Capítulo UHL 1240 - Transição
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O Curupira ficou quieto depois da resposta sobre a Grande Mãe, como se a própria lembrança do que viu ali ainda deixasse um gosto ruim no ar. O grupo, aos poucos, começou a se mexer mais, não porque o peso diminuiu, mas porque a mente, quando não encontra saída, começa a procurar outras formas de adaptação.
Foi Zao Tian quem perguntou em seguida. E a pergunta dele veio como algo que estava preso na garganta há tempo demais, uma coisa que doía porque tocava diretamente na vida dele e em tudo que ele tinha visto desde que começou a caminhar com aquela centelha dentro do peito.
"Depois da Grande Guerra…" Zao Tian disse, e a voz dele saiu controlada demais, como se ele estivesse segurando a raiva para não deixá-la tomar o comando: "Os cultivadores da luz desapareceram."
Ele não precisou explicar para o grupo o tamanho disso. A luz não era só um elemento. Era uma linha inteira de possibilidades, era um tipo de afinidade que moldou épocas. E, no entanto, no mundo atual, aquilo tinha virado exceção, um mito.
"E começaram a nascer criaturas sem cultivo." Zao Tian continuou: "Sem Veias Espirituais. Algo que… pelo que se conta… não existia antes."
O olhar dele apertou, como se a pergunta seguinte fosse ainda mais difícil por ser pessoal demais.
"Como foi que isso aconteceu?"
Ele fez uma pausa curta, e o tom mudou levemente, porque ele sabia que estava pedindo algo que talvez nem o Curupira tivesse a resposta.
"E… se você não souber o que gerou…" Zao Tian disse, e a palavra gerou veio como quem tenta não infringir “culpa”, porque tudo naquele assunto era culpa de alguém, de algum jeito: "Então me diz como foi a transição. Como um grupo deixa de existir… e outro começa a existir."
O Curupira encarou Zao Tian por um instante longo demais para ser só atenção.
Havia algo nele que tocava o Curupira, e era estranho, porque o Curupira não estava ali para se comover com humanos. Ainda assim, havia uma familiaridade no jeito como Zao Tian perguntava. Não a familiaridade do passado que ele conhecia, mas a familiaridade de alguém que já olhou para a própria vida e sentiu que o universo tinha mexido as peças sem pedir sua permissão. O Curupira não sabia que Zao Tian já tinha sido alguém sem cultivo. Só sentiu, sem entender, que aquela pergunta vinha de um lugar mais profundo.
"Eu entendo a sua curiosidade." O Curupira disse, baixo.
E então ele foi direto, sem rodeio.
"Eu não sei o fator exato que gerou essas mudanças."
A honestidade veio sem cerimônia. Sem tentativa de parecer sábio. Sem o conforto de uma explicação pronta.
"Se foi um efeito do que Gold fez." Ele continuou: "Se foi um mecanismo de defesa do Pai de Todos. Se foi uma reação da Grande Mãe. Se foi uma consequência do dano na estrutura do ciclo… eu não posso afirmar."
Ele soltou o ar, e a próxima frase veio como se ele estivesse escolhendo algo que Jaha certamente pegaria.
"Mas eu posso explicar a transição."
No instante em que ouviu “transição”, Jaha ergueu o olhar, como se aquela palavra tivesse um gancho escondido.
"Transição?" Jaha repetiu. Aquela era a curiosidade acesa de novo, só que agora afiada: "Você tá chamando isso de transição como se…"
O Curupira interrompeu com calma.
"Como se fosse um processo interligado." Ele disse: "Porque foi."
Ele encarou Jaha e depois percorreu o grupo com o olhar, como se dissesse, sem palavras, que aquilo era um quebra-cabeça e que eles teriam que aguentar ver as peças.
"E basta ligar os pontos para entender o resto." O Curupira completou.
Ele não se apressou em começar. Antes, ele voltou um passo no tempo, porque aquela explicação não fazia sentido sem o estado do universo depois do que aconteceu no Reino Divino.
"Depois de tudo, a Grande Mãe passou por um longo processo de recuperação." Ele disse.
Ele falou “longo” como alguém que ainda sente vergonha de ter dito isso um dia. Porque, para algo capaz de criar qualquer coisa, o tempo deveria ser irrelevante. E, no entanto, não foi.
"Ela se regenerou." O Curupira continuou: "Mas levou anos."
Ele disse que, para ele, aquilo foi o indicador mais cruel do tamanho do ferimento. Não porque eles tinham visto sangue e rachaduras, mas porque o tempo de recuperação era uma prova de profundidade. Se a Grande Mãe demorou anos para cicatrizar, então o dano não era superficial. Era estrutural. Era como um corte que atravessa não só a casca, mas os ossos.
"Para algo que pode criar absolutamente qualquer coisa levar tanto tempo…" O Curupira disse: "O que Gold fez foi fundo demais."
Ele explicou que ele e Iara ficaram ao lado dela durante todo esse período. Não como guardiões heroicos, mas como dois sobreviventes que tinham entendido que, se aquilo fosse atacado de novo, não haveria “depois” para ninguém.
"Nós temíamos outro ataque." Ele disse. E aí ele deixou claro o paradoxo.
"Não havia mais ninguém capaz de fazer o que Gold fez." O Curupira afirmou: "Mas nós não quisemos apostar nossa existência na sorte."
Ele contou que, durante anos, eles ficaram ali. Vigiando. Observando a recuperação lenta. Vendo a seiva voltar a correr com menos dor. Vendo as rachaduras se fecharem como cicatrizes. Vendo um corpo que tenta se recompor depois de perder órgãos. E, nesse tempo, eles também viram uma coisa pior do que o ferimento: o vazio deixado pelo panteão inteiro.
"O Reino Divino ficou silencioso demais." O Curupira disse: "Silencioso como um cemitério."
Ele não prolongou esse trecho, porque o ponto não era a melancolia. Era o que veio depois.
"Quando a Grande Mãe se estabilizou…" Ele continuou: "Eu e Iara fomos embora."
"Separados."
Essa palavra foi importante. Ele disse separado porque a confiança era um cadáver naquela era. As raças sobreviventes olhavam para qualquer deus vivo como um risco. Não importava se o panteão tinha caído. A memória do que eles fizeram continuava. E, por mais que o Curupira e Iara não tivessem sido os executores diretos daquela guerra, eles ainda eram deuses. Ainda eram parte da espécie que incendiou o cosmos.
"A criação não confiava mais em nós." O Curupira disse: "Com razão."
Ele explicou que, mesmo assim, eles viajaram. Não para comandar nada, mas para ver o que sobrou. Para tentar ajudar onde dava. Para procurar respostas onde ainda existia alguém vivo para responder. E, nessas viagens, eles encontraram coisas dolorosas demais para virar um único relato.
"Eu vi raças inteiras vivendo em ruínas." Ele disse: "Eu vi mundos tentando se reconstruir e falhando porque não havia gente suficiente. Eu vi sociedades se voltando umas contra as outras por comida e por abrigo, porque, sem o panteão, a crueldade não morreu. Ela só mudou de dono."
Ele fez uma pausa curta, e então entrou no ponto que Zao Tian tinha trazido.
"E foi nessas viagens que os primeiros seres sem cultivo começaram a aparecer."
O grupo reagiu com um silêncio mais atento ainda, como se todos entendessem que ali estava a linha de origem de um fenômeno que, no presente, era cotidiano e ao mesmo tempo vergonhoso.
"Naquela época…" O Curupira disse: "Ainda havia muitos cultivadores da luz vivos."
Ele fez questão desse detalhe.
"Muitos." Ele repetiu: "As pessoas que manipulavam luz estavam perfeitamente bem. Sem sinais de anomalia. Sem perda repentina de poder. Sem doença."
Ou seja: o que houve não foi um evento imediato de extinção. Não foi uma explosão que apagou todos de uma vez. Foi outra coisa.
"No começo, toda a atenção foi para os seres sem cultivo." o Curupira continuou: "Porque aquilo era novo. Totalmente novo na história da criação."
Ele disse que pesquisadores de todas as raças se voltaram para isso. Médicos, estudiosos, cultivadores especialistas em anatomia, gente que nunca tinha trabalhado junta antes. Não porque agora eram bons e unidos, mas porque aquilo parecia um presságio. Num universo traumatizado, qualquer diferença vira um sinal de catástrofe ou de salvação. E as reações foram extremas por isso.
"Alguns chamaram de aberração." O Curupira disse: "Outros chamaram de milagre."
Ele explicou que essas pessoas sem cultivo eram, biologicamente, iguais a seus pares de espécie. O mesmo sangue. A mesma estrutura. O mesmo corpo. A única diferença estava naquilo que, naquele universo, define tudo.
"As Veias Espirituais." O Curupira disse.
Ele não precisou explicar muito, porque o grupo sabia. Veias Espirituais determinam afinidades elementais, captam energia espiritual do ambiente, circulam essa energia e permitem que o corpo use aquilo como força, técnica, cura, ataque, defesa. É isso que separa um cultivador de um mortal comum. É isso que torna a eficiência uma lei social.
"E esses novos seres não tinham Veias Espirituais." O Curupira afirmou.
Ele descreveu o impacto disso com frieza. Porque, num mundo onde o poder define o valor, nascer sem a capacidade de captar energia é nascer como um erro para muitos. E, no começo, o erro ainda parece especial, porque é raro.
"Nos primeiros anos…" O Curupira disse: "Eles foram tratados como símbolos."
“Símbolos de castigo divino. Símbolos de purificação. Símbolos de mudança. Cada cultura projetou neles o que queria enxergar. Alguns foram protegidos como tesouros. Outros foram sacrificados como presságios ruins. Outros foram escondidos por vergonha. Outros foram usados como propaganda, como prova de que “o universo está mudando e nosso povo foi escolhido”.”
"Mas isso não durou." O Curupira continuou.
Ele explicou que, com o tempo, começaram a nascer mais. E mais. E mais. A raridade morreu. E, quando a raridade morre, o “especial” vira “comum”. E, naquele universo, o comum sem poder vira uma coisa só: inútil.
"E aí veio a marginalização." O Curupira disse.
Ele não romantizou o que aconteceu. Ele descreveu o padrão que viu se repetir em planetas diferentes, em raças diferentes, em culturas que nunca se encontraram. E isso, para ele, era uma prova de que não era um acidente cultural. Era a natureza da lógica daquele cosmos.
"Num universo onde tudo pode ser feito em segundos…" O Curupira disse: "Onde o valor de alguém é medido pelo poder… alguém lento, sem capacidade de produzir, sem capacidade de se defender… vira um estorvo."
Ele contou que, no princípio, houve poucos anos de paz. Poucos. Porque ainda existia alguma comoção, curiosidade, culpa. Mas a culpa cansa. E a curiosidade também. E quando elas passam, sobra a estrutura social: a eficiência como régua.
"E eu vi esses seres serem empurrados para a escravidão." O Curupira disse.
A palavra caiu como uma pedra, e ninguém ali parecia surpreso. Triste, sim. Revoltado, sim. Mas não surpreso. Porque todos ali viviam em sociedades onde o poder ainda determinava demais.
"Eles foram forçados a servir." O Curupira continuou: "A obedecer. Sem o direito de questionar. Porque não tinham como reagir."
Ele disse que viu crianças sendo vendidas como mão de obra. Viu famílias escondendo filhos sem cultivo para não serem expostas. Viu comunidades isoladas sendo usadas como estoque de servos. Viu, ao longo de milênios, aquilo virar normal. Não porque era justo, mas porque era útil. E o universo deles sempre preferiu o útil ao justo.
"A escravidão mudou de nome em alguns lugares." Ele disse: "Mas não mudou de função."
Jaha estava imóvel, mas os olhos dele estavam ardendo de foco, como se cada frase fosse mais uma evidência empilhada em um raciocínio que ele já estava montando por dentro.
Zao Tian ouvia tudo com uma atenção que parecia mais perigosa do que qualquer fala.
Foi então que o Curupira trouxe o segundo fenômeno, aquele que, no começo, foi ignorado.
"Em paralelo…" Ele disse: "Outra coisa estava acontecendo."
Ele fez uma pausa, porque aquilo parecia pequeno demais perto do drama imediato dos sem cultivo, e justamente por isso passou despercebido no começo.
"Os cultivadores da luz começaram a diminuir."
Ele explicou que não foi um desaparecimento brusco de quem já existia. Cultivadores têm vida longa. E, num universo em ruínas, muita coisa morre por razões mais óbvias antes de alguém perceber estatísticas de nascimento.
"No princípio, quase ninguém notou." O Curupira disse: "Porque quem já tinha luz… continuava vivo."
E então ele descreveu o momento em que o problema virou evidente: quando as sociedades começaram a sentir falta.
"Isso só ficou claro quando a necessidade virou demanda." Ele disse.
A luz era um elemento crucial. Não só por combate. Em muitas culturas, cultivadores da luz eram usados contra técnicas específicas, equilíbrio de energia em regiões devastadas e etc. Quando você precisa de algo assim e não consegue repor, o vazio aparece.
"E aí eles perceberam." O Curupira disse: "Os cultivadores da luz não estavam mais nascendo."
Ele contou que tentou procurar uma resposta para isso por muito tempo. Tentou investigar se havia um elemento externo: um vírus que atacava embriões com Veias de luz. Uma interferência deliberada. Um selo residual de Odin. Qualquer coisa que pudesse ser apontada como causa.
"Eu cogitei um vírus." O Curupira disse: "Um agente que atacasse só a luz."
Mas ele foi direto no resultado de milênios de busca.
"Eu nunca encontrei qualquer indício de algo externo."
Ele disse que não encontrou assinatura de invasão, nem padrão de contaminação, nem evidência de uma mão agindo como sabotagem. E, quando você tira o “externo”, sobra o “interno”. Sobra o universo em si tomando uma decisão. E essa ideia era assustadora demais para ser aceita de primeira.
Foi aí que o Curupira voltou à palavra que tinha usado antes, encarando Zao Tian e Jaha como se dissesse: agora vocês entendem por que eu chamei isso de transição.
"Eu chamo de transição porque foi um processo de substituição." Ele disse.
Jaha apertou os lábios, como se estivesse segurando a pergunta seguinte para não atropelar. O Curupira percebeu e avançou, como se quisesse entregar logo a peça central, antes que o grupo tentasse adivinhar sozinho.
"A única constatação que eu consegui chegar…" Ele disse: "Ao longo dos milênios… é essa."
Ele respirou fundo, e a frase seguinte veio como uma sentença que mexe com tudo.
"Os sem cultivo de hoje são aqueles que deveriam nascer com afinidade com a luz."
O silêncio do grupo foi imediato. Não porque todos entenderam no mesmo grau, mas porque todos sentiram o impacto. Era como se uma linha de raciocínio que estava espalhada, difusa, de repente fosse puxada e amarrada em um nó.
"Por algum motivo…" O Curupira continuou: "O universo preferiu deixá-los sem Veias Espirituais."
Ele não disse “preferiu” como se fosse a vontade consciente de um deus. Disse como um comportamento do sistema. Como uma correção brutal. Como um mecanismo de defesa que, para impedir que tudo se repetisse, cortou o canal por onde a luz entrava.
"A manipulação do elemento luz foi banida da existência." O Curupira disse, sem drama, pois a frase já era dramática por si só.
Ele explicou que, se a luz tinha produzido Gold, se a luz tinha permitido um humano humilhar o panteão, se a luz tinha quase quebrado a própria Grande Mãe, então o cosmos tinha aprendido uma lição do jeito mais cruel possível. E o universo, diferente de humanos, não tem piedade ao aplicar lições. Ele só ajusta as regras para impedir a repetição.
"Eu não sei se foi a Grande Mãe fazendo isso para se proteger." O Curupira disse: "Eu não sei se foi a própria criação, como um corpo febril, tentando remover o que a quase matou."
Ele encarou Zao Tian, e o olhar dele ficou pesado, porque aquela pergunta era pessoal para ele de um jeito que o Curupira talvez não entendesse totalmente, mas sentia.
"Eu só sei o resultado." Ele concluiu: "A luz parou de nascer. E, no lugar dela… começaram a nascer vazios."
A palavra vazios ficou no ar como insulto e como luto ao mesmo tempo. Porque “vazio” ali não era só a ausência de poder. Era a ausência de um destino inteiro. Era como se o universo, para se salvar, tivesse decidido sacrificar milhões de vidas a uma existência sem escolha, sem chance de se defender, sem chance de ser livre num cosmos que só respeita a força.
Zao Tian ficou imóvel naquele momento. A expressão dele não era de surpresa. Era encaixe. Como se, de repente, muita coisa que ele viu ao longo da vida tivesse ganhado uma raiz. E, ao mesmo tempo, o ódio dentro dele tivesse encontrado mais um motivo para crescer.
Jaha parecia estar fazendo contas internas em velocidade absurda, mas, pela primeira vez, a inteligência dele parecia mais triste do que excitada. Porque entender aquilo não dava uma solução. Só dava a clareza de que o universo, quando tenta se salvar, pode virar um carrasco tão frio quanto Odin.
E o Curupira, vendo o efeito do que disse, não tentou suavizar.
"É por isso que eu chamei de transição." Ele repetiu: "Não foi só um povo diferente nascendo. Foi uma troca."
