Aquilo não era vaidade. Era uma presença. Era uma forma de ter o mestre com ela o tempo inteiro. Uma forma de dizer, o tempo inteiro, que ela não esqueceu quem a moldou.
E agora ela estava ouvindo que esse mesmo homem ajudou a exterminar a humanidade. A criação. A própria esperança.
Singrid respirou e falhou no meio.
O som que saiu dela não foi de choro ainda. Foi um ar quebrado, como se o peito tivesse sido perfurado por dentro. Ela levou a mão ao próprio peito como se a armadura estivesse queimando, e por um segundo pareceu que ela queria arrancar de si algo que não se arranca.
"Não…" Ela disse, baixo, quase inaudível, e a palavra não era um argumento. Era um pedido infantil para o mundo voltar atrás.
Ragnar olhou para ela na hora, e Hildeval também. Os dois estavam abalados, mas não quebrados daquele jeito. Para eles, Zaki era mestre e dívida. Para Singrid, Zaki era um mundo. Era uma referência. Era uma presença física no próprio corpo.
Ela engoliu em seco, e as lágrimas vieram, mas não como as de antes. Vieram como raiva e desamparo misturados, aquele tipo de lágrima que te humilha porque você sente que está traindo alguém ao sentir.
"Ele… ele…" Singrid tentou, e a frase não completou. E ela fechou os olhos com força e as lágrimas escorreram mais.
Ming Xue se mexeu primeiro dessa vez. Foi um gesto contido. Ela se aproximou de Singrid com a firmeza de alguém que sabe o que é carregar o luto e ainda assim precisar caminhar. Ming Xue não tentou dizer frases bonitas. Ela só ficou perto, perto o suficiente para Singrid sentir que não estava sozinha naquele buraco.
"Você não tem culpa." Ming Xue disse, e a frase não era um consolo vazio. Era uma lâmina para cortar a autodestruição: "Nenhum de vocês tem culpa do que ele foi."
Singrid balançou a cabeça, descontrolada, e o choro dela ficou mais alto. Ela apertou a própria mão contra a armadura, como se estivesse tentando sentir alguma resposta dali, como se o metal pudesse negar o Curupira, como se a presença de Zaki dentro dela pudesse dizer “não foi assim”. Mas a armadura era silenciosa. E o silêncio, naquele momento, era cruel.
"Eu… eu usei ele…" Singrid disse, e a palavra usei saiu com repulsa de si mesma.
"Eu… eu carrego ele… e ele…" Ela não conseguiu terminar.
Hildeval se aproximou também, do jeito dele. Ele não era bom com palavras, mas era bom com presença. Ragnar veio logo atrás, e Cruz, que normalmente seria o primeiro a tentar transformar aquilo num circo, ficou quieto, porque naquela hora suas palavras não ajudavam. Só a companhia ajudava.
Zao Tian, por sua vez, estava imóvel, e isso era estranho nele.
Não era a imobilidade de quem não sente. Era a imobilidade de quem sente demais e está segurando a própria estrutura para não explodir.
Desde o início do relato do Curupira, Zao Tian vinha sendo atravessado por uma corrente que não era só dele. Gold existia nele como centelha e como presença, e aquela história tinha tocado o ponto mais sensível possível: o sofrimento do homem que, para Zao Tian, era mestre e pai ao mesmo tempo.
Zao Tian não parecia ter feito a pergunta que qualquer mente faria: o que aconteceu depois que Gold sumiu? Para ele, isso já não importava. O que importava era a continuidade da missão… como um impulso cego. A história não abriu os olhos dele. Ela cegou.
O rosto de Zao Tian estava duro, e ainda assim havia tristeza ali, uma tristeza que não era lágrima agora. Era uma tristeza que virou decisão. Ele olhava para o Curupira, mas não era um olhar de curiosidade. Era um olhar de alguém que já tinha escolhido um fim.
Quando Singrid começou a desmoronar, Zao Tian se mexeu. Ele se aproximou também, e o gesto dele foi mais simples do que qualquer frase.
Ele colocou a mão no ombro de Singrid, firme, sem delicadeza excessiva, como quem diz “eu estou aqui” do jeito mais direto.
Singrid olhou para ele com os olhos cheios, e naquele olhar havia uma pergunta muda: como eu vou viver com isso?
Zao Tian respondeu sem palavras, porque ele não tinha uma resposta que resolvesse. Mas a presença dele ali dizia o único tipo de promessa que ele era capaz de fazer agora: isso não vai ficar sem um fim.
Shara'Kala e Zargoth estavam atônitos.
Não era apenas choque com a escala do conflito. Era o choque identitário de perceber que o destino do universo sempre esteve ligado aos humanos.
Os orcs cresceram sob uma cultura de força, de história própria, de orgulho que se alimenta de uma narrativa onde eles são protagonistas das suas guerras e dos seus pactos. Mesmo quando se envolveram com a humanidade, havia sempre aquela sensação de que isso era um conflito entre povos, não um evento cósmico.
E agora eles tinham ouvido que o cosmos inteiro foi incendiado para caçar um único humano. Um humano. E que, no fim, o panteão caiu por causa da dor desse humano. E que a Grande Guerra, aquilo que virou um mito em todas as culturas, aquilo que virou o tema de muitos contos, era uma história onde os orcs eram figurantes diante da obsessão divina por algo que nasceu no peito de um homem.
Zargoth respirou pesado, e a mão dele foi ao próprio peito como se tentasse sentir o coração batendo para confirmar que ainda estava no mesmo universo.
"Então…" Ele disse, e a voz saiu rouca, quase agressiva por reflexo: "Então nós… nós sempre fomos só…"
Shara'Kala não deixou ele terminar, não com grosseria, mas com um gesto curto. Ela encarou Zargoth e, pela primeira vez em muito tempo, o olhar dela não tinha política. Tinha um choque cru.
"Não." Shara'Kala disse: "Não só."
Ela escolheu as palavras com cuidado, como alguém que tenta não cair num buraco de autodepreciação.
"Mas agora nós sabemos." Ela completou: "E saber muda a forma de lutar."
Para os dois, aquela verdade era um peso e uma arma. Um peso porque destrói mitos antigos. E uma arma porque, a partir dali, eles eram alguns dos poucos seres vivos que podiam dizer “isso aconteceu”. Alguns dos poucos que podiam olhar para o céu e entender que ele não é neutro. Que ele tem uma história. Que ele tem culpa.
O grupo inteiro estava diferente depois daquele relato.
Mesmo os que não falaram, como Gu Ren, Kyon, Ryuuji, Gins, carregavam no rosto a mudança. Não era apenas tristeza. Era uma reorganização interna. Como se cada um tivesse um buraco na memória do mundo e, de repente, esse buraco fosse preenchido com algo tão pesado que o corpo inclinava.
Ming Xiao, novamente, foi o primeiro a trazer a consciência de volta para o presente de forma prática. Ele olhou para Zao Tian, não como rei olhando para um aliado, mas como alguém que entende que as histórias viram decisões.
"Então o que nós fazemos agora…" Ming Xiao disse, e a frase não tinha dúvida, tinha direção: "Não é só uma guerra contra o Olho. Não é só retaliação contra traidores. É… o resto do que ficou em aberto desde aquilo tudo."
Jaha olhou para Ming Xiao na hora, e a mente dele já estava conectando pontos. Tudo parecia fazer parte de uma mesma arquitetura universal de controle e resposta. Mas, pela primeira vez, a curiosidade dele não era mais o centro. Parecia ser mais uma arma para algo maior.
Singrid ainda chorava, mas o choro dela começou a mudar. Não virou calmaria. Virou aquela dor seca que fica quando você percebe que não tem escolha. Ela encostou a testa na mão de Ming Xue por um segundo, como se buscasse ancoragem, e Ming Xue não afastou. Só ficou ali, firme, sustentando o peso sem tentar transformar o peso em poesia.
"Eu não sei como eu vou…" Singrid começou, e a frase morreu.
Ragnar respondeu por ela, com uma dureza estranha que não era frieza, era proteção.
"Você vai continuar usando a armadura." Ele disse: "Não por ele. Por você."
Singrid olhou para Ragnar, e havia uma mistura de gratidão e dor ali, porque a frase de Ragnar era a única que cabia no contexto do que ela sentia. O de não tentar desfazer o passado, porque não tem como. Só escolher o que fazer com a presença que sobrou.
Hildeval assentiu, e a voz dele saiu grave, curta.
"Zaki… treinou a gente pra isso."
Ele não disse “isso” como uma desculpa para o que Zaki fez. Disse “isso” como uma tragédia: o homem que virou traidor, no fim, tentou construir defesas para o mundo que ele mesmo ajudou a quebrar. E agora essas defesas eram o que eles tinham.
Zao Tian finalmente falou, e quando falou, todo mundo sentiu que aquilo era a continuação inevitável de tudo que eles tinham ouvido do Curupira.
"Eu não quero saber o que aconteceu depois que Gold sumiu." Zao Tian disse.
A frase não foi dita como ignorância. Foi dita como rejeição do mistério, como se o mistério fosse um luxo que ninguém tinha tempo de ficar correndo atrás de uma resposta.
"Eu só quero terminar." Ele continuou, e o jeito como a palavra terminar saiu da boca dele fez o ambiente ficar mais frio: "Eu vou terminar o que ele começou. Eu vou terminar de vingar o que eles fizeram com ele."
Ming Xue olhou para ele de novo, e dessa vez não foi só acordo. Foi preocupação também, porque ela conhecia Zao Tian o suficiente para saber quando a dor vira cegueira. Ainda assim, ela não disse “não”. Não naquele momento. Não depois do que ouviram. Ela só aproximou a mão da dele, segurou por um instante e, sem precisar dizer, marcou a presença dela ali: você não vai atravessar isso sozinho.
O Curupira observou tudo em silêncio.
Ele tinha terminado de contar sobre a guerra, mas agora assistia ao que a guerra fazia no presente. A verdade não fica no passado. Nunca fica.
Ela se infiltra no que vem depois. Ela vira novas decisões. Vira ódio. Vira pactos. Vira um tipo de caminho que ninguém escolhe de verdade, mas todo mundo pisa nele.
E, por alguns instantes longos, o grupo inteiro ficou ali, carregando a mesma certeza que não tinha nome e que não precisava disso.
A humanidade, de novo, estava no centro do tabuleiro cósmico. E, de novo, tudo parecia convergir para esmagá-la.
Só que, dessa vez, eles estavam acordados para isso. E, pela primeira vez, ninguém ali parecia disposto a aceitar o papel de vítima ou de traidor como um destino inevitável.
