Capítulo UHL 1245 - O Mesmo Legado 2
[Capítulo semanal!!!
Boa noite! Como alguns já sabem, estive fazendo um curso ao longo dos últimos três meses e por isso a frequência dos capítulos tinha diminuído até precisarmos dar uma pausa.
Agora, com o final do curso se aproximando, espero retornar para a rotina em breve, mas já estamos, à partir de hoje, retornando com os capítulos semanais.
Espero que em uma ou duas semanas a gente já possa voltar com os capítulos patrocinados.
Um forte abraço!
Tenham uma boa leitura!]
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Gold permaneceu em silêncio depois da provocação de Zao Tian, e, pela primeira vez em muito tempo, aquele silêncio não pareceu uma forma de desprezo. Não parecia uma daquelas pausas usadas por ele para diminuir alguém antes de lançar uma resposta cortante, nem parecia o intervalo arrogante de quem já sabe tudo e considera a pergunta pequena demais para merecer pressa. Era outro tipo de silêncio. Um silêncio mais cansado. Mais humano. Como se, naquele instante, até ele precisasse escolher com cuidado o lugar onde colocaria as próprias palavras para que elas não saíssem tortas demais.
O vento continuava passando entre os dois, frio, constante, carregando o cheiro mineral da montanha e um pouco da noite que começava a nascer atrás do horizonte. O sol, mais baixo, tinha perdido parte do brilho agressivo e agora parecia apenas uma linha dourada no limite do mundo. Gold olhava para aquela luz morrendo sem virar o rosto, com o corpo inclinado para frente e as mãos soltas entre os joelhos, como se aquela postura fosse o máximo de entrega que ele se permitia demonstrar. Zao Tian, ao lado dele, também não olhava diretamente para o mestre. Talvez porque respeitasse aquele pudor. Talvez porque, se olhasse, acabaria tentando encontrar no rosto de Gold uma resposta que ele não tinha o direito de arrancar.
Por fim, Zao Tian falou de novo, e dessa vez não havia provocação nenhuma na voz dele. Havia apenas uma pergunta difícil sendo feita com cuidado: "O que você sentiu?"
Gold não se mexeu.
Zao Tian respirou devagar, entendendo que aquela pergunta, sozinha, podia parecer ampla demais, ou covarde demais, então completou: "Quando o Curupira contou tudo. Quando ele falou de você, de Amara, da sua filha, de Zaki, da Grande Guerra… Do Salgueiro da Vida. Quando ele abriu isso tudo na frente de todo mundo. O que você sentiu?"
A pergunta ficou entre eles por alguns segundos. Gold continuou olhando para o horizonte, e a luz do sol batia na borda do rosto dele de um jeito estranho, iluminando a cicatriz como se o mundo estivesse tentando apontar para ela mesmo depois de tudo já ter sido dito. Aquela linha no rosto dele, que durante tanto tempo pareceu apenas parte da imagem do mestre, agora era impossível de ignorar. E Zao Tian, percebendo isso, sentiu uma espécie de cuidado cruel dentro do peito. Cuidado porque não queria machucar mais. Cruel porque ele sabia que só a pergunta já machucava.
Gold soltou um ar pelo nariz, quase como um riso sem humor, e demorou mais um pouco antes de responder: "Não faz muita diferença agora, moleque."
Aquela frase veio baixa. Não veio com veneno, mas como cansaço.
Zao Tian não interrompeu.
Gold então continuou, ainda de costas para ele: "As coisas simplesmente aconteceram como foi dito. A Samambaia contou uma história que não pode ser mudada. Ela podia continuar escondida por mais alguns milênios, podia morrer comigo, podia ficar enterrada dentro desse lugar miserável que você chama de consciência… tanto faz… mas ela continuaria existindo. Continuaria sendo o que foi." Ele fez uma pausa curta, e a próxima frase saiu com uma dureza mais familiar, mas sem a agressividade comum: "Uma história escondida não vira mentira ou é apagada só porque ninguém olha para ela."
Zao Tian absorveu aquilo em silêncio. Havia uma lógica ali, mas também havia uma renúncia pesada demais para parecer uma simples aceitação. Gold falava como se estivesse apenas constatando um fato, porém Zao Tian o conhecia o suficiente para saber que ele escondia sua dor atrás de frases secas. Ele sempre escondeu. Só que agora, depois do relato do Curupira, a máscara parecia mais fina. Ou talvez Zao Tian apenas tivesse aprendido a enxergar melhor.
"Não pode ser mudada?" Zao Tian perguntou, e a pergunta saiu com um tom diferente. Ele não olhou para Gold, mas sentiu a atenção do mestre se deslocar um pouco, como se aquela escolha de palavras tivesse encostado em algo perigoso: "Você fala como se isso fosse uma regra absoluta. Mas eu sei que, no seu auge, você podia fazer coisas que quebravam as regras. Você podia voltar no tempo. Então… quando você diz que a história não pode ser mudada… você está dizendo que não podia mesmo, ou que escolheu não mudar?"
Dessa vez, Gold virou o rosto o suficiente para lançar um olhar lateral para Zao Tian. Não foi raiva, mas foi uma repreensão imediata, afiada, que havia algo por trás. Era um tipo de tristeza que Zao Tian quase não conseguiu suportar porque, vindo de Gold, parecia um erro do universo.
"Não fale besteiras." Gold disse.
A resposta veio rápida demais para ser só irritação. Era como se aquela mera ideia fosse uma porta que Gold fechava antes mesmo de alguém colocar a mão na maçaneta.
Zao Tian sustentou o silêncio, e Gold voltou a olhar para o horizonte antes de continuar: "Você acha que mudar o passado é uma correção? Acha que é voltar lá e consertar uma rachadura em uma parede? Não é assim. Nunca foi assim. Cada dor que eu vivi empurrou alguém para algum lugar. Cada morte, cada traição, cada decisão, cada erro, cada escolha nojenta que alguém fez… tudo isso virou um caminho para outras vidas nascerem. Para outras pessoas se encontrarem. Para mundos inteiros existirem do jeito que existem agora."
Ele falou sem pressa, mas cada palavra tinha o peso de alguém que já tinha pensado naquilo mais vezes do que gostaria de admitir: "Se eu voltasse e arrancasse uma parte da minha desgraça do lugar, eu não estaria só salvando a mim mesmo. Eu estaria sobrepondo a minha vontade a todos que vieram depois. Eu estaria dizendo que a minha dor vale mais do que a vida de gente que nasceu porque aquela dor existiu. Gente que amou, lutou, teve filhos, construiu alguma coisa, morreu por alguma coisa. Tudo isso poderia deixar de existir porque eu decidi que não queria sofrer."
Ao ouvir aquilo, Zao Tian ficou quieto. A resposta era mais nobre do que ele esperava, e justamente por isso doía mais. Gold não falava como alguém que não tinha vontade de mudar nada. Falava como alguém que queria, mas se recusava a transformar o próprio desejo em uma lei universal. Isso, vindo do homem mais intransigente que Zao Tian já conheceu, era quase ofensivo de tão contraditório.
Gold continuou, e a voz dele perdeu um pouco da firmeza no fim, tornando-se mais baixa, mais áspera, como se ele odiasse a própria honestidade: "E, de qualquer forma… hoje isso é conversa de idiota. Eu não tenho mais meu corpo. Estou incompleto. Sou um resto preso dentro de você, alguém teimoso demais para morrer direito. Mesmo que eu quisesse colocar o meu desejo acima de tudo que surgiu depois… mesmo que eu estivesse disposto a ser esse tipo de monstro… eu não poderia fazer isso agora."
A impotência naquela última frase foi pequena, quase escondida. Mas Zao Tian captou. E entendeu aquilo porque, pela primeira vez, Gold não estava fingindo que ainda podia tudo. Não completamente. Não ali, naquela conversa.
Zao Tian respirou devagar, deixando o vento preencher o espaço antes de responder: "Eu entendo."
Gold soltou um som baixo de desdém, mas não teve vontade para transformá-lo em ataque: "Duvido."
"Eu entendo o suficiente." Zao Tian corrigiu, sem se ofender: "E admiro isso."
Gold ficou imóvel.
Zao Tian continuou, olhando para o horizonte, com a voz mais baixa: "Você chama isso de não ter direito. Eu chamo de sacrificar a própria felicidade de novo. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois do que fizeram com você. Mesmo depois de Amara, da sua filha. Mesmo depois de Zaki. Mesmo depois dos deuses. Você ainda consegue olhar para a própria dor e dizer que não tem o direito de esmagar todas as outras vidas para consertá-la."
Gold não respondeu.
Enquanto isso, Zao Tian apertou um pouco os dedos sobre a pedra onde estava sentado e completou, sabendo que aquilo irritaria o mestre, mas precisando dizer: "Se dependesse de mim… depois de tudo que ouvi, depois de imaginar o que você sofreu… se um dia eu chegasse ao nível de fazer alguma coisa, eu faria por você."
Gold virou o rosto na mesma hora, e, dessa vez, havia raiva. Não a raiva explosiva da batalha, mas uma raiva defensiva, como se Zao Tian tivesse tocado num lugar que não devia: "Eu não preciso da sua pena, moleque."
"Não é pena." Zao Tian tentou responder.
"É sim." Gold cortou: "Você pode vestir isso com o nome bonito que quiser. Gratidão, justiça, reparação, admiração, qualquer uma dessas merdas, mas, no fundo, é pena. E eu não quero ela. Não preciso que você tente me salvar. Não preciso que você carregue minha vida nas costas como se ela fosse uma missão sua. Carreguei seu próprio peso antes de inventar um novo fardo que não te pertence."
Zao Tian aceitou a dureza sem reagir, porque, de alguma forma, aquela agressividade era mais fácil de suportar do que a vulnerabilidade que veio antes. Ainda assim, ele não recuou completamente. Apenas assentiu, mesmo de costas, como se reconhecesse o limite que Gold estava colocando.
"Está bem." Ele disse.
Gold pareceu desconfiar da facilidade da resposta, mas não insistiu. Talvez porque estivesse cansado. Talvez porque, naquele dia, até ele entendesse que não dava para transformar cada frase numa guerra.
Zao Tian ficou alguns segundos quieto antes de fazer a pergunta que se formou depois daquela resposta: "Como você consegue?"
Gold não olhou para ele enquanto perguntava: "Consegue o quê?"
"Ser tão intransigente e tão altruísta ao mesmo tempo." Zao Tian respondeu: "Você parece incapaz de ceder em qualquer coisa. Parece que, se alguém tentar te empurrar um passo para um lado que você não quer, você prefere destruir o chão. Mas, ao mesmo tempo, quando chega nesse ponto… você escolhe não sobrepor a sua dor às vidas dos outros. Você escolhe carregar tudo nas costas. Você escolhe perder. Como alguém pode ser tão duro e ainda assim fazer isso?"
Gold ficou calado.
Aquele não foi um silêncio agressivo. Foi um silêncio de quem não tinha uma resposta pronta, ou de quem tinha e não gostava dela. Talvez Gold nunca tivesse pensado naquilo nesses termos. Talvez pensasse e odiasse pensar.
Zao Tian, por sua vez, esperou por um tempo, mas percebeu que nenhuma resposta viria. E, naquele silêncio, outra pergunta cresceu dentro dele. Uma pergunta antiga, mas que agora tinha um peso diferente depois de tudo que o Curupira revelou.
"Então me responde outra coisa..." Ele começou.
Gold continuou olhando para o horizonte, e Zao Tian completou: "Por que você não fez o último avanço? Eu sinto que isso não aconteceu."
Dessa vez, a presença de Gold pareceu endurecer.
Zao Tian não recuou. "Por que você não conseguiu destruir o Salgueiro da Vida? O Curupira disse que você estava lá. Disse que você atacou. Disse que tudo quase acabou. Mas não acabou. Alguma coisa aconteceu. Você desapareceu. O universo continuou. A Grande Mãe continuou viva de alguma forma e os deuses voltaram. O ciclo foi ferido, mas não morto. Então o que aconteceu?"
Foram muitas perguntas, mas Gold não respondeu nada.
Zao Tian virou o rosto um pouco, observando o perfil do mestre: "E por que você nunca fala disso? De tudo que você podia esconder, esse é o silêncio mais pesado de todos. O Curupira contou muita coisa hoje. Contou coisas que você preferia enterrar. Mas nem ele sabe essa resposta. O que aconteceu naquele dia?"
Gold permaneceu tão imóvel que parecia parte da pedra. O sol estava quase desaparecendo, e a sombra cobria o rosto dele o suficiente para esconder parte da expressão. Ainda assim, Zao Tian percebeu a tensão no maxilar dele, o peso dos olhos, o modo como a mão dele fechou devagar, sem força aparente, mas com uma intenção contida.
Quando Gold finalmente falou, sua voz veio baixa.
"Essas respostas que você quer de mim… não deveriam ser ditas por ninguém."
Zao Tian não interrompeu, ele ficou quieto, esperando o resto.
Gold demorou a voltar a falar, como se cada palavra precisasse atravessar um lugar cheio de espinhos antes de sair: "Não é porque eu quero fazer mistério. Não é porque eu gosto de parecer mais importante do que sou ou mais arrogante. E não é porque eu ache que você não aguenta ouvir. Você aguenta. Aguenta até coisa demais para a sua própria cabeça, e esse é um dos seus problemas."
Ele virou o rosto um pouco, mas ainda não encarou Zao Tian de frente, e falou num tom bastante sincero: "Algumas respostas não funcionam como as pessoas pensam. Elas entram em você e começam a abrir portas que deveriam continuar fechadas até você ter força para ficar de pé diante do que tem do outro lado. O conhecimento não é sempre uma arma. Às vezes… ele é uma corrente. Às vezes… ele é uma doença. Às vezes… ele é um peso tão grande que você começa a andar cambaleando sem nem perceber."
Zao Tian ouviu aquilo com uma seriedade absoluta. Havia algo no tom de Gold que não parecia uma advertência comum. Parecia até uma forma de medo. Não medo por si mesmo, mas pelo que Zao Tian poderia se tornar se soubesse cedo demais.
"Quando você chegar lá…" Gold continuou, antes de se corrigir: "Se chegar… vai ter essas respostas."
Zao Tian sentiu aquela frase como um desafio e uma promessa ao mesmo tempo.
Depois, Gold finalmente virou um pouco mais o rosto. Não completamente. Mas o suficiente para que Zao Tian visse a cicatriz cortando o lado iluminado pela última luz do dia: "E quando entender, julgue-me. Me odeie mais, se quiser. Diga que eu fui fraco. Diga que eu fui covarde. Diga que eu deveria ter contado a todos. Talvez você esteja certo. Talvez não. Mas faça isso apenas depois de ver com seus próprios olhos. Não antes."
“Tire as suas próprias conclusões quando for merecedor de conhecer a verdade.”
Após escutar aquilo, Zao Tian respirou devagar. A pergunta que ele queria fazer estava na ponta da língua: ver o quê? Mas ele sabia que Gold não responderia. E, pior, ele percebeu que talvez Gold estivesse certo em não responder.
Por fim, Gold voltou a olhar para o horizonte, e a voz dele ganhou uma firmeza diferente. Não era a firmeza arrogante de antes. Era a firmeza de um mestre que, mesmo quebrado, ainda sabia apontar um caminho: "A estrada já existe, moleque. Eu trilhei. Cada passo que dei deixou uma marca grande o suficiente para alguém teimoso e burro como você seguir. Não precisa inventar outro caminho só porque acha que é especial. Você não é tão original quanto pensa. E não precisa ser."
Naquela hora, entre um quase elogio e alguns insultos, Zao Tian quase soltou um riso, mas não deixou ele sair.
Gold continuou: "O caminho está pavimentado. E ele é feito de dor, corpo, vontade, compreensão, ruptura. Nessa ordem ou em outra parecida. Você vai errar. Vai achar que entendeu antes de entender. Vai se enfiar em buracos que eu já teria te avisado para não entrar se você não fosse idiota demais para ouvir. Mas, se continuar andando, vai chegar cada vez mais perto. E, se chegar perto o suficiente, as respostas vão vir até você. E não será porque alguém vai te contar. Será porque o próprio universo vai enfiá-las na sua garganta."
A brutalidade da imagem era típica de Gold, mas a intenção por trás não era diminuir. Era preparar.
Zao Tian ficou olhando para o mesmo horizonte agora quase escuro. A luz dourada se recolhia, e uma faixa violeta começava a crescer onde antes havia fogo. A noite estava chegando, mas não de uma forma ameaçadora. Chegava como um manto. Como uma pausa naquele longo dia.
"Você quer que eu descubra sozinho." Zao Tian murmurou.
"Apenas chegue lá inteiro o suficiente para sobreviver ao que quer descobrir." Gold respondeu.
A resposta atravessou Zao Tian de forma estranha. Porque, naquele momento, não havia nenhum insulto gratuito. Não havia desprezo. Havia preocupação, uma preocupação torta e áspera, mas sincera. Gold não sabia dizer “eu não quero que isso te destrua”. Então ele dizia daquele jeito. Como sempre.
Zao Tian abaixou o olhar por um instante, encarando as próprias mãos. Mãos que já tinham matado, curado, protegido, destruído, tremido, falhado. Mãos que carregavam luz e sangue em medidas que ele nem sempre sabia separar: "E se eu chegar lá e decidir diferente de você?"
Gold respondeu sem hesitar. "Então decida."
Zao Tian olhou para ele.
Gold ainda fitava o horizonte, mas a frase seguinte veio com um peso que Zao Tian não esperava: "Eu não estou te treinando para ser uma cópia minha. Cópias são sempre piores do que o original. E eu já fui ruim o bastante para nós dois."
Aquilo simplesmente ficou no ar entre os dois.
Por alguns segundos, Zao Tian não soube o que dizer. Havia um respeito escondido naquela frase. Um reconhecimento. Gold, do jeito dele, estava admitindo que Zao Tian tinha o direito de chegar ao mesmo lugar e escolher outro fim. Não porque Gold acreditasse que ele seria melhor com facilidade, mas porque, talvez, uma parte dele quisesse que fosse possível.
"Você nunca falou assim comigo." Zao Tian disse.
Gold soltou um som baixo: "E não se acostume com isso."
Zao Tian olhou lentamente para o horizonte de novo e murmurou: "Tarde demais."
Gold não respondeu, mas a ausência de uma ofensa imediata disse mais do que qualquer frase.
Naquele instante, a montanha continuou quieta ao redor deles, e o céu, agora quase escuro, guardava apenas restos de dourado atrás das nuvens. Por um momento, o passado não sumiu, mas também não devorou tudo. Ele apenas ficou ali, sentado com eles, como uma terceira presença pesada demais para ser ignorada e velha demais para ser expulsa.
Zao Tian então falou, mais baixo: "Eu não sei se vou conseguir carregar tudo isso sem me tornar pior."
Gold demorou um pouco para responder. Quando respondeu, sua voz veio mais séria do que dura: "Ninguém sabe até onde é capaz ir antes de passar pela linha de chegada."
Aquilo, vindo dele, era quase uma confissão colossal.
"Então como eu sigo?" Zao Tian perguntou.
Gold inclinou a cabeça de leve, sem olhar para ele: "Do mesmo jeito que seguiu até agora. Um passo. Depois outro. E quando o universo tentar te convencer de que você precisa virar algo que odeia para vencer… você escolhe se quer ou não. Você escolhe se quer o caminho mais fácil ou se mantém a jornada pelo mais difícil."
Zao Tian sentiu a frase se assentar dentro dele.
Gold completou: "Só não minta para si mesmo. Esse foi o primeiro erro de muita gente grande. O outro Moleque mentiu para si mesmo até acreditar. O pai dos deuses mentiu para si mesmo até admitir que estava com medo. Eu menti para mim mesmo muitas vezes, até a mentira quebrar na minha cara. Se você for virar um monstro, pelo menos saiba que virou. Não chame isso de paz. Não chame de destino. Não chame de bem maior. Chame pelo nome."
Zao Tian ficou em silêncio, e a noite, enfim, chegou ao topo da montanha. E, no escuro que se formava, os dois continuaram sentados lado a lado, não como mestre e aluno no velho sentido, não como espírito e hospedeiro, nem como mito e herdeiro. Apenas como dois homens marcados pela mesma luz, pela mesma guerra em tempos distintos e por uma pergunta que nenhum deles podia responder completamente ainda.
Depois de um tempo, Zao Tian disse: "Eu vou chegar lá."
Gold olhou para o horizonte escuro, e a resposta veio baixa, quase áspera demais para parecer que ele demonstrou alguma fragilidade naquela conversa: "Não seja convencido, porque você ainda não é nada além de uma criatura fraca e frágil, moleque."
E, naquele instante, por mais simples que fosse, aquela ofensa valeu mais do que qualquer elogio que Gold jamais poderia ter dado, porque ele ainda era a barreira entre Zao Tian e o conforto que não faria nada além de enfraquecer o seu discípulo.
