Capítulo UHL 1244 - O Mesmo Legado
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Zao Tian deixou o grupo para trás sem anunciar mais nada, subindo com um impulso simples, sem violência, apenas o necessário para ganhar distância. O ar ficou mais frio conforme ele avançava, e o vento, que lá embaixo batia com cheiro de pedra e poeira, ganhou uma brisa mais seca, quase agradável, como se aquele planeta ainda não tivesse aprendido a guardar rancor no clima.
O céu de Uhr'Gal tinha um jeito estranho de parecer limpo mesmo depois de tudo que o Curupira disse, e Zao Tian voou em silêncio, com o corpo reto e o olhar fixo à frente, mas sem pressa, porque a pressa, naquele instante, só serviria para espalhar mais o que já estava espalhado dentro dele.
Quando avistou uma montanha no horizonte, ele soube que era ali.
Não pela altura, nem pela imponência. Era porque aquela era uma montanha vazia, sem trilhas marcadas, sem bandeiras, sem qualquer sinal de vida ou disputa. Um topo de pedra nua, recortado pelo vento, onde ninguém escolheria ficar por muito tempo se tivesse qualquer outro lugar para estar. E aquilo, para Zao Tian, era perfeito.
Ele pousou calmamente no cume e, por alguns segundos, não se mexeu.
A brisa fresca passava pela nuca dele, empurrava a túnica e fazia os pelos nos antebraços vibrarem de leve. O céu estava entre o dia e a noite, com o azul se quebrando em tons mais escuros, e a linha do horizonte parecia um corte suave onde o mundo terminava.
O sol estava quase se pondo.
Era um disco lento, derramando luz em camadas, pintando nuvens finas de laranja e dourado, fazendo as sombras crescerem pelas encostas como se estivessem sendo puxadas pela mão do tempo. Lá embaixo, os vales ficavam mais escuros, e as rochas distantes pareciam ganhar um brilho morno, como se o planeta ainda tivesse calor escondido sob a pele.
Zao Tian caminhou alguns passos e sentou numa pedra achatada, perto da beirada, onde podia ver tudo sem precisar virar o rosto.
Ele ficou ali, imóvel.
Por alguns minutos, ele se permitiu ter paz.
Não foi uma paz profunda, nem uma paz que curasse. Era uma paz curta, quase simbólica, a paz de quem deixa o corpo respirar sem cobrar uma resposta de imediato. Ali, ele apenas olhou para a paisagem e deixou a beleza existir. Deixou o vento tocar o rosto dele. Deixou a luz do sol encostar na sua pele como um reforço de que, apesar de tudo que o Curupira contou, ainda existia um horizonte.
E esse contraste era indecente.
O universo, na história, tinha sido um cemitério de galáxias. A criação tinha gemido e quase morrido. O panteão tinha se reduzido a ruínas e poeira. E, ainda assim, ali estava Uhr'Gal, com um céu bonito e um pôr do sol que não parecia carregar culpa.
Zao Tian observou aquilo sem sorrir, mas a rigidez no peito dele diminuiu um pouco. O bastante para ele conseguir falar sem estourar.
Ele respirou fundo, e, no silêncio do topo, ele pediu algo com uma gentileza que parecia estranha até para si mesmo: "Podemos conversar?."
A pergunta saiu baixa, sem exigência. Era quase como se ele estivesse falando com alguém sentado ao lado numa noite comum, pedindo companhia para atravessar um pensamento difícil.
Ele não disse “mestre”.
Não disse “Gold”.
Ele apenas pediu.
"Por favor."
O vento respondeu primeiro, passando pelo topo e assobiando entre as pedras. Por um instante, nada mudou. A centelha dentro de Zao Tian continuou lá, pesada, calada demais desde o primeiro minuto em que o Curupira começou a revelar o passado. Aquele silêncio era profundo. Não era birra. Era um tipo de… retração. Um tipo de dor que, quando é grande demais, não encontra linguagem para ser expressada.
Zao Tian esperou, pois ele compreendia aquele silêncio.
A relação entre os dois sempre foi torta, áspera, quase abusiva. Gold o menosprezava com palavras, humilhava o esforço dele, fazia parecer que qualquer vitória era pequena e qualquer derrota era vergonhosa demais. Quando Zao Tian tremia, Gold chamava de fraqueza. Quando Zao Tian sangrava, Gold dizia que era pouco. Quando Zao Tian se orgulhava de um avanço, Gold desmontava a alegria dele com duas frases e o jogava de volta no chão.
"Você acha que isso é alguma coisa, moleque?"
Aquela frase tinha vivido por anos dentro do peito de Zao Tian, não como um trauma, mas como uma régua que sempre estava acima das suas conquistas.
Gold não fazia aquilo por prazer. Não fazia porque era sádico. Fazia porque acreditava que o universo não tem pena de ninguém e não aceita qualquer explicação como moeda. Ele sabia que, se Zao Tian não fosse esmagado por dentro, seria esmagado por fora. E, para Gold, só a dor criava aquele tipo obsessivo de motivação que empurra alguém até o limite.
Gold viveu um inferno.
E ele acreditava que, se quisesse criar alguém capaz de carregar o legado dele, precisava reproduzir alguma versão desse inferno.
Ele tentou… Só que, por mais que ele fosse cruel na boca e duro nas mãos, ele nunca foi capaz de ser tão insensível quanto os deuses e o próprio universo foram com ele. Zao Tian sofreu. Apanhou. Quebrou. Ele ralou como ninguém. Mas ele nunca viveu o tipo de abandono absoluto que Gold viveu. Nunca foi triturado por uma máquina insensível que tinha como objetivo específico fazê-lo sofrer.
E isso, para Zao Tian, sempre foi a prova mais silenciosa de cuidado que Gold poderia dar a ele.
Por baixo da máscara arrogante e do modo brutal, Gold sempre cuidou dele. Do jeito errado, talvez. Do jeito que machuca, com certeza. Mas ele cuidou.
E agora, depois do que ouviu, Zao Tian não queria falar como um discípulo diante de um mestre.
Ele queria falar como alguém que entende, finalmente, o tamanho do peso que o outro carregava… e que não sabia como continuar fingindo que aquilo não existia.
Enquanto Zao Tian aguardava, o ar ficou ligeiramente diferente e uma presença foi surgindo como uma sombra que decide se tornar matéria.
Ao lado de Zao Tian, na mesma pedra, uma figura se materializou sentada.
Gold.
Ele surgiu com o corpo inclinado um pouco para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para o horizonte, de costas para Zao Tian.
Era como se Gold não quisesse que o discípulo visse a expressão dele. Como se a dignidade dele, naquele momento, dependesse de não oferecer o rosto para ninguém.
Ali, era apenas ele, de um jeito cru e silencioso demais para combinar com a imagem mítica que muitos pintariam.
Quando Gold surgiu, a presença dele encheu o topo da montanha sem necessidade de esforço, como alguém que carregava dentro do peito uma gravidade própria.
Zao Tian continuou olhando para o horizonte enquanto seu mestre finalmente aparecia naquele dia.
Para qualquer um que enxergasse de fora, aquela cena era muito impactante exatamente porque era simples demais.
Eram apenas dois seres dividindo uma pedra, e, ao mesmo tempo, dois tempos diferentes do mesmo legado.
Um mestre e um discípulo, duas personificações de uma tragédia que se repete em eras distintas, sentados como se fossem só duas pessoas olhando o fim do dia.
Após surgir, Gold não virou o rosto. Ele ficou encarando o sol se pondo, como se aquilo fosse uma coisa que ele não merecia mais. Como se a luz no horizonte fosse uma ironia cruel.
Quando ele finalmente falou, a voz dele veio do jeito que sempre vinha, com o apelido que nunca mudou.
"Moleque."
A palavra, que sempre carregou arrogância e desprezo, saiu dessa vez com menos veneno. Ainda havia dureza, porque Gold não sabia existir sem ela. Contudo, havia algo mais aberto ali, como se a dor tivesse lixado a vaidade até sobrar uma honestidade mínima.
"O que foi?" Gold perguntou.
Zao Tian não respondeu na hora. De costas para o sol se pondo, ele continuou olhando para o horizonte e parecia ver os traços da luz que ficavam dourados enquanto se perdiam no infinito.
Gold olhava para o horizonte oposto, enxergando outra coisa.Naquele pôr do sol, ele parecia ver a memória de tudo que a luz já significou para ele: promessa, obsessão, ódio, perda.
Zao Tian, por outro lado, olhava para a luz que ainda existia no horizonte e pensava no futuro. Um futuro sustentado pelo que sobreviveu ao passado.
Ele então respirou. E falou sem se curvar, sem pedir permissão, sem ter aquele medo de ser repreendidos por suas palavras.
Ele falou como quem conversa com um amigo.
"Você ficou calado demais hoje." Zao Tian comentou, e o vento passou entre eles, levando poeira fina e o cheiro de pedra fria. O sol desceu mais um pouco, e o céu começou a escurecer devagar, como se a noite estivesse chegando com paciência e tivesse medo de interromper aquele momento.
Gold não respondeu de imediato. Ele continuou olhando o horizonte, de costas, como se estivesse segurando alguma coisa dentro do peito com as duas mãos para ela não se partir e escapar pela garganta.
Por um instante, foi possível sentir a dualidade ali em cima, no topo daquela montanha vazia.
Gold estava olhando para o sol se pondo, preso ao passado, à dor e ao ódio.
Zao Tian estava olhando para a direção da luz, preso ao futuro, à continuidade e à promessa de que o que restou ainda podia ser usado para construir um fim diferente.
Aquele era o mesmo legado, dividido em dois olhares. E, naquele silêncio entre um pôr do sol e o começo da noite, tudo ao redor… o mundo orc, Decarius, a criação e o universo… pareceram pequenos o bastante para caber numa conversa que não precisava ser de mestre para discípulo.
Só precisava ser verdadeira. Não apenas um com o outro, mas consigo mesmos.
