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Capítulo UHL 1242 - Juramento

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Tenham uma boa leitura!]


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O silêncio ainda estava ali, mas era o que acontece quando um pensamento termina de se formar e vira vontade. Um silêncio de lâmina guardada, de respiração contida, de olhos que não piscam porque piscando você pode perder o instante em que alguém decide mudar de rumo.


Zao Tian ergueu a cabeça.


Não foi rápido. Foi um gesto controlado, como se ele estivesse escolhendo não permitir que o que queimava dentro dele escapasse. Ele abriu os olhos com calma, e o que havia neles não era apenas raiva. Era um tipo de lucidez gelada, uma chama presa num recipiente bem fechado.


O grupo inteiro, sem combinar, estava observando ele desde que o Curupira terminou a explicação sobre a transição.


Ming Xue percebeu primeiro. Não porque ela era mais sensível, mas porque ela conhecia Zao Tian naquele nível em que uma pessoa conhece o próprio lar. Ela viu algo acender nele e não era só uma decisão. Era uma mudança de caminho. Como se, por dentro, ele tivesse escolhido uma direção e essa direção tivesse virado um lugar fixo.


Ragnar parou de respirar por um segundo, com o corpo dele reagindo como reage quando uma batalha está prestes a começar, mesmo que ninguém tenha se mexido.


Hildeval ficou duro, por instinto, como se o ar ao redor fosse se tornar perigoso.


Singrid, com os olhos ainda molhados, levantou o rosto devagar e encarou Zao Tian como quem olha para a única coisa que ainda pode sustentar ela enquanto o mundo desaba.


Jaha ficou quieto, pela primeira vez sem pressa, porque até a mente dele entendeu que a próxima fala não seria um dado. Seria um marco.


Shara'Kala e Zargoth também observaram, os dois estavam com a mesma sensação de que estavam diante de uma história viva e não de um mito.


O Curupira, por sua vez, sentiu.


Ele sentiu antes de ouvir qualquer palavra. Sentiu o movimento interno do humano, aquela reorganização de intenção que tem peso espiritual, mesmo sem técnica. Só que, ao contrário de antes, ele não interrompeu.


Ele esperou. Deixou Zao Tian falar primeiro, como quem sabe que certas coisas só têm valor quando nascem da boca certa e no momento certo.


Zao Tian inspirou devagar.


E então falou.


"Por quê?"


A pergunta saiu baixa, mas atravessou o ambiente como um alerta.


Ele não estava perguntando por curiosidade. Não era um "por quê" de criança. Era um "por quê" de alguém que já escolheu um caminho e quer entender por que alguém acabou de empurrá-lo com mais força na direção desse caminho.


E Zao Tian manteve os olhos no Curupira.


"Por que você fez isso?" Ele perguntou, sem alterar o tom, e justamente por isso soou pior: "Por que você contou essa história para gente?"


O Curupira não reagiu com uma postura defensiva. Ele não se ofendeu, não ameaçou, não tentou justificar com nenhuma forma de arrogância. Ele apenas encarou Zao Tian com um tipo de paciência que parecia mais velha do que o próprio Reino Divino.


"Porque precisava ser feito." O Curupira respondeu.


Ele deixou a frase cair e continuou, sem pressa.


"Esse é o meu papel na existência." Ele disse: "Eu existo para carregar essa verdade e entregar quando ela precisa ser entregue. Não para me absolver. Não para ganhar nada. Isso é apenas para cumprir o que eu sou."


Zao Tian não piscou.


"E se eu quiser uma resposta menos… conveniente?" Ele perguntou, e houve um leve veneno na palavra conveniente, como se ele estivesse dizendo: eu não estou aqui para escutar nenhuma balela sobre função cósmica, eu estou aqui para escutar suas verdadeiras intenções.


O Curupira ficou um instante em silêncio.


E então, pela primeira vez desde o fim do relato, a voz dele ganhou um tom quase humano, por honestidade.


"Então é porque eu torço pela criação." Ele disse.


Ele falou "criação" como quem fala de algo maior do que deuses e humanos, algo que inclui tudo que respira e até o que já deixou de respirar.


"Eu torço porque eu vi o que nós fomos." O Curupira continuou: "E eu não tenho mais prazer em fingir que isso foi necessário. Foi só… o que aconteceu."


Zao Tian deixou o ar sair pelos dentes.


Não foi um suspiro de alívio.


Foi um controle.


"Você tem noção do que acabou de fazer?" Zao Tian perguntou.


O tom dele não subiu, mas a frase veio mais afiada.


"Você sabe o que vem depois disso?" Ele continuou, e a frieza dele parecia uma parede sendo construída entre ele e qualquer possibilidade de empatia pelos deuses: "Essa história não me fez sentir empatia pelos deuses. Me fez sentir mais nojo."


Ao lado, Ming Xue ficou quieta, mas o olhar dela estava firme, como se ela estivesse sustentando Zao Tian sem precisar tocá-lo.


O Curupira não negou. Não tentou corrigir.


Ele assentiu, lentamente.


"Eu sei." Ele disse. E a frase seguinte veio como algo que talvez nenhum deles esperasse ouvir de um deus.


"Eu concordo com você." O Curupira falou: "E eu sinto nojo também. Dos meus irmãos. Do que eu fui um dia. Do que nós fizemos."


Ele deixou o peso dessa confissão se assentar por um instante.


"Mas o universo não apaga o que foi feito só porque você sente nojo." Ele continuou: "As coisas são como são. E o destino…"


Ele hesitou por meio segundo, como se a palavra destino fosse uma coisa que ele odiava usar.


"O destino é inevitável." O Curupira concluiu.


Zao Tian inclinou levemente a cabeça.


Não como aceitação, mas como alguém que encara um inimigo e mede a distância.


"Então você está me dizendo que não importa." Ele disse: "Que vai acontecer de qualquer jeito."


O Curupira respondeu com calma.


"Eu estou dizendo que o confronto vai acontecer de uma forma ou de outra." Ele disse: "E eu só estou te dando a base necessária para entender contra o que você está lutando… e como essa luta começou."


Quando o Curupira terminou, Zao Tian ficou parado.


Incrivelmente parado.


A imobilidade dele era uma forma de concentração, e isso fez o grupo inteiro sentir que ele estava escolhendo cada palavra antes de soltar, porque cada palavra seria uma marca no caminho que estava para ser trilhado.


"Você fala como se já soubesse que a guerra vem." Zao Tian disse.


Ele não acusou. Ele constatou. E então veio a pergunta que, por um instante, pareceu mais perigosa do que qualquer ameaça.


"Mas você faz ideia do que acontece depois?" Zao Tian perguntou: "Depois que eu vencer?"


A palavra vencer não veio como uma bravata. Veio como uma obrigação. Como se ele estivesse dizendo: isso vai acontecer, e a minha pergunta é unicamente sobre o preço que será pago.


O Curupira observou ele por um tempo, e, ao responder, ele escolheu uma frase que não dava conforto a nenhum dos lados.


"Há um longo caminho entre lutar e vencer." Ele disse: "E o Pai de Todos vai estar lá quando você for à luta."


O nome Pai de Todos caiu no ar como uma lembrança ruim, mesmo estando em outro tempo, em outro contexto.


Zao Tian não hesitou. Ele respondeu na hora, sem elevar a voz, como se estivesse falando de uma tarefa simples: "Eu vou matar Odin."


O grupo inteiro sentiu a frase como um peso sendo jogado nas costas de Zao Tian.


Para muitos, aquilo parecia impossível, mas do jeito como Zao Tian falou, parecia natural de acontecer.


Ming Xue fechou a mão ao lado do corpo, devagar, como se aquela frase também fosse um pacto dela, mesmo sem dizer nada.


O Curupira não riu. Não ironizou. Nem depois de escutar algo tão absurdo.


Ele não tratou a afirmação de Zao Tian como uma loucura. E ele respondeu como quem já viu o impossível acontecer e agora não tem mais o direito de duvidar de nada.


"Pode ser que isso aconteça." Ele disse, antes de explicar: "Eu não duvido de mais nada depois do que eu vi."


Zao Tian então deu um passo pequeno para frente.


"Então me escute bem." Ele disse, e o tom dele ficou ainda mais frio, mais claro, mais direto.


"Ou você é um traidor da sua raça…" Zao Tian continuou, olhando fixamente para o Curupira: "Ou você é um aliado genuíno da criação."


Ele não disse isso como uma acusação vazia. Ele disse como uma linha que ele estava desenhando no chão.


"E eu estou avisando agora." Zao Tian falou: "Isso tem que acabar. Essa dúvida não pode existir mais."


O Curupira sustentou o olhar em Zao Tian.


Havia uma aceitação nele. Algo parecido com um reconhecimento de razão por parte de Zao Tian.


"Eu vou provar o que eu sou." Ele disse, e a voz dele carregou uma gravidade que não parecia forçada.


"Até o fim do meu papel nessa guerra, eu vou provar que sou um aliado." O Curupira continuou: "E, independente do que acontecer… eu aceito o meu destino. Existindo ou não um depois."


Quando ele terminou de falar, houve um silêncio curto. O tipo de silêncio que vem quando duas vontades se encaram e percebem que, mesmo do lado oposto da história, ambas reconhecem o peso do que está vindo.


Zao Tian fechou os punhos, devagar.


Aquilo foi um gesto de contenção da raiva de quem já escolheu não abrir mão do controle porque sabe exatamente onde quer chegar.


Ele não olhou para o grupo naquele instante.


Ele olhou para dentro. E, dentro dele, não havia um lugar vazio. Havia uma presença amiga, quieta, pesada, uma centelha que não era só uma fonte de poder, mas uma existência cheia de memórias… e ferida.


Zao Tian falou com Gold sem mover os lábios, e a frase que veio foi um juramento que ele não disse para impressionar ninguém.


Ele disse porque precisava dizer.


"Eu vou terminar o trabalho."


Quando Zao Tian falou aquilo, ele sentiu o próprio peito apertar, não como uma dor nova, mas como uma dor velha respondendo.


"Eu não sei o que vai acontecer depois." Zao Tian continuou, em silêncio, como se estivesse falando com um pai que nunca pôde descansar: "Eu não sei se eu sou capaz."


Enquanto ele jurava, o nó no peito dele tentou virar culpa, e ele esmagou isso com a mesma firmeza que esmagou tantas outras coisas na vida.


"Mas eu juro." Ele disse por dentro: "Eu juro que eu vou encontrar um jeito."


A imagem de pessoas sem cultivo apareceu na mente dele como uma acusação clara. O pai. O irmão. A mãe. Gente frágil demais num cosmos que só respeita a força.


E a frase final veio como uma reafirmação, não como um sonho.


"Eu vou fazer os deuses nunca mais existirem."


Quando terminou aquele juramento, Zao Tian abriu os olhos de novo, e a expressão dele não era a de alguém em êxtase. Era a de alguém que acabou de aceitar um fardo grande demais e, mesmo assim, decidiu carregar.


O Curupira, vendo aquilo, permaneceu quieto. E o grupo, mesmo quebrado em lugares diferentes, sentiu a mesma coisa.


Todo o relato da Grande Guerra não tinha apenas preenchido algumas lacunas.


Ele tinha acendido um pavio para o fim.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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