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Capítulo UHL 1241 - Criado Pelo Acaso

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Tenham uma boa leitura!]


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O que veio depois do relato do Curupira não foi um silêncio comum. Não foi só gente pensando. Foi o tipo de silêncio que parece ocupar espaço, como se o ar ficasse mais denso por causa de uma conclusão que ninguém queria carregar sozinho.


Zao Tian não disse nada.


Ele sentiu primeiro.


Sentiu a informação se espalhar dentro dele como água fria derramada sobre um ferro quente. Não doeu de imediato. Primeiro veio um choque. Depois veio o calor subindo, não como raiva explosiva, mas como uma pressão que vai aumentando até parecer que o peito não cabe mais no próprio corpo.


A infância dele apareceu inteira, sem ser convidada.


Não foi como aquela sequência de cenas bonitas ou dramáticas, mas como sensações que nunca foram embora: o cheiro de chão úmido no lugar onde ele dormia quando era pequeno, o som de choros, a fome que não parecia fome e sim uma regra, a fragilidade física que era humilhante porque o mundo ao redor era violento demais para gente frágil como ele. Ele se lembrou do pai e do irmão, como um peso real de dois homens que precisavam viver com cuidado demais, porque o corpo deles era um corpo que o universo ao redor não respeitava. Lembrou da mãe, e o rosto dela apareceu sem palavras, ligado a um sentimento de dívida eterna que ele nunca conseguiu pagar porque o mundo já tinha decidido que ela não ficaria com ele.


Zao Tian respirou devagar, tentando não deixar isso transbordar. Tentando manter o controle, como sempre fez quando a vida exigia que ele se mantivesse inteiro para que alguém ao redor não desmoronasse.


Só que, naquela hora, o que o Curupira disse não era só um detalhe cosmológico.


Era um golpe na própria ideia de justiça.


Não aquela justiça grande, mítica, que se fala em discursos. Era uma justiça de chão. Justiça de corpo. Justiça de chance.


Zao Tian sempre soube que a própria vida era injusta. Ele cresceu dentro disso. A injustiça era tão cotidiana que, por muito tempo, ele nem chamou de injustiça. Chamou de “normal”. Chamou de “é assim”. E essa resignação, quando você é criança, não é um sinal de maturidade. É sobrevivência. É entender que ele não é capaz de mudar nada e aceitar o que faziam com ele se quisesse sobreviver.


Só que agora ele tinha ouvido que aquilo não era só um acidente social. Não era só pobreza, não era só escravidão, não era só a crueldade de gente má. Era uma mudança no próprio desenho do universo.


Uma transição.


A palavra do Curupira ficou martelando em sua cabeça.


Transição.


Era como se ele e tantos outros tivessem sido trocados de lugar. Como se o universo, para se proteger da luz que criou um monstro grande demais, tivesse decidido que a solução era criar um tipo de ser que não pudesse repetir o erro.


E esse ser tinha sido ele.


Essa conclusão não era confortável.


Ela não vinha com orgulho.


Ela vinha com um gosto amargo de azar.


Zao Tian não se colocava no papel de vítima, pelo menos não como escolha. Ele tinha aprendido cedo demais que se sentir vítima é abrir espaço para ser esmagado duas vezes: primeiro pelo mundo e depois pela própria cabeça. Ele sempre escolheu agir. Sempre escolheu carregar os outros. Sempre escolheu caminhar e arrancar, com esforço, o pouco de dignidade que o universo tentava negar.


Mas, por mais que ele não quisesse, era impossível não olhar para o passado e ver o desenho de vítima em cima dele e de sua família. Impossível não ver isso nos olhos de outras pessoas sem cultivo que ele conheceu ao longo da vida. Gente que não tinha feito nada de mau, que não tinha pecado, que não tinha escolhido nascer com um corpo que não capta energia espiritual, e mesmo assim foi empurrada para o lugar mais baixo da cadeia.


Ele pensou em como, quando criança, ele se sentiu amaldiçoado.


Ele lembrava de olhar para cultivadores e sentir que era como olhar para outra espécie. Gente que não adoecia fácil. Gente que apanhava e levantava. Gente que quebrava pedras com as mãos e parecia fazer isso sem esforço algum. E ele, do outro lado, sentindo o corpo falhar por qualquer coisa pequena, sentindo uma simples febre virar uma ameaça, sentindo a fome virar uma enorme fraqueza, sentindo que carregar peso não era um “treino”, era um risco.


Ele não reclamava disso. Nunca teve tempo para reclamar. Mas ele se lembrava do pensamento que não dizia em voz alta: “por que eu nasci assim?”


E agora a resposta que apareceu para ele era pior do que qualquer explicação moral.


Porque não era uma punição individual.


Era algo muito maior.


Zao Tian entendeu o que o Curupira tinha dito com uma clareza brutal: ele tinha um destino traçado para nascer com afinidade com a luz. Ele seria um cultivador como tantos outros. E, por algum motivo, esse caminho foi interceptado e destruído. Nunca houve uma seleção digna. Nunca houve uma regra justa.


Ele foi cortado e substituído por… nada.


Ele se sentiu azarado, sim. Azarado porque a palavra “azar” é o que o coração usa quando a mente não quer dizer “sacrifício”. E o que ele foi, e o que tantos outros foram, tinha cheiro de sacrifício.


Um sacrifício imposto por outros.


Então o pensamento seguinte veio com outra camada de dor.


Ele teve uma chance que quase ninguém teve.


Ele encontrou Gold.


Ele encontrou a centelha.


Ele foi puxado para um caminho onde a fragilidade do corpo deixou de ser aquela sentença de morte a cada esquina que virava. Onde o destino, ao menos para ele, pôde ser reescrito na prática. Ele pôde trilhar o caminho marcial, pôde fortalecer o próprio corpo, pôde virar alguém capaz de olhar para os outros e não sentir só medo.


Mas e o resto?


E o pai dele?


E o irmão?


E a mãe que já não estava mais aqui para sequer ter a chance de ser salva por essa coincidência absurda?


E os sem cultivo espalhados pelo cosmos que nunca encontrariam uma centelha, nunca encontrariam um mestre, nunca seriam vistos como algo além de um estorvo?


Isso doía porque, por mais que Zao Tian fosse duro, ele gostava de cuidar das pessoas. Gostava não como um instinto natural de alguém que viveu na base. Ele aprendeu a olhar para o fraco e não sentir desprezo, porque ele já foi o fraco. Ele sabia o que custa existir quando o mundo é grande demais e você é pequeno demais.


Ainda assim… ele era sincero consigo.


Alguém sem cultivo é fraco.


Não era uma opinião. Era um fato.


Num universo onde um cultivador mediano derruba uma casa com poucos golpes, onde um único ser pode destruir planetas, onde a energia espiritual pode ser usada para curar o que seria mortal, para saltar distâncias, para resistir ao clima, a venenos, a doenças… alguém que não tem Veias Espirituais é um corpo exposto. Um corpo que quebra. Um corpo que adoece fácil. Um corpo que não aguenta o impacto de quase nada.


E isso torna tudo mais complicado.


Zao Tian conhecia essa complicação no osso. Ele sabia como qualquer plano virava um plano de vidro quando você precisava levar pessoas frágeis junto. Sabia como qualquer fuga exigia rotas mais longas e lentas. Como qualquer batalha virava um problema de logística emocional e física. Como qualquer movimento precisava ser calculado com uma camada extra de cuidado, porque, se ele errasse, quem pagava era quem não tinha como se defender.


Ele nunca odiou isso. Mas ele não podia negar a verdade: era um atraso. Era um peso. Era uma limitação.


E ouvir do Curupira que não precisava ser assim acendeu nele uma revolta que não era só emocional. Era lógica. Era quase matemática.


Não precisava ser assim.


Não deveria ser assim.


Se o universo fosse justo, todos nasceriam com Veias Espirituais. Todos teriam chance de competir, de sobreviver, de ter dignidade. Uns seriam mais talentosos, outros menos. Uns avançariam rápido, outros demorariam. Mas o caminho existiria para todos.


E o que a Grande Guerra fez foi rasgar essa chance ao meio.


O pandemônio causado pelos deuses criou uma desigualdade que não existia antes. Não aquela desigualdade social comum de qualquer civilização, mas uma desigualdade ontológica: uma diferença de espécie dentro da mesma espécie. Gente capaz de tocar a energia espiritual e gente condenada à lentidão, à doença, ao medo constante.


Zao Tian pensou, por um segundo, no que muitos poderiam concluir: que Gold, ao tentar destruir a Grande Mãe, teria sido o culpado do “banimento” da luz.


Ele sentiu a ideia tentar se formar ao redor, como um tipo de conclusão fácil que certas mentes gostam de agarrar porque dá um alvo claro para elas.


Mas ele rejeitou.


Não por lealdade cega.


Por entendimento.


Zao Tian dava razão a Gold.


Não no sentido de celebrar o que aconteceu, nem de romantizar o massacre. Mas no sentido de compreender o impulso e a lógica de alguém que foi caçado, que perdeu tudo, que viu o universo inteiro ser incendiado para chamar seu nome, e que finalmente decidiu que não bastava matar seus inimigos. Era preciso cortar o ciclo que permitiria o retorno deles.


Ele entendia porque sentia.


Ele sentia porque a centelha dentro dele carregava essa memória como um veneno que ainda queimava.


E, acima de tudo, Zao Tian só conseguia culpar uma coisa pelos destinos dele, do pai, do irmão, da mãe, dos sem cultivo espalhados pelo cosmos.


Os deuses.


A culpa era toda deles.


Se eles não fossem como são, se não tivessem causado aquela dor a Gold e à criação, nada disso teria acontecido. Talvez o universo nem tivesse precisado se “proteger” banindo a luz. Talvez a Grande Mãe nunca tivesse sido ferida. Talvez a transição nunca tivesse existido. Talvez quintilhões de vidas tivessem tido a chance de nascer completas, com Veias Espirituais, com uma dignidade mínima para existir sem medo de um vento mais frio virar uma sentença de morte.


Zao Tian não era tolo. Ele sabia que as coisas são como são. Sabia que ele só existia agora porque o passado foi aquele. Que, se alguém apagasse o passado, talvez ele não nascesse. Talvez o pai e o irmão não existissem. Talvez o mundo fosse outro a ponto de ser irreconhecível.


Mas isso não reduzia a revolta. Porque a revolta não vinha do desejo de apagar a si mesmo. 


Vinha do desejo de apagar a injustiça.


E, naquele instante, ele percebeu a armadilha final: mesmo se ele pudesse mudar o passado, mesmo se ele fosse capaz de reescrever tudo, ainda existiriam os deuses. Ainda existiria a mesma estrutura de arrogância, de canibalismo, de controle, de vigilância. E, cedo ou tarde, o mesmo tipo de tragédia se repetiria.


Talvez atrasada.


Mas repetida.


De novo.


E de novo.


Por isso, quando Zao Tian olhou para o Curupira naquele momento, o olhar dele não carregava uma pergunta.


Carregava uma decisão.


Uma decisão triste, pesada, quase cansada, mas sólida: não existe futuro justo enquanto esse tipo de entidade existe.


Ele sentiu a centelha dentro dele se mexer, e não era uma voz, não era uma frase. Era aquele peso que ele já reconhecia: a dor de Gold, transformada em direção.


Zao Tian fechou a mão devagar, como se fechasse um pacto com o próprio peito, e, sem dizer nada, ele entendeu o pior e o mais simples ao mesmo tempo.


O universo não foi justo com ele.


Nunca foi. E, se ele quisesse um universo onde gente como ele não nascesse como erro… então não adiantava remendar as consequências.


Ele teria que cortar a causa.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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